Change Your Life
6 Ginger (Parte I)
Notas iniciais
Shina girou a chave no trinco e abriu a porta, sinalizando para que o baixista entrasse em seu apartamento. Disse-lhe que ficasse a vontade enquanto buscava algo para comerem, mas foi o mesmo que não dizer nada. Reita sentou-se no sofá e imediatamente começou a balançar os pés e estalar as juntas dos dedos, claramente nervoso. Kiriyama aproximou-se rindo, entregou-lhe uma cerveja e colocou alguns petiscos sobre a mesa de centro.
- Pega o baixo. – disse, fazendo o baixista olhar para ela, confuso.
- Mas eu achei que você fosse chamar a Anna e... – engoliu em seco.
- Achou que vinha aqui pra vadiar é? – Shina riu – Nada disso. Nós vamos trabalhar de verdade. Daqui a pouco ela aparece por aí, então relaxa. – deu-lhe um tapinha no ombro – Agora pega o baixo.
- Hey... Tem alguma coisa... – começou o loiro, hesitante, enquanto tirava o instrumento do case — ...que eu deva saber? Quero dizer, sobre ela...
- Hm... Vejamos. – ponderou, tomando um gole da cerveja – Não acho que tenha alguma medida de precaução que você deva tomar. Seja você mesmo que vai dar tudo certo.
- Que ajuda. – riu Akira, nervoso.
- Você tem sorte que eu tenha te trazido aqui, pra começar. Então não cuspa no prato que come, seu ingrato. – Shina riu também. – Mas sério. Relaxa. E agora vamos trabalhar.
Apesar das inúmeras tentativas, Shina não conseguiu que Reita se concentrasse de fato no que estavam fazendo. Era fácil notar o quão inquieto ele estava, esperando que a qualquer momento a campainha tocasse e Anna aparecesse. Ele mal podia tocar, estava distante demais, suas mãos suavam frio. Shina admirou-o mais uma vez, pela capacidade de deixar que aquele sentimento crescesse sem que houvesse nenhuma certeza do amanhã. Perguntou-se se jamais conheceria alguém que a fizesse sentir como Reita se sentia agora. Seus pensamentos foram interrompidos por uma batidinha inconfundível na porta. O baixista parou de tocar imediatamente e ficou encarando Shina, cheio de expectativas.
- Anna? – perguntou Shina, sem ir até a porta.
- Não. Freddy Krueger. – riu a outra, do outro lado da parede.
- Entra, mas não me mata. – Kiriyama riu também.
- E aí... – Anna entrou, fazendo Reita endireitar-se no sofá – Ah, oi... É Reita né?
- É sim. – o baixista engoliu em seco – É bom te ver de novo, Anna-san. – murmurou.
- Eeh... Qualé a do “san”? Até onde eu sei você é mais velho que eu. – disse a cantora, rindo.
- Ah, gomen ne. – ele sorriu, corando.
- Eu não sabia que você tinha visita Shina. Se eu soubesse não tinha vindo. Devo tá atrapalhando vocês. – disse Tsuchiya, mas ao invés de ameaçar sair, sentou-se na poltrona de frente para os outros dois.
- Não tá atrapalhando não. Já tava na hora da gente fazer uma pausa, não é Reita? – Shina levantou-se e dirigiu-se à cozinha – Cerveja, Anna?
- Bem que eu queria. – disse a outra – Mas tenho uma sessão de fotos logo cedo amanhã.
- Sorte minha, que sou anônima e não preciso acordar às cinco da manhã pra tirar fotos. – Kiriyama voltou à sala, com mais uma cerveja.
- Então, como tá indo o álbum, Reita? – Anna dirigiu-se ao baixista, fazendo-o corar.
- Bem. Muito bem. A Shina tem sido... Uma grande ajuda. – respondeu o loiro, impressionado por não ter gaguejado ou engolido alguma palavra.
- Eu ouvi o último single de vocês. Como era o nome? Leech? – perguntou a vocalista.
- É. Leech. – ele riu sem graça – Você gostou?
- Ah, sim. Muito. E não só eu né. Eu ouvi dizer que estreou em primeiro na Oricon.
- É, é verdade. – Reita sabia que os méritos não eram só seus, mas estufou o peito, lisonjeado por ouvir aquilo dela.
- Parabéns. – sorriu Anna – Vocês merecem mesmo.
- Merecem sim. Eles trabalham duro por isso. – comentou Shina – E agora vamos ver se colocamos um álbum em primeiro também, huh?
- Com a sua ajuda tenho certeza de que vamos conseguir, Shina. – sorriu Reita.
- Fico torcendo por vocês. – disse Anna, bocejando – Ah, eu preciso ir dormir. Urgente.
- Eu também. – completou Kiriyama – Tenho certeza que você também, Reita. Acho melhor pararmos por aqui. A gente continua amanhã.
- Ah, sim. Claro. Amanhã é melhor. – concordou Suzuki.
- Vá pra casa e descanse. Aproveite e acompanhe a Anna até o apartamento dela quando sair. – sugeriu Shina.
- Ah, se ela não se importar. – ele corou e agradeceu a produtora em pensamento.
- Claro que não. – Tsuchiya sorriu, levantando-se.
- Ok, então... – Reita colocou o baixo no case – Até amanhã, Shina.
- Até. Boa noite. – despediu-se, acompanhando os dois até a porta.
Reita respirou fundo e andou com Anna pelo corredor. Tentava pensar no que dizer, mas seu coração batia tão forte e tão alto que mal podia ouvir seus pensamentos. Ele viu as escadas ficarem pra trás e a porta do apartamento dela se aproximar cada vez mais. Ao notar que seu tempo se esgotava, juntou toda a coragem que tinha e disse:
- Anna-chan... Eu sei que você deve ter tão pouco tempo quanto eu e...
- E...? – Tsuchiya parou em frente à porta de seu apartamento, encarando-o e esperando que ele terminasse o que começara a dizer.
- Mas eu tava pensando se você... Não gostaria de sair um dia desses... – corou, olhando para os próprios pés.
- Com você?
- É, eu sei que deve ter um milhão de caras melhores na sua lista. – riu, desconfortável, começando a se arrepender do que dissera.
- Não, Reita. Não é isso. – ela riu um pouco – Eu... Adoraria.
- Mesmo? – o coração do baixista veio parar na boca.
- Mas agora não. – disse Anna, fazendo os olhos dele perderem um pouco do brilho – Eu acabei de sair de um relacionamento de um jeito não muito legal e preciso de um tempo, antes de começar a sair de novo, sabe. Preciso me concentrar no meu filho e tudo mais. Pelo menos por agora. – explicou.
- Ah, eu entendo. – ele balançou a cabeça, sentindo que aquilo era mais uma desculpa do que um motivo real.
- Talvez daqui a um tempo. – tentou remediar, ao ver a decepção do baixista.
- É, quem sabe. – Reita sorriu um sorriso amarelo – De qualquer forma, boa noite Anna. – virou as costas e foi em direção às escadas.
- Boa noite. – Anna sentiu-se um tanto culpada por ter decepcionado o loiro.
Algo lhe dizia que ele era um cara legal. Mas esse algo sempre lhe dizia isso sobre todos os caras. Não queria arriscar ter outro Ryuhei em sua vida. Sabia agora que todos eles eram legais no começo e então, em algum ponto, mostravam aquele defeito que acabava com tudo. Desde o dia que Ryuhei lhe contara que estava vendo outra mulher, Anna decidiu que não se deixaria mais enganar por esse algo que tentava lhe convencer que dessa vez seria diferente. Portanto varreu aquela culpa de si e foi tomar banho, como se nada tivesse acontecido.
Quanto a Reita, este chegou em casa, largou o baixo em um canto qualquer, sentou-se na cama, tirou o celular do bolso e ligou para a única pessoa que sabia que o ouviria.
- Sorte sua que eu não tava dormindo. – disse Uruha, ao atender.
- Tá fazendo o que?
- Nada. Vendo TV.
- Ela me dispensou. – desabafou Akira.
- Quem? Anna? – o guitarrista ajeitou-se no sofá, pressentindo que aquela conversa seria longa.
- É. Ela disse que não tá saindo com ninguém agora porque acabou de terminar um relacionamento e blá blá blá.
- Você acha que foi desculpa dela? – perguntou o Takashima, tomando um gole de cerveja.
- Acho, claro. Mas não a culpo, não.
- Ah Deus. Lá vem você.
- Falo sério, Uruha. Porque uma mulher como Tsuchiya Anna ia querer sair comigo?
- Porque não? Só porque ela é uma beldade e você um perdedor? – riu o outro.
- Nem sei por que insisto em ligar pra você nessas horas. – suspirou Reita.
- Escuta, Akira... O problema com você é que você não tá acostumado a gostar de mulher.
- Ah, cala boca. Viado é você hein.
- Não, Reita. – riu Uruha. – Não to dizendo que você goste de homens. A não ser que goste mesmo né...
- Vá pro inferno, Takashima... – resmungou.
- Sério. O que eu quis dizer, é que você nunca se conecta emocionalmente com uma mulher. Você só troca fluídos corporais e pára por aí.
- Aha. Falou aquele que vive apaixonado né. – disse o outro, sarcástico.
- Não to dizendo que eu vivo apaixonado. Mas você também não né, panaca.
- Eu sei. – deitou a cabeça no travesseiro – Mas porque é tão diferente com ela? Porque eu sei que não me contentaria em dormir com ela e só? Eu nem conheço ela direito, mas...
- Porque você gosta dela, Reita. E não importa que você não a conheça direito. O fato de você querer conhecer mais dela do que o que tá por debaixo da roupa já significa que você se importa de verdade com ela. – argumentou Uruha, trocando os canais da TV distraidamente.
- Mas e agora? Eu já perdi minha chance com ela. – lamentou o Suzuki.
- Vai desistir é? Logo você... O Reita que eu conheço é mais teimoso que isso.
- O que eu devo fazer?
- Não desista ué. Se ela disse que precisa de tempo, dê tempo pra ela. Mas não suma, pra ela não esquecer de você. Você tem que dar motivos pra ela querer dizer “sim” da próxima vez que você a convidar pra sair.
- Como faço isso?
- Sei lá. Acho que isso você tem que perguntar pra Shina. Mas basicamente você tem que provar que você vale a pena.
- Vou falar com a Shina amanhã.
- Faça isso. – aconselhou o guitarrista.
- Deus, Uru... Não consigo tirar ela da minha cabeça. – disse Reita, cobrindo o rosto com as mãos, na tentativa de afastar a imagem do rosto bonito de Anna dos seus pensamentos.
- Oh, Deus... Meu garotinho tá crescendo. – brincou Uruha. – Vá dormir, Reita. E não se masturbe pensando nela. É nojento. – riu.
- Ah, vá se foder, Takashima. – Reita riu.
- De nada. E até amanhã.
- Até. – desligou o telefone, sentindo-se mais leve depois de ter falado com o melhor amigo.
Apesar do tom pouco sério, Uruha tinha razão. Se ela precisa de tempo, é tempo que ela teria. Reita respirou fundo e foi lavar o rosto com água gelada, esperando que aquilo o ajudasse a relaxar. Foi dormir pensando em mil maneiras para fazer Anna querer dizer sim da próxima vez que a convidasse pra sair.
Na manhã seguinte, no estúdio, logo que chegou, Shina viu o baixista sentado sozinho, pensativo com o baixo no colo. Aproximou-se, já imaginando o motivo do silêncio dele.
- Bom dia. – disse, neutra.
- Bom dia. – ele soou desanimado.
- Como foi ontem?
- Não foi. Ela não quis sair comigo. – suspirou.
- Ah, é? E que desculpa ela deu? – sentou-se ao lado dele.
- Disse que tinha acabado de sair de um relacionamento complicado e que não tava pronta pra namorar ainda.
- Ela não mentiu então. Pode ficar tranqüilo. Eu sabia que se ela dissesse não ela seria honesta. A Anna não mentiria pra um cara legal como você. – deu-lhe um tapinha no ombro, tentando animá-lo. – Mas você não vai desistir, vai?
- Não sei ainda. O que você acha?
- Acho que não deve desistir. De forma alguma. – disse Shina, decidida.
- Eu disse a mesma coisa pra ele. – Uruha havia acabado de entrar no estúdio e juntou-se à conversa.
- Disse? – perguntou Kiriyama, surpresa com a presença do guitarrista, que até então passara despercebida.
- Aham. Ontem a noite, quando ele me ligou querendo se lamentar. – respondeu o loiro, rindo.
- Cala boca! – Reita levantou-se e deu um tapa na nuca do amigo, antes de sair em direção aos outros três que se aglomeravam em volta do computador com o empresário.
- Sério. – Uruha riu, ocupando o lugar que fora do baixista ao lado de Shina – Ele ligou ontem bem tarde, todo pra baixo... “Porque uma mulher como Tsuchiya Anna ia querer sair comigo?” – imitou a voz do amigo.
- Mesmo? – riu – Coitado. Ele escolheu a hora imprópria de se apaixonar pela Anna. Mas pode funcionar.
- Eu também acho. Não conheço a Anna, mas se ela fez isso com ele sem nem eles terem saído, pode ser sério. – comentou Uruha – Na verdade, eu acho, que nós, como melhores amigos de ambas as partes... – riu.
- O que? – Shina riu também esperando que ele concluísse o pensamento.
- Devemos dar uma mãozinha, não acha? – sugeriu, sorrindo – Assim, discretamente.
- O que você tem em mente?
- Reita e eu combinamos de ir jogar boliche no sábado. Você podia levar a Anna, sem segundas intenções... – sussurrou – E por acaso esbarrar na gente lá.
- Você sempre faz o cupido pros seus amigos? – perguntou Shina, rindo.
- Sou mais bem sucedido com o relacionamento dos outros do que com os meus. – ele riu contrariado.
- Então somos dois. – ela sorriu. – Gostei da idéia do boliche.
- A gente vai no Copa Bowl em Shinjuku. Às sete. – piscou.
- Combinado. – devolveu a piscadela.
- Hey, vocês dois! Tenho certeza que o papo tá muito bom, mas tá na hora de trabalhar. – disse Aoi, dirigindo-se à Shina e Uruha, que se levantaram e juntaram-se ao outros.
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