Change!
5 Capítulo Cinco - Um toque memorável
Notas iniciais

Olhou-se uma última vez através do espelho, satisfeita com o resultado. Como reflexo, uma gêmea a fitar-lhe um tanto receosa; vestia uma blusa de mangas curtas cerúlea (sua cor da sorte), a combinar com a cor dos tênis de cano médio, e contrastar com a bermuda branca. Humm... a exposição das pernas, que se iniciara pouco acima do meio das coxas, fazia alongar minimamente o corpo pequeno. Ajeitou minimamente as madeixas presas, mantendo-as simétricas. Sim, estava pronta.
Apanhou todo o necessário, alocando-o em uma bolsa cujas grandes dimensões contrastavam com a baixa estatura. Porém, ela era otimista! Certamente a enorme sacola seria útil para carregar todos os prêmios que ganharia, era em que Suzuna queria acreditar. “Aquele vizinho estúpido já é pessimista por nós dois” Recordou-se, e decidiu por preencher o fundo do acessório com todos os objetos “místicos” que possuía.
Despediu-se da irmã, que preparava o café da manhã, alegando que estava ansiosa demais para comer ― a mais velha apenas assentiu em resposta. Mentalmente, no entanto, perguntava-se quando ela perceberia. Era algo adorável o caráter avoado da mais nova, embora ser tão tapada fosse um obstáculo ao rapaz. Como ele era paciente... “Bem, que sofra bastante enquanto espera”, desejou, embora secretamente torcesse por ambos.
― Para que uma bolsa tão grande? ― perguntou Hinata logo após saudar a vizinha. Dirigiu um discreto olhar por sobre as pernas desnudas, o suficiente para que ela não o notasse. Droga de pirralha linda. Supôs, para distrair-se, e foi certeiro: ― Colocou aí todos aqueles amuletos doidos de sorte?
Ele era um vidente, por acaso?
― Eu não sou supersticiosa ― negou ela, após estreitar os olhos.
― Engane a si mesma. ― Pôs as mãos nos bolsos e partiu, para virar-se pouco à frente e fitar a baixinha estagnada e enraivecida logo atrás. ― Vai ficar aí, olhando como idiota?
Apressada, ela venceu a distância entre os dois e puxou-o pela gola da camisa. Ignorou o fato de que somente assim poderia mirá-lo nos olhos, e compôs a pior carranca que era capaz de expressar. Apesar da intenção de representar ameaça, a feição irritadiça expressava apenas o mesmo exagero de sempre, como todas as emoções da garota. Mantendo o contato visual, proferiu:
― Eu não vou deixar você estragar o dia de hoje, está me entendendo?
Ah, ele não conseguiu reprimir o sorriso sarcástico e o comentário...
― Como quiser, Hime-sama.
Tranquilo, o percurso até a convenção transcorreu sem maiores imprevistos, exceto pela dor constante que o tapa de Suzuna proporcionara no rosto masculino. Como aquelas mãozinhas podiam ser tão pesadas? Bem, ele pedira por isto. “Princesa” era outro dos vocábulos inaceitáveis para a colegial, e após arquejar com ultraje, foi natural e espontâneo desferir nele a fúria em forma de golpe. Qualquer um a chamaria de bruta, o que lhe inflaria o ego, já que o adjetivo transmitia alguma força apesar da inadmitida pequenez. Todavia, as reações violentas divertiam o amigo ― quando não se manifestavam como uma mancha rosada na bochecha.
Alheia a isso, a morena estava ocupada em conter a animação efusiva. Afinal, sair por aí com um sorriso constante esboçado no rosto tornaria sua imagem infantil e estúpida. Mas... Sorteios a esperavam! Quase quicou em ansiedade, de tão empolgada. O evento de sua vida! Para impedir uma risadinha, fincou os dentes nos lábios; porém, um sorriso ainda era visível em meio à mordida. E os olhos amarelados adquiriram um brilho intenso ao chegar ao local, maravilhados com a proporção do evento.
― Olhe, uma coleção rara de figures¹! ― distraiu-se a menor, deslumbrada com os itens expostos.
― Vai manchar o vidro com suas bactérias se continuar grudada a ele desse jeito ― avisou ele sobre seu ouvido.
Estavam quase que pressionados um contra o outro, já que pessoas pareciam surgir de todos os cantos para aproveitar a ocasião. Leve e breve, um comichão foi provocado pela voz do rapaz. E isto não passou despercebido por ele, consciente do corpo pequeno aconchegado ao seu devido à lotação. Assim como da nuca deliciosamente exposta poucos centímetros à frente. Os contornos eram esguios e tentadores, e o cheiro, inebriante. Era fácil imaginar os fios negros arrepiarem-se com o lamber da pele... Entretanto, os devaneios pervertidos foram interceptados pelo timbre irritado:
― Eu é que vou ficar manchada com as suas se continuar assim tão perto.
― Acho que já tem micróbios meus o suficiente na palma da sua mão. ― Aproveitou-se para citar o tapa. Afinal, doera como o inferno.
― ... ― Por alguns segundos, ela realmente aparentou arrependimento, prestes a se desculpar. Aparentou. ― Você mereceu!
― Ninguém faz por merecer uma porrada daquelas ― alegou ele. Cruzou os braços esperando por uma resposta; seria divertido vê-la desesperar-se por argumentos. Contudo, ela foi mais rápida do que previra:
― Assim como eu não mereço ser humilhada por você cada vez que perco uma aposta.
Ah, era claro. Como alguém que detestava perder, a derrota já era humilhante o suficiente para Suzuna. Contudo, a natureza do moreno o impelia a fazer dos jogos mais estimulantes. Para que, afinal, arriscar-se sem ganhar nada em troca? Com isso, todas as disputas entre os dois envolviam punições ao perdedor, como um catalisador que os faria dar o máximo pela vitória. E, em todas as vezes (que a garota chegou a contar durante um certo período, mas desistiu diante do terrível número dos próprios fracassos acumulados), o vencedor era ele. Nada mais natural do que exigir dela que cumprisse sua parte.
― Está falando da massagem dos pés? ― indagou, recordando-se da última aposta. Fora hilário assistir àquelas mãozinhas pequenas a maltratá-lo, enquanto a dona destes o fuzilava com orbes inflamadas. Prosseguiu, presunçoso: ― Me agradar não é humilhação. Sinta-se honrada, nanica.
― Então se sinta honrado com minha mão na sua cara.
E seguiu à frente, marrenta. Era óbvio o destino: a bilheteria, na qual a “pequena idiota” gastou a maior parte do próprio dinheiro em fichas para concorrer aos sorteios. Nem tentou trazer alguma razão para aquela mente teimosa: de qualquer maneira, ela iria usar das economias em artigos do tipo. Entrou também no espírito: comprou um único bilhete, embaralhando-o entre os dela para que a garota não pudesse recusá-lo, já que ela nunca saberia quais eram os seus e qual era a única exceção, o dele.
― Está me devendo agora. ― Manteve no rosto um irritante sorriso prepotente, de quem sabia exatamente qual seria a única ficha vencedora. Ah, como o olhar da colegial nublou-se em cólera...
― Por que iria te dever? ― Lembrou a ele: ― Quem está me devendo é você!
― Mas você só correu e me abandonou numa sala qualquer, Suzu-chan ― menosprezou, embora não falasse sério. Estava ali, satisfazendo ao pedido dela, afinal.
― Tão ingrato! Eu não te devo nada! E os bilhetes sorteados serão os meus!
Ora, uma oportunidade.
― Quer apostar nisso?
“Maldito, mil vezes maldito!” Queria apenas provocá-la, instigando a competitividade que era o ponto fraco da menor. Porém, ela sabia quem ganharia caso disputassem. Não! Nem pensar! Deixaria o destino, ou o acaso, ou o que quer que fosse que decidisse qual daqueles míseros pedaços de papel-cartão seria o escolhido. Porque, caso competisse, o resultado era previsível após tanta repetição anterior. Mas... desistir de uma aposta lhe era tão difícil... Exigia um esforço descomunal, e era tudo culpa daquele imbecil-
― O que foi? ― questionou, com uma satisfação (poderia-se dizer cruel) diante do dilema dela. Provocou, apontando ao redor: ― Não estamos aqui, no paraíso dos jogos e da sorte?
Na verdade, a culpa do comportamento de Shintani decaía sobre ela mesma: até conhecê-la, era indiferente aos jogos e competições. Com a convivência, então, adquiriu gosto pela sensação de vitória e, principalmente, pela diversão proporcionada ao vencer de alguém em particular: uma anã que odiava perder, e cujas reações eram hilárias e explosivas. Como o semblante da Ayuzawa mais nova naquele mesmo instante:
― Hinata, cale essa boca antes que eu-
Foi mais uma vez absorvida por algo ― aquilo que amava tanto quanto sorteios, e que fazia dissipar a raiva, assim como qualquer sentimento. Doces. Adiante, uma sorveteria reluzia aos olhos de Suzuna. E não um estabelecimento qualquer: oferecia tantos sabores, tantas coberturas, tantos formatos ajustados conforme a fome do cliente. Quando descobriu o que a fizera suspender no ar a sentença ameaçadora, quase revirou os olhos. “Como é previsível.”
Com as poucas economias restantes, pôde comprar apenas uma casquinha de morango. Iria saboreá-la de modo a durar, era a única maneira. Salivou em antecipação diante da massa gelada e adocicada em suas mãos, e os orbes dourados ardiam, famintos. Num primeiro contato, lambeu pelo topo do monte róseo, apreciando o sabor misto entre o doce e o minimamente azedo característico da fruta (artificial, no caso). Satisfeita com o equilíbrio entre os gostos, usou dos lábios para sugar de uma porção maior. Deliciou-se com a textura suave e cremosa, estendendo por vezes a língua para alcançar a lateral da sobremesa e impedir que escorressem gotas frias pelos dedos.
“Ela só pode estar fazendo isso de propósito.” Mais uma vez hipnotizado pela vizinha esfomeada ― imaginando a mesma fome aplicada em outra situação. Era impossível desviar-se, contudo; ela estava ali praticamente acariciando um sorvete com a língua! Cada vez mais, as íris castanhas escureciam-se, assim como uma avidez repentina nascia. Mas não deixaria que se desenvolvesse esta ânsia. Ficar excitado sem retribuições era incômodo; mascarar qualquer volume contra a calça exigia esforço. E ainda estavam na droga de um local público.
― Coma isso de uma vez antes que derreta, sua lerda. ― Esticou-se para abocanhar a maior parte. De novo a maldita mania de pôr a boca nos doces os quais ela também tocara.
― Você... nem gosta de sorvete! ― reclamou, por instinto.
― Sim, eu detesto. ― “Não havia outro jeito de te fazer parar.” ― É todo seu, pirralha.
No entanto, ideia de que o amigo estava com fome logo lhe veio. E ele nunca admitiria isso, obviamente, foi o que pensou ao considerar a repulsa do outro por substâncias açucaradas. O rumo das divagações não poderia ser mais errôneo, embora a generosidade momentânea fosse algo a se valorizar.
― Pode pegar mais se quiser.
― Ora, quer tanto assim um beijo indireto? ― zombou ele. Não, já provara o bastante daquela coisinha enjoativa.
― ... ― O silêncio evidenciava a indignação. Sempre compartilharam comida sem problemas! Era irrefutável o propósito de Shintani: desafiá-la a provar mesmo após tê-lo dito. “Pois vai ver só!” ― Não me importo com nada disso!
E o fez: de uma vez, sorveu o creme rosado da superfície, tratando de devorar o restante da casquinha em poucas mastigadas. Consumiu com tanta pressa que sentiu o cérebro congelar quando a substância fria desceu a rasgar a garganta. Após um lamento incontido, pressionou a cabeça para amenizar a sensação. Toda a sequência de eventos, desde o ingerir alvoroçado, até o gemido de desagrado de Suzuna, foi assistido pelo rapaz, que se não acostumado a ela, se surpreenderia com a dedicação com que competia.
― Engoliu como uma esfomeada ― observou, ainda que sem a audácia de não espantar-se com tamanha velocidade daquela “máquina de comer”.
Deliberadamente, ela o ignorou enquanto dirigia-se às arquibancadas. Foi ele o primeiro a pedir que comesse rapidamente! E não era o momento a se pensar em vizinhos desprezíveis ― devia concentrar-se nos sorteios e somente neles. A cada anúncio feito, o coração batia um pouco mais rápido com a expectativa, para voltar ao normal quando eram outros os cartões sorteados.
Apesar das consecutivas tentativas frustradas, não desistiu até o final de alcançar um prêmio apenas. Ao lado de ambos, um monte considerável de fichas descartadas crescia conforme os itens acabavam-se, um a um. Continuava a torcer por si mesma, abraçando-se à bolsa que continha seus “amuletos”. “Será o próximo, será o próximo”, desejava ardentemente. E, com a antepenúltima das fichas, conseguiu enfim algum resultado: um estoque considerável de pudim em pó².
― Eu ganhei ― sussurrou ela, incrédula, para si mesma. Repetiu mais alto para testar se era real: ― Eu ganhei, eu ganhei!
Mesmo mantendo para si mesmo, Hinata julgou inútil a recompensa ― tanta comida seria aproveitada apenas por um estômago insaciável como o dela. Para a garota, a recompensa era secundária perto da vitória. Além disso, as embalagens preencheriam integralmente a sacola como previra, e o entusiasmo superou as duas derrotas que se seguiram à única conquista. Estava quase que à parte do mundo, comemorando mentalmente a ponto de esquecer-se de conter o bom humor radiante. Assim como do número do bilhete vencedor ― aquele que fora acrescentado aos seus por um certo veterano.
E este nem ao menos lembrou-a da discussão anterior, sobre qual seria o escolhido dentre os dois. Afinal, Suzuna ela era bem capaz de reclamar seus direitos, afirmando que o tíquete tornou-se sua posse a partir do momento em que ele lhe entregara. Conseguia até mesmo ouvir seus resmungos. E era tão raro seu estado contente; iria mantê-lo intacto, ao menos.
“Curta a vitória, baixinha azarada. Só desta vez.”
****
Enfrentava um dilema ao marchar até a sala do Conselho Estudantil. Por um lado, não queria sequer ver o rosto daquele infeliz; por outro, queria lhe intimidar até que ele nunca mais pensasse em fazer algo como... aquilo novamente. Era desconcertante lembrar-se daquele beijo como algo bom; todavia, por mais que se esforçasse todas as memórias evocavam um prazer perturbador. Era um maldito homem; um nanico dos mais explosivos!
Evitá-lo, além de não acentuar a própria raiva, também garantia que não sentiria aquele desejo estranho de prová-lo novamente. Era mais seguro, para alguém movido por instintos como ele, manter-se afastado daquele perigo detestável. No entanto, ao alcançar a soleira, Kanou Soutarou não poderia mais voltar atrás. Não depois do sorrisinho desaforado que recebeu logo ao ser visto.
― E aí, Kanou-kun? Estava te esperando ― saudou, cínico, o garoto sentado sobre a mesa.
Para seu contentamento, não houve qualquer resquício de ânsia ao encontrá-lo; não sexualmente. Mirá-lo somente despertou uma fúria extremada, insana, como nunca sentira. O que era estranho ― o descontrolado geralmente era Shouichirou. Com todas as barreiras que impunha a si mesmo, não era nenhuma surpresa sempre rebentar em ataques de ira. E como ele sempre se permitia fazer o que lhe vinha à cabeça, era simples manter uma calma ultrajante ao lidar com problemas.
Desde o início daquele castigo, mal se reconhecera, e sabia bem o motivo: a punição o limitava, e isto, para ele, era sinônimo de aborrecimento. Disto não haviam dúvidas. No entanto, porque sentira o mesmo ao ser beijado? Era impossível ter se sentido reprimido ― nem ao menos queria! Foi aquele peste a iniciar tudo aquilo! Voltava para o ponto inicial: nunca sentira tanto ódio.
― Escute bem porque não vou repetir ― vociferou o maior, agarrando a gravata de modo rude. ― Nunca mais faça aquilo de novo. A não ser que queira ser espancado c-
― Você quer me bater por um beijo? ― Yukimura permitiu-se rir sem restrições. Aproveitou da proximidade para sussurrar sobre seu ouvido: ― Nada do que fizer vai mudar o que aconteceu.
Enquanto para ele o gesto não fazia qualquer diferença (ainda que tenha lhe proporcionado uma agradável sensação inédita), para Kanou aquela era uma questão fundamental. Deliciava-se com isso: desta vez, era ele o descontrolado, o irritadiço, o provocado. Porque a sensação de controle era viciante, e queria experimentá-la mais e mais. Fora aquela punição ideal que lhe possibilitara este deleite, e não desistiria dela de forma alguma.
Além disso, o rapaz do segundo ano assimilou o que dissera, muito rapidamente, ainda que com relutância. O que ele esperava ameaçando o pequeno? Mudar o passado não era possível, e o futuro, pouco provável diante da insistência com que Yukimura provavelmente lhe provocaria dali por diante. Então, por quê? Seria a reminiscência do que sentira, cuja indignação o levou a culpar o vice-presidente?
Eles haviam se beijado, e isto era um fato ― mesmo que de sua parte viesse apenas a surpresa, pois a atitude partira de um baixinho vingativo. E Kanou não era dado a arrependimentos ou acúmulo de ofensas passadas; o beijo em si não fazia diferença. O que sentira, sim. E era inquietante.
Aplicando alguma força, o moreno mais baixo conseguiu se livrar do mais novo com facilidade, devido ao efeito que causara no outro e a própria habilidade. Que ótimo! Se soubesse que ações tão simples deixariam-no tão furioso, não hesitaria em suscitá-lo dessa maneira há muito tempo. Experimentar de um prazer duplo, a cada indisciplina do outro, estimulava a ansiedade em repeti-lo.
Afinal, além do domínio poderia sentir a textura e o sabor de Soutarou mais uma vez ― e talvez desta apreciar no devido tempo toda aquela torrente ávida que o levara a intensificar o momento. Mas... no que estava pensando? A função a que foi designada encerrava quando o delinquente o obedecia; além dali, eram apenas caprichos supérfluos. E muito havia de apreciável somente no poder da autoridade. Caminhou até a carteira em que ele se alojava de costume, gesticulando para que se sentasse.
― Então, vamos começar obedientes hoje? ― Simulou um tom inocente.
Era humilhante tolerar as ordens daquele pirralho, lamentou o maior. E desnecessário ― poderia muito bem convencê-lo a fazer o que quisesse. Porém, recordou-se que foi a hipnose a despertar no desgraçado aquela ânsia por vingança que culminou naquele beijo. Cumprir com as ordens era o melhor para sua sanidade, pois preferia ser contido por regras e um questionário qualquer do que estar submetido àquela vontade absurda de tomar os lábios dele. Seria melhor acatá-lo, ao menos por enquanto.
― Viu, é tão ruim assim? ― indagou retoricamente o vice-presidente.
― Ao menos pode ficar quieto? ― O mal-humor de Soutarou era óbvio.
― Existe um modo bem rápido de me calar ― provocou Yukimura, ciente da importância que o calouro daria às palavras.
E Kanou queria calá-lo daquela maneira! Intrometer sua língua entre a dele, e enfim consumir o desejo estranho de uma vez. Contudo, aquilo não fazia sentido, até mesmo porque tinha consciência de que a voracidade só aumentava quando provava daquela espécie de experiência. Uma coisa levava à outra, e oscular levava ao sexo.
Foi inevitável não imaginar a cena: o corpo pequeno e estreito do outro, submisso ao seu, finalmente. A contorcer-se contra seu aperto, é claro, pois Shouichirou não deixaria de ser rebelde na cama. O que tornava a tarefa de experimentá-lo mais intensa e recompensadora. Cada vez que resistisse em busca da fuga, iria atormentá-lo mais e mais com a língua, os lábios, os dedos.
Natural, o fluxo de pensamentos fluiu sem que o mais novo se apercebesse, até que notou um familiar enrijecimento das partes baixas, agora comprimidas contra o tecido da calça. Mas que porra! Estava pouco se lixando para o fato de que estava excitado no colégio; o inadmissível era o motivo pelo qual se excitara. De maneira alguma iria transar com aquele moleque; não!
― Passe-me logo essas merdas de questões ― exigiu o mais alto, impaciente.
Como pedido, as folhas contendo os exercícios foram postas sobre a mesa; no entanto, a palma de Shouichirou ainda as cobria, pois o rapaz deteve-se ao fitar o mais novo. Incomodava-lhe mais uma vez que o mais velho usasse os mesmos óculos escuros que cobriam os belos olhos, ainda que com a exasperação os fios escuros de Kanou tenham se desalinhado do habitual penteado simples, completamente para trás. Ficavam lindos daquela forma.
Não se envergonhava de admitir para si mesmo que o outro era bonito; era direto: ora, ele realmente era! No entanto, assumir mentalmente era diametralmente oposto a anunciar publicamente ― de maneira alguma inflaria o ego do delinquente. Não, nem pensar. A boa aparência transmitia um vigor que ele (também secretamente) invejava, e este também era um rumo incômodo de divagações. Além disso, aquela era uma vontade idiota. Por acaso pretendia ser hipnotizado mais uma vez?
― O que é, pirralho? ― rosnou o outro diante do olhar fixo.
― Primeiro: o pirralho aqui é você. ― Rapidamente o mais velho voltou à anterior postura, deliciando-se com a raiva do interlocutor ao mirar em um de seus pontos fracos. E aproximou-se ainda mais, quase a ponto de encostá-lo, para sussurrar mais sério: ― Segundo: se não acalmar essa fúria sozinho, quem vai acalmar sou eu.
Com a proximidade, as respirações mesclavam-se uma a outra; anestesiavam os sentidos de Kanou. Desorientado, sentiu-se atraído até mesmo pela seriedade no tom do outro. Não sabia até que ponto aquilo era apenas a insistência em dominá-lo fisicamente, como o fazia quando se enfrentavam. Tentava ― ou melhor, devia ― acreditar que esta era uma justificativa convincente.
Ao maior restou apenas calar-se, num assentimento implícito, mesmo que em seu íntimo mais distante o verdadeiro desejo fosse desacatar aquele nanico e submetê-lo às suas vontades para mostrar-lhe quem era o submisso. Não, negou para si mesmo inúmeras vezes, não havia despertado um interesse em Yukimura Shouichirou. Não mesmo.
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O que deveria ser um momento tranquilo do dia foi duramente perturbado. Como sempre, por ela. Em meio à aula de educação física, cujas exigências dobraram com a proximidade do Festival Esportivo, a presidente surgiu repentinamente, solicitando o auxílio de algum aluno resistente o bastante para ajudá-la a limpar a quadra para o evento. Convenientemente, o escolhido foi ele mesmo.
Contudo, o desagrado era acentuado pela própria implicância: não dava assim tanto valor àquelas aulas nas quais esporadicamente era obrigado a frequentar. Era um bom atleta, e o contato impessoal dos esportes nos quais participava de times não lhe despertava qualquer desagrado. Contudo, sua preferência eram as atividades individuais, o que não era o caso naquele momento, devido ao próprio Festival.
Bem, agora estava livre do alongamento em dupla ― foi substituído por algo muito mais estressante.
― Você poderia ao menos deixar-me em paz durante as aulas ― suspirou Usui ao acompanhá-la.
― Eu realmente preciso de ajuda ― explicou; porém, logo desmanchou qualquer boa impressão: ― E que outra chance eu teria de te ver sem óculos?
Que maldita e bizarra atração ela sentia por alguém problemático como ele! Seria tão simples deixá-lo em paz. Livraria tanto ela, de uma companhia reclusa e pouco amigável, quanto ele, de uma generalizada e crescente confusão de sentimentos. Ainda era vívida a memória da “reflexão” acerca da presidente no café ― algo que ele ardentemente queria esquecer, embora não conseguisse. Gastar tanto tempo pensando em alguém era algo novo, e como toda a novidade, desconcertante.
Desviou os olhos verdes dos dela, enrubescido e zangado. O que havia de tão divertido em deixá-lo constrangido? Ao chegarem ao local, descobriu ser muito simples a tarefa; contudo, também sabia que apesar da disposição sem limites da morena, sua força física era restrita, e retirar todos aqueles objetos pesados, impossível.
Iniciaram então a desobstrução do espaço a ser futuramente aproveitado: enquanto Misaki organizava a decoração das áreas já livres, Takumi livrava outras daquele amontoado de inutilidades, utilizando-se da força. Trabalhavam numa quietude agradável, e a distância entre ambos contribuía para esta impressão. Quando não era alvo das provocações de Ayuzawa, Usui conseguia manter-se confortável, mesmo com a relativa proximidade. Era apenas o som das respirações, alguns grunhidos de esforço, e o silêncio branda e familiar.
Desde a infância, Takumi sempre preferira a placidez à energia de um ambiente ruidoso. Talvez resultado do próprio isolamento, embora a predileção abrangesse bem mais que um simples afastamento de outras pessoas. Havia uma calma envolvente, além da própria clareza: era possível perceber cada mínimo ruído, movimentação, odor. Como se fosse possível tornar a si mesmo mais perspicaz.
Ouvira falar que era resultado da supressão de um dos sentidos, o que aguçava os restantes. Porém, nunca sentira o mesmo com a visão ― no momento, sem as lentes, enxergar tudo à volta embaçado não transmitia qualquer acréscimo à audição, tato ou olfato. Manter-se de olhos fechados, então, era desorientador ― terrível, em suma. Mas a quietude permanecia, e com ela a percepção da temperatura.
Abafado, o ambiente fechado provocou no maior um calor insuportável, e este retirou uma das blusas que vestia, mantendo apenas a camiseta sem mangas obrigatória da disciplina. Geralmente, mantinha-se com algo que o cobrisse tanto quanto possível: seu uniforme preferido era o utilizado no inverno. Talvez fosse a maneira de externar as barreiras internas, ou estava sendo paranoico demais devido ao calor e ao silêncio. Eram ambientes propícios para se pensar demais.
A responsabilidade de Misaki dependia da velocidade com que o outro desocupava a quadra, e após encerrar o ornamento da última das áreas limpas, a presidente sentou-se sobre uma das caixas para observá-lo. Como ele estava atento a si mesmo, pôde mirá-lo longamente sem interrupções. Ele estava ciente de como estreitava os olhos sem os óculos, para melhor enxergar? Ou de como era intenso o seu olhar quando mergulhado em pensamentos (que ela desejava com fervor descobrir)? Provavelmente não. No entanto, era um detalhe mais que ela adicionara à lista “Coisas fofas sobre Usui Takumi”.
Pôde comprovar que não bonito apenas o rosto do loiro ― todo o corpo, sutilmente sugerido por entre as vestimentas mais leves, era bem proporcionado. E a musculatura dos braços expostos, bem desenvolvida o suficiente para que a morena ansiasse por descobrir bem mais além da roupa. Conseguia mentalizar com exatidão os contornos do tórax; cada ínfima proeminência muscular; desde o peito, descendo por entre a barriga deliciosamente delineada, até se perder entre as coxas firmes e... entre o meio delas.
“Você está se tornando uma pervertida.” Advertiu uma voz chata e intrometida em sua mente. Ora, o que poderia fazer. Além da personalidade peculiar, que lhe estimulava a vontade de desvendá-la, o rapaz era inegavelmente lindo. Era natural apreciar o belo, explícito à sua frente. “Não invente justificativas” Continuou o debate mental.
Não havia nada a inventar ― a morena nem ao menos negara o fato de que era pervertida. E aceitou-o sem qualquer relutância. Nunca antes sentira alguma atração física por garotos, repelida por todas aquelas características que repugnava. Isto mudara (e muito rapidamente, até) quando se viu interessada naquele um tanto estranho rapaz introspectivo.
E sentia crescer em si mesma aquele interesse; poderia afirmar que, sim, estava gostando dele. Entretanto, já conhecia as limitações do loiro e, além disso, deixar tudo correr ao seu próprio curso era mais divertido do que se inserir naquele processo fascinante de descobrir mais sobre ele, aos poucos. E a mais recente descoberta era um físico invejável.
Quando notou que a outra o mirava, Usui rapidamente corou, alegando que ela deveria continuar o trabalho, e não distraí-lo. Com uma risada, ela logo retrucou afirmando que se sua presença o desconcentrava tanto, ele não estava empenhado o suficiente. Porém, antes que ele manifestasse qualquer reação, chamou o rapaz visivelmente cansado para um intervalo. Entregou-lhe uma garrafa d’água, enquanto bebericava da própria, e o olhar curioso logo foi exprimido em um questionamento:
― Ei, Usui. Alguém já te disse que você é gostoso?
Pego de surpresa, o loiro espirrou quase toda a água da boca, num ruborizar violento. Que diabos de pergunta era aquela?! Nunca haviam comentado sobre sua aparência, e nunca pensara sobre ela mais do que julgara necessário. Porém, como sempre, Misaki o levava a refletir sobre (e experimentar) sensações novas. O que em nada enfraquecia o embaraço. O sobressalto apenas respondeu à colegial, que murmurou algo como “É, parece que não.” Como ela previra, fora a primeira a dizê-lo abertamente.
Tomado pela irritação, indagou-lhe porque o escolhera dentre tantos alunos ― não somente para ajudá-la naquele momento, como também para divertir-se com as provocações. Nunca encontrara alguém tão descarado quanto ela, embora este comportamento se restringisse a ele mesmo. O que reforçava a certeza de que era alvo de alguma obstinada implicância. Sem nem ao menos refletir, Ayuzawa respondeu, direta:
― Vamos ver: primeiro lugar entre as notas, ótimo nos esportes, bem falado pelos professores. Um verdadeiro aluno prodígio. ― E, antes que ela alcançasse as qualidades subjetivas, ele se intrometeu:
― Você leu a minha ficha? ― Privacidade era uma palavra desconhecida para ela? Era inacreditável!
― Vantagens de ser presidente ― defendeu-se ela diante do olhar ultrajado do outro. ― Lide com isso, Takumi-kun.
― Não me chame assim, sua maid pervertida ― pediu, enquanto pressionava as têmporas. Por que a convivência de ambos não podia ser pacífica?
“Até ele já sabe que é uma pervertida.” Censurou aquela mesma voz entediante. Afastou-a sem muito esforço; afinal, nunca intencionara manter em segredo aquele aspecto de si mesma para o loiro tímido. Porque observá-lo corar e perder a compostura era um estimulante, que somente fazia crescer a vontade de perturbá-lo sempre um pouco mais. Estreitou os olhos, no entanto, diante de um vocábulo em específico.
― Então faremos um acordo: ― iniciou ela, desta vez séria. ― Não te chamo de “Takumi” e você não diz mais esta palavra feia na escola. ― Ela referia-se à “maid”, e não “pervertida”. E isto o aturdia ainda mais.
― Mas você continua sendo uma ótima presidente mesmo que trabalhe com isso, Ayuzawa.
A sentença saiu involuntária, e somente após proferi-la ele compreendeu se sentido. Porcaria de honestidade involuntária, porcaria de nula habilidade social para contornar aquele tipo de comentário. Ótimo, ela iria implicar com aquilo pelo restante do dia! Todavia, ao contrário de suas expectativas, Misaki fitou-o primeiramente espantada, e os resquícios da anterior provocação deixaram seu rosto, substituídos por um sorriso terno. Como se satisfeita consigo mesma.
― Elogios seus? Pegou-me de surpresa, Usui.
Levantou-se, então, para afagar levemente os fios dourados do topo da cabeça de Takumi, num gesto ligeiro. Mal chegou a tocar o couro cabeludo do rapaz, atendo-se ao cabelo basto, rebelde e, como descobrira em poucos segundos, macio (e não espetado como imaginara). Ainda assim, era a primeira vez em que se tocavam, como ele não deixaria de esquecer.
Um dos hábitos japoneses que mais apreciava era o distanciamento físico entre desconhecidos: não havia a necessidade de longos abraços ou até de beijos no rosto. Apenas cogitá-los já fazia de Usui nervoso. Contudo, a memória do toque suave e do comportamento brando da morena ardiam vívidos em sua mente. Como se quisesse guardar aquele momento para a eternidade.
Porque, nos poucos instantes nos quais ela lhe acariciara as madeixas, estagnou-se, pasmo, consciente apenas do silêncio interno. Aquela mesma paz que sentira quando estavam quietos a trabalhar; um sossego causado pela ausência de pensamentos. Era surpreendente: o que presumia lhe despertar um desconforto generalizado provocou nele um agradável acolhimento.
Tão imerso nos ecos desta sensação, demorou a atendê-la quando o convocou para voltar ao serviço que lhes encarregaram. Poucos metros à frente, o azar caiu sobre ela ― literalmente.
Um dos enfeites que pregara sobre o teto soltou-se, despencando vertiginosamente sobre ela. Lentos demais, os reflexos impediram-na de desviar da placa delgada de madeira envolta em papéis coloridos. Certeiro, o material atingiu a cabeça em cheio, e ao encolher-se diante da dor, acabou enrolada àquela serpentina.
Mal percebera, estava lutando contra aquelas tiras multicolores demoníacas. Quanto mais se agitava, mais se atava a elas, e acabou estatelando-se contra o chão quando até mesmo os tornozelos acabaram presos entre o emaranhado.
Tudo não durara mais que dois segundos.
Logo que a viu cair, Usui ajoelhou-se para ajudá-la a livrar-se de toda a serpentina. Era inesperado assistir a um momento vergonhoso dela. Principalmente porque, enquanto ele estava preocupado com seu estado, a morena nem ao menos parecia importar-se ― ou constranger-se. Mesmo após contorcer-se entre faixas com cores primárias, mantinha a dignidade ao delas soltar-se com o auxílio dele mesmo. Já ele, embora na posição menos constrangedora, esforçava-se para não roçar seus dedos aos dela enquanto a desatava de tantos nós, porque ruborizar ali seria inaceitável. Era ela quem deveria estar enrubescida!
― Se machucou? ― questionou, quando enfim libertaram-na de todas as tiras.
― Não é com isso que estou preocupada. ― tranquilizou, ao sentar-se. Exclamou, então, incrédula: ― Nossa, que acidente ridículo!
Ao zombar de si mesma, nem ao menos estava encabulada. Então ela tinha algo de desajeitado, percebeu Usui. Confirmara os anteriores pensamentos: era inesperado. Sentiu-se tentado a rir, não pela situação (que fora tão rápida e trivial), e sim pela pose orgulhosa que a presidente mantivera mesmo após o enérgico duelo contra serpentinas.
― Não foi assim tão ruim ― consolou ele. Logo deu-se conta: desde quando se preocupava em tranquilizar outra pessoa?
― Tantos elogios assim num dia só? ― O timbre feminino tornara-se perigosamente malicioso, e a única resposta do rapaz foi a vermelhidão das faces. Complementou, insinuante: ― Ou é para tentar disfarçar que queria rir de mim?
― E-Eu não... ― Não poderia negar, e a natureza honesta tratou de denunciá-lo: ― Não sabia que era desastrada.
Misaki estreitou os olhos diante da enunciação daquela fraqueza, mas logo deu de ombros. ― Bem, é justo. ― Afinal, ambos descobriram algo sobre o outro. ― Agora sabe que eu sou desastrada, e confirmei que é realmente gostoso como eu imaginava.
Como podia dizer aquilo em um tom inalterado!
― N-Não quero saber sobre o que você imagina ― desconversou ele, desviando o rosto corado. Nem queria saber se o que dissera era mentira ou não; já era constrangedor o suficiente!
― Nem um pouquinho curioso? ― insistiu ela, numa provocação inequívoca.
― Volte a trabalhar, Ayuzawa!
Num ímpeto, levantou-se indignado e embaraçado. Ouviu a risada travessa dela antes de voltar ao posto de antes. Um som irritante, tanto quanto era agradável e contagiante. Dilatava-se por entre o ambiente, tornando impossível ignorá-lo. Ou seja, resumia ela mesma: era uma risada “Misaki”.
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