Chapeuzinho Vermelho

15 Chapeuzinho Vermelho - XIV


Notas iniciais
Está na hora de papar o/
Daqui a pouco é a hora da minha dança da festa junina lá da escola. É a quadrilha do terceiro ano, estou ansiosa. Tenho medo de cair do salto (mesmo que pequeno), esquecer passos ou atrapalhar alguém. Vou escrever um pouco para ver se me acalmo ^^'

As unhas mais compridas e grossas ora ou outra tocavam um pedaço de lenha sobressalente. Por pouco o fogo que dançava no ritmo do vento não a queimava — ou por temê-la tanto quanto o gato que saiu correndo quando a viu.

Os olhos foram se abrindo lentamente. O esforço para arregalá-los foi quase que o dobro do normal. Avistou uma longa cabeleira negra espalhada pelo tapete.

Com ombros mais fortes, curvas mais acentuadas, busto e coxas mais avantajados, Violet teve dificuldade para se levantar. Sentia-se mais pesada, enjoada, tonta... Apoiou-se nas mãos e engatinhou em direção a mesa de cabeceira que sempre aparava um copo d'água — o que estranhamente pareceu confortável.

Sua garganta estava seca, aquele cheiro enjoado de canela e terra molhada pareciam ter se entranhado nas narinas. Na verdade, poderia sentir o cheiro de qualquer coisa que quisesse se respirasse bem fundo.

Bebeu a água em duas goladas generosas. Tentou subir na cama segurando o cobertor com as mãos, mas acabou rasgando parte dele com as unhas afiadas.

– Mas... — e começou a tossir — A minha voz... — Disse familiarizando-se com a rouquidão.

Confusa, procurou o espelho de mão da avó dentro da gaveta do criado mudo. Não reconheceu a imagem que viu. Aquela garota com os lábios finos tingidos de vermelho, com os caninos pontiagudos branquíssimos e os cabelos armados não poderia ser a mesma Violet que cruzou a porta no dia anterior.

Arremessou o espelho para longe espatifando-o em mil pedaços. Sentou no chão e começou a procurar outras mudanças pelo corpo. Além do que tinha visto no espelho, tudo havia se modificado. Encontrou um hematoma no pescoço que latejava insistentemente. A pele que o rodeava se repuxava na tentativa de sará-lo.

– Preciso me vestir... Talvez Lorenzzo possa me explicar o que está acontecendo.

Uma pontada na têmpora a fez uivar de dor. Pensar nele a fazia sentir dor, a lembrança do dia anterior ainda era vívida. Engatinhou até as roupas, jogadas pelos cantos da casa e se vestiu.

Ficar de pé era um desafio, quase uma prova de equilíbrio. Nunca havia bebido mais que uma taça de vinho nas celebrações do bosque, mas temia que fosse desse jeito que as pessoas que exageravam ficassem. Andar com as mãos no chão era uma tentação irresistível, mas arrastar a capa e a longa saia na terra molhada seria um pecado.

Sobre a mesa havia somente uma toalha branca de renda. A jarra com o... (vinho?), o prato com a (carne?)... Não estavam mais lá. A única coisa que denunciava o fato do dia anterior era o cheiro de canela. Pessoalmente Violet já não sabia dizer se aquele cheiro vinha dela ou da casa.

Apoiando-se nas árvores, tropeçando nos pés ora ou outra, seguiu pelo caminho dos alfinetes, o mais curto e sujo. O problema agora não era sujar a roupa e sim controlar o que entrava ou não pelo nariz.

Era enlouquecedor. O cheiro dos pinheiros, dos esquilos, das raízes molhadas e de todo o medo que envolvia aquele lugar, invadia seu nariz desconfortavelmente.

– Lorenzzo? – Ela chamou. – Se eu cair aqui, você me leva para minha mãe? Acho que é o mínimo que pode fazer por mim, depois do que fez.

Nenhuma resposta, apenas o som das curvas que o vento frio fazia em volta de suas pernas. A barriga começou a roncar, horas sem comer lhe renderiam uma boa discussão com a mãe, mas quem se importa?

– Lorenzzo! Eu sei que está por aqui! Apareça!

Um pássaro se atirou com as asas fechadas em direção a Violet. Antes que pudesse sentir o bico fino rasgando o rosto, ela se defendeu, esbofeteando o pássaro para bem longe dali. A mão ficou suja de sangue e o pássaro caiu morto, escorrendo por uma árvore distante dali.

– Viu o que eu fiz? Matei um bichinho!

Começou a correr sem se importar em sujar ou não a roupa, tentando, apenas, fugir daquele inferno. Logo encontrou a ligação da trilha e seguiu por ela aproveitando para limpar os dedos encharcados de lama.

– Pater noster qui es in caelis; sanctificetur nomem tuum, adveniat regnum tuum, Fiat voluntas tua, sicut in caelo et in terra. – Escutou a voz rouca dizendo.

Parou de correr instantaneamente. Era Lorenzzo. Ele estava rezando.

Notas finais
Papeeeeei o/ A dança é só as 17:00, mas a roupa já está passada me encarando ali da cadeira...
Ai, para! Vou ficar com vergonha, sua roupinha linda *-* (~.~)