Chapeuzinho Vermelho
4 Chapeuzinho Vermelho - III
Notas iniciais
– Fui à fronteira.
– Existe alguma coisa depois de lá? – Perguntou Violet dando um passo a frente, chegando mais perto de Lorenzzo, esquecendo-se, talvez, do perigo.
– Sim. Chamarem um lugar tão belo de “Lugar Nenhum” é blasfêmia. Sabe o que tem lá? Seres mágicos, não só esses esquilos bobos que mais parecem papagaios. Há cavalos, tabernas, festas, castelos... Há lendas! Diferente daqui, cidadezinha pacata, sem novidade alguma.
– Não, não. Há uma lenda aqui também. Dizem que você é um lobo.
– E eu sou.
– Se está tão encantado com o lugar, porque não ficou lá?
Suas feições endureceram. Não sei definir se era raiva ou tristeza, talvez uma mistura dos dois. Lorenzzo poderia parecer mau e feio para aqueles habitantes também, gerando antecipadamente uma... Aversão? Ele pegou um punhado de folhas secas e jogou para o alto. Antes que a última caísse no solo, ele se pôs de pé e deu as costas à Violet, que intrigada com sua atitude, esperou calada pela resposta.
– Talvez, um dia, eu viaje por todos os mundos que nos cercam. Mas até que eu descubra como acontece tal mágica, vou me arrastando por essas árvores infelizes.
– A eternidade está de bom tamanho pra você? – Perguntou Violet elevando a voz.
– Não existe essa coisa de eternidade. Até parece que você nunca ouviu falar daquele personagem pequenino, do destruidor de todos os sonhos, e não estou falando de mim.
– E de quem é? – Atreveu-se a perguntar.
– VIOLEEEEEEEET. – Chamaram-na.
– O Fim, Violet. O Fim.
Lorenzzo subiu pelo tronco de uma árvore com a leveza e sutilidade da curva de um rio algoz. Segundos depois, Carminha, uma das conhecidas de Violet, apareceu às suas costas, dando leves tapas nos ombros, retirando da barra do vestido cada folha ou carrapicho.
– Ah, olha você aí. Sua mãe disse que você tinha saído sem avisar, imaginei que estivesse aqui. Violet, não tem medo de que aquele... monstro, te rapte? Não sei como consegue ter paz para ler, num lugar como esse...
Virou o corpo de Carminha em direção ao caminho da praça, antes que percebesse Lorenzzo em cima da árvore, as olhando.
– Tudo bem. Eu volto com você. E não venha mais aqui me procurar.
– Por que? Sei que vou te encontrar. Não venho se me prometer que não virá também.
– Vamos logo Carminha. Você e essas suas promessas.
Voltaram para a praça e antes que ela perdesse a completa visão daquela árvore, olhou mais uma vez para seus galhos altos e nada de Lorenzzo. Alguma coisa a dizia que ele ia demorar para procurá-la novamente.
De todas as garotas do Bosque, Carminha era a menos artificial. Ela nunca havia compreendido a paixão Ágape de Violet perante aos livros nem sua estranha – e desleixada – forma de se vestir, mas nem por isso a julgava de feiticeira e a deixava isolada no coral da Igreja, como as outras garotas do Bosque. Não que isso fizesse diferença, só era um tanto constrangedor, participar de reuniões de chás e costura sem ao menos saber colocar uma linha na agulha.
Carminha poderia não ter lido os mesmos livros sobre a teoria dos buracos negros, nem os contos dos Irmãos Grimm que Violet tanto gostava, mas a garota parecia ter desenvolvido um tipo de sexto sentido, presenteando-a com a capacidade de estar na hora exata no lugar certo. É pecado acreditar no Darwinismo social? Bom... Se você que está ali lendo, concordar com as frases anteriormente ditas, estamos todos ferrados.
– Violet? Violet? Estou falando com você. Está me assustando.
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