Change!
12 Capítulo Dez - Uma mudança inevitável - Um
Notas iniciais

Apesar da seriedade da situação, mal conseguia segurar o riso. Talvez a convivência com o namorado tivesse a afetado deste modo. Mas não conseguia evitar: a visão da melhor amiga a quase quicar de ódio na arquibancada fez com que o sorriso de Shizuko não sumisse de nenhuma maneira.
E o alvo do olhar de Sakura também tornava cômica a situação: a irmã mais nova da presidente estava evidentemente emburrada, expelindo raiva e desprezo para qualquer um que visse na linha de largada para tê-la como “prêmio”. Ótimo incentivo para os competidores.
― Você parece tão zangada quanto ela ― percebeu ao aproximar-se da capitã do time de futebol. Ela nem assustou-se com a aparição repentina.
― É claro! ― Apertou os punhos com desgosto. ― Olha a merda em que a meteram sem qualquer permissão!
Bem, era a hora das más notícias. E a morena de óculos tinha toda a certeza: se não fossem tão próximas, Sakura seria capaz de despejar a fúria em cima dela mesma para apaziguá-la. Revelou, da forma mais branda possível para que o estresse daquela explosiva não estragasse o restante do planejado. Ainda teriam que livrar Suzuna daquele fardo.
― Sinto muito por frustrar seus planos, mas Misaki-san desmaiou.
― Desmaiou? ― repetiu, incrédula. ― Como assim? Onde ela-
― Usui-kun a levou até a enfermaria ― interrompeu, tentando tranquilizá-la. Céus, ela já estava praticamente preparando-se para enfrentar um exército! ― Deve ter sido o cansaço depois de tanta atividade física.
Não havia dúvidas sobre o motivo do desmaio: provavelmente Ayuzawa se esforçara mais do que o corpo podia suportar e desabou inconsciente no meio da competição, trazendo muito mais problemas do que se apenas recusasse a participação. E ao descobrir, Sakura agiu da mesma maneira que Shizuko: reclamou da teimosia da própria amiga, ainda que bem mais ofensiva.
― Idiota cabeça dura. ― Passou a resmungar, ao avistar a quantidade de pessoas que já havia se reunido para a prova: ― Droga, vai ficar difícil distraí-los sozinha.
A míope permitiu-se um sorrisinho presunçoso:
― E por que acha que estou aqui?
― Shizuko, eu já disse que te adoro? ― Pela primeira vez naquele dia, expressou satisfação genuína. Bem humorada, a outra respondeu:
― Hoje não.
Como não podiam contar com a presença da presidente (que, conforme combinaram, levaria uma bronca de ambas mais tarde), a míope adotou o papel que aquela que perdera a consciência assumiria. Antes de tudo, era necessário assistir a largada. Seria muito mais simples fugir com Suzuna se não houvesse nenhum competidor para reclamar por ela.
De maneiras distintas, cada uma aguardou pelo momento certo: enquanto Shizuko sentou-se de pernas cruzadas na arquibancada, entediada diante da aglomeração de rapazes, a outra mal conteve a expectativa, mantendo-se de pé. Logo começaria o campeonato de futebol feminino também, e a pressa em resolver aquele problema a deixava inquieta. Quando Sakamoto Ryotaro surgiu entre os restantes para posicionar-se na largada, a tensão dela foi ao máximo. Mais parecia prestes a partir para cima dele ― e como bem observou a morena de madeixas curtas, a irmã mais nova de Misaki afundava as unhas na carne dos braços cruzados para não fazer o mesmo.
Não podiam ser um pouquinho mais pacientes?
― Sakura-san, sente-se ― pediu, displicente.
― Mas eu-
― Não estrague tudo quando falta tão pouco, por favor.
A voz era mais dura, tanto que a jogadora de futebol a obedeceu, mesmo que contrariada. Como Shizuko poderia estar tão calma, caramba? Apoiava a cabeça em uma das mãos, enquanto o cotovelo fincava-se ao degrau seguinte. Se não a conhecesse bem, diria que estava pouco se importando. Mas era obstinada, e tentou reforçar o próprio argumento aproveitando-se da ausência de um garoto que (com certeza) pensava da mesma forma que ela:
― E quem garante que Shintani não vai encher ele de porrada?
― Hideki me disse que sempre humilhou ele publicamente quando ele tentava resolver alguma coisa usando violência. ― Olhava para as unhas bem feitas enquanto o dizia. Mas lançou um olhar ameaçador à outra: ― E se você não parar de se contorcer como se estivesse em uma briga, eu vou fazer a mesma coisa.
― Retiro o que disse sobre adorar você.
Quando Sakura cruzou os braços e desviou o rosto, zangada, sabia que havia vencido a discussão.
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Era possível sentir tanta raiva? Porque Suzuna parecia prestes a explodir diante de tanto ódio. Não bastasse ser tratada como objeto para diversão daqueles imprestáveis, ainda era obrigada a controlar-se para não estapear o idiota que se aproximara dela de maneira asquerosa.
E onde estava Hinata, afinal? Faltava pouco para o início da corrida, ainda que ela quisesse que esta nunca começasse de fato. Como se pudesse ler seus pensamentos, o vizinho finalmente apareceu.
É, de fato havia alguém mais zangado que ela mesma. De tão ameaçadora, a carranca do moreno parecia capaz de afastar as pessoas num raio de metros. Deliberadamente, evitava a visão de Ryotaro, ciente do autocontrole limitado. Estava ali para correr ― e vencer.
Quando todos os competidores alinharam-se à frente da pista, não demorou muito para que um dos juízes desse o sinal da largada. Dentre todos, a Ayuzawa mais nova torcia apenas por um, e este felizmente adquiriu alguns metros de vantagem em poucos segundos.
Mas nem um minuto de corrida pôde assistir, porque pouco após a partida dos garotos, uma confusão fez-se por ali. Pelo que parecia uma das amigas de Misaki desmaiara, atraindo a atenção de muitos, enquanto os restantes estavam sendo distraídos pelo presidente do clube de Shogi. Antes que pudesse entender a situação, sentiu um dos pulsos sendo puxados na direção contrária.
Sakura estava arrastando-a para longe dali. Para manter o fôlego, manteve-se quieta, apressando o passo para acompanhá-la, mas iria agradecê-la quando possível. Estava eufórica!A veterana levou-a até afastar-se bastante do tumulto, para murmurar num timbre urgente:
― Está me ouvindo? ― Suzuna acenou afirmativamente. ― Você vai correr o máximo possível.
― M-Muito obrigada!
― Agradeça à sua irmã também ― lembrou ela, sorrindo minimamente para a garota cujo rosto já estava corado e ofegante com o esforço.
Foi a última imagem vista pela pequena antes de acelerar os passos. Sentia o peso e o alcance de cada passada larga, o pulmão a protestar por oxigênio, os músculos a tencionar além dos limites. Mas estava livre, e isto tornava qualquer esforço leve.
Sabia que deveria afastar-se da pista para não ser descoberta, mas não conseguiu evitar ― foi praticamente involuntário. Contornou um trecho encoberta pelas árvores que envolviam todo o exterior do colégio, e posicionou-se atrás de uma delas, recuperando o fôlego perdido.
Estava agindo como idiota, mas o que podia fazer? Bem, tudo dependia dele ― largara na primeira posição, mas ainda tinha essa vantagem sobre os outros? Só poderia descobrir se esperasse, mesmo que isto fosse um risco. “Estou confiando naquele imbecil”, pensou, ansiosa.
Um imbecil bem rápido, na verdade. Aproximando-se do ponto em que a morena estava escondida, Shintani era o único à vista. Pelo que parecia, estava muitos metros além dos adversários, pois não havia um sequer atrás dele. No rosto, transparecia apenas a concentração e a obsessão de atingir um objetivo.
Porém, ela não iria parar para admirá-lo: mal o avistou, preparou-se para intervir. Tinha que agir com exatidão, e assim o fez. Quase de modo cronometrado, saiu de súbito da barreira vegetal, agarrou-o pelo braço apenas a tempo de perceber sua expressão surpresa e o puxou, de volta para as árvores.
Obviamente, o gesto rude, conjugado com a impetuosidade dela e a velocidade dele fizeram com que ambos perdessem a estabilidade dos próprios corpos. Acabaram embolados um ao outro, sobre o gramado a amparar a queda. Ou melhor, a queda do rapaz, já que Suzuna desabara praticamente sobre ele.
Quando abriu os olhos após aquele evento confuso e súbito, a caloura percebeu onde estava, e, sobretudo, como estava. Poucos centímetros separavam seu rosto do rapaz, fazendo com que a consciência sobre ele se acentuasse um pouco mais que de costume. “Hinata é bonito”, considerou, mesmo que as feições deste estivessem contraídas em uma carranca.
― O que você pensa estar fazendo?
Ora, aquele imbecil! Esqueceu qualquer boa impressão ao afastar-se, ultrajada:
― Te salvando de chegar a uma linha de chegada vazia como um idiota.
― Sua descerebrada. ― Franziu as sobrancelhas em desagrado. ― Tem noção de que podia ter quebrado a minha perna?
― Algum osso quebrado? ― Se havia agido de maneira irresponsável e inconsequente? Sim, é claro. Se iria admitir isto para ele? Nunca. ― Pare de reclamar, Hinata.
Conformado com a teimosia dela, Shintani suspirou pesadamente. Ao menos ela estava ali, com ele, em vez de aguardar pelo risco de ser oferecida a um idiota qualquer. No entanto, haviam dúvidas: como ela fugira? Indagou, ao sentar-se ao lado dela:
― Isso não vai contra as regras?
― Eu não podia correr ― recordou-se ela. ― Ninguém disse que eu era obrigada a ficar lá.
― Sua baixinha inescrupulosa. ― Sorriu de maneira perversa: gostava daquela ideia.
―Viu? Eu disse que podia me livrar sozinha. ― Suzuna mal continha o orgulho, e fez questão de refreá-la ao mirar os orbes amarelados de esguelha.
― Aposto que teve ajuda da sua irmã.
― Detalhes! ― quase gaguejou a pequena, enrubescida com o nervosismo.
Ao vê-la daquela maneira, a apertar os punhos fechados sobre as coxas, sentiu-se atiçado a sussurrar no ouvido da morena frases que dariam verdadeiros motivos para ela ruborizar. E nem tentou impedir o fluxo de pensamentos com o tempo descobriu que era natural surgirem quando estava com ela. Isto fazia com que se lembrasse da decisão que tomara, e Hinata não era o tipo de pessoa a se estender demais quando já estava decidido.
― Está esquecendo uma coisa muito importante, pirralha.
― O quê?
― Tecnicamente, eu fui o primeiro a te alcançar. ― Sorriu da maneira presunçosa que, tinha certeza, a deixaria irritada. ― Eu ganhei.
― E daí? ― Cruzou os braços, contrariada. Aquela linha de raciocínio provavelmente levaria a algo que estaria devendo a ele dali por diante. ― Não cruzou a linha de chegada!
― Má perdedora. ― Ouviu ele murmurar.
― Argh! O que você quer?
Se não fosse tão absurdamente distraída sobre tudo ao seu redor, a mais nova teria percebido a intenção nos olhos dele. No entanto, foi somente quando ele se aproximou ― mais especificamente, quando já estava a centímetros de seu rosto ― que Suzuna anteviu o desejo nos orbes acastanhados. Um desejo incandescente, capaz de simultaneamente escurecer e arder aquelas íris que pareciam prestes a devorá-la.
E era tanto desejo que foi quase subjugada por ele, pois mesmo quando ele cerrou as pálpebras, o transmitiu muito mais intensamente ao tomar os lábios dela. Mas havia também calor na boca a moldar-se contra a sua, assim como na língua ousada que foi de encontro à sua. Era algo novo aquele formigamento e queimação a distribui-se dali para todo o corpo com o contato irrefreável daquele beijo faminto. Até mesmo a mão que acariciava-lhe as madeixas escuras era possessiva, atrevida, um tanto indelicada.
A pequena permaneceu de olhos abertos ― estática, incrédula, surpresa. Mal saberia dizer se estava respirando de fato. Muito menos correspondeu, como se estivesse petrificada. Apenas sentia, e isto a paralisava muito mais. O que ele estava fazendo..?!
Aos poucos, Hinata encerrou o beijo, mesmo que quisesse aprofundá-lo e torná-lo mais selvagem. Não era nem de longe o suficiente, mas ela parecia tão surpreendida. Ainda que não fosse necessário, foi ao afastar-se que confirmou a vermelhidão que encobria as bochechas da Ayuzawa mais nova, e delatavam a sua vergonha. Involuntário, expeliu uma risada que nada coincidia com a situação.
― Se eu soubesse que iria reagir assim, teria feito isso há muito mais tempo.
Sinceramente achava que levaria no mínimo um tapa, quando não um chute no saco. Além de adiar por outros motivos, é claro. Mas todos sumiram ― ele já havia feito. Uma mescla de felicidade e alívio o tomou de tal forma que se permitiu rir daquela maneira.
Isto apenas confundia Suzuna muito mais. Ele estava rindo? Era uma brincadeira? Algo como “roubei seu primeiro beijo”? Porque se fosse, estaria livre para socá-lo até a morte! Entretanto, ainda estava perplexa demais para que a raiva se manifestasse com toda a força, tanto que as palavras saíram meio falhas, duvidosas:
― Você está... brincando comigo?
― Seria bem mais simples se fosse uma brincadeira.
Ergueu o rosto de encontro aos olhos dele. Estava sério! Quer dizer... Estava tão confusa! Não poderia dizer que não entendia o que ele fizera ― compreendia, sim, as motivações que levavam uma pessoa a beijar outra. Mas como? Por quê?
Nunca havia pensado nele como homem. Droga, Shintani sempre fora quase um irmão. Uma espécie de irmão chato, implicante, até cruel. Como era possível que esta mesma pessoa... Ah, maldição! Não conseguia mais desvencilhar as duas imagens, mesmo que elas não fizessem sentido entre si. Criavam um conflito, um paradoxo mental.
Mesmo que não tenha percebido ― é claro que não ―, a novata permaneceu com a mesma expressão desnorteada, ruborizada, emudecida. Bem diferente à carranca zangada de sempre, ou ao semblante pretensioso e competitivo quando apostavam entre si. Não havia dúvidas de que era uma garota forte (forte demais, até), mas aquele momento em que demonstrava uma incomum fragilidade, ela lhe parecia, como poderia dizer... Atraente de tão adorável.
― Sabe, agir assim só atiça a minha vontade de te beijar de novo. ― “Ou te agarrar aqui mesmo.”
Suzuna despertou do transe, crispando os olhos claros. Estúpido, idiota, imbecil! Como era capaz de aturdi-la daquela maneira e ainda por cima vir com propostas pervertidas? Não se importava com o que ela estava passando, porcaria? Era egoísta a este ponto? Ah, a ira era tão opressora que a vermelhidão das faces acentuou-se, somando fúria ao embaraço.
Ele estava esperando por um tapa, não estava? Sem pensar duas vezes, moveu a mão direita para atingi-lo rapidamente. Ryotaro deveria agradecer pelo golpe que recebera ― a intensidade era muitas vezes menor do que a aplicada quando golpeou o vizinho. Machucara a si mesma até, pois a ferocidade com que a palma da mão encontrou o rosto masculino era esmagadora. Com certeza os danos nele haviam sido bem piores. Mas era este o objetivo, pensou ao levantar-se. Fugiu numa marcha que poderia desencorajá-lo a segui-la, sem não antes gritar para ele:
― You-kun estúpido!
Inferno, aquele golpe doera mais do que imaginara. Mais que isso: com toda a certeza, Suzuna batia como um homem, apesar do porte. Não sabia até que ponto aquilo era um elogio ou uma crítica. Por que não passara a gostar de uma garota delicada e gentil? No entanto, ao massagear a bochecha atingida, sentia que era por este tipo de atitude que ela sempre lhe parecera diferente das demais. A primeira garota que conquistara seu respeito na infância.
E, desde a infância, sempre quando inconsciente, ela o chamava assim. You-kun. Aquele apelido um tanto bobo e infantil só queria dizer que a morena estava no limite da indignação, do constrangimento, da perplexidade. Tudo isto causado por aquele beijo, que poderia tender para dois polos distintos.
Existiam chances de realmente ter estragado tudo; traído a confiança dela para nunca mais recuperá-la. Com isso, iriam afastar-se e perder todo o contato adquirido ao longo de tantos anos. Ou não. E foi nesta alternativa que ele arriscara: agora não iria mais se arrepender. E a quem iria enganar... Se ela fizesse questão de ignorá-lo, iria insistir. Porque seria capaz de dar o máximo pela sua baixinha.
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CENA BÔNUS DOIS
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Até mesmo para ele o silêncio da sala incomodava. Sorriu de maneira um tanto afetada para o rapaz na outra ponta da mesa, que realizava o mesmo serviço burocrático que ele estava ocupado em solucionar.
― Eeeh... Parece que isto não tem fim, não é? ― tentou engatar uma conversa, mesmo que evidentemente desconfortável.
― Assuma a responsabilidade do seu cargo, Igarashi-sama ― murmurou Maki, sem erguer os olhos da papelada. Que frio.
O que responder para ele, afinal? Tora enrubesceu alguns tons e voltou a ler e assinar as inúmeras folhas. Certamente, havia algo de errado entre os dois. Quer dizer, se conheciam há mais de dois anos e as conversas mantinham-se naqueles monossílabos que desconhecidos geralmente trocam entre si. Ou talvez Maki era severo demais.
De qualquer forma, o rapaz loiro voltou àquelas tantas responsabilidades, sem qualquer descanso. Porém, seria um dia o líder da família Igarashi e todos concordavam que coordenar a escola era um ótimo aprendizado, portanto necessário. Com isso, mal tinha tempo para nada, o que resumia a vida em um revezamento interminável entre burocracia-papelada-diplomacia-reuniões. No entanto, havia aquela que bagunçava esta rígida rotina.
Como se predestinado, as portas duplas da sala do Conselho escancararam-se como aviso e uma excêntrica figura adentrou no ambiente.
Os cabelos eram longos e negros, como um manto noturno e vibrante a balançar com o movimento exagerado. Harmonizavam por completo com os olhos púrpura, que faiscavam de sagacidade, vasculhando o recinto em busca de um par de orbes amarelados.
Porém, nada era tão diferenciado em sua aparência, além da beleza tradicional japonesa acima do comum. O que a qualquer um surpreendia era o que estava por cima do corpo da ojou-sama.
Até os joelhos, o vestido negro era adornado ― bastante adornado ― com detalhes brancos. Acima do espécime de espartilho a comprimir a cintura, desenvolvia-se o tecido que cobria o colo e as mangas finamente decoradas. Abaixo dele a saia volumosa e rodada surgia em camadas de um tecido também escuro, cujos babados e rendas destacavam-se pelo contraste.
Com um olhar que aparentemente beirava o indiferente, a garota o encontrou. Disse, num timbre altivo e poderoso:
― Então você realmente está aqui, Tora.
― Não deveria estar em aula, Harada-sama?¹ ― indagou o vice-presidente, desconfiado.
― Fui liberada da aula de teatro para falar com meu noivo ― explicou, displicente. Ao final, mirou de esguelha o moreno, e exigiu: ― Agora saia.
Obviamente, estava abusando da posição de futura esposa do aluno mais influente da escola tentando dar ordens a ele. Mas Harada Chiyo possuía algo que o companheiro talvez nunca possuiria: uma presença e espírito irredutíveis e orgulhosos. Como um verdadeiro líder deveria ser.
E foi por isto que o subordinado levantou-se e deixou-os a sós ― por lealdade a ela, e não a ele. Não que isso causasse algum atrito entre ambos: Igarashi até sentia orgulho da colegial, apesar de sempre ouvir de todos o quanto a noiva era inadequada, inconveniente e involuntariamente rebelde por agir da maneira esperada por ele. Tantas convenções de gênero...
― Por... Por que está vestida dessa maneira, Chiyo? ― indagou Tora, diante da noiva vestida como uma típica Gothic Lolita.
― Tem algum problema com isso? ― Sentou-se confortavelmente na poltrona, sem perder o ar autoritário. E mesmo que realmente não quisesse, explicou a ele: ― Estamos ensaiando uma peça inspirada em Lorde Byron.
― Ficou muito bem... Vestida nela. ― Após o elogio, sorriu quase que ingenuamente.
Franzindo o cenho, a morena levantou-se e foi até ele. Surpreendentemente, apanhou uma das bochechas do rapaz entre os dedos, apertando-a e puxando-a com alguma intensidade. Conseguia alcançá-lo devido aos saltos exageradamente altos e finos. E mesmo com aquela roupa espalhafatosa, não deixava de transmitir a aura fria, sádica, distante. Mesmo enquanto fazia algo tão infantil quanto beliscar uma bochecha.
― Você é tão bonitinho. ― Apesar das palavras, o tom era ameaçador.
― Mas você veio me dizer algo, não é? ― A frase saiu distorcida, pois a pele do rosto ainda era puxada. Contudo, Chiyo interrompeu-se para arquear as sobrancelhas:
― Está tentando me dar ordens, presidente?
Com a mudança abrupta de rumo, Igarashi confundiu-se e expressou isto muito explicitamente. Era tão fácil ler cada nuance do rosto dele, assim como interpretar cada ação. Em resumo, alguém terrivelmente previsível. No entanto, assim como ela, era alguém cuja personalidade não se adequava à posição que deveria ocupar. Quem diria, aquele loirinho era impertinente e nem se dava conta disso.
― Até que é divertido passar o tempo com você... ― murmurou, embora não aparentasse nem um pouco estar se divertindo. Arrogante, como de costume. ― Mesmo que seja irritante sem nem perceber.
Ah, era tão simples. Um sorriso nasceu nos lábios do rapaz com uma suposição quase tímida:
― Você estava... Sentindo saudades, não é?
― O quê v-
Pela primeira vez naquele momento, ela arregalou os olhos surpresa. Como se houvesse sido pega. Antes que pudesse refutá-lo, foi apanhada em um abraço repentino. A envolvê-la por trás, os braços masculinos estreitaram o aperto, acolhendo-a carinhosamente. Mesmo com saltos, ainda era menor que ele. Tora aninhou-se na curva de seu pescoço, sussurrando divertido:
― Você também é fofa, Chiyo.
― Cale a boca ― ofendeu ela, desviando os olhos lilases enquanto sentia o rosto esquentar.
Voltou-se na direção dele, sem quebrar a proximidade de ambos, e foi recepcionada por aquilo. Aquele sorriso amigável dele era tão... Detestável. Os lábios que vieram de encontro aos dela, irritantes. O beijo cálido e apaixonado? Intolerável. Até mesmo as próprias reações eram repugnantes: não deveria deixar que ele a enlaçasse pela cintura nem mergulhar os próprios dedos nos fios loiros.
Existia motivo maior para não gostar dele? Igarashi Tora era a única pessoa que a levava a agir completamente fora do habitual, e a fazer exatamente o contrário do que ela esperava de si mesma. Como era insuportável! E mais insuportável: conseguia fazer tudo sumir quando unia sua boca à dela, quando a distraía de modo tão simples e arrebatador.
Involuntariamente, os dedos enroscaram-se ao uniforme dele, mesmo quando já haviam se separado. Que droga! Mas não deixaria transparecer qualquer indício de fraqueza ou algo que ameaçasse seu orgulho nobre. Compôs a expressão mais severa que era capaz de representar, encarando as íris amareladas.
― Que bom que gostou do traje do Clube de Teatro, presidente. Mas você nem viu tudo. ― Enrubesceu um pouco, mas manteve o timbre pretensioso. ― Debaixo da roupa também combina ― descreveu, afugentando qualquer pudor. Mas adotou uma postura pensativa: ― Ah, mas você prefere lingeries brancas...
Antes que o noivo pudesse reagir conforme esperava, ouviram um ruído insistente do outro lado da porta. Era alguém a abafar a própria tosse, provavelmente gerada pelo atrevimento contido na fala dela. Irritada, a morena franziu as sobrancelhas. Certas pessoas deviam aprender o significado de “privacidade”.
― Maki... ― A voz de Chiyo era incrédula ao abrir as portas duplas. E em vez de repreendê-lo, preferiu continuar a ser insolente: ― Você achava mesmo que o Tora era virgem?
Quando a única herdeira dos Harada deixou a sala do Conselho Estudantil, deixou para trás um vice-presidente pasmo, um noivo incrivelmente ruborizado e o eco dos próprios saltos pelo corredor.
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