Change!
13 Capítulo Dez - Uma mudança inevitável - Dois
Notas iniciais

Aquele conflito mental seria capaz de enlouquecê-lo. Mas qual era a surpresa, afinal? Era sempre ela a provocar aquele tipo de confusão no cotidiano antes tão estável. E nada poderia fazer, porque praticamente aceitara aquilo ao desejar Ayuzawa Misaki.
Que no momento estava desacordada em seu colo.
Como uma pessoa tipicamente introvertida, cuja convivência com outros geralmente se mostrava forçada e desconfortável, atrair tanta atenção para si mesmo ao carregá-la até a enfermaria era o primeiro de muitos problemas. Apressar o passo evitava olhares mais longos, e assim o fez. Contudo, permaneceriam os comentários sobre “o garoto que levou a presidente desmaiada”.
Não que se importasse com boatos ou má-fama: o verdadeiro incômodo era a indesejável mudança de anônimo para o assunto discutido por todos em poucos minutos. Se isto ao final se transformasse em uma dezena de alunos interessados em conhecê-lo, não saberia como reagir. Lidar com uma só já era problemático o suficiente!
E a questão principal envolvia ― como haveria de ser ― a garota que aninhava nos braços. Aquele mesmo embate de emoções aparentemente contraditórias que ela sempre gerava e sempre confundia alguém absurdamente racional como Usui. De novo, perguntou-se porque apegou-se a alguém tão (ou até mais) complicado que ele mesmo. A vida não era feita de contrastes? Não deveria equilibrar facilidade e desafio?
Ora, a quem iria enganar. Já eram opostos o suficiente num rápido vislumbre. Era por isto que para o loiro a presidente era tão incompreensível: por que ela foi tão imprudente? Levar o corpo até o limite e desmaiar no meio de uma corrida! Foi automático oferecer-se para levá-la até a ala hospitalar ― tão automático que só percebeu o que realmente fizera quando já estavam na metade do caminho.
Talvez toda aquela espontaneidade dela tenha influenciado-o de alguma maneira, mas isto não amenizava nem um pouco o misto de preocupação e irritação que sentia. Ao mesmo tempo em que a debilidade de Misaki o deixava apreensivo, a teimosia que a levou a chegar naquele estado o enraivecia. Queria cuidar dela, mas também dar uma bronca daquelas!
Aquilo era tão incomum. Tão... estranho. Não estava acostumado a alimentar quaisquer sentimentos por alguém, tanto os positivos quanto os negativos; porém, tudo relacionado a ela era inédito, na verdade. E talvez, no fundo, importar-se com alguém era balancear-se entre o cuidado e a indignação diante de idiotices. Poderia ser um patético tímido, mas aos poucos aprendia.
Com cuidado, deitou-a em uma das camas imaculadas da enfermaria. Não demorou a perceber que eram os únicos na sala ― apesar da porta aberta, não havia mais ninguém, deitado ou de pé, naquele recinto. A enfermeira pode ter deixado o local às pressas para atender algum paciente urgente, supôs ele, e estava correto.
Bem, o que tinha de ser feito Takumi já fizera. Poderia agora voltar às arquibancadas, à posição de mero expectador diluído na multidão. No entanto, não era isso que ele queria. E aquela vontade nada tinha de coerente, mas era tão intensa. Voltou a atenção para o corpo feminino adormecido e, num suspiro resignado, sentou-se na ponta do colchão.
Era até engraçado como o rosto de Ayuzawa, em meio ao sono, não transmitia nada de sua real personalidade. Aparentava até mesmo ser alguém inocente ― o que ela não era, de modo algum. Os cabelos, antes presos num firme rabo de cavalo, afrouxaram alguns fios que se espalhavam pelo lençol. Encobrindo as íris que transmitiam tanto, as pálpebras mantinham-se imóveis. Ela inteira, na verdade. Apenas o leve movimento do peito, para cima e para baixo, denunciava a respiração.
Contudo, a quietude foi perturbada quando ela remexeu-se minimamente, num indício de que estava prestes a acordar ― e isto fez com que ele percebesse o que estava fazendo. Observar alguém dormindo era, no mínimo, algo muito estranho. Muito, muito estranho. E Takumi o fizera de modo inconsciente. Como se a estranheza já fizesse parte dele. E não bastasse estar constrangido o suficiente para corar, ao retorcer-se no colchão enquanto despertava a morena soltou um gemido manhoso.
Além de tudo, ainda incitava pensamentos impuros nele! Parabéns por corrompê-lo, Ayuzawa.
― O que... ― A colegial perguntou antes de abrir os olhos, já que a visão estava desacostumada à claridade absurda. Sentou-se, lentamente: ― O que aconteceu?
Aos poucos reconheceu as paredes claras, as grandes vidraças cobertas por cortinas também brancas, o piso e o teto de um material cândido. Aquele ambiente monocromático só poderia ser a enfermaria. E, como se surpreendeu ao vê-lo, Usui também estava ali. Desviando o rosto, ele lhe respondeu um tanto incomodado:
― Você desmaiou.
Estreitou os olhos, desconfiada com o comportamento dele. Por que estava tão ruborizado se nem dissera ou fizera nada? Bem, haviam temas mais importantes que as próprias dúvidas. Como a irmã mais nova, e a maldita resolução da corrida:
― E Suzuna?
― Eu não estava lá para saber. ― Arregalou os olhos quando percebeu que ela estava prestes a levantar-se, e num gesto involuntário segurou a mão dela para impedi-la. Tranquilizou: ― Seu vizinho deve ter conseguido alcançá-la. Ele estava em primeiro desde o início.
Durante alguns segundos, a presidente pareceu deliberar. Fitou os dedos que a tocavam de leve, e logo após o rosto do rapaz. Durante um longo, longo tempo ― o suficiente para que ele se envergonhasse com tanta atenção súbita e gradativamente se avermelhasse mais e mais. Repentinamente, Misaki indagou:
― Você me carregou até aqui?
― Algum problema? ―Apesar do rubor, ele sustentou o olhar ao dela, e aquilo era tão hilário que se permitiu relaxar.
― Droga, eu perdi os melhores momentos ― lamentou, bem humorada, reclinando-se contra o espaldar da cama.
― Você... ― Os orbes verdes transmitiam uma indignação que não foi convertida em palavras. Ao reformular-se, o loiro prosseguiu, sucinto: ― Não faça isso de novo.
― Ei, pode pegar pesado.
Fechou os olhos por alguns instantes, pressionando as têmporas enquanto pensava no que diria àquela presidente que era tão perspicaz a ponto de perceber que ele queria dizer muito mais, mas não era capaz de vencer o próprio orgulho ao assumir que não conseguia lidar com mais do que lhe era suportável. Ao abri-los novamente, a repreensão saiu de seus lábios exasperada, de uma só vez:
― Como pode ser tão irresponsável sobre si mesma? Não precisava resolver tudo sozinha! Tenha noção dos seus limites! E pare de subestimar os próprios problemas!
Após explodir e mostrar-se irritado como nunca, enrubesceu levemente com o próprio descontrole. Entretanto, não estava arrependido: alívio era a tradução mais literal do que sentia. Como se finalmente retirasse dos ombros aquele peso ao dizer tudo o que guardara desde que a avistou se inscrevendo em tantas provas.
Já ela, apesar do estímulo anterior, mostrou-se surpresa. Não imaginava que ele estava tão zangado. É, havia ainda muito a se descobrir sobre Usui Takumi. Mais importante: foi a primeira vez na vida que levou uma bronca de alguém além da própria mãe. Tanto que a ideia fez com que risse levemente, provocando nele a perplexidade. Mas tratou de valorizar a repreensão dele, num sorriso ameno:
― Obrigada, Usui.
― Tão teimosa ― resmungou ele, franzindo a face corada.
― Mas é injusto. ― Pareceu pensativa por um momento. ― Você me viu enquanto eu durmo. Quero ver também.
Takumi nunca pensou em si mesmo como alguém, à falta de palavra melhor, pervertido. Mas tal qual quando ela gemeu minimamente ao acordar, a linha de raciocínio que o levou a uma situação em que ela poderia vê-lo a dormir não era nem um pouco inocente. Percebendo o rumo dos pensamentos dele estampados no rosto, Ayuzawa sorriu maliciosa.
― Eu não estava falando dessa maneira, seu pervertido.
De maneira prevista, o loiro ficou sem fala. Mas também despertou o interesse nela: queria provocá-lo um pouco mais; testar até onde iria seu controle. Sendo assim, aproveitou-se da posição dele, sentado na extremidade da cama, para trazê-lo para outra mais estratégica. Ao puxá-lo, fez com que estivesse acima dela sobre os joelhos, enquanto ela apoiava-se sobre os cotovelos para manter o rosto pouco abaixo. Usui não demorou a entender as intenções contidas no sorriso travesso:
― Você não está pensando em...
― Atrasado, Usui ― interrompeu, divertida. ― Já pensei.
Semelhante à forma com que o trouxe para perto, impulsionou-se para girá-lo e assim inverter as posições. Logo estava acima dele, e as pernas envolviam o quadril do rapaz que deitara. Encarava-o de cima, e ninguém poderia dizer que não apreciava a visão. Os orbes verdes miravam-na arregalados por trás da lente dos óculos; os fios claros e rebeldes esparramaram-se por sobre o lençol branco. Além das faces absurdamente rosadas, a respiração também se fazia difícil.
Usui Takumi era lindo.
Reclinou-se para alcançá-lo, sentindo-o estremecer abaixo de si mesma. No entanto, não beijou-o de imediato: mesmo que quisesse, atiçá-lo era mais interessante. E mesmo que o loiro estivesse evidentemente constrangido, também eram óbvios os sinais de que também queria. Afinal, percebia como as mãos inertes na cama pareciam inquietas. Murmurou no ouvido esquerdo, provocando um arrepio:
― O que foi?
― Nós estamos na enfermaria ― indicou, exasperado.
― E daí? Finja que é seu quarto.
Aquela garota era louca. Não só a sala era acessível a qualquer um como a porta estava aberta ― o corredor era visível mesmo de onde Takumi estava. Além disso, devido ao evento eram grandes as chances de aparecerem alunos em busca de atendimento. Era uma tremenda sorte o movimento escasso por ali, e Ayuzawa estava abusando dela ao acreditar que ninguém apareceria para interrompê-los. Mas havia uma última cartada.
― Você não quer? ― sussurrou, provocativa, enquanto deslizava os dedos de leve sobre a blusa masculina. Por sobre o tecido branco, eram nítidos os contornos da musculatura dele.
Aquela garota era louca ― e, naquele momento, havia contaminado ele também. Não que tenha sido este o exato pensamento do loiro: a reação foi instintiva. Com uma das mãos, envolveu-a pela nuca, trazendo-a para que enfim pudesse desfrutar dos lábios dela. E ao contrário das duas primeiras vezes, tomou a iniciativa em todos os aspectos, invadindo-a imediatamente com a língua para provar de seu sabor.
Apesar de arquejar minimamente com a investida súbita, Misaki entregou-se ao beijo sem qualquer resistência. Não era exatamente esta a reação esperada, mas que se danassem as expectativas: queria aproveitar o momento. Levou de imediato as mãos até as madeixas douradas, enquanto sentia os dedos de Usui avançarem até as coxas para agarrá-las.
Arrepiou-se inteira com o ato ousado, até porque o short que vestia não era tão comprido assim e pôde sentir o toque diretamente sobre a pele sensível. Além disso, a voracidade com que o rapaz praticamente violava sua boca era deliciosa, e estava disposta a correspondê-lo na mesma intensidade.
No entanto, os óculos, mesmo que não a atrapalhassem diretamente, eram um incômodo em seu caminho. Afastou-se um pouco para retirá-los e assim jogá-los na cama ao lado. Antes que voltasse, porém, sentiu a língua a percorrer a garganta e a nuca ser acariciada com avidez. Ofegou um tanto, ansiosa por mais e mais contato. E assim baixou os quadris, sentando-se no colo dele de modo espontâneo.
Ver Takumi com as faces rubras e sem fôlego era algo desconcertante. Senti-lo reagir em um beijo faminto, extremamente prazeroso. Mas ouvi-lo gemer pela primeira vez contra seu pescoço foi, certamente, o momento mais excitante. Não apenas porque a voz grave e desejosa a estimulou até o último nervo, assim como aperto mais estreito nas pernas, ou ainda a ereção a latejar contra si mesma ― era a conjunção de tudo a afetá-la ao mesmo tempo.
Foi a vez do gemido feminino ser proferido, ainda que abafado, quando a morena recebeu um chupão voraz logo abaixo da mandíbula. Em reação, arranhou a nuca do rapaz abaixo de si, desfrutando das mãos a contornar o quadril até alcançar a cintura e ali pressionarem com força. Contudo, não deixaria que ele tudo fizesse, embora os lábios a roçar sua pele fossem tão delirantes.
Avançou ela mesma contra o pomo-de-adão, e de forma involuntária cedeu à vontade de mordê-lo. Contorceu-se uma vez mais ao senti-lo pulsar, e da mesma maneira, os quadris passaram a remexer-se instintivamente ao acariciá-lo. Prosseguiu nestes movimentos, mordiscando-o e lambendo-o conforme desejava; apreciando os entrecortados grunhidos que ele deixava escapar. Mas queria mais uma vez experimentar de um daqueles viciantes beijos.
Antes disso, suspendeu-se sobre a palma das mãos, permitindo que ambos se encarassem. Tal como imaginado, as faces de Usui coloriram-se de um constante matiz róseo ― no entanto, ela mesma deveria estar vermelha com a intensa circulação de sangue. Eram os orbes que mais diziam: não claros como outrora, mas enegrecidos. Um indício explícito de desejo, fixos aos dela e ansiosos para que continuasse.
Ayuzawa bem sabia que se não o fizesse, seria ele, e preferiu ela mesma beijá-lo dessa vez. Saboreou da textura, do calor, das línguas a encontrarem-se irregulares. Em algum momento, dedos avançaram sob a blusa, tocando suas costas sem qualquer barreira. Comprimiu-o mais entre as coxas, prendendo entre os dentes o lábio inferior para puxá-lo. Estava se descobrindo inclinada a gostar de mordidas.
E durante aquela tarde, iriam aos poucos descobrir um pouco mais sobre o corpo um do outro, enquanto a sorte de encontrarem-se sozinhos no andar permitisse.
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CENA BÔNUS TRÊS
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― Que desempenho ridículo daquele time ― resmungou a capitã de futebol ao cruzar o portão de entrada do colégio.
― Não é estranho reclamar se você está levando a medalha de ouro, Sakura-san?
Mal-humorada, a garota de madeixas longas virou-se para encarar Shizuko, que caminhava pouco atrás ao lado do namorado. Era claro que ela havia vencido ― os árduos meses de treino não foram inúteis nos jogos da competição. Contudo, por várias vezes não pôde contar com as colegas de time, o que fez com que perdessem várias chances de gols. Em alguns momentos até sentiu-se sozinha em campo, contra todas as adversárias. Que droga!
― Parece que ela queria algo mais que a medalha, Shizu-chan ― explicou Hideki, ao contrário de Sakura, bem humorado.
― Queria algo mais que jogadoras patéticas. Algo mais que um time que tem medo de ser ofensivo. ― Suspirou pesadamente. ― Queria tudo diferente, na verdade.
― Que cruel.
O comentário simples enfureceu a colegial, que fuzilou-o com os olhos e com as palavras: ― Suzuki, se não vai dizer nada que preste, fique de boca fechada!
Não eram recentes os pequenos desentendimentos entre a melhor amiga e o namorado, pensou aquela que tinha as madeixas escuras de pontas arrepiadas. Desde que iniciara o relacionamento, Hanazono o tratava daquela forma. Talvez porque o tenha aceitado com facilidade, já que as ofensas eram naturais para ela ― bem sabia disso, já que a conhecia desde a infância.
Lembrou-se de que no início não se davam bem: as duas, quando no fundamental, quase não se falavam e trocavam farpas em brigas infantis sempre que possível. Entretanto, quando menos perceberam, aquela implicância perdurou durante longos anos e se converteu em uma amizade um tanto bizarra. Todas as incontestáveis diferenças que as afastavam ao final acabaram aproximando-as.
― Sakura-chan?
Despertando do devaneio, voltou-se para o dono da voz que chamara a amiga. Viu em seu lugar um rapaz de cabelos descoloridos, com alguns piercings na orelha. Em uma das mãos carregava um celular comum para os padrões da época, e aparentemente digitava algo na tela sensível até interromper-se. Era bem baixo se comparado a outros garotos, embora mais alto que as duas. Parecia envolto de uma aura de simpatia, provavelmente proporcionada pelo constante sorriso um tanto atrevido. E então fitou Sakura, ao seu lado. Pela careta ranzinza que ela expressava, não parecia nem um pouco contente com a chegada do rapaz.
― Eu não acredito ― ouviu ela sussurrar.
― Quem é ele? ― indagou, inquisitiva.
― Ninguém, vamos embora.
“Não vamos mesmo.” Precisava pensar em algum modo de mantê-la ali. Descobrir o nome do garoto, como se conheceram, que relação mantinham. Como estava com raiva dela por não lhe contar nada! Poderia ser chamada de enxerida, mas porcaria, eram amigas e esperava que aquele tipo de experiência fosse compartilhada entre elas. Antes de pensar em qualquer estratégia, todavia, Hideki foi mais rápido e dissimulado. Acenando sem qualquer sutileza com a cabeça e indicando num timbre alto que qualquer um poderia ouvir, disse:
― Sakura-san, parece que aquele cara te conhece.
― Suzuki ― resmungou ela, cerrando os dentes. ― Eu te odeio.
Recebeu em resposta um sorrisinho irritante, e desviou o rosto para evitar quaisquer intenções assassinas para com aquele que trocava saliva com Shizuko. Voltou-se para algo muito mais desagradável: um loirinho idiota que mais parecia radiante ao vê-la novamente. Iria encerrar aquilo o mais rápido possível, e foi ríspida ao questionar:
― O que você quer?
― Não imaginava te encontrar por aqui. ― Kuuga não se deixou afetar pelo tom grosseiro.
― Claro ― Revirou os olhos diante da obviedade. ― Porque eu ando te procurando desde aquele dia, não é?
Diante do diálogo, Shizuko e Hideki trocaram olhares, assimilando o que ali ocorria. Não era a primeira vez que alguém se mostrara interessado na bela e arredia garota. Mas ao contrário dos anteriores, este não parecia se incomodar com as indelicadezas da capitã inconformada. Ao percebê-los, ainda pediu, divertido:
― Não vai me apresentar aos seus amigos, Sakura-chan?
― Gaste sua própria saliva, Sakurai. ― Cruzou os braços, furiosa. ― E é Hanazono pra você, seu abusado do caral-
― Onde se conheceram... ― A morena de óculos interrompeu o xingamento da outra, e ponderou de que maneira poderia chamar o desconhecido: ― Sakurai-san?
― Num show semana passada.
Com a resposta simples, Shizuko estreitou os olhos. Como sempre, ela não lhe dissera nada. No entanto, em vez de perseguir a traidora com o olhar, preferiu focá-lo no rapaz. Ele não aparentava ser masoquista para gostar de ofensas gratuitas, o que deveria significar que ou era paciente o bastante para tolerá-las ou divertia-se com tanta agressividade. E as duas opções eram viáveis, mas algo prendeu a atenção em especial:
― Espera... Te reconheço de algum lugar...
― Vocalista do Yumemishi, Kuuga, é, sou eu ― apresentou-se ele rápida e displicentemente. Apontou ainda para um trio um pouco atrás, concentrado na vitrine de uma loja: ― E aqueles ali são Kou, Yujiro e Shousei.
Hanazono foi igualmente rápida ao gesticular para o casal: ― Essa é a intrometida da Shizuko e esse o babaca do Suzuki. ― Cruzou os braços, contrariada. ― Ótimo, agora nos conhecemos todos. Tchau!
― Que cruel, Sakura-san. ― Sabia quem dissera aquela frase, e pelos céus, se tornaram as palavras que mais odiaria a partir dali. Por que Hideki simplesmente não ia embora se agarrar com a namorada? ― Ele parece tão ansioso por te ver.
Franziu as sobrancelhas ao fitar os três. Mal haviam se conhecido e já estavam criando juntos planos para irritá-la. Era para tirá-la do sério, que merda! De tão enraivecida, nada conseguiu dizer para rebatê-los. Procurava algo que expressasse o que sentia, mas apenas palavrões traduziam bem. Aproveitando-se do silêncio, Shizuko não desperdiçou a chance:
― Mas esse é um encontro tão curto. Imagino que queira vê-la de novo, não é, Kuuga-san?
― Adoraria. ― Enquanto o loiro sorria largamente, os olhos da morena de rabo de cavalo se arregalaram.
― Adoraria porra nenhuma, Sakurai. E pare de sorrir desse jeito antes que eu te encha de porrada.
De esguelha, fitou o aparelho entre os dedos dele. Nem em um milhão de anos iria oferecer seu número para aquele imbecil.
― Sempre tão intensa, Sakura-chan.
Não poderia mesmo perder aquela oportunidade, decidiu a “amiga intrometida”. Todos os garotos que tentaram aproximar-se daquela que considerava uma irmã invariavelmente fugiam após conhecê-la o suficiente. Isto quando não apanhavam ao tentar forçar alguma investida contra a que participara do clube de judô no fundamental. Porém, este a aceitava, ao menos em uma primeira impressão. Nunca obrigá-la a namorar alguém, mas incentivar algum encontro não faria mal. Talvez ela acabasse gostando do tal Kuuga também.
Mas como faria isso? Mais especificamente, como faria com que trocassem os números dos celulares? De súbito, uma memória lhe veio. Ah, era perfeito! Usando de sua agilidade, apanhou o objeto das mãos do loiro, que encarou-a um tanto incrédulo. Garantiu:
― Estou só pegando emprestado, já devolvo.
Ouviu a risada abafada do namorado enquanto discava um número em específico. Era óbvio que Hideki já entendera suas intenções, porque aquele plano ele fruto da mente sórdida e manipuladora dele ― somente repetira a experiência de sucesso. E assim que o celular de Sakura vibrou dentro da bolsa escolar, devolveu o pertence ao garoto que a assistiu confuso.
― Pronto, já foi gravado.
Se a capitã do time de futebol não cederia o número espontaneamente, foi ela mesma a oferecê-lo ao “pretendente” quando ligou para ela usando o aparelho. Tudo graças à estratégia que o mesmo Suzuki Hideki utilizara, tempos atrás, para passar a ela o próprio número quando se conheceram. Abusado desde sempre, é claro.
Bem, o moreno de óculos estava orgulhoso do raciocínio da companheira, mas a melhor amiga não parecia nada satisfeita: na verdade, as intenções nos orbes indignados alternavam entre assassinato, e tortura. Já socara alguns por muito menos, e o que salvara Shizuko foi o longo relacionamento praticamente fraternal.
― Era tudo o que eu queria ― comemorou Kuuga, e naquele momento compreendeu que o atraíra na colegial. O sorriso dirigido a ela em despedida foi uma evidente e audaciosa provocação. ― Qualquer dia desses te ligo, Sakura-chan!
― Vai esperar sentado se acha que vou atender, seu merda!
Com o xingamento, o loiro riu ao juntar-se aos amigos; o restante dos transeuntes passaram assustados ao fitar de esguelha a tal desbocada. Mas estava tão, tão irritada! Como a situação fugiu de seu controle assim, em tão pouco tempo? Impossível! Inexplicável! Inaceitável! E para piorar a situação, os responsáveis por toda a confusão observavam o rapaz afastar-se com um contido interesse.
― Que garoto legal ― comentou Shizuko.
― Também gostei dele ― concordou o namorado.
Eles estavam avaliando o quê? Um pretendente? Suprimiu outro palavrão, mordendo o lábio inferior com força. Irritantes e enxeridos, como sempre foram. O que esperar de um casal daqueles, afinal? Como foi ingênua. Entretanto, mesmo que parte da culpa fosse de si mesma, por deixar que a ira a descontrolasse e permitisse que eles tomassem as rédeas da ocasião, grande parcela era devido a eles. Bufou, irritada, antes de segui-los.
― Shizuko, Suzuki. Eu odeio vocês.
Ambos sorriram de canto. Aquela era a maior demonstração de afeto que Hanazono Sakura poderia lhes dar.
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