Change!

10 Capítulo Oito - Uma reviravolta insuportável


Notas iniciais
Hey! E aí, pessoas divas? Ainda não tinha feito isso, mas vamos lá! Agradeço aos comentários de todo mundo nesse capítulo, e daqui para frente vou voltar a agradecê-los a cada capítulo: SlenderWoman, Elza ~~, RaiChan, Marii, Patrícia Skylark, BouGrellado, Nhljulie, Esquisita Fujoshi, Naty, Anna, ackles, KioMio, NamiSwan, JehMichaelis, Wichilley Mayra, FeryNandy, Frenchie, Bleeh, boku-tachi, Milliana, Ana Margarida, Vicky Megurine, Sorciere, O_tsu, Melany, raquel, bettie, minahamo e Delicate, muito obrigada a cada um de vocês! Me alegraram com as palavras de carinho, incentivo e com os elogios também ~~ Boa leitura!

Se propensa a este tipo de reação, Misaki iria se sentir humilhada. Afinal, era a presidente do Seika, aquela que prezava pela ordem e pelas regras no colégio. Que obtivera o respeito dos alunos com seu empenho. Que mantinha controlados os desordeiros, mesmo sem nunca ter sequer batido em um deles. E, agora, aquela que se aproximava receosa da irmã mais nova, como se esta fosse uma criatura demoníaca e letal.

Bem, ela estava tão zangada quanto uma besta enquanto proferia que nunca pedira para ser escolhida como prêmio para a tal corrida. Se não estivesse em tão delicada situação, até iria se permitir rir dos rapazes, que mais pareciam arrepender-se por ter escolhido a garota errada. Contudo, ela também havia cometido o deslize de não contar nada a ela. Afinal, no que estava pensando? Suzuna obviamente iria descobrir cedo ou tarde ― mesmo avoada como ninguém.

― ... Presidente! ― suplicou um dos garotos ao vê-la, assustado com o temperamento da menor.

Ah, como eles mereciam aqueles gritos. Nunca antes o fato dela ser por vezes escandalosa foi tão conveniente. No entanto, quando foi chamada também atraiu a atenção da baixinha. E, nossa, ela parecia estar muito zangada ao mirá-la com os braços cruzados. Sentia-se perfurada por aqueles olhos amarelados enfurecidos, mesmo que pertencessem apenas a uma garota dois anos mais nova.

― Como tudo isso aconteceu, presidente? ― Oh, merda, nem para chamá-la de onee-chan. A situação era crítica.

― Pergunte a eles ― respondeu, transparecendo tranquilidade. Acenou com a cabeça para todos os envolvidos. Deixou que a própria raiva influenciasse as próprias palavras: ― Eles decidiram sem mim mesmo.

Por pouco ― muito pouco ― não sorriu sadicamente quando assistiu a todos fraquejarem diante do olhar de ambas, pois Suzuna também passou a encará-los com a aura negra que emanava daquele corpinho violento. Sentiu-se vitoriosa ao direcionar a cólera da menor para os verdadeiros culpados: aquele bando de irresponsáveis. Aproveitou a deixa para induzi-los ao que queria desde o início:

― Se estão percebendo, ela realmente não quer participar. A solução será dissolver essa prova retrógrada.

― Não pode contrariar as imposições retrógradas do Conselho, presidente. Elas estão acima de você ― declarou uma das vozes, e nela encontrou um empecilho.

Sakamoto Ryotaro era um dos membros do Conselho; cuidava das finanças. Bem sabia que o rapaz manifestava um evidente desprezo por ela mesma, já que foi a causa de sua derrota nas eleições presidenciais. Apesar de competente, era propenso a gerar intrigas que dificultassem o trabalho da colegial. Tanto que era o principal defensor da manutenção daquele tipo de competição, somente para contrariá-la. Estreitou os olhos, mas antes que replicasse a mais nova antecipou-se, determinada:

― Então vou competir por mim mesma.

―Por acaso é idiota? ― Reconheceram o timbre insolente. Shintani estava logo atrás da pequena, encarando-a com uma irritante incredulidade. ― Não pode representar a si mesma, nanica lesada.

― Cale a boca, Hinata ― zangou-se Suzuna. ― Eu tenho certeza de que sou mais rápida que a onee-chan. ― A presidente quase bufou quando todos os olhares voltaram-se para ela. Não precisava que ninguém sempre a lembrasse que era fisicamente fraca! ― Ou você está querendo dizer que vai me defender como uma maldita princesa em apuros?

― Claro, esqueci que você é príncipe de si mesma. ― Revirou os olhos.

Iniciou-se uma acalorada discussão entre os dois, alheios ao restante. Fuzilavam um ao outro com os olhos, enquanto expeliam comentários mordazes. Com a repentina mudança, muitos pareceram confusos, no entanto Misaki apenas suspirou. Assistia àquilo todos os dias, desde a infância. “Casem-se de uma vez”, implorou ela, impaciente.

E havia algo de errado. Conhecia bem Hinata, o suficiente para saber que ele estava tranquilo demais ― mesmo envolvido em uma briga verbal. Aquilo era o presságio de algo pior. Contudo, os pensamentos foram interrompidos pela irmã, que vociferou insistente enquanto cruzava os braços:

― Não me importa. Eu vou correr por mim mesma.

Não poderia dizer que a cena se deu com rapidez: tudo ocorreu em velocidade normal, facilmente acompanhada por qualquer par de olhos naquele deformado círculo de pessoas. Entretanto, a cena foi tão inusitada que todos pasmaram-se quando Ryotaro andou alguns passos até eliminar a distância até Suzuna. Envolveu-lhe o queixo em uma das mãos, abaixando-se até manter o mesmo nível dos orbes amarelados.

― É realmente um desperdício ― murmurou, olhando-a intensamente. ― Uma garota fofa combina muito mais com o jeito amável.

Mesmo que Shintani não estivesse em seu campo de visão, sabia que ele arregalara os olhos em espanto e descrença. O que aquele idiota estava fazendo! Mas deveria saber que a menor não o deixaria impune como qualquer outra garota. Apesar de assombrar-se inicialmente, fez questão de soltar-se e erguer uma das mãos de encontro ao rosto do rapaz.

O eco do tapa mais parecia ter sido ouvido por todo o colégio. Desenhadas contra uma das bochechas, as marcas dos dedos minúsculos manchavam de rosado a pele masculina. E não apenas isto: contraídas em cólera, as feições de Suzuna deixavam explícito o ódio naquele momento. Gritou a plenos pulmões, ultrajada:

― Quem você acha que é para dizer como eu devo agir? ― Ele dissera a palavra proibida! ― Desprezível, nojento!

E desta vez a morena mais velha sentiu-se em alta velocidade: de esguelha, vislumbrou Hinata possesso. Parecia prestes a dar a ele muito mais do que um mero tapa, mesmo que este fosse dado com todo o peso das mãos de ferro da baixinha enfezada. Esta mesma também evidenciava a vontade de estapeá-lo novamente. Proferiu xingamentos mentais, pois apesar de querer que aquele asqueroso apanhasse, sabia em quantos problemas todos iriam se meter se uma briga se iniciasse. Porque tão logo começasse, além de todas as complicações geradas, atrairia a atenção de Yukimura ― provavelmente se sentiria impelido a interferir com o gosto de distribuir porrada por aí. Já conhecia muito bem a sequência de fatos: ele iria se empolgar, e se Kanou se envolvesse também, tudo se transformaria num mar de sangue.

Enquanto isso, tentava elaborar alguma solução nestes segundos preciosos, mas nenhuma era válida ou eficiente. Estava no limite do desespero quando viu surgir o salvador. Entre a caloura e o garoto interviu um moreno de óculos com um sorriso simpático. Voltado na direção de Ryotaro, não carregava a tensão instaurada entre os restantes ― estava despreocupado demais, até.

― Opa, parece que temos um conflito aqui ― comentou, quase que em descaso. Somente um idiota para dizer o óbvio.

Todavia, o presidente do clube de shogi, Suzuki Hideki¹, era um idiota. E todos sabiam disso, assim como sabiam que ele tinha algum gosto estranho por envolver-se em discussões para apaziguar ambos os lados. Talvez fosse resultado do hobby: manipular as pessoas como peças em um jogo. Era esta a impressão que causava com a voz calma, com um mínimo e quase imperceptível tom de ameaça ao prosseguir para aquele que estava à sua frente:

― Se eu fosse você não iria ameaçar a presidente, Ryotaro. Ainda é subordinado a ela. ― Implicitamente, dizia: “Ponha-se no seu lugar.” E Sakamoto pareceu captar a mensagem, pois soltou um ruído contrariado. Voltou-se então para as Ayuzawas .― Prez², certifique-se que a pequenininha vai estar na linha de chegada.

― O quê? ― enraiveceu-se a menor. Pequenininha uma ova! ― Eu já disse que vou-

Segurou-a pelos ombros quando anteviu no olhar de Hideki a sombra de um blefe. Então ele deveria saber de seus planos com Sakura ― Shizuko deve ter lhe contado. Era bom saber que tinha mais aliados do que pressupunha, e agradeceu polidamente. No entanto, a reverência debochada com que ele lhe correspondera fez com que se arrependesse de imediato. Era por isso que detestava garotos. Tanto ele quanto o amigo, o detestável vizinho, eram insuportáveis.

― E você vem comigo.

Antes que Shintani pudesse reagir, foi arrastado pelo viciado em shogi até um canto afastado. Iria ignorar qualquer reclamação, mas felizmente ele nada dissera. Na verdade, isto era pior ― a raiva consumia-o a tal ponto de retirar qualquer palavra, e o rapaz ainda mirava furioso aquele que pusera as mãos na sua baixinha.

― Eu sei que está ansioso para socar aquele cara, mas... ― começou, e deixou pender no ar a continuação. Faltavam argumentos. Desconversou com prudência: ― Pense bem, é melhor não se meter em problemas.

― E se fosse a Shizuko? ― O tom era sério, e pela primeira vez o fitou pelo canto dos olhos.

― Não estamos falando de um cadáver ― refutou, ameaçador. Nem sabia o que seria capaz de fazer na mesma situação. Porém, usou do rumo da conversa para entrar num tópico delicado: ― E Shizu-chan é minha namorada. Que eu saiba a pequenininha é só sua vizinha, não?

Conhecia bem o amigo para saber do arrastado sentimento que ele nutria pela caloura, e ao qual ele sempre negava terminantemente. Apesar de entender a questão da super-proteção (porque muitas vezes ele mais agia como irmão mais velho), inquietava-se com a situação a ponto de querer ajudá-lo. Consciente disso, Hinata suspirou, aborrecido:

― Você gosta de ser inconveniente, não é?

―Hã... gosto sim. ― Não escondeu. ― Mas esta não é a questão. Não sei como aguenta.

― Quem disse que aguento?

Ora, ora. Arqueou as sobrancelhas, surpreso. É, ele não era lerdo como imaginava .

― Você decide o que vai fazer ― resignou-se, ignorando quando o outro concordou. ― Mas saiba que não acho certo o que está fazendo. ― Quantas vezes mais teria de repetir? ― Nunca vai saber se não arriscar. Vocês podem até deixar de ser amigos se não der certo, mas pode ter certeza que se tudo continuar como está você vai surtar em algum momento.

Aquele era o problema: Hideki sempre expunha verdades. Verdades inconvenientes, como ele mesmo. Evidenciava-as, deixando-as tão claras que qualquer menção de fuga era impossível. Bem, era por isso que se tornaram amigos, mesmo que na maior parte das vezes a sinceridade absurda fosse irritante. Como agora.

― Se quer mesmo competir nessa corrida, você tem alguns problemas. ― Mudou de assunto, sabendo que não renderia frutos. O timbre tornou-se firme, quando como analisava as estratégias que tanto apreciava: ― Kinoshita Chihiro e Sakamoto Ryotaro são os alunos mais rápidos do segundo ano,e você sabe que um deles com certeza vai participar. ― Viu quando Shintani reagiu em contrariedade, apertando os punhos. Ignorou-o: ― No primeiro ano, a maior parte dos garotos não vai concorrer porque tem medo dela e da presidente. ― Era quase hilário. Mas o outro assumira a postura mais séria.

― Alguém do terceiro ano com quem eu tenha que me preocupar?

Existia um motivo pelo qual o comportamento intrometido de Hideki causava-lhe tantas inimizades: estava conjugado a uma insistência quase sobrenatural. Dissimuladamente, fingia esquecer do ponto principal, para às escondidas e de modo vagaroso introduzi-lo novamente. Assim o fez, plantando no amigo uma semente que iria brotar, tinha certeza. Um blefe.

― Bem, existe sim. Ele é meio quieto e esquisito, mas está entre os melhores em todos os aspectos. Não sei se o conhece, chama-se Usui Takumi.

****

Tentou espairecer a cabeça, eram tantos os problemas. Mais parecia prestes a explodir, até porque tudo se somava. No entanto, estava acostumada àquela pressão acima de si mesma, devido ao cargo. E não deveria mostrar-se inapta a estes desafios, era esta a função como presidente. Para facilitar o processo e dar-lhe o tempo necessário para voltar a encarar tudo, Misaki foi molhar o rosto em uma das torneiras aos fundos. Não foi difícil notar que havia alguém às suas costas, poucos metros atrás, enquanto umedecia as mãos.

― Não é certo chamar as pessoas de “perseguidoras” quando você também é um, Usui.

Com a malícia entranhada na sentença, ele corou, inarticulado. Assistira ― como qualquer aluno na quadra ― ao escândalo de minutos antes, e não demorou a assimilar o fato de que ela (novamente) estava tentando resolver todos os conflitos do mundo sozinha. Queria dizer a ela que estava preocupado e que não era saudável carregar tanto estresse, mas a frase foi mudada com a porcaria do retraimento.

― Não... não acha que está exagerando?

― É a minha irmã de quem estamos falando. ― Inclinou-se contra a pedra que envolvia a área das torneiras, apoiando ambas as mãos ali. Fitava o nada, concentrada em si mesma. ― Eu não posso deixar ela desprotegida.

Era admirável a preocupação dela com a família. Sentiu algo estranho em si mesmo, mas logo pode nomear a emoção antes desconhecida: orgulho de outra pessoa. Era, até certo ponto, recompensador saber que se apaixonara por uma garota tão afetuosa quando se tratava da caçula. Lembrou-se de Gerard e seu humor inconstante, ainda que fraternal, mas logo lhe veio à mente:

― Você vai... correr? ― Arqueou as sobrancelhas ao lembrar-se da estabanada que tropeçou em fios coloridos.

Quase grunhiu, enfezada. Estava cansada de todos falando de sua falta de habilidade!

― Claro que vou. Não vou deixar Shintani achar que pode fazer tudo sozinho, aquele cretino.

― Shintani? ― De tão furiosa que não percebeu a alteração na voz.

― Sim, Shintani Hinata. Meu vizinho.

Irritada e apreensiva, torcia para que ele não decidisse socar aquele repugnante! Lidar com brigas era sempre problemático, e justamente quando Kanou se aquietara (como resultado dos castigos), não precisava de mais confusões. Já Takumi associara o nome ao rapaz incógnito que estava junto à presidente. Como sempre, a honestidade fez com que confessasse, enquanto mirava o chão.

― Vocês parecem próximos.

― Infelizmente ― concordou, irritada. ― Conheço o imbecil desde os cinco anos.

Lembrou-se de quando um garoto animado se mudara para a casa ao lado com um sorriso de orelha a orelha. Estava sentada à janela, observando a rua com interesse e desejo, pois estava de castigo e não podia sair para brincar. Enxergou de imediato o carro de uma família que desconhecia; dentre ele estava uma criança, provavelmente da mesma idade dela.

Não conhecia assim tantos garotos, pois eles sempre a excluíam das brincadeiras. Em seu íntimo, torcera para que aquele fosse diferente, porque o achara bonitinho e fofo numa primeira impressão.² E, realmente, ele não se importava de brincar com meninas. Mas desmistificou a fantasia inicial quando descobrira que ele tinha gosto por jogar terra no rosto delas, ou puxar marias-chiquinhas de baixinhas. Desde pequeno um arruaceiro irresponsável.

― ...Entendo.

Enfim notou a expressão emburrada dele. Como não percebera antes?

― Você está com ciúmes? ― Não reprimiu o sorriso sugestivo. Tão fofo!

― N-não são- ― Não havia como negar, mesmo que a resposta involuntária fosse esta. Desviou os olhos, absurdamente enrubescido. ― Não posso evitar.

De alguma maneira, achava surpreendente o quão transparente ele era. Não que desgostasse ― era uma das características de que mais gostava no loiro. Havia alguma atração intensa pela forma desajeitada com que ele agia, pelo gaguejar embaraçado, pelas emoções que exprimiam-se claras por estes pequenos gestos.

Havia, no entanto, algo do qual se arrependia. Quando se beijaram, foi ele a tomar a iniciativa. Ainda que não tão obcecada quanto a irmã (que, no caso, era obcecada por competições), adorava assumir o controle. A posição de presidente não era por acaso.

E por isso estendeu-se na ponta dos pés para alcançar seus lábios. Apanhou-o de surpresa, e isto a agradou ligeiramente. Assim como o sentiu estremecer ao lamber o lábio inferior masculino, antes de mordiscá-lo. Quando enfim aprofundou o beijo, já havia envolvido o pescoço de Usui com ambas as mãos, e logo sentiu que ele fizera o mesmo à sua cintura.

Era calorosa a maneira com que ele lhe cingia, apertando-a minimamente contra si mesmo como se nunca quisesse soltá-la. Ainda que não o admitisse, sentia-se acolhida naquele abraço em meio ao beijo, e também à maneira com que ele lhe correspondia. Permitiu-se mais ousadia enquanto usava dos dedos para puxar alguns fios da nuca que descobrira sensível da última vez; friccionava a língua contra a dele num encontro delicioso.

Como uma segunda declaração a confirmar a primeira, o contato físico tornava-se cada vez mais estreito. Ao contrário das palavras, o corpo não deixava margem às dúvidas: gostavam um do outro; queriam-se por perto. Tão perto quanto possível.

Já havia esquecido todos os problemas.

****

― Como pode ter achado que eu não descobriria? ― indagou Suzuna, tão logo voltou ao seu encontro. Ótimo, mal chegou e ela já estava mal-humorada. Maravilha de dia.

― Não pensei muito nessa parte ― comentou, pouco atento.

Memorizara os nomes citados por Hideki e parecia entoá-los repetidamente. O que fazer para vencer tantos? Podia ser bom nos esportes, mas nunca fora o “melhor dentre os melhores”. Em uma corrida não haviam estratégias, somente agilidade e alguns poucos fatores envolvidos. Deveria esforçar-se ao máximo e esperar por bons resultados. Mas e se...?

Enquanto isso, a pequena estava transtornada. Como sempre, queriam resolver tudo e tratá-la como criança. Passou a vida toda com dois irmãos mais velhos cuidando dos seus passos. Uma delas dizia ‘cuidado’, e o outro demonstrava-lhe o mal-exemplo. Mas sempre foi a caçula. Porém, o pior estava nas consequências daquela maldita competição. Nem queria imaginar se aquele repulsivo...!

― Por que escolheram a mim? ― exprimiu, numa negação.

― Talvez porque pareça dócil e indefesa ― disse ele, sem rodeios. Aquela tapada nunca iria perceber que era linda e que as pessoas não deixavam de notá-la. Completou quando a morena o olhou zangada: ― E pare de me olhar desse jeito, é só ver pelo seu tamanho.

― Eu não vou beijar ninguém! ― afirmou, diante da resolução. Era inaceitável!

― Esse é o espírito ― concordou ele, mas lhe deu um leve tapa na cabeça. ― Agora pare de se preocupar. ― Se já estava tenso o suficiente, não poderia deixar uma louca dramática piorar as coisas. E ela pareceu aquietar-se, mas prosseguiu com uma proposta no mínimo estranha:

― Hinata, quero fazer uma aposta.

― Não é o melhor momento para is-

― Me ouça antes! ― Por alguns segundos pareceu pensar se realmente continuaria. Engoliu o fôlego e o orgulho, e ao expelir enfim falou: ― Eu aposto que você não ganha.

Demorou uns segundos para entender. Mas veio como um estalo: ela estava usando da má sorte como último recurso. Ambos sabiam que ela nunca vencera uma aposta sequer. Portanto, estava contando que ele poderia ajudá-la. Ah, aquela baixinha sabia como surpreendê-lo. Sorriu, atrevido, ao provocar:

― Não se cansa de perder, pirralha?

― Não abuse. ― Estreitou os olhos diante daquele pretensioso. Já havia se arrependido.

― Agora vamos. ― Com a confusão nos olhos amarelados, apontou para onde se daria uma das competições em duplas: segundo o cartaz, um carregava o outro nas costas. ― Temos uma corrida para participar.

― Você me inscreveu sem nem me perguntar? ― questionou, mais incrédula que irritada.

― E você ainda se surpreende porque eu faço o que me dá na telha? ― Revirou os olhos. Fez menção para que ela se dependurasse em seu dorso. ― Suba aí, macaquinha.

Numa pequena vingança, usou do impulso para pular com toda a força disponível. Comemorou secretamente quando percebeu que o salto fez com que ele se desestabilizasse um pouco, pendendo para frente. Ainda assim, envolveu-o tanto com os braços ao redor do pescoço quanto com as pernas, que ele rapidamente apanhou.

― O que foi tudo isso? ― perguntou, curioso e ranzinza. Apesar disso, a carregava sem dificuldade. Suzuna sorriu, inocente:

― O quê? Sou pesada para você?

― Mais leve que uma criança. ― Para comprovar, fingiu soltá-la algumas vezes, impulsionando-a para o alto, para agarrá-la de novo. ― Olha, fácil.

― Me segure direito, retardado.

Sorriu com um prazer cruel ao perceber receio na exigência dela. ― O que foi? Medo de cair porque está tão alto?

Quem não sente medo de cair é idiota!

Disfarçar as fraquezas considerando-as comuns, esta era Suzuna. Contudo, ela não deixou por isto: mal ele tentou repetir o gesto, enlaçou os fios castanhos entre os dedos para manter-se fixa. Com a dor, ele reclamou num grunhido. Aquelas mãozinhas eram demoníacas.

― Se nós perdermos, a culpa vai ser da sua violência gratuita.

“Gratuita!”, pensou ultrajada. Contudo, após a menção da palavra “perder” encerrou os puxões. Afinal, era fácil convencer uma nanica competitiva a competir. Por alguns minutos, ambos permaneceram em silêncio enquanto caminhavam. Uma tentava prever (se sucesso) como tudo iria se encerrar. O outro, atiçado pela proximidade, recordou-se do que ocorrera no dia anterior, quando pudera ter para si mesmo sem nenhum receio; mesmo que por pouco tempo.

Sentia com torturante clareza a protuberância macia dos seios da morena contra as costas, assim como a respiração leve e instigante desta sobre a nuca. Com as mãos, segurava a porção que antecedia a parte de trás do joelho, e os dedos abusados ansiavam por subir até as coxas e acariciá-las novamente. “É, escolheu a prova errada para competir”, repreendeu a si mesmo.

Aérea, Suzuna por vezes balançava minimamente os pés que pendiam inertes, como se para ter certeza de que ainda mexiam. Mesmo que o medo de cair já houvesse passado, sentia-se nervosa se não confirmasse que poderia sustentar-se numa queda. E (nunca iria admitir, de maneira alguma) era confortável a sensação emanada pelo melhor amigo.

Como poderia dizer... o corpo dele era quente. Além disso, distraiu-se com o cheiro inebriante das madeixas castanhas, tentando aspirá-las de modo mais discreto possível. Tanto que quase pulou de susto quando ouviu sua voz, julgando ter sido pega no ato curioso.

― Diga... você lembra alguma coisa de ontem? ― Não pôde evitar de perguntar, ainda que soubesse a resposta. Ela estava tranquila demais.

― Você veio e eu dormi ― respondeu simplesmente, aliviada por passar despercebida. ― Por quê?

“Porque está se esquecendo da parte em que nos agarramos na sua cama.” Desconversou: ― Por nada.

Felizmente, ela não percebia estes ínfimos detalhes. E se por um lado era uma dádiva, por outro era um tormento.

****

Inegável era a tensão entre eles. Alcançara o auge, pois estavam empatados: venceram cada um duas competições dentre a corrida de obstáculos, a de 400 metros livres, futebol e baseball. Não se importavam de ganhar dentre todos ― era uma competição entre eles mesmos.

De tal forma que para Yukimura a rivalidade foi o motivo pelo qual perderam a primeira das competições em dupla, a corrida de revezamento. Acreditava que Kanou estava tão irritado no momento que acabou por perder na segunda parte, mesmo que ele tenha oferecido vantagem contra os adversários na primeira etapa.

― Alguém está ansioso para ser meu escravo ― cantarolou, quando foram ao vestiário. Sorriu com antecedência quando o ouviu bater a porta do armário com força desnecessária, enquanto alguns dos outros garotos no recinto estremeciam com o som ameaçador.

― Nem fodendo, nanico ― rugiu, de costas para ele. ― Nós vamos ganhar as três próximas e vou me livrar de uma vez dessa merda.

― Está empolgado para “correr e pular por aí”, Kanou-kun? ― Lembrou-se dos termos que ele usara para definir os participantes e gargalhou. É, havia muita diversão naquela tarefa. Ao menos enquanto a situação estava a seu favor.

― Mais ansioso para me livrar de você ― proferiu o mais novo, seco.

Franziu o cenho com a alusão implícita. Deixou bem claro: ― Não ache que eu gosto de ficar bancando a sua babá, idiota.

Ao vislumbrar o relógio, lembrou-se que a próxima prova em dupla começaria em pouco tempo. Resumidamente, explicou ao outro o objetivo: era uma corrida comum; a diferença estava em que um dos participantes (geralmente o maior e mais forte) carregava o parceiro até a linha de chegada. Simples, fácil. Mas como sempre...

― E por acaso vou carregar você?

― Não, quem carrega sou eu ― ironizou, descrente. Por que ele insistia em tornar tudo mais complicado? Tentou desafiá-lo: ― Qual é, não aguenta o peso de um “nanico”?

― Não estou com vontade e não sou um burro de carga ― recusou, sentando-se em um dos bancos com a tontura. A ausência dos óculos por tempo prolongado lhe causava um desconforto leve, e por vezes estreitava os olhos para enxergar melhor.

― A questão não é se você quer ou não ― impacientou-se Shouichirou.

Era terrível depender de sua boa vontade. Se fosse ele o mais alto e mais forte, já o teria arrastado até lá de modo humilhante. Na verdade, nem teria proposto aquele acordo: teria o coagido com o medo e a dor. No entanto, tinha as próprias estratégias de convencimento. Aproveitou-se da privacidade: estavam sozinhos no ambiente, pois todos haviam partido devido à proximidade do horário das principais competições.

― Acho que já sabe o que vou fazer se continuar negando como um medroso ― murmurou acima dele, porque encarava de pé o rival sentado.

Assim tão próximos, conseguiam até mesmo antever as reações um do outro com os sinais corporais. Foi assim que percebeu quando Kanou engoliu em seco, pareceu deliberar minimamente e, de modo assombroso, sorriu de modo simultaneamente furioso e sádico. Por alguns milésimos de segundo, o menor arregalou os olhos enquanto o outro aproximou-se mais para sussurrar:

― Não vai me pegar de surpresa de novo.

Como ele era ingênuo. Acreditar que Kanou perdera na corrida de revezamento porque se deixou levar pela rivalidade... Já lidava com ela há anos, fazia parte de sua vida tal como respirar. Aquilo que consumira a concentração era algo recente para ele: a insistente e abrasadora atração que sentia pelo veterano.

Perguntou-se diversas vezes por que negava que o queria, e as únicas respostas eram preconceitos burros. E quem era ele para reprimir as próprias vontades por convenções idiotas? Sempre as rechaçara! Era Kanou Soutarou, o delinquente sem regras, sem limites. Principalmente quando se tratava de sexo.

Por que importar-se se ele era homem, se era bom? Com isso, mandou tudo à merda. Não iria mais reprimir nada, nunca mais. E também por este motivo zombou de Yukimura com o sorriso: ora, aquele bastardo iria se arrepender por tê-lo provocado e, principalmente, por achar que não haveria vingança.

Num ímpeto, puxou-o para jogá-lo rudemente contra o banco. Ignorou qualquer lamento do garoto, apreciando o sobressalto inequívoco no olhar incrédulo e nos lábios trêmulos, pouco antes de tomá-los com violência. Abusou da boca do vice-presidente, chupando-a, contornando-a com a língua, mordiscando-a.

Quando mais ávido, agarrou as coxas do garoto, enquanto usava da língua para devorar o estúpido ainda perplexo. Este tentava empurrá-lo, esmurrá-lo, arranhá-lo, mas nada conseguia deitado sobre a superfície amadeirada. Mas que porra, sempre o provocara com a ameaça de beijos e quando ele mesmo tomara a iniciativa iria reclamar? Mas havia um bônus ao causar tal efeito sobre o tampinha: era a réplica perfeita aos meses de castigo.

Enquanto era violado tanto por lábios veementes quanto por dedos simultaneamente dolorosos e prazerosos, Yukimura retorcia-se em desconforto. Onde estava o orgulho, sendo subjugado assim pela porcaria de um beijo e algumas apalpadas? Havia muita diferença quando era ele a domar a situação; ser domado era ultrajante!

Ultraje maior era Soutarou excitá-lo de tal forma a proporcionar um latejar insistente apenas com a língua faminta e as indecentes mãos a colori-lo de marcas e arranhões pelo torso e pernas ao entranharem-se no uniforme de educação física. Sentia a bermuda apertar a ereção crescente, e não foi mais capaz de impedi-lo.

Era delicioso.

A quem queria enganar, sabia que tudo estava perdido quando o delinquente lhe dirigira sorriso sádico e o olhar sexy. Involuntariamente, entrelaçou os dedos aos fios do moreno mais alto e passou a corresponder quando ele resvalava a língua à sua, tornando a carícia mais violenta e urgente. Prendeu também entre os dentes o lábio inferior de Kanou, puxando-os quando ele apertou-o muito próximo da virilha.

Pela primeira vez, o veterano gemera ― o som coincidira com o pulsar férvido de ambos. Ouviu o obsceno riso curto de Kanou em resposta, mas estava absorto demais para zangar-se. Apenas desejava, fervorosamente desejava que ele prosseguisse. Em uma expectativa quase insuportável, anteviu todo o prazer quando os dentes do mais novo arranharam a pele da garganta, enquanto a mão achegava-se cada vez mais até o próprio volume. Mais um pouco e seria capaz de sentir os chupões e o estímulo intenso; a mente mal se manifestava, incoerente.

Foi por isto que não ouviu quando uma dupla entrou esbaforida e completamente molhada. Por sorte, o míope escutara com alguns segundos de vantagem e afastou-se ao sentar na outra ponta do banco longo. Ambos os alunos de natação conversavam animadamente mal se apercebendo dos dois que já ocupavam a sala.

Ainda deitado, Yukimura controlava a própria respiração inquieta, e somente isto lhe custava um esforço descomunal. Era nítido cada inspirar e expirar, porque o peito magro subia e descia descompassado. Uma das mãos cobria-lhe os olhos, e os lábios ainda estavam entreabertos, facilitando o ofegar. Para um distraído, poderia muito bem ser alguém que passara mal e foi levado às pressas até o local mais próximo.

Por que os idiotas resolveram trocar-se justo naquele momento? Não poderiam esperar... uma hora? Sentia-se frustrado, e o corpo sensível com a reminiscência das carícias vívidas acentuava a perturbação. No entanto, nada ― nada! ― comparou-se à cólera que o invadiu quando viu o atrevimento no olhar de Kanou. O desgraçado mais parecia satisfeito com o seu estado desesperado por mais.

Pior que isso ― esboçava nos lábios um sorriso cretino de superioridade ao levantar-se. E lá tinha seus motivos: além de livrar-se de um peso que o reprimia há tempos, pôde enfim devorar o menor (mesmo que interrompido) e assisti-lo tão indefeso e submisso com facilidade.

― Agora estamos quites, moleque. ― Recordou-se do primeiro beijo. Fez menção de sair, mas voltou apenas para humilhá-lo um pouco mais: ― E mesmo assim, não vou te carregar.

Após poucos segundos fitando-o como um babaca, Yukimura socou o armário à frente, assustando os dois garotos que haviam entrado no vestiário. Merda, merda, merda! Não conseguira convencê-lo, perdera a principal forma de ameaça, estava com uma raiva que beirava o inaceitável e o instinto assassino incitava-o a esquartejar o infeliz. Mas droga, não podia negar ― o corpo não o deixaria. O maldito beijava muito bem.

Notas finais
¹Suzuki Hideki é esta gracinha aqui: http://static4.wikia.nocookie.net/__cb20121220141113/kaichouwamaidsama/images/c/c6/127171.jpg Esse manipulador, abusado e inconveniente vai aparecer mais por aqui, mas esta foi sua estreia *love* ² Prez é uma maneira informal de se dizer “president”. ³ Sim, Misaki se apaixonou por Hinata à primeira vista. Como acontece na realidade, o amor não vingou e hoje eles se desprezam. Bem, já que ele gostava dela no original, resolvi inverter por aqui porque a temática permite :v Yep, estava ansiosa para escrever algum capítulo no qual Usui está com ciúmes ~~ E no próximo ele vai se encontrar com Hinata *spoiler* então vão ter mais ciúmes ~~ Assim como queria mostrar o potencial seme do Kanou =9 Divo da minha existência *love* Tá, ok. Agora vem os agradecimentos: sinceramente, eu sou uma sortuda por ter vocês comigo *love* É sério, é maravilhoso ter leitores que acompanham minhas histórias e gostam delas ainda por cima. Tipo, incrível! Como são capazes de fazer uma garota de vinte anos correr pela casa alegre como um pinto no lixo com reviews, MP's, comentários no facebook ou simplesmente conversando no bate-papo. Esta semana recebi elogios que, sinceramente, me deixaram sem ar! Então, obrigada mesmo a cada um de vocês, porque os admiro muito. Vocês são divos *love* Espero poder sempre fornecer o melhor de mim para que continuem a gostar do que leem aqui. See ya!