Chapeuzinho Vermelho
20 Chapeuzinho Vermelho - XIX
Notas iniciais
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pensar ou seu contentamento
Vinicius.
Violet foi de pé para ir se acostumando. Verificou os cabelos, os dentes e o cheiro várias vezes antes de bater na janela. Ainda era bem cedo, ninguém do Bosque havia acordado — nem mesmo o sol.
Talvez eu tenha me adiantado demais... Bom, não há volta. Já estou aqui.
Bateu duas vezes com os nós dos dedos no vidro da janela. Três. Mais uma vez. E nada. A mãe tinha um sono tão leve, deveria ter acordado no primeiro ruído. Não podia esperar sentada do lado de fora até que ela saísse para molhar as plantas, nem que fosse comprar pão ou leite.
Pensou no que ela poderia estar fazendo, ou mesmo onde poderia estar dormindo. Duas camas e um sofá... Violet encaminhou-se até a janela de seu antigo quarto e pela brecha da cortina avistou a mãe abraçada ao travesseiro, dormindo, com as sobrancelhas unidas e uma expressão de sofrimento. Certamente estava tendo um pesadelo...
A ideia de acordá-la de um sonho ruim a motivou. Bateu na janela tentando não balançar tanto o vidro e esperou ansiosamente.
Os olhos da mãe piscaram levemente algumas vezes e sua expressão cansada ganhou mais rigidez sobre as densas olheiras. Abraçou o travesseiro mais forte e murmurou algo para si mesma. Não deveria ser necessário fazer leitura labial para notar seu descaso com o barulho.
"Bando de insistentes" — Violet leu as palavras cuspidas pela mãe. Achou graça de seu mau humor matinal relembrando da falsa alegria que ela tentava transparecer todos os dias.
Bateu mais uma vez, dessa vez um pouco mais forte. Os olhos da mãe giraram dentro das órbitas, irritados. Virou-se para o outro lado.
MÃE! — Reclamou Violet do lado de fora.
No mesmo momento a mulher se sentou na cama olhando para todos os lados.
Aqui. Na janela!
A primeira reação da mãe foi cobrir a cabeça com o edredom. Daria para ouvi-la rezando até do outro lado da Fronteira de tão alto. Violet abriu a janela e entrou cautelosamente desviando-se de caixas de papelão que atrapalhavam o caminho. Sentou na ponta da cama e esperou a mãe terminar.
O que é você? — A mãe perguntou deixando apenas os olhos destampados.
Uma misturinha. Ossos, músculos, pele, órgãos, água, talvez uma alma... A para com isso mãe. Sou eu.
A mulher abaixou o edredom do rosto e ficou mirando a menina por alguns segundos, depois começou a tocar em suas mãos, segurar os braços até que acabou abraçando-a.
Graças... Oh! Autor! Estou muito agradecida por trazer de volta minha menina.
Ela esquivou-se do abraço um pouco retraída. Secou as lágrimas da mãe e abaixou a cabeça, envergonhada.
Não, mãe. Não sou mais uma menina. E eu não voltei para você. Voltei para te tranquilizar, dizer que estou bem e que permanecerei bem.
Filha, mas...? Como assim? Estou mal todos esses dias e quando volta... Não volta? O que está acontecendo? O que Lorenzzo te fez? Ele veio falar comigo, mas não entendi nada.
Como? Ele veio falar com você? Quando?
Minutos antes de se entregar. Ele bateu na janela do meu quarto para não ser visto pelas outras pessoas, eu estava dormindo... Eu nem sei porque o deixei entrar, mas estava tão preocupada com você que acabei permitindo. Ele estava triste, nervoso, descontrolado! Dizendo que não poderia ter feito o que fez. Que ele, naquele momento, tinha consciência das coisas que tinha feito contra todos do Bosque e que se arrependia. Disse também que você deveria sumir por muito tempo e que se eu a visse, não contasse a ninguém. Ele me fez prometer que a ajudaria e que manteria segredo, depois que eu concordei ele saiu daqui feito um louco e depois...
E depois...? — Perguntou Violet segurando firmemente as mãos da mãe, ansiosa por saber mais.
Depois deixou-se prender pelas pessoas. Ele não se debateu nenhuma vez, não reagiu. Eu nunca, até aquele dia, o vi tão humano, Violet. Ele estava são, e por isso, se entregou.
A menina soltou o ar preso nos pulmões e respirou profundamente. Então aquela era a verdade... Violet parou de achar tudo confuso e até concordou com a punição que ele escolheu. Pensando bem, ninguém que recuperasse a sanidade conseguiria sobreviver com tanta culpa, principalmente com o mal a quem se gosta.
Filha? Desculpe-me, mas eu não posso lamentar por sua morte, sei que ele era seu amigo, mas se ele a magoou como diz e... Ele mereceu, Violet.
Eu só vim para avisar que estou morando na casa da vovó e que se quiser me visitar um dia, eu ficaria feliz.
A menina se levantou da cama e esbarrou-se em uma caixa, tombando-a. Viu panos estampados saindo de dentro dela, uma botina e o livro dos irmãos Grimm. Sorriu e murmurou um "adeus" para si mesma, ou para quem ela foi.
Você fica muito bem vestida de branco, minha filha.
Notas finais
Que querem ser ouvidas.
Tanta coisa para falar
Mas você não consegue achar as palavras.
A essência de magia,
A beleza que havia
Quando amor era mais selvagem que o vento."
http://letras.mus.br/roxette/34460/traducao.html
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