Charles Quill

2 We've got no peace


Notas iniciais
Gente obrigada mesmo a quem tirou um tempinho pra vir dar uma olhada na fic! Estou tentando agilizar mais os capítulos pra chegar na parte mais dramática né (hohoho) Então, esse não ficou tão grande, mas o próximo vai ser maior! Quis focar mais na agonia do Charles no lugar novo e de como o Eric é adorável e melancólico ao mesmo tempo ♥ Espero que gostem! E muitíssimo obrigada as pessoas lindas que me mandaram review no cap passado, amo de paixão!

O instinto dizia para dar o fora dali. Estava com raiva, sentia-se domado pelo sistema, porém também sabia que não podia ser preso. Para sair dessa, tinha que relaxar um tempo, talvez descobriria um contato, alguém que o aliviaria. Os Dinozzo não ficariam contentes com o empecilho, receberia menos, isso apertaria as coisas em casa.

— Por aqui Quill. — A secretária velha de óculos de tartaruga agilizou os passinhos curtos por um corredor estreito de parca iluminação.

Havia desenhos, marcas de tinta colorida em formato de mãos nas paredes. Um quadro de avisos preso com muita fita adesiva e cadeiras depredadas compunham o pequeno espaço do corredor. A mulher bateu em uma porta de ferro, a plaquinha que identificava de quem era a sala já havia perdido a tinta e estava comida pela ferrugem.
Quill detestou o lugar. Era mais um centro de eventos abandonado que respirava moribundamente para sobreviver. O lugar parecia uma mistura de falsas esperanças com maquiagem barata.

— Pode entrar garoto. — Disse virando pra ele com a carranca que era os lábios velhos e olhos caídos. Sem respondê-la, Quill escancarou a porta com um chute baixo, e depois de chamar a atenção do homem atrás da mesa, sentou-se tranquilamente sem tirar as mãos do bolso.

Stanley era o nome no crachá. A calvice era porcamente disfarçada com um penteado estranho onde metade do cabelo era puxado para o lado careca. Quill observou — do mesmo jeito que fazia com todas as pessoas a sua volta — os detalhes mais peculiares que diminuíam a pessoa na sua frente. O rosto oleoso, pés de galinha, barba preta com pontos brancos já aparentes, marcas de suor na camisa barata e unhas roídas até o sabugo.


Olhou-o por cima. O cara era uma piada. Provavelmente trabalhava lá para fugir da realidade vergonhosa que era sua vida. Fingia estar realizando algum trabalho espiritual, mas na verdade estava se enganando. Era um miserável, um insignificante. Ninguém sentiria sua falta.

— Mr. Quill?

Charles balançou a cabeça sem perceber que havia se distraído tanto. O homem o encarava um pouco espantado, um pouco indeciso.

— O que? — Respondeu com aspereza.

O homem arqueou as sobrancelhas e recostou o torso na cadeira, cruzando as mãos no colo.

— Meu nome é Stanley Magee. — Seu tom era calmo, porém incerto. — Sou seu supervisor. Temos alguns assuntos para discutir antes de te apresentar o local e decidir suas atividades. Gostaria de dizer alguma coisa sobre você?

Quill apenas o encarou. Olhos profundos e cortantes, expressão de superioridade.

— Muito bem — Magee limpou a garganta. — Reservado, entendo. Você está ai com a sua carta de aviso?

Lentamente tirou o papel amarelo amassado do bolso. Olhos fixos no rosto do homem decadente. Ergueu a mão sobre a mesa e largou o bolo de papel na altura do rosto, fazendo a bolota quicar algumas vezes na mesa a cair no colo de Magee.


Ambos se encararam e Magee suspirou. Ele pegou o papel e desembolou-o.

— Esta com certeza não é a melhor maneira de começarmos essa parceria, não é mesmo? — Fingiu um sorriso e conferiu os dados do garoto no papel. — Parece aqui que você não tem muita escolha, se tem algo que vamos ter que trabalhar juntos, é essa atitude.

— Você não sabe de porra nenhuma. Cala a boca. — Charles cruzou os braços e aprumou o corpo.

— Na verdade, posso dizer que sei bastante. — Digitou alguma coisa no computador, fazendo o monitor velho ronronar como um gato. — Você precisa mostrar uma melhora de comportamento num período de três meses a primeira vista, caso isso aconteça, vai ser liberado, se não, a pena se extende por mais três meses, e se isso não funcionar... Bem, a cadeia não é um lugar de muitas oportunidades. — Magee esperou mais alguma reação de Quill, mas ele não fez nada. Continuou encarando-o como se não ligasse, como se nada pudesse mexer com a falsa paz interior que carregava.

Stanley coçou a cabeça e pegou um documento, virando-o para Charles.

— Eu não estou aqui para botar a mão na sua cabeça e dizer que o mundo é lindo. — Magee fitou Quill com mais coragem. — A verdade é que eu nem se quer me importo se você vai ver a luz no fim do túnel enquanto lida com criancinhas sujas e mal educadas. Eu só me importo com o que vou escrever aqui. — Com o indicador apontou para o papel pautado a sua frente. — Você pode sair daqui e ir direto para a boca de crack de onde veio, eu estou me fodendo. — O sorriso amargo nas feições do homem só confirmavam a Charles o quanto suas impressões sobre ele eram verdade. — O que eu realmente me importo, Charles, é com a quantidade de dor de cabeça que você pode me dar. Eu não quero problemas, porque se você me dar problemas, eu terei que reportá-los para o juiz. E isso é uma burocracia desgastantes que atacam minha alergia. — Magee pareceu mais sério. — E eu fico de muito mau humor quando alguma coisa ataca minha alergia.

Quill revirou os olhos.

— Olha eu também não quero problemas, ok? — Charles estava entediado. — Me enfia na porra de um depósito, sei lá, algum lugar onde eu possa passar meu tempo e não encher o seu saco. Desse jeito todo mundo fica feliz.

— Gostaria de poder fazer isso. — Stanley se levantou batendo algumas migalhas da calça marrom. — Mas suas tarefas já foram designadas, não tenho poder sobre isso. — Fez sinal para que o garoto o acompanhasse. — Não se preocupe, não é difícil, só tem que entreter as crianças durante algumas horas. Pelo que vejo aqui... — Olhou o papel que acabara de ser impresso do outro lado da sala pequena. Pegou uma prancheta na prateleira e prendeu os documentos sem olhar para Quill. — Você vai para a ala D. — Arqueou a sobrancelha. — Não é de se admirar.

— O que quer dizer ?

— As alas são divididas por grupos. — gesticulou impaciente. — A, reforço escolar em matérias de lógica. B, aulas de inglês e matérias linguísticas para os imigrantes. C, curso de informática, e D, entreteriamento musical.

— Vocé está de sacanagem com a minha cara. — Quill apoiou o rosto na mão, com raiva. — Você quer me foder.

— Com o seu registro de notas do colégio, não me surpreende que não conseguiram te encaixar nas outras atividades.

— Eu não tenho nada a ver com isso. — Andava de um lado para o outro. — Musica? Que porra, cara. Crianças e músicas?

— Não faça drama. — Magee começou a caminhar para a porta, ainda conferindo a ficha. — Não vai estar sozinho, temos outros voluntários, eles vão te dar uma noção de como sobreviver.

— Isso só piora. — Charles susurrou para si mesmo.

Andaram novamente pelo corredor irritante, passaram pela entrada e seguiram para outro corredor virando à direita. A porta estava entreaberta, uma folha de papel reciclado escrita a mão confirmava que aquela era a sala usada para música. Quill sentiu o celular vibrar, deu uma rápida espiada, era um lembete de onde precisava ir depois de toda aquela palhaçada no centro comunitário. Não tinha chances de aquilo dar certo, não era o primeiro que era mandado pra lá.
Dentro da sala as cadeiras de metal estavam dispostas em círculos e uma mesa comprida encostada na parede. Um piano com as pontas lascadas estava em um canto perto das janelas com grades. Do outro lado tinha um tablado alto que parecia ser usado como palco, armários de ferro com cadeados também compunham a estranha e improvisada sala de música. Quill tentou disfarçar a estranheza, mas os olhos se alarmaram quando uma figura magra e esguia se levantou do chão, batendo a poeira das calças.

— Eric. — Magee fez um aceno de cabeça e depois deu um leve tapinha no ombro de Charles. — Esse aqui começa hoje. Conto com você para mostrar como as coisas funcionam por aqui.

— Claro Mr. Magee.- O garoto era alto e ostentava um sorriso que irritava Charles — Eric Mayers. -Disse estendendo a mão na direção de Quill.

Charles não respondeu. Seus músculos pareciam congelados. Encarou Eric com a expressão de um gato irritado e contentou-se em um rápido movimento com o queixo.


Eric recolheu a mão, passando-a pelos cabelos bagunçados. Ainda sorria, desajeitado, apressou-se a mostrar o lugar.

— É realmente bom ter alguma ajuda. — Disse assim que Magee fechou a porta, deixando ambos sozinhos. — Estamos com poucos voluntários e a maioria prefere reforço escolar.

Alto, franzino, dedos ossudos. Charles correu seus olhos pelo rosto do garoto. Irritantemente sorridente — a ponto de fazer Charles apertar os punhos para não socá-lo -, cabelos desgrenhados, óculos grandes demais para o rosto. Falava sem parar, com uma voz estranhamente grossa para sua figura. Lábios femininos, ar de desajeitado. Pelas roupas não era da região, provavelmente um engomadinho querendo aprumar o currículo para a faculdade.

—... Os violões ficam dentro do armário, temos que pegar a chave na sala do Magee quando chegamos e devolvê-la quando sair. — Ele continuava a tagarelar. Quill massageou a cabeça, queria arrancar os próprios ouvidos fora. A lista era longa, Eric parecia entusiasmado demais para uma pessoa normal. — Sabe tocar alguma coisa? Ou cantar? Acho que temos uma gaita em algum lugar, eu só não lembro...

— Quem você pensa que eu sou? Johnny Cash?

Eric ameaçou a rir, mas ao ver que a expressão de Charles não era de piada, tranformou o riso em uma tosse descontrolada.

— Me desculpe, eu sei que é muita coisa pro primeiro dia. Coçou a cabeça. — Se quiser, pode observar por hoje. As crianças vão chegar daqui a pouco, e eu já tinha meio que preparado as atividades. — O tom era descontraído, não parecia incomodado ou intimidado, apenas nervoso.

Charles revirou os olhos e sentou na ponta do tablado. Eric estava inclinado a continuar falando, mas pelo nítido mau humor de Charles e sua figura ameaçadora, resolveu apenas esperar a hora passar.
As crianças começaram a entrar, não eram muitas, mas pareciam ansiosas. Charles se manteve em um canto onde não chamasse atenção, mas Eric parecia não ver a hora de apresentá-lo. Um aceno para a meia dúzia de cabeças curiosas foi sua participação para a decepção geral. Teve que aguentar algumas horas a mais de excessos de sorriso do garoto, algumas músicas irritantes no violão onde as meninas acompanhavam com a voz e os meninos batucavam nas cadeiras. Quill achava aquilo absurdo, não era uma roda de cantoria que ajudaria aqueles garotos. Ruan, um dos menores, só falava espanhol. Ele tinha dificuldade de se comunicar com Eric e de cantar as músicas, por isso se distraia fácil.
Não demorou muito para ele ir parar do lado de Charles, com as mãos nervosas queria mexer em tudo, arrastava cadeiras, tirava as coisas do lugar, e não parava de mexer em um elástico irritante no pulso. Primeiro ele fingiu não notar, talez se fosse parte da mobília, o garoto o deixasse em paz. Mas ele parecia obistinado e curioso. Nem sua cara furiosa espantava a criança para longe.

Se quedará con su clase— Disse empurrando o garoto do tablado em direção a roda de cadeiras. — déjame en paz .

Pero estoy aburrido. — Respondeu enquanto brincava com os cadarços do próprio tênis. Estava entediado, e não era pra menos, Charles sabia como era a sensação.

revirou os olhos.

No me importa. — Disse por fim descendo o capuz até os olhos e se recostando na parede.

As horas pareceram o dobro para Charles. Ruan acabou desistindo de ficar perto dele e voltou para perto dos outros. Entre uma atividade e outra foi até uma área externa e acendeu um cigarro, o mais longo de sua vida. Fechou os olhos, apoiou a testa em uma das mãos enquanto se debruçava na grade de ferro. Não ia aguentar aquilo, estava deslocado demais. Precisava dar um jeito de não ficar ali, o ambiente o sufocava, a presença das crianças mexia muito com seus nervos.

— Hey, o que achou?

Charles deixou a cabeça cair para trás por um momento para retomar a paciência. Eric estava alguns passos atrás dele, mãos enfiadas nos bolsos da calça jeans.

— Patético. — Deu outra tragada sem olhar para ele.

O sorriso de Eric sumiu. O silêncio pairou por alguns segundos.

— Bom, se tiver alguma ideia pra amanhã, sou todo ouvidos. — Aproximou-se alguns passos para ao lado de Charles na grade. — As vezes fica difícil lidar com tudo sozinho. — Deu de obros.

— Você realmente não entendeu ou se faz de idiota? — Com a voz repentinamente alta, Charles lançou a ponta do cigarro para longe, virando o corpo na direção de Eric. — Esse lugar é patético, essa aula é patética, você é patético. — Os nervos de Charles estavam estourando. A cabeça dele pesava. — Isso é só uma brincadeira pra você, não é? Sua boa ação para a humanidade. — Sem perceber estava encurralando o garoto . — Foda-se! Enquanto você volta com a sua bunda branquela para uma cama quente a noite, metade dessas crianças não sabem o que serão o dia de amanhã. Se estarão vivas. É fácil chegar aqui carregado com sorrisos e músicas de merda sabendo que depois de algumas horas essa realidade não existe mais pra você.

Eric estava assustado, olhos vidrados nos de Charles. As mãos tremiam, a coluna doía em contato com o metal frio da grade.

— E-eu não quiz ofender...

— Foda-se, você não sabe de nada, acha que é a porra de um super herói. — Empurrou as portas com força, assustando algumas pessoas do outro lado. — Meu tempo acabou.

Eric não conseguia falar, seu corpo tremia todo. Com o tempo a adrenalina foi diminuindo, o suor na testa grudava alguns fios de cabelo.

— Você está bem, filho? — Stanley apareceu encostado ao batente da porta, as bochechas coradas e olhar cuidadoso.

— Tudo bem Mr. Magee. — Massageou o proprio ombro.

— Ele fez alguma coisa com você? Aquele garoto é um poço de problemas.

Eric se ajeitou olhando para o corredor vazio.

— Não senhor, ele só disse o que pensava. Não há problema nisso. — Sorriu para o supervisor. — Na verdade é um bom sinal.

Stanley observou Eric de cima abaixo com curiosidade genuína. Se lembrava de quando o menino havia se apresentado voluntariamente, pareciam apático, pele quase transparente, olheiras fundas. Dissera que foi sugestão do terapeuta, mas desconfiava que Watts não estava no plano dos pais quando resolveram permitir que o menino se inscrevesse em alguma instituição.
Desde então percebeu que não podia ser um menino normal. Entrou na ala que mais necessitava de voluntários, lidou com crianças estranhas que tinham dificuldade de aceitá-lo, escolhera o pior bairro, o centro comunitário mais decante. De fato, Eric Mayers tinha um tom de melancolia profundo e um sério déficit de senso crítico.

— Você me escute bem, entendeu? — Stanley saiu para a área externa tendo certeza de fechar a porta atrás de si. — Charles não é uma de suas crianças, ok? Ele não é um menininho perdido que precisa de um toque colorido na vida. Não, não. — Balançou a cabeça. — Esse buraco é muito mais embaixo. Está metido com gente perigosa, gente que você tem a sorte de nunca encontrar em uma rua escura a noite.

— Eu entendo Mr. Magee, mas você não viu o que eu vi. — Eric parecia entusiasmado e Stanley sentiu vontade de enfiar algum juízo a força na cabeça do menino. — A raiva... Ele estava mais do que zangado, ele realmente se importou.

— Eric, você não é nenhum psicólogo, ouviu bem? — Stanley apontava um dedo em aviso. — Se eu soubesse que esse cara ia parar nas suas mãos, teria dado um jeito de desfazer a papelada. Você não é obrigado a aguentar isso.

Eric suspirou e apertou um dos pulsos .

— Eu estou bem Mr. Magee. Não preciso de proteção, sei me virar e meu trabalho tem dado algum resultado.

— Sim, e nós estamos muito agradecidos por isso. — Magee coçou a cabeça desarrumando o penteado horroroso. Tinha certa afinidade com Eric. -Mas seu terapeuta foi bem específico sobre o tipo de estresse que deve evitar.

— Confia em mim, eu estou ótimo. Além disso, Charles não pode fazer nada aqui dentro pra nos prejudicar, só a ele mesmo. — De novo, com um sorriso casual, Eric conseguiu convencê-lo. Ele era o tipo de pessoa persuasiva e de bom temperamento que atraía as pessoas a sua volta. Tinha um dom natural para lidar com os outros. Mas muito pouco para lidar com si mesmo.

— Eu vou ficar de olho no Quill, e em você também. Ainda não confio nele, portando não o quero tão perto das crianças.

— Pode deixar, ele nem se quer tentou.

Magee ficou mais aliviado. olhou o céu cinzento e depois Eric de novo, estava menos magro do que quando chegou, parecia um bom sinal.

— Vá para casa filho. Daqui a pouco escurece e fica mais perigoso ainda para andar sozinho pelas ruas. — Deu uma risada amarga. — Vá enquanto pode caminhar com alguma paz.

E voltou para dentro, ainda atolado de documentos de doações para concretizar. Eric continuou encarando o céu por mais alguns segundos, a luz refletida no óculos. Com ombros relaxados e uma pequena brisa levantando os fios soltos de cabelo, disse quase em um sussurro:

— Paz é uma companhia traiçoeira, senhor.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.