Change!
3 Capítulo Três - Um cotidiano iniciado
Notas iniciais

Ainda que soubesse que o Seika não era um colégio que primava pelo ensino excelente ou pela ótima infra-estrutura, Usui nunca desdenhou daquela instituição que se tornou uma possibilidade de escapar do Miyabigaoka e daquela desagradável teia de relações e interesses. Até mesmo os alunos, dos quais ele se afastava deliberadamente devido ao absurdo retraimento, não representavam qualquer ameaça ao seu estranho modo de vida. Isto, quando existia entre eles uma distância em um nível seguro. O que não era o caso.
Ele mesmo se surpreendia com o grau elevado de desconforto proporcionado quando próximo de outra pessoa. Mesmo quando em seu local preferido do colégio ― a biblioteca, com um razoável acervo de boa qualidade. Contudo, distrair-se por completo e abstrair aquela presença irritantemente persistente era impossível, mesmo quando ela estava concentrada nas próprias obrigações.
― Ayuzawa... ― murmurou o loiro, fechando o livro que lia enquanto pressionava as têmporas. Com o tempo, tornou-se natural o emprego da repreensão em seu tom ao designá-la. Não havia familiaridade, e sim um incômodo generalizado a ponto de ser expresso em palavras. ― Não deveria estar na sala do Conselho?
Do outro lado da mesa, a morena de olhos amarelados desviou os olhos da papelada que preenchia para fitar o rapaz à frente. Um sorriso involuntário de triunfo esboçou-se em seus lábios, pois eram raras as vezes em que ele trocava palavras enquanto estudava. Geralmente, Usui esforçava-se ao máximo para ignorá-la. Ou talvez ignorar o fato de que havia alguém verdadeiramente interessado em desvendar seu comportamento peculiar. Já fazia duas semanas que haviam se conhecido naquele infeliz encontro acidental, e desde então passara a acompanhá-lo, intrigada ― e por vezes encantada ― por aquele que ela julgava um colegial fofo.
― É naquela sala que Yukimura vigia Kanou durante o castigo ― explicou ela. Simulou um timbre inocente: ― Preciso terminar este serviço ainda hoje.
― E precisa... ser especificamente aqui? ― indagou ele; um leve aborrecimento expresso em suas palavras (cujo objetivo era disfarçar o próprio desconforto).
― Gosto de ficar perto de você, já não disse? ― Misaki mantinha a voz divertida enquanto apoiava o queixo sobre a palma da mão para fitar sua reação. Como esperado, ele corou contra a própria vontade. Vê-lo lutar contra o próprio constrangimento era mais adorável do que a própria vermelhidão em si.
― Tsc... já; já disse ― confirmou o garoto, frustrado. ― Não precisa repetir.
― Repito quantas vezes quiser ― cantarolou ela, desta vez mirando alguns papéis sobre a mesa. Anotou um lembrete qualquer sobre um deles, voltando sua atenção às tarefas.
Ele não queria ouvir nem ao menos uma vez, pensou o loiro, mas ela não o obedeceria de qualquer forma. E como iria impedi-la? Mal estava acostumado a lidar com estranhos. Como descobrira recentemente, aquela implicante possuía algum talento nato em provocar, e somado à falta de tato, tornava impossível manter-se ileso. Mas a curiosidade intrometeu-se uma vez mais, ainda que soasse com uma ponta de ceticismo: ― Não disse que odiava homens?
Há pouco tempo, ela lhe explicara o motivo pelo qual irritava-se com o emprego temporário, quando questionada pelo rapaz curioso. Citou também o abandono do pai como justificativa à aversão a pessoas do sexo oposto, e, embora Usui se negasse a crer, a presidente compartilhou desta experiência para que ele soubesse que não era o único a ter limitações sociais. Contudo, ter consciência de uma semelhança entre ambos não era o suficiente para que a convivência fosse das mais cômodas. Afinal, mesmo que os rejeitasse, a garota tinha fãs dentre os alunos, e o ótimo desempenho lhe rendia popularidade.
Não eram de forma alguma parecidos.
― Eu odeio os irresponsáveis, imaturos, abusados, inconseqüentes, baderneiros, debochados... ― A cada adjetivo, a raiva ao proferi-los aumentava exponencialmente, e o papel em suas mãos foi amassado aos poucos. Misaki distraiu-se; os olhos focados em lugar algum, perdido em memórias. Permaneceu assim por tempo o bastante para que o loiro o percebesse (ainda que sua reação tenha sido apenas uma confusão exasperada). Tão logo voltou a si, ela fitou longamente o interlocutor. A exceção, dentre tantos. ― Mas não há como odiar você. ― O tom repentinamente leve acompanhou um sorriso de contentamento.
Havia uma sinceridade perturbadora naquelas palavras ― afinal, o que a atraíra de maneira tão súbita? Era um maldito recluso, o qual encontrava segurança somente nas barreiras que o isolavam. Além disso, conheciam-se há menos de quinze dias! Não compreendia de que forma era possível para alguém afeiçoar-se em tão pouco tempo, tanto quanto lhe era incoerente a própria introspecção. No entanto, aceitar-se como tímido era inúmeras vezes mais fácil.
Voltado para si mesmo, desconhecedor dos sentimentos alheios, Takumi não tinha noção da própria transparência. Era descomplicada a leitura de sua personalidade, e a mente astuta feminina não demorou a decifrá-lo quase por completo. E interessou-se pelo que descobriu: um rapaz adorável, ainda que incompreendido. Como o próprio passado evidenciava, os incompreendidos despertavam nela uma compaixão implacável ― o que gerou aquela espécie de “perseguição”.
Alheio a todos os motivos dela, Usui manifestava seu desagrado. De maneira alguma a morena foi hostil ou desdenhosa com sua fraqueza, embora dela estivesse ciente. Na verdade, era aberta e expansiva, esforçando-se para aproximar-se sem aparentes intenções escusas. E era aí que residia o perigo. Naturalmente, ao longo do par de semanas foi se acostumando, ainda que minimamente, à presença de Ayuzawa. O temor de apegar-se a ela de modo irremediável despontava no horizonte; relacionamentos eram sinônimos de um mar de dúvidas as quais não estava preparado para lidar.
Todavia, não pode impedir o rosto de ruborizar com aquelas palavras, tanto de vergonha quanto de um lisonjeio acanhado e mal percebido. Também suspirou em resignação, frustrado sobretudo consigo mesmo, enquanto voltava a abrir o volume na página em que havia se interrompido. Lidar com um estranho era difícil; lidar com uma-quase-estranha como ela, inquietante. Mal percebia o loiro o quanto aquela inquietação tornou seus dias mais significativos e menos solitários.
****
Não havia punição pior do que aquela merda, resmungou o delinqüente internamente. Não apenas pelo castigo em si: sentir-se obrigado a fazer qualquer coisa, por menos enfadonha e árdua que fosse, era repugnada pelo espírito livre de Kanou. Novamente, teve de resolver questões de conteúdos avançados para um aluno do segundo ano como ele. Física, desta vez. Se durante as semanas anteriores os diversos tipos de funções o importunaram, desta vez eram corpos, dinâmica e vetores.
― Quem foi o filho da puta que inventou essa porra de Mecânica?! ― protestou para si mesmo enquanto lia o enunciado do problema. Não havia entendido nem ao menos uma linha; como iria resolvê-lo?
Perguntava-se para quê toda aquela encenação de “método disciplinar”. Afinal, nada aprendera nas últimas semanas, tanto diante da dificuldade quanto da própria falta de dedicação. Era somente enclausurado naquela sala, com um tampinha detestável a lhe impor exercícios impossível e risinhos sarcásticos. Tudo aquilo apenas fazia crescer o ódio contra o sistema acadêmico e suas falhas risíveis.
Não havia alguma motivação trágica que o impulsionara em direção àquela rebeldia extrema. Haveria razão em procurar justificativas para aproveitar a juventude ao máximo? Na verdade, encontrava a real incoerência naquela ilusão que era a instituição escolar, cuidadosamente montada para que o “rebanho” aceitasse obedientemente o fato de que era severamente reprimido.
Enquanto ele, que isentou a si mesmo destas “responsabilidades” (palavra floreada para cárcere, segundo Soutarou), era julgado como uma inconveniência em meio a tantas almas corretas; uma falha no sistema. E orgulhava-se disso! Era, sim, um insubordinável contrário a toda tentativa de disciplina. Suas leis eram mutáveis, determinadas por ninguém menos que ele, e seu objetivo era nenhum mais do que usufruir da liberdade oferecida pela ausência de uma amarra como um objetivo fixo.
Ao final do castigo, voltaria a agir como antes ― então, novamente: para quê toda aquela inutilidade?
― Resolva em silêncio ― Yukimura sorria, apreciando a raiva emanada pelo maior. Era como um espetáculo a ser apreciado; enfim, a retribuição por todo o menosprezo que sofrera, em parcelas diárias. Sentado novamente na carteira ao lado, reclinou-se contra o assento. ― Se você é burro não é problema meu.
Yukimura, apesar de igualmente liberto de muitos dos grilhões estudantis, nunca foi tão caótico quanto o rival. Ali residia a diferença entre eles: enquanto um lutava contra aquilo que repugnava com todas as forças, o outro encontrava em meio à ordem lapsos nos quais podia manifestar toda a sua autonomia. Mesmo como membro do Conselho, o menor nunca seguira todo o extenso e monótono regulamento à risca, pois a própria presidente dera-lhe o direito de agir como quisesse, dentro de alguns poucos limites toleráveis de bom senso.
Muito devia àquela garota, já que foi ela a apanhá-lo dentre os insurgentes para oferecê-lo aquele aquela função tão conveniente: ter direito a brigar, mesmo que esporadicamente, com os mesmos adversários de antes. E a verdadeira vantagem: não sofreria qualquer punição, pois este era seu cargo. Cachorrinho do Conselho ou não, mantinha os apreciados confrontos. Ao final, o verdadeiro escravo (da própria noção de liberdade) era aquele idiota.
A provocação surtiu efeito, já que o moreno de óculos escuros encarou o pequeno tão logo o disse. Provavelmente, seus olhos ardiam em fúria, mas as odiáveis lentes pretas impediam que os visse. Ignorando qualquer resquício de educação ou bons modos, estendeu a mão para arrancar a armação do rosto de Soutarou e rodopiá-la entre os dedos. Havia o desejo cruel de comprazer-se com seus transtornos.
― O que pensa que está fazendo? ― indagou o mais novo; a entoação sádica explicitava a intenção de quebrar cada osso daquele nanico inconveniente.
― Humm... até que você não é estranho, Kanou-kun ― percebeu o veterano, enquanto aproximava-se do rosto do outro para melhor analisá-lo.
Pela primeira vez, o timbre não carregava nenhum resquício de implicância ou sarcasmo. Distraiu-se com a aparência, ainda que não fosse a primeira vez que o visse; todavia, era a única vez na qual não estava prestes a socá-lo, concentrado em convergir a fúria através do punho. Sinceramente, não entendia porque o calouro escondia-se atrás daquele bizarro e ameaçador óculos, já que as íris azuladas nada tinham de vergonhosas.
E mesmo mal encarado, sua fisionomia expressava uma harmonia áspera, como condizia a um rapaz masculino como ele. Ao contrário do próprio Shouichirou, que secretamente detestava aquele aspecto suave e delgado ― ele nada transmitia sobre a força que possuía, e a única utilidade era criar nos adversários falsas impressões para surpreendê-los com a real veemência de seus golpes. Em resposta, o maior soltou uma curta risada desdenhosa.
― Me elogiar faz parte do castigo, senpai? ― Ah, como aquele baixinho era idiota!
― Elogio? ― repetiu Shouichirou, incrédulo. ― É muito prepotente para alguém que ― Interrompeu-se tão logo percebeu. Merda, merda, merda!
Como era imbecil, pensou tarde demais. Se deixara levar por tão pouco! Contra sua vontade, os orbes alaranjados focaram-se naqueles cerúleos. Era este o momento maldito no qual manifestava alguma bizarra atração pelo hipnotizador, como se este fosse um deus a ser venerado.
O moreno mais alto encarou-lhe com um sorriso travesso enquanto estalava os dedos uma vez. Aquele gesto complementava a própria técnica iniciada com o olhar, reforçando o elo entre ambos, assim como a obediência. Uma familiar sensação o acometeu; os sentidos entorpeceram-se com a hipnose. Pouco a pouco o formigamento sentido nas extremidades dos dedos avançava por todo o corpo; difundia a inércia até que nem o empenho próprio poderia mantê-lo de pé. E desfocadas, visão e audição complementavam a letargia, impedindo-o de reagir. Distinguia apenas um todo negro e silencioso, do qual era impossível escapar.
― Sempre ingênuo, Yuki. ― Ouviu a voz maliciosa murmurar, seguida de um segundo estalo que o enviou para as trevas da inconsciência.
****
― Como assim matar aula?! ― exclamou possessa a pequena.
Perplexa e cética, Suzuna mirava o rapaz à frente, despreocupadamente sentado sobre a cobertura do colégio. Há poucos instantes o sinal de que o intervalo se encerrara foi ouvido, e ambos, que almoçavam no terraço, estavam prestes a levantar-se e partir quando o moreno sugeriu aquela proposta tentadora, ela tinha que admitir, mas irresponsável.
Não cederia, de forma alguma. Se aquele idiota achava que enfrentaria as broncas de um professor enfezado por puro capricho, estava muito enganado! Além disso, ao contrário de Shintani, a menor esforçava-se bastante nas tarefas acadêmicas. Já ele era irritantemente autodidata, capaz até mesmo de alcançar as primeiras posições nos exames sem encostar em um livro ou caderno sequer. Para ela, aquilo feria o equilíbrio do mundo... “Onde está a porcaria da troca equivalente¹?”, era um pensamento constante.
― Ma-tar-au-la ― repetiu Hinata, divertido, quando ela não respondeu, ainda aturdida.
― Eu ouvi da primeira vez, retardado ― resmungou a Ayuzawa mais nova. Carregou a voz de uma repreensão espalhafatosa, enquanto empertigava-se: ― Mas por que acha que eu agiria como um louco imaturo como você?
― Ah, qual é. ― Um sorriso atrevido esboçou-se em seus lábios. ― É uma menina certinha como sua irmã?
― E se eu for? ― revidou ela, indignada com o tom de dissimulada decepção que ele utilizara. Que abusado! Ergueu o queixo para reforçar a réplica, e o gesto adquiriu efeito contrário: mais aparentava ser uma pré-adolescente birrenta.
― Chata ― disse ele, simplesmente. ― Além de minúscula, também é sem-graça.
Era o cúmulo! Ainda que fosse acostumada a suportar o tratamento do moreno, que para alguns poderia ser dito cruel (e que para ela era apenas costumeiro), havia a aula a se assistir. Além disso, sabia que não iria ganhar em qualquer discussão, embora os instintos a estimulassem a continuar debatendo com ele, até que um dos lados desistisse de argumentar e “cedesse” a vitória ao outro. Era sempre ela a ceder, que droga. Porém, desta vez isto não iria acontecer, porque ela não permaneceria ali naquela perda de tempo...
― Aposto que não fica.
Maldito! Desgraçado! Fora capaz de tocar em seu ponto fraco! Com um sorriso vitorioso, o vizinho implicante esperava por uma resposta. Expressava uma prepotência que a irritava cada vez mais ― não poderia de forma alguma recusar aquela oportunidade de vencer. Mentalmente, desenrolava-se uma disputa mental entre prudência e espírito competitivo. “Mas, e a aula?” “Eu vou ganhar, droga!” “Isso não vale nota.” “Vale meu orgulho, que é mais importante.”
Só mesmo ele para criar um dilema destes e confundi-la de tal forma. Enquanto ponderava os diversos fatores (sempre tendendo para a opção na qual poderia esfregar na cara de um certo alguém a inédita vitória), o rapaz apenas assistia a pequena a duelar em pensamentos. Era absurdamente transparente em todos os aspectos: esforçando-se o suficiente, seria capaz de identificar o rumo do diálogo interno dela somente através do exprimido pela face diminuta.
Como de praxe, a distraída perdeu-se em pensamentos próprios, esquecendo-se tanto dele quanto de manter o habitual controle sobre as próprias reações. Quando com Hinata, a mais nova manifestava uma maior liberdade expressiva, ao contrário da constante irritação que expunha aos outros para, segundo ela mesma, compensar a impressão causada pela aparência frágil. Ironicamente, um dos únicos os quais tinha acesso a esta face (poderia-se dizer) mais fofa era quem a tratava como uma garota normal.
Ou talvez por isto mesmo. Porque o comportamento da baixinha, neste aspecto, era involuntário: zangava-se com facilidade diante daqueles que a consideravam meiga e bonitinha, pois estavam definindo uma ilusória personalidade baseados no corpo pequeno. De tão real e vívida, a raiva chegava ao ponto de ser dramática, e em busca por força, mal sabia ela o quanto manifestava-se inconscientemente adorável.
Como quando franzia as sobrancelhas, deixando claro para qualquer um o quão concentrada estava. Com toa a certeza, o moreno podia afirmar que ela era incapaz de encobrir manifestações emotivas ― tudo o que sentia era evidente o bastante para ser lido até mesmo por um desconhecido. De tão atento a ela, não notou quanto tempo passou-se desde o conflito interno da menor.
― Estou envelhecendo aqui enquanto se decide, nanica ― avisou Shintani, displicentemente sentado.
― Pois fique velho e caquético de uma vez!
― Quanta delicadeza ― ironizou diante do nervosismo dela. Sorriu, provocante. Havia ainda um argumento máximo contra ela: ― E então? Vai aceitar o desafio? Ou continuar como perdedora na sala de aula?
Ao ouvir a palavra “perdedora”, Suzuna enfureceu-se como nunca antes. Como um retrato de seus sentimentos, o rosto contraiu-se em desagrado. Foi descaradamente desafiada por aquele estúpido, e no momento, ambos os lados do duelo mental gritaram em coro: “Vença desse idiota!” Não iria decepcioná-los, e assim o fez ao sentar-se ao lado do amigo no pavimento impermeávelenquanto o segundo aviso de reinício das aulas soava, estridente ― como um reforço da ousadia de cabular a aula de Exatas.
Trouxe para o peito as pernas delgadas (ou gravetinhos, como um dia ele chamara), apertando-as contra si enquanto sorria em triunfo para o adversário. A primeira vitória de sua vida! Controlou-se ao máximo para não remexer-se em alguma coreografia vergonhosa, mas foi impossível não deixar explícita a satisfação em um sorriso raro, de um entusiasmo inocente. Raramente deixava transparecer este tipo de semblante, geralmente mantendo a carranca emburrada.
― E adivinhe quem venceu? ― gabou-se, orgulhosa.
― E adivinhe... ― começou ele, usando da mesma expressão que a garota utilizara. Aproximou-se para sussurrar o restante em seu ouvido: ― ...o que consigo ver quando está sentada assim?
Naturalmente desatenta, Suzuna demorou a compreender a que ele se referia, até que a resposta veio num estalo. Com um rubor detestável a cobrir as bochechas, assentou as pernas ao chão, escondendo a calcinha que ele provavelmente vira enquanto posicionada de outra maneira. Era um pervertido, e ainda por cima a deixara constrangida! Quando ajeitou-se ao sentar-se sobre as pernas, esbravejou exasperada:
― Pare de ficar olhando, então!
E, numa ousadia habitual, ainda que sempre ultrajante, o rapaz aproveitou-se da posição para recostar a cabeça sobre as coxas convenientemente dispostas como um apoio. Parcialmente repousado sobre ela, Hinata deixou o restante do corpo deitado sobre a superfície gelada. Conservava no rosto a petulância que a deixava possessa, principalmente quando trapaceava daquela maneira. Ainda foi insolente o bastante para agradecer, zombeteiro:
― Obrigado pelo colo.
Enquanto ele acomodava-se, assimilou então os motivos de Shintani ― tardiamente. Conhecendo-a como ninguém, tinha certeza de que ela nunca recusaria ganhar com tanta facilidade. Daí a proposta tentadora, e as provocações para que ela de fato não fugisse. Seguiu-se então o maior ludíbrio: de onde se encontrava, era impossível visualizar o vértice das pernas da menor, mas esta deixou-se enganar de tão embaraçada. Desde o início, sabia que ela ao final estaria conforme queria desde o início. Detestável!
― Mas... mas você só queria um travesseiro! ― Sentia-se ludibriada por aquele que era o melhor amigo há dez anos. Como sempre, ele a persuadira (ainda que indiretamente).
― Tão lerda ― divertiu-se ele, fitando-a de baixo. Aconchegou-se a uma das coxas da garota, apertando-a leve e carinhosamente. ― É que aqui é quentinho.
― Não consegue manter suas mãos para si mesmo? ― queixou-se ela, prestes a estapeá-lo diante de tanto abuso.
― Estou ocupado com os olhos, ainda ― zombou ele, ao mencionar a ilusória visão das roupas íntimas femininas. Diante da indignação exagerada da outra, riu com gosto.
― Eu deveria ganhar um prêmio por te aturar. ― Desviou os olhos ao suspirar, resignada. Estava cedendo colo ao insuportável enquanto ele implicava com ela. Era uma idiota também.
― Falando em prêmios... já escolheu o que vai querer?
Ah, ele falava do favor de semanas atrás. Esquecera-se completamente. Empalideceu e arregalou os olhos, soltando um grunhido que deixava óbvio que não se lembrara de pensar em qualquer pedido, apesar da situação favorável na qual se encontrava. Uma tapada, pensou ele ao revirar os olhos. Pode até senti-la estremecer quando tocou no assunto, descrente:
― Você esqueceu, não é?
― ... Não me apresse. ― A voz transparecia nervosismo, enquanto voltava os olhos para qualquer local, exceto aquele garoto complicado. Negando a própria falha. Típico.
― Como é distraída. ― Deu-lhe um peteleco na testa. ― Melhor para mim.
― Se continuar com isso, vou pedir algo caro ― ameaçou ela, estreitando os olhos.
― Ei, dinheiro está valendo? ― Aturdido, o moreno levantara do confortável “travesseiro”, provocando em Suzuna um sorriso incontido de audácia. Pediu, novamente:
― Ou isso, ou vai me chamar de “Suzuna-sama”.
― Que insistência ― reclamou ele, mal-humorado. Também implicou: ― Tem algum fetiche com isso?
Do que o imbecil achava estar comentando? Mais uma vez naquele dia, as faces adquiriram um rosado intenso. Ainda que, com relação a esse tipo de assunto, a Ayuzawa mais nova não manifestasse qualquer desconforto ao corar ― era completamente inexperiente em todos os aspectos do sexo, e a mera menção do tema incitava sua vergonha. Era capaz até mesmo de gaguejar, numa atitude tão contrária ao constante temperamento ranzinza:
― Fetiche? C-Claro que não.
― Está parecendo, Ari-sama. ― Hinata usou de um timbre irritante e monótono.
― Não sou uma formiga! ― protestou, possessa. A voz era tão alta como em um grito.
― Mas é tão pequena e adora doces, Risu-sama ― continuou o rapaz a provocar. Ótimo, agora era um esquilo!
― Dá para parar?
― Nada de “-sama” ― pediu ele, subitamente sério. Aproximou-se do rosto dela para fortalecer a sentença. Já acostumada, desta vez ela não enrubesceu.
― Ok, ok ― desistiu ela, num suspiro ao afastar-se. ― Vou pensar em outra coisa, Hikku ― Tentou imitá-lo chamando-o de caipira.
Citava o fato de que Shintani era neto de dois fazendeiros e sempre os visitava quando possível. E não se incomodava nem um pouco com isso; muitas vezes, o acompanhava, pois aquele casal de idosos era muito simpático e afetuoso.
― Não devia ter dito isso, baixinha ― avisou o mais velho, com um sorriso perigoso. Ah, arrependeu-se ela tarde demais. Sabia muito bem o que significava o anúncio: cócegas. Muitas cócegas.
Além do desconforto proporcionado pelo caráter compulsório do ato (já que detestava sentir-se obrigada ou pressionada), Suzuna também odiava rir. O som era histérico e energético como o de uma criança, e isto já era um bom motivo. Até mesmo já haviam chamado suas gargalhadas de “fofas”... Não! Com isto em mente, fez menção de fugir; contudo, o rapaz foi mais rápido, aprisionando-a num abraço desajeitado.
Insistente, debateu-se para escapar, recebendo apenas um aperto maior ― e os temidos dedos masculinos sobre a pele. Sensível, era capaz de sentir cócegas nos locais mais improváveis, como os joelhos, e Hinata aproveita-se desta característica para tornar a experiência mais e mais torturante. “Sádico, maldito sádico” ofendia ela mentalmente entre risadas involuntárias. Argh, como detestava aquilo!
Contorcia-se, incapaz de permanecer inerte quando estimulada daquele modo, e também porque procurava alguma forma de livrar-se das cócegas. Com o movimento, somente liberava ao mais alto cantos inexplorados para atormentar. Porém, ele era capaz de divertir-se mais tirando proveito da situação, e assim o fez:
― Repita comigo que eu paro: ― ofereceu ele, maroto. ― “Desisto do meu fetiche.”
Com as gargalhadas, a voz de Suzuna saiu falha: ― Não é fetiche.
― Repetir é mais rápido ― advertiu ele, intensificando as cócegas. Sem quaisquer opções, restou a ela repetir como podia. ― Muito bem ― parabenizou ele. Decidiu prosseguir, malicioso: ― Agora: “E também desisto do meu favor e aceito minha natureza de perdedora.”
Em uma evidente brincadeira, o acréscimo era deliberadamente uma frase longa demais para que alguém reproduzir em meio aos risos desmedidos. Além disso, prometera a ela aquele favor, e o cumpriria conforme o possível. No entanto, divertir-se ao assisti-la tentar gaguejar frases entrecortadas não fazia mal algum, e assim o fez, ansioso, quando a pequena tentou. E a frase o surpreendeu, embora fosse uma resposta previsível para aquela anã enfezada.
― Vá para o inferno, Hinata! ― O insulto diluiu-se em gargalhadas.
****
Relações familiares complicadas eram comuns ao rapaz loiro, de tal maneira que o distanciamento e repulsa dos parentes não lhe afetava há muito tempo. Suas barreiras configuravam-se como defesas eficazes, a protegê-lo de relações quaisquer, sejam benéficas ou, como no caso, danosas. Sabia que o status de filho ilegítimo lhe acompanharia por toda a vida, ao menos entre aqueles que compartilhavam o mesmo sangue que o seu. E imaginava que este desprezo que sofrera desde a infância, somado à criação distanciada do restante do mundo (advinda do próprio desejo da família de ocultá-lo, como se dele se envergonhasse), tenham moldado em parte seu comportamento distorcido.
Contudo, foi livre dentro do pequeno mundo da mansão, ainda que este se restringisse aos empregados e se delimitasse pelos muros da residência. Durante muito tempo pode viver à sombra dos poderosos parentes, longe de seu controle, assim como de seu prestígio. Havia muito de benéfico para ambos os lados naquela relação, já que desde muito novo Takumi era adverso a toda aquela pomposa rede de falsidade e jogos de poder (que apenas geravam nele dores de cabeça quando menor).
E agora a mesma família estava rompendo sua parte naquele “contrato” informal, roubando-lhe a preciosa autonomia.
“Como vai, Takumi? Saudades de mim? É claro que sim, você me ama demais que eu sei. Isto será resolvido, logo, logo. Ah, aquele cubículo que você chama de apartamento ainda sofre com os vazamentos? Precisa que alguém dê um jeito neste problema; da última vez que o visitei fiquei indignado com tal precariedade. Me ouça desta vez, Gerry.”
A mensagem, recebida na tarde anterior, para qualquer um seria uma simples e banal preocupação de irmão mais velho. Porém, Usui conhecia o herdeiro Walker o suficiente para ler nas entrelinhas, pois durante a juventude o mais velho adquiriu um gosto particular por decifrar (e, principalmente, elaborar) enigmas. Eram através destes recados subliminares que Gerard se comunicava, em uma obsessão compulsiva: acreditava ser vigiado em todas as mínimas ações pelos membros da família, mesmo quando tal suposição se mostrava absurda. Ao longo da vida, acostumara-se a esta face maníaca do irmão, assim como à sua fuga das responsabilidades ― também logo viria ao Japão, confirmou, provavelmente para escapar da burocracia que a posição lhe exigia. Relembrar do primogênito suscitou nele uma nostalgia expressa em um suspiro condescendente. Ele não tinha jeito.
Contudo, o humor não permaneceu leve quando descobriu que a notícia o afetava também: haviam gravadores e câmeras no apartamento. Havia, então, algum fundo de veracidade no senso de perseguição do meio-irmão. O motivo pelo qual também era vigiado era desconhecido, mas vislumbrou alguns pequenos dispositivos ao “inspecionar” as tubulações; de modo furtivo, obviamente. Era o cúmulo; queriam retirar-lhe até mesmo a privacidade! Aqueles aparelhos intrusos maculavam o estimado refúgio; atribuíam desconforto ao que deveria ser acolhedor. Não suportaria mais permanecer naquele ambiente supervisionado ― sentiu-se oprimido quando descobriu.
― Preciso de um trabalho... ― murmurou para si mesmo enquanto apoiava a cabeça sobre os armários de sapatos, prestes a sair do colégio. Quanto menos tempo passasse em casa, melhor. Ainda que a consciência de que lhe observavam mesmo enquanto dormia tenha provocado uma prolongada insônia na noite anterior.
― Precisa de dinheiro, Usui? ― Ah, era só o que faltava. Não bastava a perseguição em casa. Ao lado, Misaki o observava à espera de uma resposta, também preparada para partir.
― Você é uma perseguidora ou algo parecido? ― indagou ele, visivelmente irritado. A ausência de privacidade havia alterado seu humor, e a presença daquela que incansavelmente pretendia romper a bolha da qual se isolara de vínculos sociais somente acentuava a raiva.
― Não. ― A resposta acompanhou um sorriso divertido. O aborrecimento aparentava não surtir efeito sobre ela. ― É sua culpa ser tão interessante.
Céus, como era insuportável!
― Mas precisa mesmo? ― indagou a morena, honestamente interessada. Internamente, elaboravam-se alguns planos. Havia uma vaga disponível no café.
― Por quê? Tem algum em mente? ― Desta vez, sua voz soou menos ríspida. “Não estou sendo amigável”, pensou consigo mesmo, “só retribuindo o fato de que ela está tentando me ajudar.”
Atenta às mínimas reações do rapaz, Ayuzawa divertiu-se com aquele conflito interno. Era indiscutível o quão transparente seus pensamentos eram sob os olhos perspicazes dela. E, ensimesmado, ele não deveria ter noção de como o rosto retorcia-se em diversas expressões a cada mínima mudança no rumo dos pensamentos. Simultaneamente fofo e hilário. Pigarreou para impedir uma risada, prosseguindo com alguma solenidade:
―Antes, precisa me responder ― enunciou a presidente. ― Você sabe cozinhar?
Fale com o autor