Chapeuzinho Vermelho
7 Chapeuzinho Vermelho - VI
Notas iniciais
Os dias que se seguiram foram recheados com travessuras de um homem já adulto. Não havia dúvida de que quem as fazia era Lorenzzo e isso ficou claro desde o primeiro momento, quando os habitantes notaram que o coelho ainda estava com o sangue e a pele quente, evidenciando sua morte recente. Se todos estavam na festa, quem mais poderia tê-lo matado?
A festa foi cancelada sem ao menos terem celebrado a cerimônia de agradecimento pela boa colheita. Quebrar uma tradição de muitos anos fez com que Lorenzzo fosse ainda mais odiado pelos devotos. As pessoas andavam de cabeça baixa nas ruas, indignadas e ao mesmo tempo temendo que recebessem um castigo pior na próxima estação.
Logo o Bosque tornou-se silencioso, com exceção dos gritos assustados de mocinhas que ouviam barulhos estranhos enquanto tomavam banho ou quando sentiam-se perseguidas.
– Eu não deveria deixar Carmen entrar aqui em casa depois do que fez, mas ela está muito assustada e quer falar com você. E não adianta me perguntar se pode dormir na casa dela, porque já sabe que está de castigo. — Disse a mãe de Violet da porta do quarto.
Carminha entrou com as mãos juntas, fechadas sobre o peito. Os olhos inchados e o cabelo desgranhado. Algo realmente importante havia acontecido para ela sair de casa daquela maneira. Sentou-se na beirada da cama e continuou, perdida, distante, em qualquer lugar que a mente a poderia levar que não fosse o Bosque.
– Carmen?
– Ele o pegou, Violet. Charlie deve estar morto nesse momento.
Relaxou os ombros e deixou os braços cairem sobre o colo. O que estava tão protegido nas mãos de Carmen era um pequenino e quase invisível botão.
– Já entendi. — Disse Violet levantando a janela do quarto — Só não diga a verdade à minha mãe.
– O que vai fazer? Violet! Nem sabemos para onde aquele... Aquele lobo o levou!
– Seu nome é Lorenzzo e eu sei onde ele está.
Pulou da janela com os pés firmes no chão e começou a correr, aproveitando a liberdade — mesmo que momentânea — sorrindo ao perceber que saiu descalça, sentindo os cabelos voarem com o vento. Estava cansada de se fazer de prisioneira em casa e por mais que negasse, estava feliz por procurar Lorenzzo.
Antes que entrasse no caminho estreito atrás do banco da praça onde normalmente ocorriam os encontros, olhou para os lados para ter certeza de que não era vigiada.
– Agora você vai me ouvir.
Entrou caminhando, olhando para os galhos das árvores, torcendo para que não visse Charlie pendurado pelo pescoço, ou que não tropeçasse num de seus membros.
Ouviu alguns ruídos e andou mais rápido até que chegou naquela grande árvore, onde Lorenzzo costumava sentar ou deitar aos seus pés, e viu Charlie caído no chão com um pedaço de pano na boca.
– Charlie!
– Se se arrastar um centímetro, corto sua cabeça. — Disse Lorenzzo surgindo de trás de uma árvore. — Olá Violet. Não me enganei em trazer o... Como é mesmo?
– Charlie.
– Sim, o Charlie. Diga-me Violet, quem te atraiu até aqui. Charlie ou eu?
– Solte-o. Solte-o! — gritou Violet apontando para Charlie sem tirar os olhos de Lorenzzo.
– Quem disse que está amarrado? Ele pôs a mordaça. Se quiser, vá, solte-o você.
Violet caminhou lentamente, ajoelhou-se e desatou o nó que prendia o pano branco na boca de Charlie.
– O que ele diz é verdade? — Ela perguntou ao rapaz.
– Sim. Ele ordenou que eu me calasse!
– E você o fez? — Perguntou Lorenzzo com uma mão no queixo.
– Não! — gritou Charlie — Nunca me calaria por uma ordem sua! Violet, o que tem com esse Lobo? Como sabia que estávamos aqui?
– Quer parar de fazer perguntas e só me agradecer? Agora, por favor, tente não ser tão orgulhoso e continue me contando como foi que você se amarrou. — Disse Violet o levantando pelo braço.
– Como sabe que eu me amarrei?
– Ela sabe que eu nunca tocaria em alguém como você. — Disse Lorenzzo sorrindo. — Agora, vá para debaixo da saia da sua mãe, Charlie. Eu tenho assuntos pendentes com Violet.
– O quê? Violet, não vou te deixar aqui sozinha com ele.
Charlie retomou a postura e só faltou colocar a mão sobre o peito para se fazer de perfeito cavalheiro.
– Vá Charlie. Eu também tenho algo para falar com Lorenzzo.
– Eu vou, mas se demorar, convoco todos os habitantes do Bosque para virem atrás de você e dar um fim definitivo nessa história.
Charlie caminhou de cabeça erguida com pouco mais que dois metros de distância de Lorenzzo, até sumir nas árvores.
– Espero que tenhamos o mesmo assunto a tratar, Violet. Estava ansioso para vê-la.
Notas finais
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E vocês?
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