Chapeuzinho Vermelho
13 Chapeuzinho Vermelho - XII
Notas iniciais
Não que ela tivesse sido criada no meio de medo e insegurança, mas não conseguia evitar o tremor que faziam seus joelhos se baterem continuamente. Não que ela fosse medrosa, mas instintivamente encurtava os passos, atrasando o momento de sua chegada. Não que Violet estivesse arrependida, mas algo a dizia que se tivesse negado a amizade de Lorenzzo desde o início, aquilo poderia não estar acontecendo.
– Mas o que está acontecendo com a minha coragem? – Disse em resposta ao tremor que a saudou quando viu a casa da avó de longe. – Se estou aqui é por um motivo. Um motivo muito especial. Quem sabe a vovó não me deixa ficar com ela por alguns dias?
Atravessou a ponte de pedras que dividia uma parte do Bosque de um longo rio que passava por ali e deixava a casa da vovó ainda mais especial. Lá batia sol, não havia árvores encobrindo o céu. Fazia lembrar a outra história. Tinha alguns canteiros de flores e adornos de argila no chão.
A menina seguiu pelo caminho de pedras até chegar à porta de madeira. Bateu uma, duas, três vezes até a porta ceder e escorregar por seu punho, abrindo-se sozinha.
Antes de começar a chamar pela avó, deixou a cesta sobre a mesa onde havia pedaços de carne crua cortados sobre um prato e uma jarra de cristal cheia de vinho. Achou estranho, a avó sempre foi vegetariana e não podia tomar álcool. Observou também manchas de terra no chão que se espalhavam por toda a casa, como pegadas. Um gatinho passou correndo por suas pernas e a olhou feio dizendo:
– Menina perdida! São a carne e o sangue de sua avó!
Desesperada, seguiu as pegadas até o quarto da avó onde uma mistura de sangue, podridão e morte se misturavam harmoniosamente formando um odor insuportável. Sentado na beirada da cama, virado para a parede estava um homem.
Violet se segurou no portal para não cair. As pernas voltaram a tremer, só que com ritmo dobrado em relação ao anterior.
– O-Onde está a minha avó?
– Eu estava com fome. – Respondeu o homem com a voz rouca.
A menina deu meia volta, segurou a saia bem no alto e pôs-se a correr até a cozinha.
– Não me faça ir atrás de você. – Disse o homem.
Violet se debulhava em lágrimas segurando os pedaços de carne, sujando as mãos de sangue, olhando os porta retratos que exibiam uma velhinha saudável sorrindo com uma garotinha no colo. As lembranças a abateram, junto com sua impotência.
– Por que fez isso? POR QUE? ERA SÓ TER ME PEDIDO CARNE! EU IRIA AO AÇOGUEIRO! MAS A MINHA AVÓ? NÃO TEM VERGONHA?
– Não.
– NÃO TEM HUMANIDADE?
– Não.
– NÃO TEM BONDADE NO CORAÇÃO?
– Não.
– NÃO TEM PENA DE MIM? Você sabia que eu ia chorar, sabia que ia sofrer. DESGRAÇADO! Olhe nos meus olhos, Lorenzzo.
Ele virou o pescoço mostrando parte do rosto transformado. O corpo mais musculoso, as veias se mexendo na têmpora, as sobrancelhas mais grossas e o cabelo despenteado. A boca manchada de sangue e os olhos mais vermelhos e ardentes que o fiapo de fogo que dançava, vacilante, na lareira.
Permaneceu alguns poucos segundos mirando-a, desejando-a com os olhos, com a fome e a urgência de um recém-nascido. Ele respirava irregularmente, os batimentos cardíacos poderiam ser escutados a quilômetros dali a quem parasse para prestar atenção. Talvez aquele fosse o último som que ela escutaria.
– Vai me matar, Lorenzzo? Vai matar a única pessoa que te ouviu? Que te fez companhia? Não acredito que possa me fazer algum mal... O que a minha avó fez a você? Ou foi só para me atingir? E antes que você pense que eu fui sua... Sua amiga por todos esses anos para poder me beneficiar de alguma coisa... Não! Por que estou me explicando, céus, por quê? ERA A MINHA AVÓ!
Violet sentou-se no chão e começou a rezar baixinho.
– Tire a roupa e deite-se comigo.
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