Chapeuzinho Vermelho
17 Chapeuzinho Vermelho - XVI
Notas iniciais
Quando sentirem saudades, escutem, leiam a tradução e percebam que Lorenzzo teve um bom motivo para se entregar. Não me culpem, caras leitoras, eu sou apenas aquela que descreve os passos escolhidos por eles.
Ela ergueu o copo de requeijão no alto e recitou algumas palavras bonitas antes de dar o último gole no vinho.
– Você foi, apesar de tudo, um bom amigo. Dois vivas à você, Lorenzzo. — E soluçou.
Algumas pessoas do Bosque acreditavam, ingenuamente, que Ele havia jogado uma espécie de azar, praga, como queira chamar, antes de morrer. As coisas continuavam sumindo, não com todas as deixas que o caracterizavam, rumores sobre um ladrão estrangeiro assustaram os moradores.
Mas, era apenas Violet. Roubando para sobreviver e até para se vingar. Ainda não sabia bem o motivo, era apenas um filhote despatriado e triste. Entendia que havia sido transformada por Lorenzzo, mas não porque ele provocou a própria morte.
Acostumar-se com os novos limites dos sentidos foi divertido no começo, mas não ter com quem compartilhar logo trouxe a mágoa, a carência.
Parou de contar o tempo, de fazer "x" em calendários, de comemorar datas festivas... Morava na antiga casa da avó, nos galhos das árvores e de vez enquando no rio que seguia para a fronteira.
– Por que foi tão dramático, Lorenzzo? Era mais fácil ter me deixado te estapear para depois te perdoar, mas não, tinha que ir até o Bosque e se entregar? Dar um brinquedo e não ensinar a brincar? Isso não era do seu feitio... — Ela reclamava jogando pequenos pedaços de pão na lareira.
– Você está triste. — Disse uma voz atrás dela.
Deu um pulo da poltrona, caindo de quatro no chão com os pêlos dos braços eriçados e os cabelos estáticos. Avistou um garotinho de pouco mais que um metro parado, sobre o tapete.
– Posso pegar uma maçã? — Ele perguntou apontando para a cesta de frutas da mesa da cozinha.
– De onde você veio? Não sabe que é falta de educação entrar na casa dos outros sem bater?! — Exasperou-se Violet passando a mão pelos cabelos tentando abaixar os fios mais persistentes.
– Eu a vi chorando há algumas horas em um lugar tão bonito e pensei em segui-la, mas você corre muito, foi difícil encontrá-la... Fiz uma longa viagem, pode, por favor, me ajudar?
Violet desceu da poltrona e começou a rondar o menino, cheirando-o por todos os lados. Ele tinha cheiro de flores... As mesmas flores azuis que deixara no túmulo de Lorenzzo, do outro lado da fronteira.
O menino desatou a rir, contorcendo-se, uma gargalhada fina e espontânea. Gargalhada de criança.
– Vai ficar me cheirando? Eu tomo banho todos os dias!
– Não... Por que me seguiu? Foi mandado do Bosque? Conhece o Charlie? É um enviado dele? ANDE! RESPONDA! Ou terei que matar-te!
A criança a encarou calmamente, analisando-a, escaneando-a com seus pequenos olhos cor de mel.
– Não... Não conheço nenhum Charlie, perdão, senhorita. Repito que não era minha intensão assustá-la, na verdade, vim te trazer isso...
Retirou uma margarida branca de dentro do bolso, ainda com aquele aspecto de recém-colhida, como se ainda houvesse vida dentro dela. Violet tomou-a nas mãos e cheirou-a discretamente. Estaria envenenada?
– Não chore mais. Por favor, senhorita, não chore pelo seu amigo. De onde ele estiver, não deve gostar de vê-la triste, não é?
Ainda com receio, o sangue palpitando nervosamente, a razão dizendo que não era certo manter contato com um estranho — principalmente um estrangeiro — resolveu apenas concordar com ele e agradecer pela preocupação. Era apenas uma criança, o que poderia fazê-la de mal?
– Então, poderá me ajudar? — Perguntou o menino novamente.
– Eu... Eu acho que sim. — Respondeu desconfiada.
O menino abriu um enorme sorriso branco, que se apresentou um pouco mais sincero e cativante, mas ainda assim, havia semelhança com o de Lorenzzo. E foi só por esse motivo que Violet permitiu sua estada na casa.
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