Change!
2 Capítulo Dois - Um segredo compartilhado
Notas iniciais

Suspirou uma vez mais, ao perceber que perdera. De novo. Porém, a natureza obstinada a fez prosseguir: suas derrotas eram culpa do azar incurável, e não da falta de tentativas. Suzuna ajeitou-se no lugar, com o folheto do sorteio em mãos, para novamente arriscar-se, já que o prêmio era irresistível: uma viagem à cidade litorânea mais próxima. Seria tão bom se ganhasse!
Empolgada não só com o prêmio, e sim principalmente com a perspectiva de vitória, apanhou da mochila todo o material necessário para o “ritual” de sorte: inúmeros dados dos mais diversos. Desde o D4 ao D20, passando pelos intermediários e aquele que era o mais comum: o D6. Apanhou um destes (ainda não estava pronta para lidar com dois, dizia a si mesma), e mentalizou um número. Não um número qualquer: foi minuciosamente escolhido e planejado. Enfim, atirou-o ao alto.
“Quatro, quatro, quatro.” Suplicava mentalmente, de olhos fechados. Não estragaria o momento da descoberta; qualquer antecipação poderia frustrar suas intenções. Lentamente, abriu-os para fitar o objeto sobre a mesa. Exibindo-se como uma ofensa à pequena, seis pontos negros ocupavam a face voltada para cima. Que droga!
Um de seus maiores alvos de ódio era aquele azar irremediável. Sempre perseguindo-a; tornando-a uma inútil quando se tratava de sorteios e decisões que envolviam o aleatório. Não, negava para si mesma, deveria existir algum método secreto para driblar aquela falha. E esta busca desenfreada fez com que se tornasse exageradamente competitiva. Para tudo criava jogos em que esperava vencer, e nos quais sempre encontrava a derrota irremediável. Principalmente quando se tratava do vizinho. O insuportável garoto da casa ao lado.
― Ei, baixinha avoada. ― Ouviu alguém chamar num tom monótono, tão próximo de seu rosto que era possível sentir seu hálito.
Que coincidência. Ali estava ele, de pé, apoiando ambas as mãos na carteira. Aproximou-se tanto quanto possível, e imersa em si mesma, Suzuna notara apenas quando ele estava a poucos centímetros. Um idiota intrometido, sim. Não era avoada; estava somente... distraída no momento. E baixinha... até quando ele continuaria a usar aqueles apelidos degradantes? Franziu o cenho para Shintani Hinata, num aviso silencioso de que achava aquela mínima distância desagradável. Com um suspiro resignado, ele afastou-se, e logo que avistou os dados sobre a mesa, arqueou as sobrancelhas, curioso.
― O que está fazendo?
― Praticando a sorte ― vangloriou-se, um tanto altiva e orgulhosa de si mesma. Tanto fazia se perdera da última vez, o fato é que estava a caminho de um dia vencer a todos. Inclusive aquele moreno, principal parceiro de apostas.
― Sorte não se pratica, nanica estúpida ― contestou ele, inequívoco.
Deveria ter se acostumado às loucuras de Suzuna, embora ela sempre revelasse alguma estranheza mais conforme o tempo passava. Acompanhou aqueles “rituais” de boa sorte durante os dez anos nos quais se conheciam, e a viu buscar pés de coelho, trevos de quatro folhas (os quais ele também procurara entre as encostas), Maneki Nekos¹ e talismãs. Enfim, uma infinidade deles. Nenhum fora eficiente, é claro, e agora a garota procurava por aquele método evidentemente ineficaz.
― “Sorte é quando a preparação encontra a oportunidade.” ― instruiu ela, tão solene quanto possível. Era tão dramática.
― Acredite em suas próprias mentiras. ― Deu de ombros, ao que a menor estreitou os olhos em indignação. Vociferou as palavras seguintes:
― E o que veio fazer aqui?
― Preciso falar com você ― expôs ele, como se fosse óbvio.
A morena detestava aquele timbre; sentia-se uma burra incapaz de assimilar os anseios dos outros ― ainda que realmente não fosse capaz de assimilá-los, sempre distraída em um mundo próprio. Na verdade, era esta a expressão que ele mesmo utilizava: “baixinha distraída em um mundo de azar”. Este era um dos pontos na lista de ódio: Hinata e a incrível capacidade de irritá-la com poucas palavras.
Então percebeu que todos os alunos fitavam ambos com alguma surpresa. Afinal, para eles era um briga a se desenrolar ali; estava ainda nos primeiros meses de aulas, e os colegas não estavam acostumados àquele tipo de amizade. Porque, apesar de toda animosidade, eram amigos. Melhores amigos, desde que ela conseguia se lembrar. No entanto, a relação não justificava um tratamento gentil: ele seria sempre cruel com as sentenças diretas, e ela continuaria persistente e mal-humorada. O que não mudava o fato de que aquele não era um local para aquela espécie de diálogo.
― Você invadiu a sala do primeiro ano. ― Insistiu: ― Saia.
― Eu não quero saber. ― Estavam todos em meio ao intervalo; se aqueles estudantes eram enxeridos o suficiente para assisti-los, bem, estava pouco se lixando. Argumentou, com um sorriso insinuante: ― Venha logo e eu saio.
Com um longo suspiro de descontentamento, seguiu o rapaz até o corredor. Sabia de antemão o motivo pelo qual ele estava ali. Já deveria imaginar: não havia um dia em que ele não se metia em problemas. O melhor amigo era previsível neste aspecto. Cruzou os braços, em uma postura de censura. Devido ao tamanho, a almejada demonstração de repreensão convertia-se em uma teimosia ingênua.
― O que fez dessa vez? ― indagou ela, pois sabia que toda a encrenca em que se metia começava por iniciativa própria.
― Sua irmã, aquela irritante... ― O tom era mal-humorado ao citar a Ayuzawa primogênita, Misaki. ― Está me procurando porque disse que “desperdicei comida”.
― Não respondeu minha pergunta, Hinata ― insistiu a colegial, mantendo a posição altiva. Sustentou o olhar ao do mais alto, e ele enfim cedeu.
― Estava carregando o creme de chocolate para a aula de culinária, tropecei e sujei uma parede. ― Um arrepio involuntário percorreu o corpo de Shintani. ― Ela disse que eu teria que limpar com a língua. ― Deixou subentendida a mínima vontade de obedecê-la.
― Como você é idiota ― bufou ela, impaciente. ― Desperdiçando a chance de provar tanto chocolate. ― Ela mesma não recusaria a oferta.
― Eu não sou uma maldita formiga como você ― citou o gosto da mais nova por doces, assim como seu tamanho. Desta vez era ele o irritado. Destacou os vocábulos, ao pronunciá-los pausadamente: ― E. Estava. Em. Uma. Parede. ― Complementou, irônico: ― Está tão esfomeada assim para querer um prato desse tamanho?
Esquecera-se completamente desta circunstância. Os surtos sádicos da irmã eram inacreditáveis. Perguntou, desconversando sobre a própria desatenção: ― O que quer que eu faça, então?
― Só me esconda da monstra.
― Só se nunca mais me chamar de baixinha ― exigiu ela, firme. ― Nem tampinha, pequena, minúscula, miúda, anã, nanica. Eu tenho um nome!
Acresciam-se estes apelidos à lista negra: tinha noção de seu tamanho e do fato de que todos que conhecia a miravam de cima. Não que desejasse ser alta ou algo do tipo. A altura em si pouco lhe incomodava, a não ser quando lhe era exigido (como para alcançar as prateleiras mais altas, ou enxergar através de uma multidão), ou quando a subestimavam baseando-se nela. Porém, havia algo que acompanhava este detalhe ― ser tratada como uma frágil donzela era irritante e estúpido.
De maneira inexplicável, desde a infância sempre consideravam-na a delicada, a intocável, a ser protegida, baseando-se somente em medições altimétricas. E era insuportável aquele tratamento de princesinha minúscula e dócil. Detestava quando lhe chamavam de “meiga”, “adorável”, “gracinha” e, a pior de todas, sem dúvidas: “fofa”. Estes vocábulos encabeçavam a lista, definitivamente.
Ainda que o rapaz nunca tenha se dirigido a ela desta forma (o que certamente ela gostava nele, embora não o admitisse em palavras), encontrara apelidos próprios. O que se iniciara como uma brincadeira infantil persistiu na adolescência, e Shintani não abandonara os sinônimos para “pessoa de baixa estatura”. “Baixinha avoada” e “nanica estúpida” eram somente alguns dentre vários, e a semelhança entre todas as maneiras com a qual a denominava era a intolerância da garota a qualquer uma delas. Assim como o gosto do moreno pelas alcunhas que criara.
― No dia em que alcançar a minha altura, eu não te chamo mais de baixinha ― condicionou ele, travesso.
― Mas... eu nunca vou alcançar sua altura! ― O sorriso cresceu com o aturdimento exagerado dela.
― Que pena para você ... pirralha.
― You-kun! ― protestou ela, indignada e inconsciente. Ser um pouco mais nova também lhe incomodava. Ao visualizar o sorriso de satisfação do outro, corou ao aperceber-se.
Aquele era um apelido tão infantil! Inventara-o aos cinco, seis anos, mas logo deixou de utilizá-lo ao alcançar o ginasial: para afastar-se da imagem de “menina pequena e bonitinha”, também abandonou os modos de falar e designações graciosos. Contrário a tudo aquilo, Hinata aparentava alcançar algum divertimento quando a morena cometia algum deslize. Para ele, todos, inclusive ela mesma, deveriam agir conforme quisessem, sem pensar em impressões alheias ― ou, no caso dela, restrições criadas por si mesma.
Contudo, ela mantinha-se resistente com relação aquele comportamento, o que ironicamente tornava-se algo bastante fofo de se assistir. Como quando ruborizou ao notar a maneira carinhosa com que o tratara. Tratou logo de encobrir o constrangimento, substituído por uma frustração adorável. Desesperada para mascarar a atitude, fez questão de pigarrear, desajeitadamente, para que as palavras seguintes soassem com a seriedade e descrença almejada:
― E o que ganho com isso?
― ...Minha devoção eterna? ― sugeriu ele, divertido. Diante da inutilidade da proposta, Suzuna bufou e revirou os olhos.
― Vai ficar me devendo um favor, ouviu? ― enfatizou, pois o conhecia bem o suficiente para não desacostumá-lo. Aproveitou-se para pedir, desafiadora: ― E também peça “por favor, Suzuna-sama”.
― O favor, sim ― concordou ele. Todavia, ela esperava pela sentença seguinte. ― Sobre o resto... ― Manteve um suspense deliberado ― ...continue a sonhar, pequena. ― E deu-lhe um peteleco na testa.
Como aturar alguém assim? Era ele que precisava de ajuda e mantinha aquela pose irritantemente presunçosa! No entanto, não poderia negar um favor: devido às constantes apostas, era sempre ela a dever algo a ele. Reverter a situação, uma vez que fosse, era uma dádiva a ser abraçada sem questionamentos. Aceitou, então, ao suspirar e descruzar os braços, apanhando o pulso dele.
― Sei de um lugar para te esconder ― murmurou, antes de iniciar a corrida.
Não estava entre as melhores atletas, muito embora sua velocidade fosse considerável. Segundo o rapaz, resultado do corpo menor a exigir rapidez. Provocador imbecil, isso é o que ele era. Contudo, não era este o momento a se pensar nisto, principalmente quando Shintani alcançara o mesmo ritmo ― os instintos competitivos insistiam em transformar a fuga em disputa. “Agora não”, disse a si mesma.
Quando deixaram o térreo, ocultaram-se em uma das frestas do edifício, pois uma presidente muito zangada procurava por um moleque insolente. Compensaram a corrida descansando minimamente; as respirações ofegantes. Ainda que não percebesse, ela não soltara do braço masculino, mesmo quando desnecessário no momento. Estava ocupada a arrepender-se quando se deu conta do que fizera:
― Não acredito que estou fugindo da onee-chan para te salvar ― sussurrou, aos arquejos. ― Burra, burra, burra!
― Você é bipolar por acaso? ― questionou ele, implicante.
― Cale a boca porque estou te ajudando! ― esbravejou, impaciente, para cobrir a boca com uma das mãos em seguida. Deveria ser discreta, caramba!
Num misto entre o medo de ser apanhada e a raiva diante das risadas que ele tentava suprimir, levou o idiota às pressas até um dos depósitos aos fundos da quadra esportiva. Afetada com essa exasperação, procurou frenética por alguma porta que pudesse ocultá-los. Ao encontrá-la, jogou-se para dentro do recinto, puxando-o também. E agora estavam ambos num estreito armário de vassouras. Muitas delas remexeram-se e tombaram contra a parede oposta quando Suzuna contorceu-se, em busca de conforto ― o moreno apertou-a contra si, próximo da porta, pois todo aquele barulho iria denunciá-los.
― Eu devo te agradecer ― murmurou, bem-humorado, enquanto mantinha o abraço que a impedia de colidir contra mais materiais de limpeza. ― Ou lamentar a pessoa escandalosa e azarada que escolhi para me ajudar?
― Você me deve um milhão de obrigados! ― afirmou, categórica, ao levantar o rosto para encará-lo.
Não constrangia-se com aquela proximidade gritante ― ainda que não constantemente, já abraçaram-se várias vezes em todos aqueles anos para que o gesto se tornasse habitual. Além disso, sentiria-se patética se as bochechas se avermelhassem perto dele. Enrubescer era uma das manifestações “fofas” das quais tentava ao máximo evitar. E era inevitável naquele espaço restrito: não podia afastar-se sem causar um novo estardalhaço. O que a levava a pensar no motivo pelo qual estava ali espremida, em vez de confortavelmente liberta na carteira, em meio a dados e prática.
― Por que você só se mete em problemas e me leva junto? ― Assemelhava-se a um ritual: desde que o conhecera, seu atrevimento acabava sempre por envolvê-la também.
― Admita que sua vida é bem mais divertida comigo ―alegou, prepotente. A voz, mais uma vez, estava bem próxima do ouvido dela.
― Continue a sonhar ― repetiu a colegial, sem disfarçar o ultraje. Desvencilhou-se do mais alto, pois não era necessário matar aula com ele, ali escondida. Já fizera o bastante. No entanto, não fazia mal perguntar-lhe: ― Vai ficar bem aqui, sozinho?
Shintani sorriu em resposta; o típico sorriso diante de desafios semelhantes. Deveria apenas manter-se no armário durante uma das aulas e escapar furtivamente dali a algum tempo, para voltar à classe. Nem ao menos seria difícil. Mesmo que estivesse na mesma turma da detestável excelentíssima presidente, ela nada poderia fazer durante a aula. A língua estaria tão longe possível daquela parede imunda.
― Não vou esquecer do favor, ok, Suzu-chan? ― despediu-se quando ela já estava de costas, puxando levemente a extremidade dos fios escuros para chamar sua atenção.
Apesar de irritar-se quando esticavam as maria-chiquinhas (único resquício da infância que deliberadamente manteve, pois era um penteado-símbolo e fazia parte de sua identificação), era agradável como um afago quando o contato era suave. Fazia crescer em si mesma o desejo por um cafuné, que logo tratou de dissipar.
“O que tem na cabeça, Suzuna? Minhocas?” Recriminou a si mesma. “Não é uma criancinha para ficar pedindo por cafunés por aí.” Após recompor-se, voltou-se ligeiramente na direção de Shintani, estreitando os olhos para demonstrar sisudez:
― Acho bom mesmo.
Mal ela fechou a porta atrás de si, expirou longamente. O cheiro da pequena ainda inundava-lhe as narinas, e mentalmente o rapaz manifestava incredulidade. “Sua tapada.” Já acostumado, deu à frustração aspectos de resignação. “Nem sabe como fica linda quando está com raiva.”
****
De todas as pessoas, aquele a vigiá-lo na detenção tinha de ser ele?
― E aí, Kanou-kun? ― cumprimentou Yukimura quando o moreno mais alto adentrou na sala onde cumpriria o castigo pelo resto do semestre.
Desde que Misaki lhe encarregara como aquele que levaria adiante a punição de Soutarou, um sorriso de satisfação estampou-se em seus lábios. O primeiro motivo era óbvio: assistir àquele idiota cumprindo castigos ministrados por ele mesmo. Contudo, era outra razão, que o continha: a presidente confiara nele para cumprir aquele papel. Acreditara nele mesmo como mais adequado a cuidar do mais desordeiro aluno do colégio. Provavelmente o menor iria se tornar um delinquente, assim como o rival, se Ayuzawa não enxergasse nele o potencial como auxiliar. E deveria honrar sua presidente.
Estava sentado sobre a mesa do professor, pois apesar de ser membro do Conselho, não seguia absolutamente todas as regras como um bom aluno disciplinado. A função como vice estava ligada mais à sua capacidade de ameaça do que aos seus bons costumes. Neste quesito, eram parecidos, assim como no gosto por brigas ― e foi desta maneira que se conheceram. O primeiro diálogo entre eles se deu por meio de punhos e chutes, e Kanou surpreendeu-se quando aquele minúsculo garoto quase conseguiu a vitória.
Havia algo de fascinante no combate: a disputa de força e destreza, a incerteza do desfecho, as reações do corpo levadas ao extremo. A cada impacto, uma maior certeza do verdadeiro resultado. A cada golpe, a sensação incrível de invencibilidade. Até mesmo a dor era bem vinda ― fazia parte do processo, como se julgasse merecedor quem competisse e arriscasse o próprio corpo como preço. Porque, para ambos, valia mais não a vitória em si, e sim todo o processo violento até esta. Não eram meros competidores; eram lutadores.
Desde então o placar manteve-se acirrado, e Soutarou estava à frente por apenas uma luta ganha, das vinte e cinco que travaram até então. Afastou estas lembranças ao displicentemente sentar-se sobre uma das carteiras, pois aquele castigo já seria longo e chato o suficiente, mesmo sem a contribuição de um nanico irritante. Prestes a improvisar um travesseiro com os braços e dormir ali mesmo, foi interrompido por Shouichirou, que num instante pôs sobre a mesa uma folha de exercícios.
― Aqui não é jardim-de-infância para tirar uma soneca ― repreendeu ele; a palma ainda estendida sobre o papel. Ocupou a carteira ao lado, como se para certificar-se de que ele cumpriria a tarefa.
― Só pode estar de brincadeira comigo ― reclamou Soutarou, encarando as letras e números impressos. Que merda era aquela?!
― São questões do terceiro ano, que pena ― lamentou o rapaz de olhos alaranjados; a voz respigava cinismo. ― Mas vai ter que resolver, calouro.
Ah, Yukimura sabia que o deliquente irritava-se porque era mais novo ― reforçar este sentimento era apenas um passatempo mais. Assim como chamá-lo de calouro, mesmo quando ele já alcançara o segundo ano. Sorriu mais uma vez enquanto um ou outro xingamento escapava dos lábios do rival. Incomodava-se com a maldita vitória a menos que o deixava em desvantagem, e isto não era fruto de um simples espírito competitivo. Uma vez (apenas uma!) o separava da igualdade para com Kanou. E nada melhor do que testemunhar o único momento no qual ele estava à sua mercê.
As tardes seriam muito mais divertidas dali por diante.
****
― Ótimo! Incrível! Realmente adoro minha vida! ― ironizou a garota de cabelos castanhos, cruzando os braços em insatisfação.
― Maneire no sarcasmo ― recomendou a amiga, sentada ao seu lado. ― Está criando uma tempestade só porque sua irmã te pediu para ir a um show qualquer.
― Exigiu! Obrigou! Aquela lá não sabe pedir! ― reclamou, indignada, ao pensar no espetáculo ridículo que teria de assistir por mero capricho da irmã mais velha. Ambas se detestavam mutuamente, e suas preferências não poderiam ser mais diferentes. Uma maldita boy-band! ― Que merda de vida ― lamentou (desta vez sinceramente) apoiando o rosto sobre a carteira. A expressão entediada complementava a frase depressiva.
― Parece um garoto agindo e falando desse jeito, Sakura-san ― censurou a morena, enquanto lixava as unhas bem-feitas.
― Que se foda, Shizuko ― retrucou a outra. Porém, sentou-se corretamente quando a amiga fitou-lhe entre os óculos que expressavam o bom gosto por acessórios. Apesar de aparentemente fútil, a colegial de cabelos curtos sabia ser ameaçadora quando queria.
― ...Com licença ― ouviram ambas uma voz masculina. Voltaram-se para a entrada da sala, e lá estava um rapaz loiro. ― Ayuzawa... Ayuzawa Misaki passou por esta sala?
Ainda que não soubessem, as poucas palavras proferidas por Takumi lhe exigiram o máximo da capacidade de sociabilidade. Estava acostumado a trocar simples sentenças com alguns colegas de turma quando necessário, e nisto consistia seus diálogos máximos durante os dias. Contudo, interagir com garotas ― duas delas! ― e iniciar ele mesmo a conversa (que ele fervorosamente desejava encurtar a todo custo) eram tarefas complexas e, portanto, desagradáveis para ele.
Ambas entreolharam-se; um sorriso malicioso esboçado em cada um dos lábios.
― E quem é você, cara? ― interrogou Sakura, reclinada sobre a cadeira com um olhar desconfiado.
― O que quer com a Misaki-san? ― complementou Shizuko, cruzando as pernas enquanto o encarava analiticamente.
No mesmo instante, arrependeu-se de perguntar a elas. Mesmo que fosse pudesse respondê-las (o que de fato era impossível diante do embaraço), seria interrompido por comentários não eram nada discretos.
“É o namorado dela?” “Pff, Misaki gosta de nerdinhos?” “Não, acho que é admirador secreto.” “De qualquer forma, é ridículo.”
Tanta atenção voltada para ele mesmo era desconcertante, e desviou o rosto com o desconforto. Involuntariamente, as bochechas passaram a ganhar um tom róseo, e os olhares sugestivos de ambas se intensificaram ao percebê-lo. Aquele momento poderia acabar de uma vez? Foi salvo, contudo, pela coincidência:
― Vocês duas querem parar? ― pediu a morena citada, com uma das mãos sobre o rosto. ― Ele não é nada meu, só esqueceu um caderno comigo. ― E indicou tanto Takumi quanto o objeto. Mas foi ela desta vez a impedi-lo de agradecer e partir com o que queria, pois sussurrou para que somente ele a ouvisse: ― Siga-me. Agora.
Ainda que tenham se calado, nenhuma das duas convenceu-se de que não existia nada entre eles. Afinal, porque seguiram na mesma direção, ao mesmo tempo? Por acaso a natural repulsa que a amiga sentia por garotos encontrara enfim uma exceção? Mal sabiam as duas o quanto suas suposições iriam concretizar-se com o tempo.
Este rapaz da noite anterior ― Usui Takumi, descobriu ela ao debruçar-se sobre os arquivos escolares ― esquecera de seu bloco de anotações durante o andar desvairado, e provavelmente, refletiu ela ao folhear algumas páginas, era algo importante para ele. Sabia que viria à procura de seu pertence, e era a oportunidade perfeita para reafirmar suas ameaças: uma palavra e ele seria punido.
No momento, porém, a intenção do rapaz era apenas apanhar as anotações, e foi obrigado a segui-la ― a memória das mãos femininas a puxar sua gravata e enredá-lo a poucos centímetros era recente. Acompanhou o passo apressado, premeditando o pedido mentalmente, já que o gesto facilitava a articulação de frases sem o vergonhoso gaguejar. E havia a vantagem: visualizava apenas as costas da presidente, longe do olhar interrogativo.
― Poderia me devolver meu caderno, por favor? ― pediu o loiro quando a garota que seguia finalmente estagnou, na cobertura do edifício.
― Contou a alguém? ― indagou ela, ignorando o pedido. Era ridículo sentir-se pressionado por alguém uns vinte centímetros mais baixo, pensou Usui, mas não pode impedir-se de senti-lo.
―N-Não ― respondeu simplesmente, enquanto desviava o rosto com a proximidade. Porém, uma dúvida permanecia. E a inexperiência com o contato social fez com que a interrogação escapasse, automática: ― Qual é o problema se descobrirem? Q-Quer dizer... ― Logo arrependeu-se da pergunta indiscreta ao vislumbrar a confusão nos olhos amarelados dela.
Surpreendida, a morena arqueou as sobrancelhas ― não apenas pelo questionamento cuja resposta ela julgava ser óbvia, mas também devido à reação do rapaz. Era... adorável, de alguma maneira estranha. Uma falta de jeito honesta, oposta à natural rebeldia da maior parte dos homens com quem lidava.
― Não quero que nada manche minha imagem aqui no colégio ― explicou ela, quase que para si mesma. ― Nem mesmo um emprego que sugira segundas intenções.
Conhecia a imagem que a maioria das pessoas tinha de Maid-Cafés: ambientes onde fetiches e libertinagem eram amplamente estimulados. A própria mãe pensava desta maneira, e já discutira seriamente com ela inúmeras vezes. Esconder dos colegas, então, era mais fácil do que convencê-los de que nada havia de imoral em servir clientes vestindo uniformes de empregada. E desta vez observou atentamente as feições de Takumi às suas justificativas.
Por alguns instantes, ele pareceu prestes a dizer algo. Quer dizer, o que diria? Deveria ter mantido a pergunta para si mesmo, já que não sabia como lidar com o que ela dissera. Nenhuma experiência prévia o preparou para dar à morena algum conselho minimamente aproveitável, assim como o desconforto se acentuava diante do diálogo prolongado. Ao final apenas murmurou, com sinceridade:
― Boa sorte.
― Ah, tome seu caderno ― lembrou-se ela, entregando-lhe as anotações. Assumiu também: ― Eu li algumas coisas.
― ... Leu? ― O rosto do loiro contraiu-se em desagrado; as faces levemente rosadas. Nada de vergonhoso estava dentre suas notas de aula; contudo, não deixava de ser uma incômoda invasão de privacidade. Principalmente para alguém introvertido como Takumi.
― É raro encontrar alguém que se dedique tanto ― elogiou ela, ainda atenta a cada gesto dele.
Era raro, na verdade, dedicar alguma sentença positiva a alguém do sexo oposto, assim como manifestar algum interesse. Porém, a intrigava a maneira com que ele se portava; em sua timidez mal contida; na dificuldade inequívoca que ele transmitia ao dizer monossílabos. Convergiam todos os fatores para que a morena se sentisse compelida a descobrir mais sobre aquele aluno tão distinto ― era, afinal, até atraente, e alto o bastante para chamar a atenção.
E, apesar do belo aspecto, nunca notara sua existência. Era assim tão discreto?
― Não faça isso de novo, Ayuzawa ― pediu, sinceramente. Mirava o pavimento do terraço, desconcertado.
E ali estava a resposta: apesar das maneiras desajeitadas e retraídas, ele era fofo ― ou justamente por isto. Com a descoberta, também surgiu nela um desejo ingovernável de testar os limites daquele comportamento adorável. Como esperado da líder máxima do Conselho Estudantil, que lidava diariamente com tanta dissimulação e mentira, a desconfiança ainda superava a surpresa. Um sorriso travesso moldou seus lábios ao declarar, num teste:
― Gostei de você, Usui.
Mentalizou diversas reações do rapaz à sentença, desde as mais arredias às mais tranquilas; de uma negação absoluta a um agradecimento transigente. E previu dentre estas a correta: o loiro inicialmente arregalou os olhos, desprevenido; também ofegou, talvez em busca de ar diante das palavras com as quais não estava mesmo acostumado.
― G... Gostar? ― confirmou, incrédulo. “Como pode gostar de mim?” Ela só poderia estar zombando! Não conseguiria fitá-la, e proferiu indignado, focando o parapeito: ― Nem me conhece!
― Não posso ter me afeiçoado à primeira impressão? ― provocou ela uma vez mais. Havia a intenção de provar se Takumi não ocultava algo com uma máscara; no entanto, a honestidade espontânea era fascinante, e ela se viu tentada a continuar apenas para conhecê-lo melhor.
― Primeiras impressões são equivocadas. ― murmurou ele, ainda frustrado. “Não se pode confiar nelas.” Mais estranho que conversar com uma garota, era aconselhá-la sobre algo que ele, um desajustado social, sabia naturalmente. Não descobrira ainda que a presidente apenas lhe testava.
― E você me confirma que estou errada? ― indagou ela, desta vez visivelmente interessada. Curiosa, abaixou-se para vislumbrar o rosto de Usui, voltado para outra direção. ― Você não é uma boa pessoa?
“E eu lá vou saber!” Enrubesceu loucamente diante do olhar concentrado no seu, desviando os olhos verdes numa direção qualquer. Era demais para ele responder enquanto tinha consciência de que lhe observavam, e a voz saiu esganiçada: ― Minha resposta é parcial.
― Parcial, é? ― repetiu Misaki, verdadeiramente bem humorada. Ao afastar-se, notou o indisfarçável suspiro de alívio do outro, e isto lhe animou a declarar, sincera: ― Realmente gostei de você.
Novamente sem fala, o rapaz retesou-se com a própria exasperação. Ayuzawa não estava brincando, afinal? Não poderia ser possível! Nada havia de apreciável em sua natureza reservada e inexperiente. Na infrutífera tentativa de formular alguma sentença, conseguiu apenas censurá-la:
― S... Sua teimosa!
Diante da última confirmação, a presidente permitiu-se sorrir internamente. Usui era uma gracinha.
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