Change!
1 Capítulo Um - Um início conturbado
Notas iniciais

Existe algum mundo paralelo ao nosso?
Todos temiam aquela garota. Ayuzawa Misaki, presidente do Conselho Estudantil. A única mulher a assumir o cargo no Colégio Seika, que há pouco tempo aceitara estudantes do sexo feminino no corpo discente. Naturalmente, os garotos ainda compunham a maioria ― isto, porém, numa foi problema para aquela morena convincente. Sem nunca sequer encostar um dedo em um fio de cabelo masculino, assumiu o cargo mais importante; era respeitada ― e, como já dito, temida ― por quase todos os alunos.
Tanto a posição como presidente quanto o respeito que alcançara por meio desta eram fruto não do uso da violência, e sim da exímia persuasão ― e, para aqueles nos quais esta persuasão não surtia efeito, as ameaças sádicas eram excelentes substitutas. Porque, embora aparentasse ser pacífica e diplomática, não ofereceria trégua alguma àqueles que eram o maior alvo de ódio: os baderneiros.
E, naquele momento, Misaki estava ocupada a tentar apartar uma briga entre alunos do primeiro ano. Calouros eram sempre problemáticos.
― Kanou! Largue esse garoto! ― bradou, estridente.
Raramente se intrometia em brigas, e nas poucas situações em que o fizera, acabava com filetes de sangue a escorrer dos lábios. Era fraca fisicamente e tinha consciência das próprias limitações. Porém, a potência de suas palavras, na maior parte dos casos, era suficiente para apaziguar os espíritos enfurecidos. No entanto, ela estava lidando com um delinqüente. O pior deles.
― E o que vai fazer se eu não largar, hein, presidente? ― ironizou Kanou Soutarou, enquanto levantava um infeliz qualquer pelo colarinho.
Alternava os olhos cobertos por lentes escuras entre o menino entre suas mãos e a morena de braços cruzados alguns metros há frente. Uma multidão já cercava a cena e o moreno encapuzado sorriu. Suas performances exigiam uma platéia numerosa. Já a colegial apertou os punhos, enquanto pensava em alguma maneira de proteger o pequeno antes que o delinqüente retirasse os óculos. A habilidade hipnótica era imbatível; ela mesma já fora um alvo.
― Kanou-kun idiota! ― Uma voz recortou-se do silêncio.
E um punho diminuto, porém rápido, foi de encontro ao rosto de Soutarou. O corpo do maior cambaleou e foi ao chão, e o indefeso envolvido naquela briga, agora liberto, fugiu por entre o público. Misaki soltou um suspiro condescendente ao ver de pé, numa postura adequada ao combate, o “diplomático” vice-presidente. Como sempre, ele iria resolver os problemas com os punhos. Era esta a linguagem preferida de Yukimura Shouichirou.
― Vamos! Levante, Kanou-kun! ― gritou o pequeno. Apesar do tamanho, era o único capaz de enfrentar o hipnotizador. Além disso, isto lhe garantia uma velocidade muito maior. ― Vou te ensinar de uma vez a não subestimar quem é menor que você.
O moreno de óculos abafou uma risada enquanto limpava a boca com as costas da mão. Encarou o único adversário à altura. Era uma piada equiparar-se àquele moleque nanico; contudo, a força e velocidade lhe garantiam um mínimo respeito. Mínimo.
― Não enfrento quem eu não consigo enxergar, Yukimura-senpai. ― Apesar da ofensa, mantinha o tratamento adequado ao veterano. Cuspiu no chão o sangue que o pequeno lhe arrancara, como se para reforçar a sentença pejorativa.
― Ora, seu...! ― E se iniciaria uma nova briga se Misaki não interferisse, puxando o auxiliar pela lateral do uniforme.
― Yukimura! Quieto! ― A ordem foi seguida, já que Shouichirou não moveu-se um passo mais. ― Já fez a sua parte; o garoto espancado já fugiu. Vá garantir que ele será tratado na enfermaria!
― Eu ainda posso dar um jeito n...
― Agora! ― ordenou ela, obstinada.
― Tudo bem, presidente ― concordou ele com um sorriso, enquanto afagava os próprios cabelos.
Inacreditavelmente, a relação entre ela e o vice era bastante amigável, embora as tendências violentas do menor fossem desagradáveis para a morena. Todavia, era desta força de que precisava para levar adiante a intenção de livrar o colégio da desordem ― o fato de que seu apoio geralmente descontrolava-se ao impor castigos aos rebeldes era um ônus com o qual tinha de lidar. E, apesar da natureza igualmente irrefreável aos dos alunos que enfrentava, Yukimura era, na maior parte do tempo, obediente à líder.
― Então você é mesmo o cachorrinho dela? ― provocou o encapuzado, em menosprezo.
― Você, cale a boca ― vociferou ela, e o ódio evidente no tom e a ferocidade no olhar fez com que ele realmente se calasse. Murmurou para que Yukimura partisse e o encarou uma vez mais, desta vez com um sorriso sinistro. Agora não havia um aluno ameaçado como escudo para protegê-lo. ― Por onde eu começo? ― sibilou ela, estranhamente mansa. Apanhou um pequeno caderno do bolso e passou a anotar. ―Ah, sim, intervalos vetados pela confusão que você criou. Aulas de repreensão durante toda a tarde pela briga que você começou. E... ― Não havia nada pior, pensou o moreno enquanto apertava os punhos em fúria. – Seis dias de férias a menos, por desrespeito a mim e ao vice-presidente. ― Lançou um último sorriso dissimulado: ― É isto o que eu faço quando você não larga, Kanou.
Havia, sim, alguma espécie de satisfação ao punir aquele idiota, e esta se sobrepunha por alguns milésimos a sensação de dever cumprido. No entanto, o bastardo merecia, e não sentiu remorso algum quando o semblante dele tornou-se minimamente desolado. Até porque Soutarou logo recompôs o semblante atrevido que lhe era característico, e afastou-se com as mãos nos bolsos, tentando disfarçar a aversão ao castigo.
Adoraria ser ela mesma a vigiá-lo durante os intervalos, diariamente; presenciar aquele delinquente a cumprir trabalhos a contragosto. No entanto, almejava uma punição severa, da qual ele realmente se arrependesse de tudo o que fizera. E não seria ela a proporcionar tanta raiva em Kanou. Não, deveria entregar a função ao verdadeiro rival do delinquente ― ainda que o risco de que ambos apenas esmurrassem um ao outro fosse imensurável.
Deveria confiar em Yukimura, apesar de tudo. Ou ao menos pretendia que esta fosse a melhor decisão.
****
Que barulhentos, ele pensou enquanto fitava a janela uma vez mais. Lamentavelmente, a biblioteca do Seika ocupava o térreo do edifício, e todo o ruído do jardim alcançava o ambiente que deveria ser quieto. Do lado externo, um grupo de garotas suspirava pelo que deveria ser o trio mais popular do colégio: Shirokawa Naoya, Kurosaki Ryuunosuke e Sarashina Ikuto. O primeiro era reconhecido pelas excelentes notas e exímia educação; o segundo, seu colega no fundamental, era mais intempestivo, porém muito cavalheiro. E o último, um excelente desenhista que chamava a atenção feminina com a personalidade forte e um tanto insolente.
Mas nada disso interessava a ele. O contato humano, assim como suas relações ― complexas, segundo ele mesmo ―, eram um enigma a um rapaz introvertido como ele. Passara a maior parte da vida como aluno de professores particulares, e além de poucos empregados e algumas pessoas mais próximas, estes resumiam suas interações sociais.
Não que odiasse o restante das pessoas, ou sentisse desprezo por elas ― nada havia de superior naquele retraimento ridículo. Aquela falta de tato ao lidar com os outros era sua fraqueza, ainda que convivesse com ela pacificamente. Afinal, não conseguia sequer imaginar-se dentre uma grupo, a sorrir e partilhar juntos as “experiências da juventude”. Ele mesmo era considerado antipático pelos colegas, devido ao seu comportamento. Que segredo escondiam, afinal, aqueles indivíduos impossivelmente expansíveis?
Para complementar o rumo dos pensamentos, altas risadas soaram do exterior, provavelmente das fãs do trio. Como de costume, o som era apenas desagradável ― estudar era seu foco, já que aceitara o fato de que relacionamentos eram vetados para ele mesmo. No entanto, concentrar-se era impraticável naquele momento ― tanto incômodo afastava da mente todo e qualquer assunto que quisesse aprender.
Frustrado, o loiro ajeitou os próprios óculos, apanhou o livro pelo qual estudava e preparou-se para partir. Iria estudar em casa, único e solitário refúgio. Quando deixou a mansão em que morara por toda a vida para viver sozinho, próximo do colégio pretendido no Ensino Médio, houve um misto de sentimentos. Havia a tristeza de separar-se daquelas pessoas que julgava importantes e, no entanto, uma absurda curiosidade naquela nova vida sem companhia alguma. De certa maneira, era confortável ― embora um vazio constante o relembrasse de sua solidão.
Deixou o colégio ao final da tarde, e o sol morno do entardecer estendia, preguiçosamente, os últimos raios alaranjados. Seguia tranqüilo pelo habitual caminho, distraído, até que ouviu uma buzinada estridente, e por pouco não foi atingido por um carro. Assustado, não manifestou nenhuma reação, estagnado no meio da via a encarar aquele veículo importado.
― Você está bem? ― indagou, preocupado, um rapaz também loiro ao descer do banco traseiro. O uniforme branco denunciava a que colégio pertencia: Miyabigaoka.
― E... Estou, sim ― garantiu ele, após breves segundos para apreender o ocorrido. Trocar palavras com um desconhecido lhe exigia algum esforço. E não conseguiu encará-lo nos olhos, fitando o asfalto como se o material o deslumbrasse.
― Ah, mil desculpas! ― A voz do outro era lamentosa. Juntou as mãos, num gesto humilde. Ao julgar insuficiente, inclinou-se e reformulou as palavras: ― Perdoe-me, por favor.
― Ei! – protestou o rapaz de olhos verdes. Não pôde evitar olhá-lo desta vez. A aparência denunciava a idade próxima à dele mesmo. ― Foi minha culpa não ter prestado atenção. ― Pare com esta cena vergonhosa, completou mentalmente, encabulado. A resposta do interlocutor foi ajeitar-se, nervoso.
― Desculp... ― censurou-se, cobrindo os lábios com as mãos. Logo continuou, um tanto envergonhado: ― Você tem sorte. Meu mordomo conseguiu te ver de longe e o motorista freou a tempo. ― E apontou para um moreno mal-encarado, alguns metros atrás.
― O... Obrigado ― gaguejou ele, timidamente, ao homem severo de terno. Assustador, foi uma impressão parcial, já que para ele qualquer mínima ameaça para ele era desagradável.
― Vamos, Maki. ― E, antes de adentrar no automóvel, voltou-se à quase vítima: ― Nem me apresentei. Sou Igarashi Tora.
Inspirou quase imperceptivelmente, como se reunisse coragem o suficiente. E, mesmo assim, sentiu a própria voz um tanto atravancada e ininteligível:
― Usui Takumi ― respondeu aquele cujo tom dos cabelos era mais escuro.
Já confortavelmente sentado sobre o assento acolchoado do veículo, Tora permitiu-se suspirar. Havia por pouco ocorrido uma tragédia. Entretanto, arrepiou-se ao sentir os olhos escuros do subordinado sobre si.
― O... o que é? ― Já sabia o que viria a seguir: um longo sermão.
― Deveria ser mais consciente de sua posição, presidente.― O olhar penetrante de censura que lhe foi destinado fez com o loiro corasse até a raiz dos cabelos.
― C... calado ― exigiu, enquanto desviava o rosto. ― É você quem deve se pôr no seu lugar, Maki.
― Como quiser ― concordou o moreno.
****
― Está atrasada ― repreendeu a mulher, irritada. ― Espero que isso não se repita.
― Desculpe-me, gerente. Não vai se repetir ― garantiu Misaki.
Suspirou aliviada quando Satsuki acenou em concordância e partiu, para atender aos clientes. Era rigorosa; contudo, ela já sabia como lidar com pessoas do tipo, já que a mãe também o era. Percebeu, então, a aproximação de Honoka, provavelmente disposta a consolá-la.
― Ela deveria pegar mais leve com você ― alegou, num gesto de companheirismo. ― É a mais nova entre nós, e a que mais trabalha.
― Não foi nada de mais ― assegurou a adolescente, com um sorriso. ― Estou em errada em me atrasar, mesmo.
― Está mimando demais a novata ― apontou uma morena atrevida de óculos, sentada de pernas cruzadas enquanto desfrutava do intervalo.
― N... não seja tão direta com as pessoas, Subaru ― pediu Erika, a companheira de turno. ― E Misa-chan é uma de nossas melhores maids ― complementou a funcionária mais tímida.
Após cumprimentar as colegas, Misaki foi ao vestiário trocar o uniforme. À contragosto, trabalhava naquela cafeteria um tanto... peculiar. Um Maid Café. Quando nova, foi abandonada pelo pai ― o homem com o qual compartilhava laços sanguíneos e hoje apenas despertava mágoa e más lembranças. Era ele a causa da amargura da mãe e das inúmeras dívidas da família.
Daí o emprego precoce, numa tentativa de ajudar de alguma maneira a renda precária. Além disso, conquistar o próprio dinheiro incitava nela a ansiada sensação de independência, além da própria responsabilidade. Como se aos poucos adquirisse maturidade por buscar ela mesma alguma maneira de resolver os problemas familiares.
E foi a fuga do pai que despertou nela uma aversão aos homens ― principalmente aos irresponsáveis, inconseqüentes e abusados. Todos eles relembravam aquele do qual desejava ardentemente esquecer. As risadas, os deboches, as fachadas autoritárias. Tão detestáveis. Tão repugnantes. Tão...
Sempre cruel, o acaso fez com que o emprego se resumisse a servi-los. Afinal, sem capacidade física e anterior experiência de trabalho, restou aquele estabelecimento que lhe fornecia um ótimo salário como “garçonete”; deveria somente atuar enquanto prestava o serviço. No entanto, sua performance era excelente, pois conseguia mascarar o ódio com sorrisos. Preparada para mais uma noite de risadinhas forçadas, foi ao salão atender os clientes.
O dia transcorreria de maneira tranqüila se um infeliz incidente não se sucedesse quando, ao final do expediente, foi levar o lixo para fora do estabelecimento.
****
Devido ao quase acidente que sofrera, Usui atrasara-se, e, apesar do céu noturno, ainda não chegara ao seu apartamento. O movimento na cidade àquela hora se intensificava, já que tanto estudantes quanto trabalhadores encontravam naquele momento um tempo de lazer. Havia tanta gente, tanta conversa ― tudo em demasia. Em meio à situação, sentiu-se inquieto. Implorava mentalmente pelo silêncio do lar.
Teria de pegar um atalho, e entrou em um beco que encurtava a distância.
Consolou-se: com o atraso conhecera um garoto, se não mais que isso, simpático. (Embora a noção de “simpático” para ele diferisse do restante das pessoas.) Então aquele odioso colégio não era de todo ruim, já que pessoas como Igarashi Tora o frequentavam ― imaginava que a trama de intrigas do Miyabigaoka se estendesse a todos os alunos.
Se relações simples e meras trocas de palavras para ele se mostravam complicadas, a complexa teia de interesses dos nobres embaralhava completamente sua cabeça. Como lidar com aquele bombardeio de interações de todos os lados?! Tentou afastar a mente destes pensamentos, quando o celular vibrou em seu bolso. Ah, não.
Respirou aliviado quando o nome que ocupou a tela foi o do irmão. De toda a família, era ele o único membro que o aceitava e respeitava. Como se não bastasse toda a dificuldade que tinha ao se relacionar, tinha de lidar com um amontoado de parentes que o detestava indiscriminadamente, ainda que com fundamentos.
― Como vai meu maninho preferido? ― Ouviu a voz suave do mais velho. Ouvi-lo era agradável; uma das únicas pessoas com as quais conseguia conduzir um diálogo espontaneamente.
― Sou seu único irmão, Gerard. ― E bastardo, complementou internamente.
Eram ambos filhos de uma rica (e falecida) britânica de uma nobre família. Porém, enquanto Gerard Walker era fruto de um casamento estável com um rigoroso aristocrata, Takumi era filho de um amante, um reles serviçal. E, ainda que a mãe tenha morrido em seu parto, o “nii-san” nunca lhe culpou pelo fato. Ao contrário do restante da família, que encontrava no passado a razão do ódio pelo bastardo.
― Continua sendo o preferido ― refutou o moreno, como se dissesse “Seu sem-graça”. ― E me responda como vai a vida de meu caçula ― pediu, num tom manhoso.
― Você está parecendo o Ceddie ― comparou o loiro, ao recordar-se do mordomo que adorava provocar o patrão. Outro com o qual se acostumara a lidar com o passar dos anos. Cedric, apesar de terrivelmente implicante, era divertido.
― Não me ofenda! ― bradou Gerard, irritado. Que comparação absurda! ― Não sou igual àquele idiota. Agora estou trancado no banheiro fugindo dele, porque ele quer que eu assine aquelas porcarias de papéis.
― É só assinar ― aconselhou o garoto mais responsável.
― É um saco. ― Usui até mesmo podia vislumbrar o cruzar de braços do primogênito naquele instante. ― Mas eu liguei para...
Um ruído foi ouvido, e o herdeiro ofegou ao telefone. Cedric Morris o encontrara afinal.
― Boa sorte, Gerard ― murmurou o loiro, pois sabia que o irmão teria de encerrar a chamada. Muito provavelmente não demoraria a ligar de novo e lhe contar o motivo.
― Takumi! Salve-me! ― E a ligação foi cortada.
Como ele era escandaloso.
Partiria sem problemas para a casa se não a visse. Durante os dias seguintes, iria lamentar a infeliz coincidência que os fez no mesmo local, em um momento tão inoportuno. Alguns segundos mais e todo o rumo dali em diante seguiria de forma distinta. Ou ao menos assim ele queria acreditar.
Poucos metros a frente, naquele mesmo recinto estreito, estava uma garota facilmente reconhecível: a presidente. Carregava uma grande sacola de lixo e ― o mais impressionante ― vestia um uniforme de empregada, muito feminino. Tão logo o viu, ela soltou o plástico e arqueou as sobrancelhas, pois também havia o reconhecido. Ele, ao contrário, permaneceu paralisado, como quando a vislumbrar o veículo que momentos antes quase o atingira. Não sentiria medo de uma garota reconhecidamente fraca; contudo, o perigo de uma aproximação era possível.
― Ei. ― A simples onomatopéia ganhou um incrível tom de ameaça. Puxou a gravata, aproximando-lhe os rostos, e prosseguiu: ― Não conte a ninguém o que viu.
Articular qualquer frase tornou-se impossível ― ela estava tão perto! Os orbes amarelados estavam alinhados aos seus; o cenho franzido, completamente visível; a respiração era perceptível sobre sua pele. Estava extremamente consciente da presença da garota, e era desconcertante, e o limite de desconforto, há muito extrapolado.
― Vai ficar quieto como idiota? ― indagou, irritada com o silêncio. Todavia, ao notar como os olhos verdes do rapaz arregalaram-se com o contato, afastou-o de si mesma. Talvez ele lhe respondesse quando mantido o próprio espaço.
― N... Não vou contar ― garantiu ele, ruborizado, quando enfim pôde desviar o olhar do dela.
― ... Ótimo. ― O tom ainda era desconfiado.
Entretanto, Takumi não aguardou por suas palavras: tratou de sair dali logo que possível. Num caminhar apressado, deixou-a para trás, enrubescido de modo que não imaginava ser possível. Era assim que reagira para com uma mínima interação ― com o sexo oposto, ainda por cima! Estava ali iniciado o seu inferno.
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