Chapeuzinho Vermelho

16 Chapeuzinho Vermelho - XV


Notas iniciais
Sem notas iniciais, estou chateada demais para isso.

Algo de muito importante estava para acontecer. Violet não achou graça daquele disparate, ao contrário, pelos novos ouvidos potentes e descontrolados pode notar segurança e seriedade vinda da voz rouca do homem que rezava.

Ao longo do percurso Violet caiu várias vezes, correndo pela trilha tentando assimilar apenas o som da voz que se confundia com o farfalhar das folhas e o falatório das pessoas do Bosque.

Com todo aquele tumulto até parecia dia de festa. As pessoas estavam felizes, davam gargalhadas altas.

A cabeça da pobre menina doía, tinha que se concentrar mais. Os sentidos foram se perdendo, os cheiros se dissipando, a visão falhando e ela nem chegou a perceber os espinhos arranhando os braços.

– Panem nostrum quotidianum da nobis hodie et dimitte nobis debita nostra...

– Vamos logo com isso! Olha que piada! O cara quer nos comover rezando. Até parece, Lobo fedido! — Alguém comentou.

– Et dimitte nobis debita nostra sicut et nos dimittius nobis, et ne nos inducas in tentationem...

Sua voz foi interrompida por um estrondo no céu. Relampagos e trovões davam início ao seu espetáculo. Violet se sentia fraca, as pernas bambas já não conseguiam mais correr.

– Eu... Estou tão cansada. Não consigo me movimentar!

Era certo que minha menininha estava pedindo demais de um filhote. Geralmente eles ficam nas tocas por dois meses e nascem cegos, mas como esperado, Ela havia de ser diferente.

Talvez, se fechasse os olhos, conseguiria ser guiada pelo cheiro de Lorenzzo e não mais por sua voz. A chuva fina começou a cair, tinha que ser rápida, antes que o rastro fosse apagado.

– Chega dessa palhaçada!

Violet avistou a praça abarrotada de pessoas e resolveu subir numa árvore para ver o que se passava.

Avistou Lorenzzo sobre um banco de madeira com a cabeça encaixada dentro de uma corda amarrada em forma de laço enquanto o povoado do Bosque atirava tomates e pedras contra ele. Charlie segurava um tipo de alavanca que faria a superfície onde Lorenzzo estava, ceder.

O espetáculo que tinha até a presença de raios, relâmpagos e trovões, de todo povo do Bosque e até Violet, era o enforcamento de Lorenzzo.

– O homem, ou se preferirem, lobo, aqui presente responde por todos os acontecimentos ruins que o Bosque vem enfrentando, nos últimos dezoito anos. A destruição da capela trinta e uma vezes, o boicote da festa da colheita, a morte de nossos animais, a queimada de quatro colheitas em anos intercalados, entre outros crimes insanos, e o mais recente: a morte de Violet. Você nega algum desses feitos? — Perguntou Charlie.

Lorenzzo balançou a cabeça negativamente olhando para o céu.

– Como não tem ninguém que te defenda, ou que queira ouvir suas lamúrias... Gostaria de poupar-nos de seus últimos latidos?

– Não. Primeiramente, lobos não latem, uivam e rosnam, não seja tolo. Não me faz falta um advogado, só me serviria para pagar por palavras sem validade, o que eu posso fazer de graça para mim mesmo e com igual capacidade de persuasão. Na verdade, eu gostaria de mandá-lo para o inferno, então vá para o inferno, Charlie. Pode falar de todos os meus feitos, mas não pode ser pior que eu um homem que come a mãe de sua própria pretendente, é Carminha, esse é o motivo de sua mãe ficar tanto tempo na padaria. Além do mais, eu me entreguei por pura vontade, venho "fugindo" de vocês a anos e tenho certeza de que se me perseguissem com a mesma veracidade de quando tiram dinheiro uns dos outros para organizar festas já teriam conseguido há tempos. Eu estou velho, e se não fosse pelos últimos anos eu diria que minha vida foi em vão, mas, graças a Violet compreendi que não posso simplesmente viver fugindo do Fim. Todos nós conheceremos esse maldito hora ou outra, então resolvi antecipar minha ida ao inferno — ou qualquer lugar que não seja o Bosque, porque eu não aguento mais isso aqui. Podem me chamar de louco, mas os loucos são vocês que vivem presos em sua própria insignificância... Espero que um dia percebam e que não seja tarde demais. — Lorenzzo olhou exatamente para o galho em que Ela estava, debulhando-se em lágrimas — Por favor, não seja um filhote teimoso, vá descansar, minha querida.

Sua última frase foi um sussurro, levado pelo vento até os ouvidos frágeis de minha pequena que preferiu tapar os olhos quando Charlie enfiou um saco preto no rosto de Lorenzzo. Ouviu apenas o movimentar das engrenagens e os gritos do povoado.

– Sed libera nos a malo. Amen. — Disse Violet, sua voz ficando rouca novamente.

Notas finais
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