Change!
9 Capítulo Sete - Uma provocação indecifrável
Notas iniciais

― O quê?
Diante da pergunta feroz dele, uma pessoa qualquer teria fraquejado, ou desviado os olhos em nervosismo. Contudo, segura de si, Misaki sustentou o olhar para aquele rapaz possesso. Porque Shintani Hinata estava puto, de uma maneira que não achava ser possível. E a notícia que o enfurecera viera de si mesma, assim como parte da culpa também.
Ao chegar em casa, não avistou nem a ele nem a irmã mais nova, e foi obviamente procurá-los no quarto de Suzuna. Estavam ambos lá: ela, despreocupadamente esparramada na cama de solteiro, a ocupar o colchão com os membros diminutos estirados. Ele, sentado sobre o chão, ao lado do leito, com a cabeça levemente inclinada para o lado. Dormindo como crianças.
Passou sabe-se lá tanto tempo fitando o moreno, pensando em como contaria a ele o que pretendia. E ele, que decidira cochilar sabe-se lá a quantas horas, acordou desnorteado, embora o sol vespertino adentrasse pela janela. À frente, a presidente do Conselho Estudantil fitava-os com os braços cruzados. Parecia profundamente incomodada com algo.
― Que cara é essa? ― murmurou, em um tom baixo para que Suzuna não despertasse.
― Preciso falar com você ― pediu ela, cautelosa.
Não saberia dizer ao certo o que ela queria, mas a maneira com que ela se portava era estranha. Previsões de más notícias, embora não pudesse prever quais delas. Levantou-se com cuidado, e ambos moveram-se furtivamente até a copa (atentando especialmente para a escada que rangia a cada passo). Ao chegarem, quando a mirou esperando por algum sinal, Misaki suspirou pesadamente, como se o assunto fosse delicado ou complicado demais.
― Diga de uma vez! ― exigiu.
E ela lhe explicou. Todos os anos, no Festival Esportivo, o colégio liberava aos alunos o direito de elaborar uma competição própria, cujas regras e recompensas seriam determinadas em conjunto por eles mesmos. E, da mesma maneira, anualmente o mesmo tipo de prova era selecionado: uma corrida com obstáculos, cujo prêmio era um encontro com alguma garota escolhida, no geral a preferida dentre os rapazes.
Em todos os anos, a primeira opção era Hanazono Sakura, talvez devido à conjunção da beleza com o jeito difícil de ser conquistada, como um desafio a mais. E a enfezada sempre repelia as propostas, alegando em alto e bom som que “o desgraçado que tentasse encostar nela iria ver só”. Logo, às outras garotas, menos incisivas e determinadas, restava a tarefa desagradável de sair com o vencedor.
Apesar de discordar e repugnar aquele tipo de prova, Misaki nada podia fazer contra a voz de tantos alunos, e sempre procurou ao menos livrar as garotas mais tímidas e assustadas da posição incômoda, oferecendo-a aquelas que não se importavam ou já estavam previamente interessadas. Só que, desta vez, não estava lá para zelar pela integridade do evento.
Livres para escolher quem quisessem, os rapazes foram unânimes ao decidir por uma aluna nova. E dentre as calouras, a que se destacou com um misto de aparência inocente e jeito adoravelmente zangado, foi a própria irmã. Ayuzawa Suzuna. Pareciam dispostos a romper as negações da pequena, tentados por ela. Daí a explosão do moreno, a encará-la com uma raiva absurda.
― Como você não impediu essa merda?!
― Eu estava... ocupada ― admitiu, elaborando a resposta com calma. Mais especificamente, num patamar da escada do terraço, pensou ela.
Não negaria que foi um descuido seu deixar que aqueles idiotas resolvessem qualquer assunto sem sua supervisão. E afinal, chegara apenas quinze minutos atrasada. Quinze minutos! A demora seria menor se não estivesse com Usui, pois ao contrário da maioria dos garotos, que provocavam nela repulsa, ele lhe atraía de maneira quase magnética. E seus beijos eram viciantes... Mas não era o momento para ocupar-se com estas (boas) recordações. Iria assumir a responsabilidade, como primogênita.
― Mas não se preocupe ― garantiu, diante da incredulidade do outro ao argumento. ― Eu vou vencer e nenhum miserável vai pôr as mãos nela.
Se não estivesse tão nervoso, Shintani provavelmente zombaria da sentença tão confiante ― em seu estado, porém, apenas arqueou as sobrancelhas e ironizou sem humor algum:
― Claro, a melhor atleta do colégio.
E a irritação dela cresceu com o comentário desnecessário. Droga, ela sabia que suas habilidades físicas não eram nem um pouco impressionantes, e estava contando com a própria força de vontade inabalável para salvar a própria irmã. Certamente poderia pedir que ele vencesse a corrida por ela mesma, mas o orgulho e o fato de que odiava profundamente o moreno à frente fizeram com que descartasse a ideia de imediato. Foi o que deixou explícito quando ele mesmo dissera que não deixaria nenhum imbecil encostar um dedo em Suzuna.
― Não confio em você ― alegou, franzindo o cenho.
― Essa teimosia de vocês é de família, por acaso? ― sibilou ele baixo, ainda que ela pudesse ouvi-lo.
― Mas você pode ser útil ― prosseguiu ela, ignorando a frustração do outro. ― Se algum deles vencer, já sei a quem pedir para espancá-lo.
Pela primeira vez desde que trouxera aquela notícia terrível, o rapaz sorriu, como se algo que ela dissera não fizesse o mínimo sentido. Sorriso irritante de um garoto idiota! Ela não podia acreditar que já chegara a... Não! Era impossível voltar a pensar naquilo. E o bastardo ainda falou, como se ela fosse uma ignorante:
― Só está esquecendo de um detalhe, Misa-chan.
― E o que é? ― O tom não era nada amigável. E ele voltou à postura séria de outrora.
― Eu não vou perder.
Ah, uma frase de efeito prepotente... poderia esperar mais algo dele? Claro que não, conhecia o problemático tanto tempo quanto a irmã. Aturá-lo durante dez longos anos... E onde estava a droga do certificado de santidade por suportá-lo sem espancá-lo? Mesmo que lhe faltasse a força, já sentira tanta raiva do sujeito que seria capaz de tentar a sorte. Preferiu, como sempre, aproveitar-se da vantagem provocadora e desmoralizá-lo:
― Ainda precisa limpar aquela parede, Shintani ― lembrou-o, citando o incidente de alguns meses atrás. Antes que ele protestasse, complementou como quem não diz nada: ― Se eu desenhar a Suzuna lá, você lambe?
Foi indescritível assistir o rosto dele pasmar-se em incredulidade; os olhos castanhos arregalarem-se mínima e brevemente com a audácia. Valera a pena, de qualquer forma, e permitiu sentar-se enquanto ele permanecia estático, de pé, a encostar-se em uma bancada qualquer. Após menear levemente a cabeça, ele perguntou num timbre curioso e ultrajante:
― Não se cansa de ser sádica?
― Não quero ouvir isso de um maldito lolicon¹. ― Estreitou os olhos, nada satisfeita com aquela denominação. E a réplica surtiu efeito:
― Nossa idade não é assim tão- ― Hinata interrompeu-se ao assimilar os fatos. Estava prestes a completar 18, e Suzuna havia alcançado os 15 recentemente. Suspirou, resignado. Aquilo levantava questões que ele não queria abordar no momento. Muito menos para a Ayuzawa mais velha. ― De qualquer forma, não faz diferença.
― Quando vai dizer a ela? ― questionou ela, direta. Era óbvio que já sabia de tudo. Ou quase tudo. Desviou os olhos, pois não estava com a menor vontade de desabafar para qualquer um.
― Não é tão simples quanto pensa.
― Humm... ― começou ela, enigmática. Prosseguiu, numa divertida (e implicante) solenidade: ― toda essa sua relutância poderia ser muito bonitinha, isto se você não fosse um abusado incurável. No final, é apenas um defeito ridículo.
Oh, ela não sabia o quão abusado ele era. E como o demonstrara claramente sobre o colchão da mais nova. Mas guardou para si mesmo os pensamentos daquele (delicioso) evento, porque eles já o confundiam o suficiente sem qualquer intromissão alheia. Preferira dormir imediatamente após todo o amasso lascivo e um tanto desesperado, já que sabia que a mente iria ocupar-se de milhões de “e se” se permanecesse desperto. Milhões estes que infiltraram-se no momento, tanto que apenas fez questão de respondê-la com um sarcasmo monótono e disperso:
― Como você é gentil.
Ao percebê-lo absorto, tratou de ignorar qualquer cortesia ao interceptá-lo: ― Saiba que ela vai ficar extremamente irritada se for a última a saber.
Oh, inferno, ele sabia que sim. Suzuna se enfurecia por qualquer coisinha. Quem dera a questão fosse apenas a timidez ou dificuldade em assumir qualquer sentimento. No entanto, o que o surpreendera fora a insistência de Misaki naquele assunto em específico. Nunca a imaginara como uma incentivadora, e aproveitou-se para usar do mesmo tom que ela anteriormente utilizara:
― Poderia ser muito bonitinho essa sua vontade de nos ver juntos, isto se você não fosse uma sádica. No final, vai continuar a afastar qualquer um com seu temperamento medonho.
― Afastar? ― Arqueou as sobrancelhas, ao recordar-se da razão do atraso. ― Pode ter certeza de que não.
― O quê? Arranjou uma namorada? ― supôs ele, indiferente.
― Shintani, meu ódio aos homens não quer dizer que sou lésbica. ― Quase xingou-o quando ele franziu o cenho, como se aquilo não fizesse sentido. ― Me interessei por um garoto, seu babaca.
― Quem é o azarado? ― indagou, desdenhoso. Mas não sustentou-se por muito tempo. ― Deixa pra lá, não me interessa.
― Ora, não quer ficar para conversar sobre conquistas amorosas? ― ironizou a presidente, como quem convida para um café. Até mesmo gesticulou para a cadeira à frente.
― Não, é assustador demais pensar nas torturas com que você castiga seu namorado.
Haviam tantos erros naquela frase... mas, sinceramente não estava nem um pouco a fim de rebater aquilo ou corrigi-lo. Acima de tudo, estava preocupada com o estado da menor. Afinal, mal entrara no colégio e teria de passar por toda aquela humilhação e ridículo... Sabia da aversão dela à proteção, porém não conseguia deter a si mesma:
― Como esteve a Suzuna?
― Como sempre: reclamando. Achando que pode lidar com tudo ― listou, quase revirando os olhos. Ela era tão previsível. “Me excitando como o inferno.” Pulou, é claro, este longo trecho desnecessário para Misaki. ― Está dormindo desde a manhã.
― Todas as pessoas tem que ter algo que preste ― admitiu, quase que para si mesma. Era um agradecimento pela preocupação do traste com a irmã. ― Mas não quero saber de lolicons na minha frente fora do tempo saudável de exposição. ―Como se a tratar de um animal, apontou para a porta. ― Fique à vontade para ir embora.
Não pôde deixar de parabenizar tanta hospitalidade:
― Sempre solícita, Misa-chan.
Como resposta, a morena nem se dignou a virar. De costas, ela lhe presenteou com um dedo do meio enquanto subia cautelosa a escada que rangia.
****
Aquele baixinho provocador e insuportável! Não bastasse o fato de que deveria vir ao colégio naquele evento que sempre fora a oportunidade perfeita para matar aulas, Kanou também deveria participar daquelas provas ridículas. Tantos idiotas não percebiam agiam conforme marionetes?
Já não estava cumprindo a porra do castigo? Tinha de se submeter àquelas exigências sem fundamento também? Afinal, qual o sentido em competir com tantas limitações e regrinhas fúteis? E à preço de quê? Tanto fazia quem vencia no basquete, ou o time de futebol vencedor ― ao final, todos apenas receberiam as medalhas baratas e comemorariam como cãezinhos adestrados.
Ou pior: os fracassados nem isto receberiam. Iriam consolá-los com a hipócrita comiseração dos vencedores; diriam que “o importante era competir”. É muito fácil afirmar isto quando se está no pódio! E qual era a conquista da derrota além de palavras vazias? Quanta idiotice.
Nada tinha contra a disputa, era claro. Adorava sentir a expectativa pelo resultado, assim como o prazer da vitória. Contudo, como tudo na vida (ao menos em sua vida), deveria ser algo divertido, estimulante e sobretudo caótico. Brigas de rua, sem quaisquer regras, eram suas preferidas. Poder socar alguns rostos e costelas por aí não fazia mal algum, e tencionar o corpo ao máximo em embates particularmente difíceis proporcionava-lhe uma espécie de satisfação que perdia somente para a sexual.
E, como a tudo, foi privado disto por aquela punição estúpida. Retirados os intervalos e o horário extra-curricular, mal sobrava tempo para encontrar algum confronto decente. Restavam-lhe as brigas noturnas, e estas nem sempre acabavam bem. Afinal, era apenas um, e embora forte, nada podia quando os adversários superavam sua capacidade numérica de desvantagem.
Ah, como os punhos coçavam por uma luta...
― Essa raiva toda é medo de perder, é? ― dissera o menor para irritá-lo.
Maldição, não! Estava se remoendo pelo desejo de competir, merda. Contudo, sabia que qualquer explicação seria inútil ― o objetivo de Yukimura era despertar nele a fúria antes contida. Como das últimas vezes, cedeu à medíocre provocação como um idiota. Porque estava com hormônios à flor da pele, e isto afetava o habitual controle férreo de si mesmo.
E tudo aquilo sobre “resolver a situação de maneira pacífica”? Não havia nenhuma paz em sua mente, somente um desejo absurdo de apertar o pescoço fino daquele veterano anão até que este deixasse de respirar. Não estava em seus planos um assassinato, contudo. Conhecia bem aquele cretino, porque apesar de tantas distinções também possuíam muitas similaridades, e uma delas era o gosto ao confirmar que havia tirado o rival do sério.
― Por que tão ansioso para ficar pulando e correndo por aí? ― Decidiu provocar também. ― Seus instintos de cão fiel falam mais alto? Ou é porque sua dona te dá biscoitos?
Ao ouvi-lo citar a presidente, Shouichirou estreitou os olhos alaranjados. Apesar de não aparentar, estava reprimindo também a própria cólera ― quando o moreno de óculos negara a participação, apertou os punhos e respirou fundo para que não o socasse com violência. Sem violência, sem violência. Era o mantra do dia. E o entoou mentalmente mais uma vez, pois estava se esforçando para cumprir aquela promessa que fizera ao outro.
Além disso, deveria ensiná-lo a se comportar (não importa o quão ridícula aquela ideia soasse), e não absorver dele o temperamento ranzinza e entregar-se à vontade tentadora de resolver tudo com agressões físicas. Deveria lembrar-se dos artifícios como vice-presidente, e da vantagem que possuía sobre o outro. E ela nada impedia que farpas verbais fossem expelidas.
― É melhor ser um “cão fiel” do que um covarde brutamonte. ― Cruzou os braços contra o peito, erguendo o queixo como se para representar superioridade.
― Covarde? ― A ameaça implícita na voz de Soutarou assustou até mesmo alguns estudantes que por ali circulavam.
― Sim, covarde ― concordou ao sorrir. Tivera uma ideia. ― Ou vai deixar esse medo ridículo e competir também?
― Está falando em competir contra você? ― indagou, incrédulo. Estava óbvio quem venceria em qualquer quesito: força, resistência, habilidade. O único empate, no entanto, poderia se dar em velocidade, mas isto era apenas um dentre inúmeros pontos.
― Não, seu idiota ― discordou o vice-presidente, disfarçando o próprio ultraje. Ele não era burro para disputar contra ele diretamente. ― Competir comigo, não contra mim.
Antes que Kanou lhe interrompesse, explicou a proposta. Se participassem em conjunto nas atividades em dupla e vencessem, de alguma maneira tentaria livrá-lo do castigo. Resolveria-se ele mesmo com Misaki, se preciso. Com isso, poderia aprender a lidar com a diplomacia de que ela tanto falava, e para isso teria de treinar bons argumentos desde então ― porque convencer a presidente era quase impossível.
Entretanto, se perdessem, o maior seria obrigado a obedecê-lo sem questionamentos e seguir suas recomendações como um bom estudante. Era claro que a derrota implicava numa situação muito pior que a atual para ele, mas esperava seduzi-lo com o incentivo da liberdade. Não foi difícil ao delinquente encontrar diversas falhas naquele plano.
― Como posso confiar em você? ― Afinal, Yukimura poderia atrapalhá-los para que perdessem de propósito.
― Acha mesmo que eu iria trapacear assim? ― questionou, firme.
Mesmo sendo um implicante, enfezado e briguento, não havia dúvidas de que Shouichirou era honesto ― motivo pelo qual ocupava o cargo atual, recomendado pela própria presidente. E não havia escolha para o mais novo: ou aceitava o desafio para ter a chance de encerrar aquela punição estúpida ou prosseguiria preso a ela indefinidamente.
Livrar-se dele o mais rápido possível era a única solução, tendo em vista os últimos pensamentos... e desejos. Quanto mais afastado se mantivesse do franzino e de seus lábios tentadores, melhor para ele mesmo. Quem sabe assim desaparecesse a desordem mental e os constantes abalos à opção sexual que adotara até então. Era um recorde: pela segunda vez em uma semana, concordou com os termos do veterano, contrariado.
― Esteja preparado para enfrentar as duplas dos clubes esportivos ― avisou o menor. Como se ele já não soubesse!
― E o que sugere? ― O cinismo era ácido. ― Todas as quadras e pistas de treino já estão ocupadas.
― O que não impede nada ― retrucou, divertido. ― O acesso é permitido a qualquer aluno.
― Mas nós teríamos que- ― Kanou retesou-se ao compreender aonde o outro queria chegar.
Teriam, sim, de competir em dupla ― de ignorar as desavenças para alcançar a vitória juntos. De trabalhar em equipe. E, para ganharem, deveriam obviamente praticar. No entanto, até o início deste tipo de prova, estavam livres para competir em outras. Livres para competir entre si. Apesar de saber que tudo não passava de um plano daquele nanico inteligente, não iria negar aquela chance. Vencer o idiota, humilhá-lo com a derrota. Porque Yukimura sabia que a única motivação que o incitaria era a própria rivalidade entre eles.
Poderia desejar como quisesse o insuportável nanico; querer devorar a boca pequena e macia, arranhá-lo até cobrir o tronco e as pernas de feridas, tanto fazia. Isto nada mudava a vontade que sempre sentira de derrotá-lo em especial. O principal rival dentre todos ― e neste sentido, para ele não importava as diferenças de porte e altura. Shouichirou era forte como ninguém, e vencê-lo incitava-o como nada faria.
― Boa sorte, Yuki ― desejou com um sorriso presunçoso ao avançar para o vestiário.
― Não preciso de sorte, idiota! ― esbravejou o vice-presidente, de forma indignada, exatamente como em suas memórias.
Gargalhou em expectativa. Estava ansioso.
****
Por acaso ela era maluca? Foi no que pensou Usui ao avistar a morena inscrever-se em todas as competições de corrida possíveis. Conhecia a tendência desastrada da presidente, além da inaptidão física, e nada disso concordava com o tanto de provas no qual ela estava disposta a participar. O que esperara ao deliberadamente colocar a si mesma em uma situação que lhe iria exaurir toda a energia? Bem, ela sempre fora imprevisível.
Ao lado, estava um rapaz que conhecia apenas pelo nome, e ele também parecia decidido a participar destas mesmas disputas também. Ao alcançarem a mesa na qual estava a lista de competidores para a última corrida de obstáculos, gerenciada pelo Conselho Estudantil, ambos carregavam no olhar uma chama decidida e expeliam uma espécie de aura maligna que afastava aos mais fracos.
Para garantir a experiência necessária para vencer a prova, iriam treinar o condicionamento competindo com os futuros adversários em outras disputas. E, embora os enfurecesse, a lista para a “Corrida pela novata favorita” estava completamente preenchida. Futuros cadáveres, pensaram os dois. Ao encerrarem a maratona, inscritos em mais competições do que alguns alunos participariam em todos os três anos do Ensino Médio, separaram-se e Misaki enfim veio ao encontro de Takumi.
Corou ao lembrar-se de que aquele era o primeiro encontro entre os dois desde aquele beijo. Na verdade, beijos. A sensação dos lábios da garota, assim como a respiração levemente entrecortada e a carícia dos dedos finos a revolver os fios loiros permaneceram na memória durante o restante do dia, e perduraram até a noite.
Apesar de acostumado a pensar nela quando sozinho no apartamento, naquele dia em específico foi muito mais vergonhoso. Porque um de seus desejos fora realizado, e ele continuava a querer mais dela, como se insaturável de sua presença e seu toque. Mal começara a acostumar-se no fato de que pensava em alguém em específico, e os pensamentos por vezes tinham rumos tão... pervertidos.
Não esqueceu nem mesmo da maneira desajeitada com que se despediram: a presidente percebeu o atraso e lhe deu um último selinho antes de correr tanto quanto possível até a sala, repetindo até mesmo o descuido ao descer os degraus restantes com rapidez. E ele mesmo nada disse, apenas a assistiu partir enquanto aguardava que o próprio rosto voltasse à cor original. De nada bastou, pois entrou sorrateiramente na sala de aula, ruborizado como nunca ao ignorar os olhares inquisidores dos colegas.
Provavelmente, as bochechas se tingiram da mesma forma quando ela aproximou-se, carregando as diversas fichas que comprovavam a presença na maior parte das provas. E, ao contrário dele mesmo, parecia agir com naturalidade, como se no dia anterior não tivesse experimentado do sabor de sua língua. Mas isto era somente uma máscara, pois ao alcançá-lo um largo sorriso malicioso foi exposto.
― Bom dia, Usui ― cumprimentou animada, enquanto esperava pela reação. A vermelhidão em resposta pareceu agradá-la.
― Bom dia, Ayuzawa. ― Desviou os olhos, perguntando-se quando ela deixaria de provocá-lo. Ou quando o retraimento estúpido deixaria de traí-lo.
Enquanto seguiam para os fundos do colégio, onde se localizavam os vestiários masculino e feminino, a garota continuou a divertir-se ao envergonhá-lo, como quando dissera que apesar da timidez ele sabia corresponder muito bem ― o que ele de fato correspondera ela deixou implícito, para que o loiro pudesse mentalizar ele mesmo. Quando o constrangimento do outro chegou a tal ponto em que ele lhe questionara o motivo pelo qual ela intensificara as provocações, ela foi imediata:
― Ah, entendi. ― Esboçou um simulado sorriso inocente. ― Prefere repetir a experiência, não é?
Sim, Usui queria, embora apenas transparecesse vergonha diante da proposta tão direta da morena. Era impossível lidar com ela, ele pensou enquanto a fala se tornou inarticulada. Ainda que não negasse para si mesmo o sentimento que nutria por ela, não conseguira transmiti-lo em palavras para a colegial, e modo provocativo e espontâneo com que ela se comportava quando estava com ele dificultavam muito mais a declaração.
Já seria tão difícil admitir a qualquer um o que se passava internamente, devido à timidez e à falta de hábito ao lidar com a maioria das pessoas. E aquilo que de fato aproximara a ambos (a insistência e implicância tão naturais à garota) também produzia um anormal constrangimento, a que ele tanto queria romper agora. Como foi apaixonar-se por uma garota tão complicada? E diabos, por que ele mesmo era tão complicado?
Percebendo o dilema interno do rapaz, e preparada para despedir-se, Misaki se estendeu na ponta dos pés para sussurrar no ouvido do rapaz. Iria enfrentar um dia difícil de competição, e a maior distração era provocar aquele loiro adorável e constrangido. Divertiu-se ao observá-lo reagir: os olhos verdes arregalaram-se, o rosto tornou-se lívido e a respiração pareceu fechar-se na garganta. Tudo causado pelo que dissera.
“Pode não ser bom com as palavras, mas é muito bom com outras coisas.”
Em meio a risadas, adentrou no vestiário feminino. E mesmo que extraordinariamente embaraçado, ao ouvi-la rir Takumi apenas confirmou que aquele sentimento por ela, apesar de definido, não se adequava a qualquer lógica existente.
****
― Chute direito essa bola, Haruka!
Estava uma pilha de nervos. Afinal, aquelas negligentes não haviam treinado durante meses para a competição? Ou estavam cedendo ao nervosismo, justamente no dia do campeonato? Não entendia; sinceramente, não entendia porque todo o time estava agindo no campo como um bando de insetos inexperientes e desorientados. Poderia ser muito boa, mas sozinha não poderia vencer um jogo.
― Sakura...
Voltou-se zangada para quem havia interrompido as frustrações mentais, e acalmou os ânimos ao fitar a amiga. Obviamente não despejaria sobre ela tantas preocupações, embora a vontade fosse esganar qualquer um à sua frente. Principalmente ao perceber o desempenho de algumas das jogadoras.
― Ah, Misaki. Um instante. ―Voltou-se para o campo. ― Não me ouviu, Rinkaniro? Vou ter que ir até aí pra te ensinar, é? ―gritou para uma das garotas, a mais alta delas. Num timbre mais brando, indagou: ― O que houve?
― Ocupada demais?
― Estressada, para ser mais exata. ―Ser capitã do time de futebol tinha muitas desvantagens. A impaciência adquirida era uma delas. ― Mas diga logo, mulher.
A maneira da Hanazono tratar das pessoas de quem gostava era hilária. Sempre meio rabugenta, apesar de também solícita. Era uma boa amiga, a quem podia contar ― e para quem Misaki também cederia esforço caso lhe pedisse. Não pôde ir direto ao ponto como era o gosto da outra, no entanto, já que tinha de confirmar seu conhecimento acerca do assunto:
― Você deve estar sabendo que, contra a minha autoridade, eles aceitaram aquela maldita corrida ridícula.
― O que esperar de um bando de punheteiros desesperados. ― A linguagem dela também não era nada gentil (e também geralmente engraçada). ― Mas não vou poder te ajudar. A final do torneio feminino é no mesmo horário. ― lamentou-se, pois a partida começava quando a corrida já havia iniciado. Na metade dela, especificamente. E ela não poderia fazer aquilo pela metade.
― Não, eu não vim aqui para te pedir para correr ― garantiu a presidente. ― Quem vai fazer isso sou eu.
― ...Tem certeza? Você não é lá muito-
― Eu sei, eu já sei ― irritou-se minimamente, ainda que com a própria incapacidade. ― Quero só ter certeza de que alguém vai garantir que Suzuna não esteja na linha de chegada.
― ...Misaki, sua trapaceira. ― Esboçou um largo sorriso. Agora estava falando na sua língua. ― Não esqueça de pedir ajuda à Shizuko também. ― Afinal, a capitã do time de vôlei seria muito útil.
― Falando de mim pelas costas?
A anteriormente citada fitava a ambas de braços cruzados. Usava do mesmo uniforme que elas, a blusa branca de mangas curtas e o short vermelho (ainda que a versão de Sakura mais se assemelhasse a uma bermuda), e carregava em um dos braços a bola característica do esporte ao qual dominava. Quando a viu, a morena de rabo de cavalo não pôde deixar de brincar, com um sorriso travesso:
― Claro, nós te odiamos na verdade e te achamos uma vaca.
― Bela maneira de demonstrar seu amor, Sakura-san.
Aquelas duas trocavam farpas, mas eram amigas desde que as conhecera. Talvez as tantas diferenças as faziam extremamente compatíveis. E ao mesclar a impertinência de uma à petulância de outra, o resultado era uma dupla que roubava dos professores (e de qualquer um que tentasse domá-las) o sono e o sossego. Apesar disso, sentia-se muito bem em meio a elas. Eram incríveis.
― Ei, Misaki. ―chamou a de madeixas mais longas dentre as três, atraindo a atenção. Apontou para a outra extremidade do campo: ― Aquela lá não é sua irmã?
Ao longe, uma pequena garota com traços parecidos com os seus discutia com um dos organizadores. Transparecia uma fúria impressionante para alguém de seu porte, resultado da natureza explosiva e exagerada. Ela mesma avisara ao rapaz, mas se esquecera disso. Suzuna odiava ser a última a saber.
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