Change!

6 Capítulo Seis - Um acidente oportuno - Um


Notas iniciais
Hey, hey! É, lidar com quatro fics está dando trabalho. Este deveria ser um capítulo publicado no dia do sexo (ontem xD), mas eu estive ocupada com um projeto de cafeteria (é, eu vou projetar um café o/) e só consegui postar hoje. Mas considerem uma dedicação à data, ok? (Mesmo que não tenha hentai D'=) ❖ [EDIT 17/12/2013] Capítulo editado. 842 palavras adicionadas + 2299 reescritas. ❖ [EDIT 17/12/2013] ATENÇÃO! Este capítulo foi dividido no meio devido ao tamanho! A outra cena + a cena bônus encontra-se no capítulo seguinte.

A visão não era das melhores, mesmo após despertar. Sentia um desconforto generalizado por todo o corpo, acentuado na cabeça e no tórax ― e a dor fez com que voltasse a se deitar, enrolada entre os cobertores. Normalmente, estaria empolgada por aí, afirmando que não seria um simples resfriado ou algo do tipo a nocauteá-la. Contudo, havia apenas desânimo ― os sintomas foram mais fortes.

Correta, a leve impressão de que estava doente foi confirmada pela irmã mais velha, que adentrou no quarto para verificar seu estado diante de tal demora. Ao medir a temperatura, as feições da primogênita adquiriram um aspecto medonho, pensou Suzuna. Não era nada demais, tentou dizer, mas foi lenta, pois ela já havia deixado o cômodo.

Ainda que desvanecida devido à febre, a audição conseguiu captar alguns esbravejamentos de Misaki ― a morena mais velha conversava com alguém ao telefone. Ou melhor, discutia e recriminava, pois a voz não era nem um pouco amigável. Quando voltou ao recinto, o tom da presidente voltou à calmaria típica com que tratava da caçula, avisando-lhe que não poderia cuidar dela, mas arranjara um substituto. “O culpado por tudo isso”, murmurou para si mesma.

Tão logo a irmã partiu, após administrar-lhe alguns comprimidos, Suzuna desceu à procura do tal substituto, e as suposições confirmaram-se ao vislumbrar Hinata a retirar os próprios sapatos no vestíbulo, um tanto exasperado. A camiseta estava do avesso, e as roupas amarrotadas o suficiente para que explicitassem a velocidade com que se vestira. Contudo, ao fitá-la, o nervosismo que sentira ao descobri-la em estado febril se conteve, e soltou um suspiro de alívio.

― Não precisava ter faltado por minha causa, idiota ― balbuciou a pequena, um tanto sonolenta. Esfregou várias vezes o dorso das mãos sobre os olhos até conseguir visualizá-lo decentemente. Odiava aquela sensação de fraqueza, assim como quando dela se responsabilizavam. Não era uma criancinha que a todos deveria preocupar!

Quando a avistou, também cresceram em seu íntimo intenções pouco castas. Nem ao menos tentou, na verdade, pois de qualquer forma seria impossível desviar o olhar da vizinha, cujos cabelos soltos estavam displicentemente rebeldes, e sobretudo, cujo corpo estava bem visível devido ao pijama de dimensões diminutas, se comparadas às vestes que ela usava de costume.

Livres devido à blusa sem mangas, os ombros estreitos foram cobertos pelos fios negros, assim como o pescoço. Menos mal, pois a visão da garganta fina e frágil da garota lhe era tentadora. Contudo, haviam substitutos ― muitos deles. Como uma das malditas alças a pender, como em um convite para abaixá-la e despi-la de vez. Ou a barriga que parecia implorar por beijos, visível diante do menor comprimento da roupa.

No entanto, o pior era o que havia abaixo daquele short curto: as coxas a desenharem-se enlouquecedoras, pois a pele incólume e suave incitava o desejo de marcá-las com mordidas e chupões. Colorir a tonalidade creme com marcas rosadas que denunciassem sua presença. Ou fincar os dedos no quadril sutilmente arredondado da caloura. Percorrer por inteiro toda a extensão daquele corpo delicioso...

“Ela está doente, seu maníaco”, gritou para si mesmo. Esforçou-se para deixar de vislumbrar as pernas delgadas para respondê-la. Afinal, apesar de muito mais lerda que o normal, acabaria por descobri-lo se continuasse a devorá-la com os olhos. Enfim voltou os orbes acastanhados para o assoalho ― a madeira não possuía delicadas curvas a seduzi-lo, ao menos.

― Sua irmã é assustadora ― respondeu ao lembrar-se dos gritos estridentes tão logo acordou para atender a ligação. ― E não me importo nem um pouco de matar aula.

― E se pegar minha febre? ― retrucou ela, mais desperta. Estreitou os olhos com a pouca importância que o outro delegava à própria saúde enquanto fazia questão de mantê-la sobre seus cuidados.

― Aí é você quem cuida de mim, retardada. ― Deu-lhe o costumeiro peteleco, já de pé. Suzuna bufou, emburrada.

― Não sabia que era assim que tratava um doente.

― Aceitar a própria condição é o primeiro passo, byounin-chan. ― Não reprimiu a risada ao ouvi-la chamar a si mesma de “doente”.

Tarde demais, Suzuna percebeu o próprio deslize. Corou com a desatenção ― como pudera baixar a guarda, justamente perto dele! E aquele tom detestável de superioridade era tão aborrecedor. Tratou de mascarar (ou ao menos tentar) o rubor, desviando o rosto com brusquidão. Contudo, o gesto apenas fez com que sentisse tontura, e cambaleou minimamente.

Num reflexo rápido, Hinata amparou-a contra si mesmo. Percebeu então a temperatura da pequena: ela estava fervendo! Aquela idiota, guardando o que sentia.Em um gesto súbito e improvisado, voltou o rosto até o dela, encostando ambas as testas. Medir a temperatura era algo desnecessário quando já tinha noção da indisposição da garota e quando ela mesma já havia recebido medicação adequada; contudo, foi involuntário, já que inúmeras vezes ele repetira o mesmo gesto, sempre a cuidá-la durante os resfriados.

― Eu não estou doente, droga! ― reclamou ela, com a proximidade.

Na verdade, sempre reclamara daquela rotina, pois assim mascarava a indignação de si mesma por deixar-se abater por um resfriado. Odiava sentir-se fraca, e o expressava com farpas.Desde bem novos, sempre pôde contar com a visita do vizinho quando sentia-se mal ou indisposta. Durante a infância, Shintani lhe visitava após o colégio, avisando da própria chegada atirando pedrinhas contra a janela. Já na pré-adolescência não havia mais denúncia de sua chegada, pois o rapaz adentrava até mesmo pela própria janela, se a porta estivesse trancada. E, em todas as ocasiões, media a temperatura daquela mesma maneira ― selando as testas uma à outra, encurtando ao máximo a distância entre os dois. E, é claro, a chamava de “nanica masoquista” quando ela negava qualquer tratamento.

― É claro, sou eu quem mal se aguenta de pé ― ironizou ele, ao que ela não pôde rebater. Calou-se, marchando para o quarto como podia. Tão descuidada, maldição. ― Não se force desnecessariamente, pirralha estúpida.

Com um movimento displicente das mãos, a morena ignorou-o. Estava exausta para prosseguir qualquer discussão. Mal chegou ao quarto, desabou sobre a cama com o cansaço. Queria que cessasse o leve enjoo e a insistente dor de cabeça, e deitar amenizou ambos, ainda que bem pouco. Talvez dormir fizesse com que tudo aquilo desaparecesse.

Contudo, tentou ao máximo lutar contra o sono. Não poderia dormir e deixá-lo sozinho; agiria como uma mimada pretensiosa. Além disso, havia a teimosia em admitir que precisava de cuidados em um momento de debilidade. Não, não podia adormecer. Remexeu-se na cama, procurando por alguma posição que desestimulasse a sonolência, e ao mesmo tempo mantivesse afastados os incômodos. Acabou de bruços, e deixou-se daquela maneira, pois não encontrava mais forças nem vontade de se mexer.

Foi neste momento que o rapaz entrou no quarto.

Simplesmente não conseguira deixar de olhar para a garota, pois os olhos caramelados recusaram-se a serem arrancados um instante sequer da visão sobre o colchão. E o fato de que não ela poderia descobrir desta vez que vagueava por entre o corpo diminuto atenuava qualquer boa intenção. Diabos, ela poderia estar doente, mas isto não impedia que sua imagem fosse tentadoramente delirante. Daquele ângulo, principalmente.

Ainda que cobertas por tecido, as costas delineavam-se contra o tecido, evidenciando a curvatura da cintura mínima (embora proporcional às pequenas dimensões). Tanta delicadeza parecia um convite ao toque rude e apaixonado. Afundar ali as unhas com possessividade seria a maior das ânsias. Isto, se não fossem, novamente, pelas pernas expostas.

Desde as panturrilhas esguias, entre as coxas saborosas cuja maciez era um pecado, até alcançar o traseiro encoberto, mesmo que os contornos fossem nítidos contra o pijama feminino ― sua roupa preferida, dali em diante. Um conjunto irresistível, cuja extensão desejava percorrer com os lábios para dela sentir o sabor e a textura. Deliciar-se com a carne firme e tenra de todas as maneiras imagináveis, de modo a provar de cada pedacinho que Suzuna tinha a fornecer.

Após longos minutos, seguntos (para ele tanto fazia), a garota enfim percebeu que ele compartilhava do espaço, voltando-se na sua direção. Aninhou-se, talvez com frio, e permaneceu a fita-lo de forma estranha e aferrada. Semicerradas, as pálpebras denunciavam a sonolência. Ainda que o gesto tenha atraído a atenção de Shintani, fixada em outros pontos, tanta pele nua era desconcertante. “Ela quer me enlouquecer, é isso.”

― Não vai se trocar? ― A voz arranhou-se, diante da garganta seca. Sugerira que vestisse um conjunto qualquer de blusa e calças compridas (a proteção do corpo da menor contra o frio e sua sanidade mental diante da distração provocante agradeciam).

― Você está aqui, imbecil ― replicou, teimosa. Ainda assim, cobriu-se com o primeiro pedaço de pano que as mãos alcançaram. Isto permitiu ao veterano voltar a raciocinar com clareza.

Após arquear as sobrancelhas, o moreno foi zombeteiro: ― Aquele banheiro ali. ―Apontou para fora do cômodo, na direção que citara. ― Ele tem uma porta, sabe? Não serve?

Nada tinha contra a suposição da menina, todavia. O que o levou a pensar até que ponto os hormônios comandavam a mente naquele momento.

― Estou com preguiça de ir até lá. ― Obviamente, iria disfarçar a falta de força. Típico.

― Tudo o que eu ouvi foi: bla bla bla, sou uma nanica cabeça-dura.

Após dizê-lo, tentou manter fixado o olhar sobre o dela, que o encarava quase que em implicância. Suspirou, poucos segundos depois, derrotado. Faltava tão pouco para ela ceder ao sono... Dito e feito: após zangar-se de forma engraçada (já que mal se aguentava desperta), a colegial ajeitou-se e resmungou antes de perder-se em meio aos sonhos:

― Esta cabeça-dura vai dormir. Me acorde amanhã.

Em poucos segundos, hibernou como uma monstra. Pequenina e impossivelmente excitante, mas uma monstra ainda. Sentou-se à beirada da cama, numa relativa distância da adormecida (porque, por mais que negasse, a Ayuzawa mais nova não era capaz de preencher por completo o colchão... muito menos quando se encontrava encolhida). A sós consigo mesmo, suspirou longa e profundamente, almejando retirar tanta pressão de si.

Era um fato: desejava a melhor amiga como mulher, como nunca desejara ninguém antes. Queria tê-la, experimentá-la, preenchê-la conforme a voracidade e instintos determinariam. Não saberia dizer quando nascera aquela insanidade ávida, mas não havia escapatória: no momento, existia (e o oprimia). Ponto final.

Seria tão simples se fossem desconhecidos ― uma estranha a atrai-lo, pura e simplesmente. Não havia um passado a arriscar; longos dez anos de um afeto sólido e (como ambos queriam) eterno. Porque, embora tivesse certeza da fome, da voracidade, o mesmo não poderia ser dito de sentimentos além dos carnais.

Obviamente Suzuna não era um pedaço de carne desejável: era a irritante, zangada, dramática coisinha da qual se afeiçoara. Cujos defeitos o faziam rir, e cuja aversão à “fofura” incitava provocações. Mas esta era sua visão como amigo. Não havia “eu te amo”, “vou te proteger”, ou “você é minha vida”. Não da maneira romântica e tradicional.

E, ao final, se apenas se envolvesse com ela para satisfazer aquele capricho? Não, nunca poderia feri-la daquela maneira. Nunca. Poderia tentar aprender a amá-la, mas e se não desse certo? Ela merecia alguém completamente certo das próprias convicções, e o que ele mais tinha eram dúvidas. Preservar a amizade de ambos parecia ser o caminho mais seguro, e arriscá-la por algo do qual não tinha certeza, um erro imperdoável.

Não tinha o direito de querê-la para si somente por um apetite egoísta (e talvez efêmero), ainda que nos últimos meses esta vontade tenha se manifestado com muito mais veemência. E a culpa nunca fora dela, e sim dele mesmo. Mas agiria corretamente, e afastaria tanto quanto possível todo e qualquer sofrimento da miúda agressiva. Porque, mesmo que não soubesse se a amava como mulher, certamente a amava como amiga. Até o final da infância, como irmã (porque era estranho pensar em si mesmo a cobiçá-la numa relação quase fraternal).

Após uma boa meia hora, sentiu-a retorcer-se entre os lençóis, num espreguiçar tão estranho quanto ela mesma. Sentou-se vagarosamente; uma massa disforme de pano. Ainda envolta naquilo que a aninhara até ali, mais parecia uma criança manhosa a despertar. Confusos, os orbes amarelados vaguearam até fixarem-se nele quando murmurou, divertido:

― Acordou, criatura dorminhoca?

Por instinto, agarrou-o pelo colarinho, puxando-o em sua direção. Apesar da pequenez, era forte, principalmente quando parcialmente inconsciente. E era este o estado: os olhos ainda estavam nublados com a letargia do adormecer, e chutou a esmo na cama, sem muito controle próprio, para se livrar do que usara como coberta.

Não agia como si mesma, pois até o momento não reclamara uma vez sequer. Talvez fosse o resultado da mistura de remédios com a habitual sonolência ― a menor já tinha o costume de manifestar-se “bêbada de sono”, o que rendera alguns momentos hilários para ele, e constrangedores para ela. Desta vez, todavia, não murmurou frases desconexas que poderiam ser aproveitadas em provocações futuras. Não, preferiu aconchegar-se ao outro, tornando estreito o contato dos corpos.

― O que foi? ―indagou ele, tentando sem sucesso atrair a atenção. Transparecia um mínimo nervosismo, pois era impossível ignorar o fato de que ela estava vestida daquela maneira, a apertá-lo contra si mesma. ― Já sei que cheiro bem.

Procurou a saída pela provocação, quando a viu aspirar da camiseta até o pomo-de-adão. Talvez aquilo a despertasse do estado de “embriaguez”. Porém, a resposta de Suzuna superou qualquer expectativa. Não as palavras em si, mas a maneira com que dissera. Numa brincadeira travessa, a tentá-lo irremediavelmente:

― Cheira muito bem, You-kun.

Puxou-o para si, desajeitadamente, e pressionou os lábios nos dele, moldando-os num beijo repentino. O primeiro beijo entre os dois; aquilo que ele secretamente desejara por tanto tempo. E, naquela situação, não encontrou forças para reprimir a si mesmo. Assumiu o controle, tomando-a para si. Tratou de sentir seu gosto, somando ao contato a língua sedenta a ocupar a boca pequena, a saborear a delícia úmida e cálida.

Apertava sem restrições a cintura por sobre o tecido, sentindo a pele queimar sob seus dedos. Enfim devorava aquela boca, como ela o fez aos doces com os quais ingenuamente o seduzira até então. Era ainda mais deliciosa do que supunha. Porque ela o correspondia, deslizando a língua sobre a sua ao encontrá-la, numa carícia faminta.

E isto o incitava a prosseguir com agressividade, apanhando entre os dedos toda a carne ao alcance, enquanto as mãos inquietas percorriam as pernas e o quadril. Finalmente comprovar toda a maciez e suavidade daquela pele inebriante e aquecida, ao agarrar com ânsia as coxas que ela exibira inocentemente, proporcionando-lhe arrepios prazerosos.

Tornou-se urgente o rapaz, assim como sôfrego o beijo: somente assim para extravasar a voracidade incitada pela ereção furiosa. Sugou da língua da mais nova, e provocou um som abafado com o qual ela exprimiu a própria satisfação. Isto fez com o membro pulsasse uma vez mais, e com isso invadiu-a uma vez mais com a língua sedenta, a desfrutá-la com ousadia e sem freios. Mas ambos ansiavam por mais.

Num aviso, comprimiu-a contra si antes de iniciar uma trilha insana com as mãos que, comparadas às dela, eram tão grandes ― e que deixavam como rastro a lembrança de um prazer enlouquecedor. Subiu por entre as costas estreitas, cujo toque gerava em Suzuna tremores involuntários. O verdadeiro ápice, no entanto, foi alcançar a nuca, enquanto simultaneamente mordiscava o lábio inferior da caloura. Extasiada com a sucção, que durou um breve puxão que somente a atiçou por mais, somada à extremamente gostosa sensação de ter os fios puxados com voracidade por mãos masculinas, a colegial deixou-se gemer, manhosa.

Como era excitante!

Não mais contendo porcaria alguma de si mesmo, Hinata deitou-a com impetuosidade. Empurrou-a contra o colchão enquanto se dirigia para baixo. Enfim provaria do pescoço que o tentara pelo que parecia ser uma vida. Enquanto o fazia, pôde sentir os pelos da nuca da baixinha a eriçar-se, assim como vislumbrou os lábios inchados de beijos e ouviu os ofegos lânguidos e impacientes. Apertava-o contra si, num convite (e súplica) por mais.

Numa longa lambida lasciva, começou seu caminho, provando da garganta saborosa com avidez incontida. Alternava-se entre morder e sugar, apreciando o pulsar da pele férvida. Deleitou-se ao explorá-la com lábios, língua e dentes, enquanto os dedos entremetiam-se sob a blusa para arranhar a cintura deliciosa. E a ela, restava contorcer-se, pois o íntimo abrasava-se com a intensidade e a veemência.

No entanto, ao avançar para contornar o ouvido com saliva, sentiu afrouxar os dedos femininos sobre seu dorso, assim como tornar-se molenga a garota deitada. Os efeitos do sono, enfim. Aos poucos, a caloura converteu a expressão satisfeita numa risonha, por vezes rindo baixinho. Aproveitou-se do estado pasmo do outro diante da brusca mudança e da posição favorável, para sussurrar, meio enrolada:

― Seu gosto é muito bom. ― Gargalhou algumas vezes mais, incoerente. Após uma explosão violenta e libidinosa, era natural entregar-se novamente aos encantos de Orfeu. Murmurou, sonolenta e divertida: ― É melhor que morango.

Fitou, perplexo, a figura adormecida abaixo de si ― perplexo consigo mesmo, na verdade. Não poderia dizer-se arrependido, e muito menos delegaria a ela a culpa sobre o que ocorrera. Porém, assustou-se com a intensidade da experiência; a maneira com que ela afetara (e estava afetando) seus pensamentos. Esperava que estivesse no mínimo saciado, mas parecia impossível após ter provado uma vez, porque a pirralha era viciante. Reverberava o eco não só físico, como também psicológico. Havia afinal algum...? Ora, malditas e inúmeras incertezas.

“Sua anã problemática.” Ele suspirou. Não adiantava fugir da tempestade. Ela viria a seu encontro, inevitavelmente.

****

― Está ansioso para repetir a experiência?

Como uma simples frase podia causar nele uma raiva absurda, e simultaneamente refrear os instintos de mandar tudo à merda?

Quando Yukimura dissera-lhe que deveria participar do enfadonho Festival Esportivo, respondeu-lhe apenas com uma risada de desdém, que explicitava a grande importância que destinava ao evento. Se nem ao colégio creditava valor, o que dizer dos decadentes espetáculos juvenis que cuidadosamente compunham todos os anos. Mal aceitava a estupidez de tantos alunos diante daquelas exigências sem fundamento.

Ao ouvi-lo, o mais velho apenas estreitou os olhos e proferiu a sentença ameaçadora; sabia muito bem de que experiência aquele nanico estava falando. Exatamente daquela que atualmente perturbava-o em seus sonhos ― malditos sonhos eróticos. Fantasias noturnas despertadas por um mero beijo, que desencadeavam outras ações mais intensas quando adormecido, assim como quando desperto. Quantas vezes já se imaginara transando com ele? Que merda! E só restava obedecê-lo, se pretendia zelar pela restante “integridade” dos lábios.

Não que qualquer parte de seu corpo fosse lá muito íntegra ― nunca fora do tipo que afasta ou teme qualquer investida feminina. Era sim, a espécie de rapaz que as mães cuidadosas não querem que deflorem suas tão “castas” filhas. Na verdade, a única exceção para a qual rejeitara um beijo foi quando este foi dado por um garoto, o mesmo que agora o encarava esperando por uma resposta. Como mentalizar qualquer réplica quando um conflito interno desenrolava-se? Diabos, estava quase desesperado para que se agarrassem, ao mesmo tempo em que o negava terminantemente. E, repentinamente, sentiu a mão do menor a remexer-se por seu cabelo.

― O que pensa que está fazendo? ― vociferou Kanou em ameaça.

― Ajeitando seu penteado ridículo ― respondeu simplesmente, como se dissesse o óbvio.

Incomodava a Shouichirou a maneira com que o calouro deixava os próprios fios jogados para trás, pois envelhecia e muito com aquela aparência. Embora nunca fosse admiti-lo, por vezes sentira-se infantil perto do mais novo, e aquilo era tão frustrante. Como um rapaz acostumado a fazer tudo o que lhe vinha à cabeça, tratou ele mesmo de corrigir aquilo que considerava estranho.

Com os dedos, rapidamente penteou a franja do outro para os lados, enquanto o moreno de óculos escuros apenas observava, cético. Ajeitar um penteado? Por quê? Apesar de inicialmente afastar-se, preferiu não reagir, ou aquele tampinha bipolar poderia surpreendê-lo mais uma vez. Além disso, era boa a sensação em sua nuca, ainda que preferisse o contato mais selvagem. Como o faria se pudesse atracar as mãos às madeixas curtas e puxá-las com violência.

Ou pressionar o veterano contra alguma daquelas mesas e fazer valer o tempo naquela sala como muito bem sabia: em algum amasso desvairado e irresponsável. Seria duplamente prazeroso, pois corromper o pequeno vice-presidente para que transassem na própria sala do Conselho era tentador. Além disso, arrancá-lo do uniforme tinha algo de proibido que a ele tanto estimulava... Porra! Não iria parar de pensar nisso (ou melhor, nele)?

― Agora não parece um criminoso ― comentou o vice-presidente, surpreso com o resultado. Estava, à falta de uma palavra melhor, sexy.

Displicentemente desarrumados, os fios negros encobriam-lhe parcialmente as laterais da testa, deixando o meio livre enquanto arranjavam-se numa espécie de franja a desfiar-se. Como feito às pressas, o restante alternava-se entre trechos eriçados e outros mais baixos. Estava decente, no entanto. Conferia ao “calouro” o ar rebelde habitual, embora não delinquente.

― Devo estar parecendo um babaca. ― A voz do mais novo era arrastada. Estava exausto, diante de toda a energia que o menor parecia possuir constantemente. E, principalmente, de conter tanta voracidade. Deveria ser a falta de sexo, com certeza. Mas estava curioso. ― O que há com você? Está amigável.

Era bizarro.

Afinal, apesar da aparência frágil, deveria ser um dos alunos mais fortes daquele colégio, e isto lhe rendia uma fama que afastava quaisquer amizades. Quem iria querer envolver-se com um quase-ex-delinquente fanático por brigas? Desta maneira, era dificultoso: como ser amigável sem amigos? Somente duas pessoas mantinham um diálogo “decente” com o moreno mais baixo: ele mesmo e a presidente. E mesmo com ambos Shouichirou não demonstrava qualquer carinho (ora, que ridículo), embora a relação com a garota fosse afetuosa.

― Talvez eu queira tentar resolver a situação de maneira pacífica ― murmurou Yukimura para si mesmo enquanto abrigava o rosto entre os membros debruçados sobre a carteira.

Afinal, deveria cumprir a função como membro do Conselho ― e a forma como guiara a situação até o momento pode ter mantido o delinquente sobre um temporário domínio; porém, as responsabilidades estendiam-se muito além. De tudo o que fizera até ali, o que realmente mudara no desordeiro? Pouquíssima coisa. Poderia dizer até que piorara a situação, estimulando a disputa entre ambos enquanto tornava-o mais e mais indisciplinado. Talvez até a ponto de corromper a ele mesmo.

Porque Kanou era um desafio, e deixou-se levar pelo sabor da conquista de reprimi-lo, um método ineficaz, ainda que com resultados imediatos. Além disso, seus métodos nunca o amansariam, conforme era seu objetivo. Não, estava apenas atiçando a fera que, quando solta, tornaria-se ingovernável. Aceitou o cargo levianamente, para provocar o rival, mas percebera que deveria torná-lo um estudante digno, mesmo que a tarefa lhe parecesse impossível.

― Você nunca foi pacífico. ― Soutarou arqueou as sobrancelhas.

― Eu disse “tentar”! ― esbravejou, irritado. Era exatamente pelo comportamento pouco diplomático que enfrentava aquele dilema!

Tudo parecera tão simples quando fora encarregado de puni-lo... De início, pensara que bastaria torturá-lo o suficiente para que aprendesse a respeitá-lo. Preocupado somente com uma satisfação egoísta, não refletiu sobre o âmago da questão: aquele não era apenas um teste para Kanou, mas também para si mesmo. Para domar as próprias vontades em nome de algo maior. Misaki confiara a ele aquela tarefa, e repetiu-se como nos últimos dias: não poderia decepcionar na única que acreditava em seu sucesso.

― Está falando de uma trégua?

― Uma trégua temporária ― frisou.

― E porque eu iria facilitar as coisas para você?

As palavras eram arrogantes demais para alguém em tão delicada situação. Quem era o cretino que hipnotizara-o para fugir do castigo como um covarde? E depois, quem viera reclamar do beijo que recebera como vingança, indignado? Afinal, quem era o impertinente que perdera os intervalos e parte das férias devido à própria rebeldia? Yukimura, ciente da posição privilegiada, somente avisou, lenta e calmamente:

― Porque senão vou meter minha língua na sua boca de novo.

O tom deixava claro a pouca, ou nula, importância que dava ao fato de que beijara um garoto e pretendia repetir o ato se necessário. Seria até mesmo bom senti-lo novamente. Ainda que não fizesse tanto alarde como o outro, havia gostado (mais do que supunha) da experiência. Talvez fosse o “encanto” da primeira vez, mas fora extremamente gostoso compartilhar do espaço da boca com outra língua, acariciar a superfície úmida e deliciosa, saborear com violência lábios relutantes. Sim, grande parte da satisfação viera no modo como o delinquente o rechaçara. Afinal, que graça teria de desfrutar de alguém solícito? Fora a aspereza a mais prazerosa.

Embora tenha despertado a consciência para uma resolução ortodoxa do transtorno, aquele desejo secreto iria permanecer: experimentar da resistência do mais novo, levando-o aos limites até que ele o correspondesse com a mesma rudeza com que o negara anteriormente. Haviam, entretanto, outras prioridades. Deixaria isto para os devaneios ― ou, na melhor das hipóteses, para outra ocasião.

Para Soutarou, a primeira reação foi controlar a si mesmo ― mas que merda, ele queria! Desconhecia os motivos do menor ao dizê-lo, mas no momento aquilo soava mais como provocação do que como ameaça. Ignorou, tanto quanto foi possível, as imagens a povoar a mente. Ficar excitado seria humilhante, e de nada lhe ajudaria.

Apesar de invejar essa despreocupação absurda, pois se tratasse do assunto desta maneira jamais poderia ser ameaçado novamente, Kanou sentiu a compreensão despertar. Ali estava o motivo pelo qual mostrou-se subitamente interessado no moleque: o modo desafiador e atrevido com que o veterano lhe tratava instigavam nele o desejo de dominá-lo.

É claro, deliberadamente ignorava a atração que o corpo pequeno provocava nele, assim como a postura ora autoritária ora provocante, num contraste tentador. Como aqueles lábios suculentos agora numa linha rígida que explicitava a impaciência diante da demora de uma réplica. O enfezamento e a aversão expressos no cenho eram um excitante desafio... Mas era um homem, porra! Como de costume nas últimas semanas, afastou quaisquer pensamentos desagradáveis e suspirou, resignado. Talvez a tal trégua exterminasse, além das animosidades, aquele desejo estranho.

― Ok, entendido.

― Bom menino ― ironizou Shouichirou, afagando brevemente o topo da cabeça do detento escolar.

― É melhor não me provocar, Yuki ― replicou, enraivecido. Como previra, o vice se calou diante do apelido tão amável.

E havia iniciado o armistício, embora um ou outro tiro ainda fosse disparado.

Notas finais
Pois bem. Eu até postei esse capítulo inteiro, sem dividi-lo, mas ele tinha 7089 palavras (!!) e isso é muito absurdo. Então parti no meio, e o sétimo capítulo será postado como novo. E SIM, eu surtei loucamente escrevendo! SUZUHINA ~KASD;AÇ~~ASNDLAD;Ç Mas agora vou falar de algo mais sério. Não sei se existem entre meus leitores alguém que acompanha as fanfics da Mellorine, autora de Written In The Stars, Cares For Me (♥), entre outras. Pois bem, se existirem, ela teve de excluir as fanfics depois de receber muitas notificações (mais uma e ela poderia ser banida!). Então, ela irá editar cada uma das fics para adequar-se as regras e repostá-las quando possível, ok? Bem, até o próximo~~