Change!

8 Capítulo Zero - Alternative Change


Notas iniciais
Esse é o momento em que vocês me batem pela demora absurda -QQ Existem motivos e eles estão nas notas finais porque explicar aqui é chato e vocês querem ler de uma vez -QQ Dá para notar pelo título, este é um capítulo diferente. É o "piloto" da fic, que inicialmente seria uma one-shot. Está bem diferente do "original", mas boa leitura, de qualquer forma ♥


Como ela era insuportável!

― Ayuzawa, tire os pés da minha mesa! ― bradou, enraivecido ao vislumbrá-la sentada em sua cadeira. ― Melhor: saia já da minha sala!

Com um sorriso debochado, a morena estirou os membros preguiçosamente, antes de sentar-se de pernas cruzadas sobre a cadeira. Apoiou os cotovelos sobre a mesa à sua frente, representando um afetado ar autoritário ao fitar o rapaz. Bem humorada, explicou suas motivações:

― Estava apenas mantendo sua cadeira quentinha, presidente. ― Misaki riu, antes de prosseguir. ― Ela é bastante confortável.

― Não quero saber! ― interrompeu o loiro, impaciente.

― Pois bem, Vossa Alteza Usui Takumi. ― Ao dizê-lo, a garota levantou-se e fez uma exagerada reverência, para então acenar para o assento com um floreio igualmente excessivo: ― À sua disposição.

E deixou a sala do Conselho Estudantil para não enfrentar a fúria de seu presidente, já que as faces do outro adquiriram um tom vermelho devido à sua indignação. Ainda que odiasse aquele aluno tediosamente perfeito e irritantemente autoritário, implicar com ele e desbancá-lo de sua pose superior eram um passatempo divertido.

Na verdade, ela mesma odiava todos os homens autoritários e o incômodo hábito de desejarem domar sua natureza livre e rebelde. De maneira alguma ela mudaria por algum deles! Principalmente por aquele estúpido certinho que vivia a impor ordens como um tirano naquele colégio.

Sim, ela detestava Usui ― e, portanto, fazia dele o principal alvo de suas provocações.

O mesmo poderia ser dito sobre o presidente: Ayuzawa Misaki não era uma de suas estudantes preferidas. Apenas uma irresponsável desleixada a lhe trazer mais problemas. Não poderia aceitar sua autoridade como a maioria dos alunos obedientemente fazia, sem questionamentos e sarcasmo?

Frustrado, sentou-se naquele que era seu lugar por direito e suspirou profundamente, pressionando as têmporas. Havia inúmeros problemas a se pensar, e aquela colegial impossível havia de tal forma tomado seus pensamentos a ponto de esquecer-se de todos eles. Embora não alimentasse sentimentos negativos por qualquer um que fosse, poderia dizer que sua antipatia por ela estava no limite do ódio.

Sim, ele odiava Ayuzawa ― e iria corrigir sua negligência e teimosia ele mesmo.

****

Por alguma ironia cruel do destino, além de compartilhar a mesma turma, ambos também sentavam-se lado a lado. Na ponta mais próxima da porta traseira da sala, as carteiras dos dois só estavam espaçadas por uma pequena distância adequada à passagem. Foi desta maneira que aquelas personalidades contraditórias se conheceram.

Ele, exímio aluno, foi obrigado a deixar a primeira fileira ao acatar os resultados do sorteio que determinou o posicionamento dos estudantes. Ela, no momento, nem ao menos estava em sala de aula. Preocupado, Takumi até mesmo pensou que seu colega havia contraído alguma doença que o impedira de assistir às aulas. Mal ele sabia que havia aqueles que matavam aula porque era simplesmente de sua vontade.

E conheceram-se, enfim. Trinta minutos atrasada, Misaki adentrou sorrateiramente na sala, aproveitando-se do fato de que sua carteira estava a poucos passos da porta. Sentou-se desleixadamente sobre a cadeira, pouco interessada na matéria ensinada. Ao perceber que o rapaz ao seu lado a fitava, questionou-lhe com ironia:

― O que foi? Perdeu alguma coisa aqui?

Surpreso, o loiro apenas acenou negativamente, mais para si mesmo. Talvez aquela garota apenas estivesse em um dia ruim ― talvez não soubesse que estava trocando palavras com ninguém mais do que o presidente do Conselho Estudantil. Talvez seu uniforme indevidamente vestido, sem quaisquer laços obrigatórios a fechar sua gola, fossem apenas resultado de uma manhã corrida para chegar ao colégio. É, talvez a demora ao acordar explicasse seu atraso. Talvez, talvez, talvez.

Contudo, a atitude repetiu-se nos dias seguintes: a morena sempre chegava atrasada; mantinha-se alheia ao conteúdo ministrado, preferindo rabiscar aleatoriedades em seu caderno, cantarolar baixinho alguma música desconhecida ou dormir sobre a superfície da mesa. E, um dia, Takumi cansou-se de tal comportamento inadequado:

― Com licença ― sussurrou, para não interromper o professor.

Aparentemente, ela não lhe ouvira, ou o ignorava de maneira deliberada. Manteve o olhar focado no que escrevia sobre a folha em branco para matar seu tempo, e nem ao menos fez menção de encará-lo após suas palavras. Ele repetiu algumas vezes mais, sem resultado, até que percebeu o motivo pelo qual seus murmúrios não a alcançavam: camuflados por seus cabelos escuros e então metidos dentro dos uniformes, fones de ouvido a isolavam do mundo restante.

Indignado, retirou ele mesmo um dos fones, atraindo enfim a atenção da colegial. E ela não aparentava estar nem um pouco feliz com a interrupção: inicialmente aturdida com o que acontecera, logo após fuzilou o maldito que apanhara sua barreira sonora para o ambiente externo. Quase cuspiu as palavras:

O que você quer?

― Estamos em um ambiente escolar. ― O loiro mantinha o tom baixo. ― Obedeça às regras.

Ainda que ele não tivesse se apresentado, ela logo concluiu com quem trocava palavras. Afinal, quem mais iria manter aquela pose empertigada como um aspirante a militar? Quem iria importar-se com o que fazia em sala de aula, se nem ao menos estava importunando quem quer que fosse? Quem seria intrometido o suficiente para apanhar a droga dos seus fones?!

― E se eu não quiser, presidente? ― Destacou seu nome com zombaria, direcionando-lhe um sorriso desafiador.

― Então sabe quem eu sou? ― indagou ele, o próprio orgulho incontido. Que nojo, pensou ela.

― Como não saber? ― Dito isto, simulou um sorriso de admiração, que contrastou com sua sentença dura: ― Não há ninguém mais chato, controlador e prepotente nesta porcaria de escola.

O que disse? ― Sua voz agora transparecia ameaçadora, de tal forma que qualquer espírito fraco se acovardaria diante dela. Não conseguira alcançar seu posto sem sua presença potente, afinal.

No entanto, ele não estava lidando com espíritos fracos.

― Você está surdo, ou quer que eu repita?

Ao ouvi-la, Usui controlou-se para não rebatê-la ao afirmar que a surda era ela, com aqueles detestáveis fones! Neste estado enfurecido, ele mal se reconhecia ― ainda que não usasse de conivência para lidar com alunos problemáticos, nenhum deles o desafiara a este ponto. E, portanto, sua fúria diante desta desobediência insistente também alcançara níveis nunca atingidos.

― Será muito mais fácil para você apenas seguir as regras, entendido? ― aconselhou ele, após suspirar profundamente.

― Mais fácil? ― Misaki abafou uma risada desdenhosa. Aquele idiota realmente acreditava que ela se enganaria diante de suas palavras? ― E quem disse que eu vou facilitar qualquer coisa para você?

― Quem você pensa que é para ignorar as normas? ― sussurrou ele, desta vez exasperado. Ela por acaso achava que estava acima de qualquer ordem?

Num ímpeto, a morena levantou-se, atraindo a atenção de toda a sala. Ainda que alguns estudantes mais próximos pudessem ouvir a discussão entre ambos, só naquele momento todos naquele ambiente puderam presenciar a extensão daquela animosidade que nascia entre o presidente irrepreensível e a aluna irrefreável. Ao apanhar sua bolsa, Misaki fez a primeira de muitas mesuras sarcásticas a “Sua Alteza”.

― Prazer, Ayuzawa Misaki. ― Apresentou-se, e fechou a porta atrás de si, deixando toda uma turma boquiaberta e, principalmente, um presidente possesso.

****

Ainda que involuntariamente, essas memórias de seu primeiro encontro vieram em cheio à mente de Usui. Apesar de seu esforço em concentrar-se nas datas e fatos escritos sobre a lousa, era aquela insubordinável que lhe tomava os pensamentos. E se seu comportamento gerasse muitos outros insurgentes? Estremeceu apenas com a possibilidade de perder seu tão estimado controle férreo sobre o corpo discente. Tinha de resolver esta situação ― e resolvê-la o mais rápido possível.

Como de costume, Misaki adentrou na sala com muitos minutos de atraso além do aceitável: faltava pouco tempo até a mudança de professores. Antes de sentar-se, lançou um sorrisinho cínico ao rapaz ao seu lado, como um lembrete de sua presença. Entretanto, depois de passar tanto tempo a pensar em alguma forma de lidar com aquela indisciplina ilimitada, não eram necessários quaisquer anúncios de sua chegada.

― O que foi, Alteza? Sentiu muitas saudades? ― escarneceu a morena, reclinando-se contra o espaldar.

― Pare com este apelido ridículo! ― exigiu ele, nervoso, quando o professor de História deixou a sala. Dali a pouco seria substituído pela de Língua Japonesa.

― Ridículo? ― Ela simulou ultraje. ― Mas é um título tão adequado a um príncipe metido.

Certamente, aquela garota sabia como tirá-lo do sério! “Príncipe metido?” Ele apenas seguia o regulamento escolar, e empenhava-se para que seus colegas também o seguissem. E sua posição como presidente era merecida: não havia quem pudesse lidar com tantos problemas como ele mesmo. Era seu reconhecido cargo, e aquela insolente estava zombando dele! Pressionou as têmporas, gesto comum quando diante dela.

― Ayuzawa, você não quer testar minha paciência.

― Como não quero? ― Ao contrário dele, a morena estava bem humorada. ― Não estou fazendo isto agora mesmo?

― Não pode agir como uma pessoa normal por uma hora, ao menos? ― pediu ele, ainda que não esperasse que ela o atendesse.

― Uma hora? ― Ela pareceu meditar alguns segundos. ― Ok, aceito seu desafio.

Inicialmente, ele não acreditou em suas palavras ― julgou-as levianas; apenas uma provocação mais. No entanto, assim que a professora adentrou no recinto, Misaki endireitou-se, e passou a acompanhar todo o conteúdo. Até mesmo fazia anotações sobre o que era falado! Descrente, o loiro mal direcionou sua atenção à aula, e quase exclamou em susto quando ela ― Ayuzawa Misaki! ― respondeu corretamente a uma das perguntas.

Não apenas ele, mas todos estavam atônitos. A própria professora, uma mulher jovem e cordial, elogiou seu desempenho, e a morena respondeu-lhe com um sorriso agradecido. Como prometera, durante uma hora comportou-se de modo exemplar. Uma hora. Porque, tão logo o horário terminou, ela rapidamente voltou à postura negligente, lançando um olhar travesso ao rapaz ainda estupefato.

― Viu, presidente? Também sei agir como uma “pessoa normal”. ― Frisou bem as aspas. ― Mas duvido que você consiga.

― Eu sou normal! ― distraiu-se ele.

― É, se retirarmos essa obsessão pelo controle e pelas regras e toda a sua presunção irritante, talvez você consiga.

― Se... se consegue agir assim ― começou ele, relevando o que ela dissera. Estava perplexo. ― Por que desperdiça seu potencial?

― Potencial? ― A voz dela tornou-se amarga. ― Eu não sou a porcaria de uma máquina para atender às suas expectativas!

Aparentemente, a pergunta de Takumi a irritou como nunca antes, pois durante o horário letivo restante, ela não lhe direcionou um olhar sequer. Em uma situação normal, estaria caçoando de sua postura ou desrespeitando algum regulamento; contudo, havia apenas desviado o rosto e adquirido um semblante pensativo. Ignorou-o tanto quanto possível o rapaz, e deixou a sala tão logo o sinal de anúncio do término das aulas soou.

Que garota confusa! Não era momento, no entanto, de preocupar-se com aquela rebelde bipolar. Voltou à sala do Conselho, para assinar mais relatórios, resolver mais problemas, manter sua almejada ordem. Com a segurança de que não seria interrompido, cumpriu com suas obrigações com muito mais eficiência e rapidez, e isto o agradava.

Mas, em algum ponto ínfimo e gradativamente insistente de sua consciência, a expressão raivosa e um tanto melancólica de Misaki reverberava. Ao deixar o colégio durante o entardecer, aqueles pensamentos o perseguiram durante todo o percurso até seu apartamento. Apoiou-se, então, contra a porta ao fechá-la, expirando de forma a acalmar-se.

Como de praxe, o cômodo único o recepcionou em silêncio: morava sozinho. Apesar de ocupá-lo há quase dois anos, o ambiente permanecia incólume, sem quaisquer adornos; também limpo, porque o loiro era extremamente organizado. Aquela era sua morada temporária, até a formatura do Ensino Médio. Durante este período, sua responsabilidade e autonomia eram testados por sua família. Se, ao final dos três anos, se mostrasse apto, poderia seguir como quisesse dali por diante.

Uma ironia, afinal: batalhava para alcançar um desempenho exemplar, e isto lhe exigia um controle absurdo; e seu objetivo, ao final de tudo, era a própria liberdade. Perguntava-se o que aquela ingovernável diria se o descobrisse... Que droga! E lá estava ela de novo, emaranhando-se entre seus pensamentos. Ao deitar-se em seu sofá simples, decidiu: iria confrontá-la no dia seguinte para descobrir o motivo por trás daquela mudança abrupta de humores.

****

Aquilo era um inferno.

Apressada, Misaki tentava a seu modo dar conta de todos os clientes no café. Um Maid-Café. Duas das funcionárias não puderam vir, e foi requisitada de última hora para o serviço. Era esta a causa de sua saída repentina da sala de aula, ainda que as palavras daquele idiota tenham lhe afetado mais do que previra.

“Potencial”... estava cansada de ser julgada conforme sua capacidade. De ter que adequar-se à regras porque seu verdadeiro jeito de ser desagradava a quem quer que fosse. Tinha o direito de agir com liberdade, não é? Era a droga de um ser humano como qualquer um!

Seu ódio contra homens manipuladores não era inconsequente: a origem daquele rancor estava em seu próprio pai. Um homem autoritário, irredutível, intolerante ― de tal modo que sua mulher fugiu com suas duas filhas, ainda pequenas, quando este recusou seu pedido de divórcio. Agora eram as três, sozinhas, sobrevivendo apenas da pouca renda que a mãe recebia como enfermeira.

Neste contexto, até mesmo um emprego num ambiente estranho como aquele seria aceito. Imaginava como aquele presidente convencido iria reagir se soubesse de seus segredos. De qualquer forma, não iria revelá-los a ninguém ― muito menos a ele. Voltou àquela detestável função. Fingir-se dócil para aqueles babões nojentos!

Tanto o colégio quanto o emprego eram exaustivos, entediantes e por vezes insuportáveis. Não era nenhuma surpresa o fato de que sua maior diversão era provocar aquele loiro ― somente um entretenimento tão distorcido seria capaz de distraí-la. É, poderia dizer que o maior lazer de seus dias era enfurecê-lo, ainda que nunca fosse admiti-lo e nem mesmo agradecer a ele.

O que, para ela, era um desperdício. Um rapaz tão lindo como ele, a morena não poderia deixar de admitir. Usui tinha algumas fãs dentre as alunas: aquelas para as quais sua personalidade intragável era suplantada pela beleza admirável. Entretanto, ainda que o julgasse atraente, era repelida por sua natureza tão oposta à dela. Um desperdício, ao final das contas.

Voltou à realidade quando percebeu estar divagando sobre ninguém menos do que aquele ditadorzinho! Céus, estava louca por acaso? Tratou de esquecê-lo enquanto atendia aos “patrões” ― nomenclatura ridícula, segundo ela mesma. Já teria de suportá-lo no Seika; quaisquer outras alusões a ele eram desnecessárias. Completamente desnecessárias.

****

Não foi nenhuma novidade ser “gentilmente convidada” à sala do Conselho logo pela manhã no dia seguinte. “Vossa Alteza” o fazia com exagerada frequência, e aquilo tornou-se um hábito banalizado. Anunciou sua chegada de modo espalhafatoso, com uma longa mesura que fez com que alguns dos membros reprimissem o riso.

― E o que deseja desta vez, Alteza? Café? Chá? ― Encenou um linguajar pomposo, que arrancou risadas mais expressivas: ― Certamente uma boa massagem nos pés!

― Ayuzawa, pare de zombarias! ― ralhou o presidente. Voltou sua indignação para o restante dos presentes: ― E vocês, saiam daqui se não estão fazendo nada produtivo!

Ao contrário da “insubmissa”, nenhum deles era ousado o suficiente para desafiar alguém cuja raiva era ameaçadora como a de Usui. Um a um deixaram o recinto, até que somente os dois permanecessem. Educadamente, o último a deixar a sala fechou a porta atrás de si. Em meio ao silêncio inicial, a ironia bem humorada da morena deu lugar a um descaso seco. Foi direta:

― E o que você quer?

― Eu é que pergunto ― interceptou ele. ― O que você quer, afinal?

A pergunta a deixou desarmada. Como assim, aquele déspota estava lhe perguntando sobre suas preferências? Ou talvez estava sendo sarcástico? Não, não conseguia imaginar alguém tão correto usando de tais meios. Sua indagação era sincera, seria a única resolução possível. Portanto, sua resposta seria igualmente honesta.

― O que eu quero? ― Prepare-se para uma lista interminável, avisou mentalmente enquanto cruzava os braços. ― Que você deixe de nos tratar como animais sem nenhuma educação. Que desça desse trono ilusório que criou para si mesmo. Que não ache que suas atitudes são irrepreensíveis. Que... ― Que não seja você mesmo, percebeu ela, para então calar-se. Não iria reprimi-lo como ele tentava fazer a ela mesma.

― Por acaso quer iniciar uma revolução? ― questionou ele, cauteloso após a frase suspensa no ar.

― Não percebeu ainda, presidente? ― Sua voz era novamente divertida. ― Eu sou a revolução.

Com um suspiro, ele ignorou o gracejo da outra, tentando refletir sobre o que dissera. Tentando. Porque, por mais que encontrasse razão nos argumentos da morena, seu obstinado respeito às regras não tolerava exceções. Mesmo quando comprovados. E ainda havia o fato de que ela tinha muito a ouvir, também.

― Pois bem, senhorita revolucionária ― iniciou Takumi, franzindo a testa ao citá-la. ― Eu não sou obrigado a suportar sua imprudência imatura. Não me interessa o que você espera ganhar agindo dessa maneira, mas sendo irresponsável, insolente e cínica não vai chegar a lugar nenhum.

Como se ela já não soubesse! Odiava aquela mania dele de considerar-se detentor de toda a certeza. Aquele estúpido nada sabia sobre seus problemas para falar qualquer coisa ― mesmo que estivesse parcialmente correto desta vez. Porém, não deixou de enraivecer-se profundamente:

― Nessa sua cabeça teimosa, o comportamento de uma pessoa não pode ter justificativas? Existem motivos que você não conhece!

― E o que te faz pensar que não tenho os meus? ― rugiu ele, igualmente irritado.

Encararam um ao outro após a troca de farpas e gritos, entorpecidos com o volume de sua própria voz. Deus, o que estavam fazendo? Brigando como um casal de velhos em uma sala qualquer da escola! E, mesmo após toda a discussão, nenhum deles daria o braço a torcer. Constrangidos com a situação, desviaram os olhos um do outro. Os orbes verdes focaram-se à mesa; os amarelados, à janela. Voltou a quietude, embora desta vez ela se manifestasse com a tensão.

O primeiro a rompê-la foi ele.

― Maldição! ― Após praguejar para si mesmo e expirou lento, ainda que de uma só vez. ― Entenda: eu não vou tolerar nenhum descaso ou resistência, mas... não fui justo com você. ― Sua próxima sentença pareceu exigir dele um descomunal esforço, pois a pausa foi extensa e difícil: ― Sinto muito.

Não, aquilo não era real. Não poderia ser real. Usui Takumi estava a sua frente, evidentemente embaraçado após pedir desculpas. Desculpas! Conseguia até mesmo vislumbrar a vermelhidão em suas bochechas, destacando-se em meio à pele clara e aos fios dourados. Se estivesse raciocinando corretamente, diria que era alguma peça pregada por sua visão.

No entanto, foi mais instintiva. Sem qualquer comando, seus dedos enlaçaram a gravata avermelhada para puxá-la a seu encontro. Como estava de pé enquanto ele permanecia sentado, ao trazê-lo para si levantou o rapaz de seu assento ― e o trouxe diretamente para seus lábios.

Não se poderia dizer que foi um beijo apaixonado e cheio de desejo. Mal durou tanto tempo, e a posição de ambos era desconfortável, com o acréscimo de uma mesa larga a separá-los. Além disso, uma das partes envolvidas estava completamente desprevenida, enquanto a outra mal podia dizer que agiu conscientemente. Apesar de todos os pormenores, no entanto, o contato surtiu efeito em ambos. Porque, ao afastar-se, Misaki estava ofegante e Usui, desnorteado.

― O que você...? ― Sua confusão com o súbito gesto somara-se à vergonha involuntária; o rubor tornou-se exponencialmente mais expressivo.

― Considere como um pedido de desculpas também ― murmurou ela, igualmente confusa. Não era este o verdadeiro motivo de sua atitude, estava óbvio.

Encaixava aos poucos as peças em sua mente. Não havia como negar a si mesma. Estava gostando daquele imbecil. Até mesmo de sua irritante maneira rebuscada com que falava, usando de um vocabulário tão inadequado a alguém de sua idade a ponto de ser hilário. Daqueles suspiros dramáticos. E, como descobrira naquele momento, daquilo que fora o estopim para aquele desajeitado roçar de lábios: de uma bizarra graciosidade que aquele absolutista possuía em seu íntimo. Algo que ela poderia revelar com suas provocações.

― E onde lá isto é um pedido de desculpas? ― indagou ele, exasperado e enrubescido.

Após compreender o sentimento, nem ao menos pensou em declarar-se. Aquele beijo havia sido um indício claro o suficiente, e nem que lhe pagassem iria comportar-se como uma idiota apaixonada. Ele não era obtuso para não descobrir por ele mesmo. Assim como ele, era extraordinariamente teimosa ― ou talvez tenaz, como ele caracterizaria a si mesmo para mascarar seu próprio defeito. Permitiu manifestar alguma malícia, ansiosa para ver sua face corada:

― Por que tão nervoso, presidente? ― Aproximou seu rosto ao dele. ― Vai me dizer que foi seu primeiro beijo?

― C-Cale a boca! ― Não era hora para gaguejar, droga!

Para complementar uma habitual provocação, Misaki riu. Era um riso leve, descontraído, alegre ― de tal maneira que, ao ouvi-lo, o loiro não repreendeu o desacato, fascinado com o som (ainda que emburrado com o fato de que ria dele). E nem por isso ela deixou de rir de seu presidente. “Sua Alteza”. Porque, naquele momento, gostava de pensar que ele era realmente seu.

Notas finais
Well, inicialmente estes dois invertidos eram bem diferentes, né? Depois de pensar bem eu escolhi da outra forma porque... hã... porque eu quis -QQ Mas explicando a demora: pois bem. Eu postaria uma semana e meia atrás. Isto SE eu não metesse na cabeça que quero reescrever os capítulos. Mais especificamente, as cenas com a Suzuna. Não estou satisfeita com a atual - a acho muito passiva e infantil, porque não sei lidar com garotas tímidas não-tsundere, sorry ;-; (Nada contra esse tipo de personagem, é minha incapacidade mesmo). Anyway, vou mudá-la de outra forma, e já estou reescrevendo dos capítulos dois a sete. Perdão pelas mudanças, sei que é chato reler, mas eu sou uma chata perfeccionista e levo esse hobby de ficwriter a sério, então sempre darei meu máximo. Obrigada pela atenção ♥