Change!
7 Capítulo Seis - Um acidente oportuno - Dois
Notas iniciais

Devido à primeira impressão de que tivera de Misaki, apesar de reconhecê-la como uma ótima presidente, poucas vezes pôde avistá-la exercendo o cargo de maneira exemplar. Por vezes até esquecia que lidava com a líder do Conselho Estudantil ao fugir das provocações, pois quando ela ocupava-se ao irritá-lo, mal parecia carregar tanta responsabilidade, já que preferia gastar seu tempo com um deslocado social.
Tudo de que tinha conhecimento se devia ao que ela já havia realizado, ou seja, nunca a vira “em ação”. Ao menos até o Festival Esportivo. Ou melhor, durante o planejamento do evento. Era admirável como guiava todas as funções, encaminhando-as segundo suas recomendações. Como assumia os compromissos do posto ao tratar dos colegas. Como oferecia segurança a todos ao encarregar-se do serviço que exigia o maior desempenho.
Para lá e para cá, a morena percorria o colégio; verificava o andamento das divisões em grupos, para em seguida conferir a listagem de materiais, ou ainda participar da escolha das provas para a competição. Durante dias, manteve-se muito ocupada com as obrigações do cargo, e portanto, Usui permaneceu como inicialmente queria ao deixar a sala de aula durante o intervalo: em silêncio, o que deveria gerar paz.
Diferia, no entanto, daquele silencio que ele preferia ― ou era apenas sua percepção enganando-o como sempre. Porque a suposta paz não existia; não havia a tranquilidade envolvente que acompanhava a quietude, nem um aconchego agradável e brando. Havia o gosto amargo da ausência. Sempre acreditara no silêncio como isto: ausência de algo. E, desta vez, lhe fazia falta. Ela lhe fazia falta.
Portanto, aquela mesma paz e silêncio agora pareciam opressores, e o tempo disponível para descanso, monótono e longo demais. Depois de muito pensar nestes dias (já que a situação parecia enviá-lo para este tipo de reflexão), chegou a um veredicto: sentia algo por ela. Mais que isso, até. Embora ainda não o admitisse em palavras, em seu íntimo não poderia negar que estava gostando dela. Porque ele não era obtuso o suficiente para não perceber o que se passava com ele mesmo.
Contudo, era inexperiente com relacionamentos,e nunca soube dizer quando começara a afeiçoar-se a alguém, pois das pessoas com quem mantinha contato, conhecia desde a infância. Mas e um novo contato? Como definir o que se sentia? De certezas, tinha apenas o fato de que Misaki para ele era importante, e a vontade de mantê-la por perto. Na verdade, eram condições uma da outra, porém de tão absorto não o percebeu.
Nos últimos dias, tão mergulhado nisto, chegou a passar por uma loja de conveniências e segurar timidamente uma das revistas do gênero. De maneira irresistível, a capa prometia a solução de todos os problemas, mas o receio fez com que a posicionasse na estante de onde saíra. Apelar para o ponto de vista feminino não parecia ser adequado. Além disso, e se as matérias estivessem mentindo? Ou, o mais provável, não conseguissem descrever o que um desajustado sentia?
Chegou a cogitar que se enganara ― confundira as impressões, afinal estava falando da única pessoa com quem conversava. Poderia ter se precipitado, julgando aquilo algo mais apenas porque estava acostumado com tão pouco. Todavia, no fundo, sabia que a fonte de tantas dúvidas não era algo leviano. Estava somente adiando a resolução, por um medo simples, porém anestésico. Aquele mesmo medo que o retraíra: de apegar-se irremediavelmente a alguém, e sofrer com a rejeição subsequente.
Contudo, foi ela a tomar a iniciativa de conhecê-lo, e isto deveria ser um sinal de interesse, não? E Ayuzawa estava tão interessada em provocá-lo, tanto que nunca deixara de enraivecer-se e envergonhar-se perto dela. Mas... ela tinha tantas qualidades, apesar dos defeitos irritantes. E ele? Nada! O que havia de apreciável em si mesmo? Não encontrava respostas, apenas perplexidade. E também aquele sentimento insistente.
Era em si algo estranho; uma mescla de ansiedade, inquietação e receio, todos inéditos para alguém que recém-descobrira-se apaixonado. E isto não tornava nada mais fácil ― tinha consciência de que quando a encontrasse novamente, as palavras lhe fugiriam e o rosto iria avermelhar-se automaticamente. Como sempre o fazia, ainda que acentuado. Afinal, como evitar aquele constrangimento?
Mesmo após a descoberta, ainda sentiria-se desconfortável diante dela, no entanto desta vez desejava este desconforto. O que era insano, alarmante, mas real. Um sinal mais de que gostava dela, como interpretara. Ainda que existisse, o receio de envolver-se era superado por esta intenção, e as tantas dúvidas que surgiram, suplantadas pela disposição de ao menos tentar respondê-las.
Percebeu, então, que a emoção tornara-o alguém menos passivo sobre as próprias ações, mesmo que mentalmente. Isto já era um gigantesco passo. Talvez por absorver, lentamente, um pouco do que ela sempre transmitira: toda aquela energia e vibração das quais se encantara. Porque ela conseguira, numa mínima fissura, romper sua barreira e, se permanecesse a levá-lo aos limites, um dia seria capaz de extravasá-la.
Não foi esta a reação ao encontrá-la no terraço, entretanto, tão logo abriu a porta. Manteve-se inerte, a fitá-la como idiota. Reclinada sobre o guarda-corpo, ela soltou um longo suspiro de cansaço antes de voltar-se em sua direção, mas tão logo o avistou, sorriu para o recém-chegado. Dividido entre a vontade de voltar para o conforto da carteira e a de permanecer ali com ela, Takumi era ainda alvo das reações do próprio corpo, como o movimento violento rítmico dos batimentos cardíacos.
“Diga a ela”, pediu a si mesmo. “Vamos, diga!” A timidez patológica era a principal rival: aliava o nervosismo a uma infinidade de “e se”. Tantos pensamentos somente adiavam o momento de declarar-se abertamente. Para quê tanta reflexão, tanto tempo gasto alcançando enfim o significado e a causa de tudo aquilo, se não iria agir?
― Isso tudo são saudades de mim? ― murmurou Misaki, divertida, ao fitar o loiro estancado sob o umbral. Ao perceber o emudecimento do outro, respondeu ela mesma: ― Se faz com que se sinta melhor, também sinto sua falta.
“É este o momento adequado”, pensou ele consigo mesmo. Estavam sozinhos, e as palavras da colegial eram estimulantes. Entretanto, este sentimento fazia dele uma contradição: com a crescente intensidade do desejo de expressar-se, crescia em mesma proporção a vergonha e o retraimento. Quando mais almejados, todos os vocábulos dispersavam-se para nunca chegar à garganta. Mais parecia uma superfície árida da qual não nasceriam palavras. Onde estava a porcaria da mudança?
E, para complementar a situação, o celular tocou, estridente. Indignado não somente com o aparelho, mas também consigo mesmo, o deixou tocar por alguns segundos mais, antes que Misaki lhe atentasse:
― Não vai atender?
Culpando a si mesmo por ser um estúpido tímido que nem ao menos conseguia declarar-se à garota de quem gostava, iniciou a chamada ― como esperado, era Gerard. Os planos de viajar ao Japão foram frustrados pelo avô rigoroso e o conselho constituído por aquilo que o herdeiro denominava “velhos gagás”. Portanto, a resolução da espionagem da família também teria de ser adiada. Ao contrário do que as mensagens codificadas davam a parecer, seu falar nada tinha de floreado: era direto ao ponto.
Para Misaki, aquela era uma situação inédita; afinal, nunca vira o rapaz em um diálogo com algum conhecido. Nem ao menos supunha que ele mantinha contato com outras pessoas. Quer dizer, ele não deveria ser um completo recluso do mundo, mas não imaginava que conseguia manter-se numa conversa sem gaguejar ou enrubescer.
Havia mais sobre ele que ainda não identificara, e estava ansiosa pelas próximas descobertas. A rara conjuntura de apreciar-lhe as reações durante a ligação foi bem aproveitada, pois não desviara os olhos de Usui uma vez sequer. Ao percebê-lo, o embaraço do loiro acentuou-se, e a presidente abafou uma risada ― som que foi captado pelo primogênito Walker.
― Takumi, estou te interrompendo com alguma garota? ― supôs, corretamente, o moreno. Tinha consciência da dificuldade de relacionar-se do irmão, o que o confundira. E antes que o mais novo lhe respondesse, bufou em irritação: ― E porque diabos você consegue uma namorada e não me conta nada?
― Gerard, ela não é minha namorada ― corrigiu, exasperado, enquanto a morena divertia-se ainda mais ao ouvi-lo.
O irmão pareceu compreender. Indagou, enfim: ― É o que, então?
Havia alguma resposta simples para a pergunta? Mesmo que involuntariamente, Gerard alcançara o âmago da questão. Afinal, se pudesse dizê-lo com facilidade, não estaria enfrentando todas aquelas complicações. E queria dizê-lo, caramba! No entanto, as múltiplas proteções que criara durante toda a vida para proteger-se agora se mostravam obstáculos quando queria falar uma simples frase. Três palavras, para ser exato. Diante do desconforto do caçula, não foi difícil para o outro assimilar as circunstâncias.
― Entendo. ― O timbre era inegavelmente malicioso. ― Passe para ela, por favor.
Como se a situação não pudesse ser mais constrangedora!
Resignado, em poucas palavras explicou à garota as pretensões do irmão, entregando a ela o telefone. Apesar da incontestável (e hilária, segundo Ayuzawa) exasperação, não havia como reverter a situação. Após as necessárias apresentações, os dois adentraram em algum assunto desconhecido para ele mesmo, já que só poderia ouvir aquilo que Misaki dissesse. Contudo, tornou-se óbvio o tema: ali estavam as duas pessoas que mais gostavam de embaraçá-lo, conversando sobre ele mesmo.
E a garota empolgou-se com a menção de “fotos de infância” ― que outra oportunidade teria de admirar o rapaz tão adorável quando pequeno? Seria tão retraído quando menor? Ou muito mais do que quando o conhecera? Ciente de que qualquer interrupção seria inútil, Usui nem ao menos tentou encerrar o diálogo. Já havia alcançado o limite máximo de constrangimento, de qualquer forma. E estava ocupado a recriminar-se, com a chance perdida. Mas repentinamente, ela deixou de falar para fitar o celular.
― Parece que ele foi levado por um tal de “Ceddie” ― informou ao devolver-lhe o aparelho. ― Seu irmão é bem legal, Usui.
― É, eu sei ― concordou ele, correspondendo ao sorriso genuíno e entusiasmado de Misaki com seu próprio, mais tímido.
Era estranha a sensação de apresentar, mesmo que de maneira pouco convencional, a família à morena. De um modo agradável, contudo. Era isto: este contraste, quase impossível de ser assimilado, entre o desconforto e o acolhimento, era gerado apenas por ela. Droga, era tão difícil transformar tudo isto em palavras?
E quando o alarme que anunciava o fim do intervalo soou, distraído com estes pensamentos, foi desperto pela presidente a chamá-lo. Ao final, não lhe dissera, e como os horários no Maid-Latte não coincidiam naquela noite, perdera este pretexto oportuno. Era um maldito covarde.
Apesar de ciente da tensão que pairava por sobre o rapaz, a morena preferiu agir normalmente, para não intensificar as dificuldades do outro. Mas se manteve tão atenta a ele que deixou de lado itens importantes. Ao lembrar-se de que esquecera no terraço a bolsa com os relatórios do evento, Misaki pediu-lhe que esperasse enquanto retornava para buscá-la.
Ao voltar à escada, tudo aconteceu muito rápido. Era a natureza desajeitada a dar as caras.
Desatenta, a colegial desceu com muita rapidez os degraus, e acabou por tropeçar quando bem próxima do patamar intermediário no qual Takumi a aguardava. Quase que por instinto, o rapaz deslocou-se para frente, pronto para apanhá-la quando caísse. E o evento sucedeu-se com tal velocidade que ambos não poderiam dizer a diferença entre o primeiro impacto e o estatelar contra o chão consequente.
A parede contrária amparou o rapaz, servindo de apoio para as costas, enquanto o próprio corpo amenizou a colisão da garota. Os braços ainda a envolviam; um reflexo da postura ao protegê-la da queda. Podia sentir com clareza o corpo dela comprimido contra o seu, e nunca antes havia desfrutado de um contato tão próximo. Era macia a pele em contato com seus dedos, assim como quente a temperatura emanada. Talvez só não tão acalorada quanto o próprio rosto em brasa. Mas aquele não era um momento adequado para pensar nisso; não quando ele mesmo estava preocupado com seu estado.
― Ayuzawa, você est-
― Não me machuquei, pode deixar ― tranquilizou ela, bem humorada. ―Desastrada, esqueceu?
― Como esquecer? ― O murmúrio expressava censura e irritação, o que a fez rir levemente.
― E você, Usui? ― indagou, afinal fora ele a absorver toda a dor do impacto.
Embora alguns dos músculos realmente protestassem com o desconforto, um tanto doloridos, ouvi-la alta e claramente e notar que não carregava nenhum arranhão aliviou o loiro ― que pôde enfim voltar à consciência de que estavam, mesmo que sem intenção, agarrados um ao outro. Quando erguera o rosto para respondê-lo, Misaki fez com que a distância entre ambos se reduzisse à quase zero.
― Não é com isso que estou preocupado.
Citara a sentença que com que ela lhe despreocupara, pois lembrara-se da situação semelhante. Também porque no que pensara, durante todo o dia, e inclusive naquele momento, era na intensidade com que gostava dela. E não poderia ter dito melhor: mesmo que não soubesse, transparecera através dos vocábulos, assim como do tom róseo da face e a matiz escurecida das íris, aquilo que tanto quisera transmitir a ela.
E os olhos verdes fixaram-se aos exóticos de cor amarelada, provocando nele o natural enrubescer, acompanhado do emudecimento. Naquele momento, no entanto, palavras eram desnecessárias, principalmente quando conseguia sentir que os batimentos da morena aceleraram-se assim como seus próprios ― e que a ansiedade que sentia estava também explícita nas feições dela.
Afinal, ela estava surpresa: apesar de mostrar-se interessada no loiro, não imaginava que ele iria retribuí-la tão cedo. Isto justificava o comportamento dele de outrora, e ainda assim era surpreendente. Com certeza, acertara ao apaixonar-se por ele: ainda que desconhecido para Usui, ele também suscitara nela tantas novas experiências e sentimentos.
Foi ela a mover-se inicialmente, envolvendo a nuca de Takumi com as mãos macias ― o mero toque dos dedos fez com que o outro estremecesse levemente, embriagado com a deleitosa sensação a expandir-se da cabeça aos pés. Deslizavam, com suavidade, proporcionando aos nervos uma novidade deliciosa. Um contato pessoal e íntimo, como ele nunca sentira antes, e que agora o fazia pensar porque o evitara por tanto tempo. Como se testando sua reação, a presidente passou a remexer os fios, pronta para avançar mais. Porém, não foi ela a unir seus lábios aos dele.
Incitado pelo dedilhar suave, o loiro esticou-se até alcançá-la, pondo fim a qualquer centímetro entre eles ao beijá-la. Assim como ela ao cair, desta vez era a natureza honesta a manifestar-se segundo sua vontade. Enfim, após um dia inteiro (ou melhor, sete deles), conseguira transformar ideias não em palavras, e sim em atitudes.
Surpresa com a iniciativa, Misaki demorou alguns instantes para fechar os olhos como ele e apreciar os lábios a moldarem-se aos seus. Pressionou com mais força os dedos sobre a nuca do rapaz, inebriada com a paixão transmitida com o gesto. Todavia, se não foi ela a dar início, foi a morena a aprofundar o beijo, roçando a língua sobre a dele ao empurrá-lo gentilmente contra a superfície.
Em reflexo, os braços a envolvê-la estreitaram o aperto, trazendo-a para uma proximidade maior. Um arrepio involuntário partiu dali para todo o corpo masculino, pois tudo se tornara mais intenso do que previra ― assim como mais prazeroso. Mesmo em meio ao beijo, as bochechas ardiam com a vermelhidão.
Como imaginara, o gosto de Misaki era viciante o suficiente para que desejasse prová-lo até que memorizá-lo por completo; havia atrevimento, entusiasmo e avidez expressos pelos lábios femininos. Sob as mãos, conseguia senti-la a aquecer-se, para aproximar-se e consumir-se mais e mais na carícia que os espairecia do resto.
E, embora fisicamente apenas explorassem mutuamente a boca um do outro, para ambos aquilo significava muito mais. Ainda que no momento alheio a tudo (inclusive da maior parte dos receios e embaraços), Takumi enfim compartilhava com ela seus sentimentos, e não teve de transmiti-los por meio de palavras. O acaso fez da confissão mais saborosa, e concentrado apenas em corresponder a presidente, nem ao menos atentou-se ao fato de que o horário das aulas há muito se iniciara.
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CENA BÔNUS UM
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Lugar irritante. Pessoas irritantes. Ar irritante, música irritante, conversas irritantes. Tudo naquela merda de ambiente a enfurecia. Afinal, aquele não era o seu meio. A porcaria de um show de boybands aleatórias. Tudo o que Hanazono Sakura mais queria era voltar para casa e afundar-se em meio à música da qual gostava.
Mas quem disse que poderia? Oh, não! Aquela maldita promessa... Se não fosse por ela, estaria agora deitada, ao som de Slayer. Ou Megadeath, ou Testament. No conforto e (relativa) tranquilidade do próprio quarto. Seria tão simples ter negado! Culpou-se: “Sua burra, se está aí é porque quis.”
“Querer”, na verdade, era uma palavra muito forte. Nunca iria “querer” estar naquele local ruidoso, cheio de gente chata e cujo preço da comida era exorbitante. Não, estava ali porque foi uma mártir, e colocou a felicidade dos pais antes da própria. Agira como uma hipócrita, e agora arcava com as consequências ― porque nunca fora masoquista para aguentar sofrer pelo bem dos outros.
Tudo começara, como sempre, com uma discussão entre ela e a irmã mais velha, Ayaka. Nem lembrava-se do motivo da briga, na verdade. Deveria ser algo fútil e facilmente driblado (embora não para elas). Porque ambas pertenciam a espectros diametralmente opostos.
Uma delas era simpática, extrovertida, jovial. Vivia cercada de amigos, com os quais saía quase todas as noites para divertir-se, sejam em shows (como aquele), restaurantes, boates. Gostava de música “normal” (Sakura fazia questão de frisar as aspas), de roupas “normais”, de gente “normal”.
Já a outra... bem, “normal” não poderia denominá-la. Com o sarcasmo, o cinismo, a arrogância e a impaciência costumeiros, o círculo de amigos se resumia em duas pessoas (das quais realmente gostava, ainda que poucas vezes admitisse). Raramente saía, já que seus programas eram considerados tão perigosos. “É claro”, ela rebatia sempre que começavam os sermões, “sacrificamos virgens em shows. Eu mesma já me ofereci, mas não me aceitaram, que pena.”
Afinal, era a estranha que gostava de heavy metal e trash metal. Porque haviam diferenças, e muitas, entre os dois, embora para os leigos ambos fossem apenas barulho. Além disso, diziam que se vestia (e agia) de maneira muito masculina, com roupas largas demais para o corpo, e palavrões em excesso. Mas já estava tão acostumada ao conforto do uniforme de capitã do time de futebol, e não acreditava que o gênero deveria impor a maneira com que a pessoa devia se portar.
Adivinhe a qual das descrições Sakura pertencia? É, acertou.
Tantas diferenças geravam disputas constantes e acaloradas, e, cansados de intermediar com paciência, os pais propuseram: deveriam conhecer mais uma à outra, e a solução seria que as irmãs saíssem juntas para compreender melhor os gostos uma da outra. Tão comovida pelo esforço dos pais, a Hanazono mais nova aceitou, e era este o motivo pelo qual acompanhava Ayaka naquele momento.
Ou melhor, se separara da primogênita, já que viera aos fundos do recinto, em busca de algo comestível nos balcões. Não havia nada, ou melhor, nada dentro de seu orçamento. Resmungou para si mesma. Poderia tolerar a fome por mais tempo, mas não em meio àquele ruído e a tantas pessoas e suas conversas que não a interessavam nem um pouco.
Tonta, pressionou a cabeça e encolheu-se minimamente. Era irônico: desejava tanto um dia ouvir as bandas que amava de perto, ao vivo, mas sabia que iria desmaiar no processo. Porque multidões a deixavam enjoada, e foi por este motivo que Ayaka escolheu para ambas um local mais afastado. Contudo, o estômago pressionou-a a avançar por entre aquela massa humana em busca de comida, e ao final acabara faminta, perdida e nauseada.
A melhor noite da sua vida.
Não era hora para sarcasmo, no entanto. Deveria buscar algum canto vazio e mandar uma mensagem para que a irmã mais velha a buscasse. Assim, afastou-se tanto quanto possível, vagueando a procura de solidão e silêncio. “Tão poético” , zombou de si mesma. Acabou no que parecia ser o limite da área técnica do lugar ― provavelmente cujo acesso era proibido para pessoal não autorizado. Como se metera ali, não saberia dizer.
Mas era possível respirar sem problemas, e o enjoo em si também passara. Ficaria ali mesmo, que se danasse. Prestes a enviar o email para Ayaka, percebeu que ali não havia sinal de celular, cuja ausência foi indicada na tela minúscula do aparelho antigo. Que merda! Indignada e frustrada, fincou os dedos aos cabelos castanhos, como se quisesse arrancá-los para acalmar-se.
Conseguiu somente emaranhar os fios, e numa pressa nervosa, ajeitou-os novamente no rabo de cavalo¹. Deveria sair dali, já que se mostrara uma saída inútil. Porém, não mais sabia como voltar por entre aqueles corredores um tanto labirínticos e tão parecidos entre si. Confundiu-se entre as rotas, e acabou muito mais desnorteada. Bufou, zangada.
― Está perdida? ― Ouviu uma voz solícita e jovem.
Os olhos amendoados não demoraram a encontrar a origem: muito acima dela, numa escada de emergência, um rapaz estava sentado, a fazer nada demais. Para qualquer garota, seria ameaçador a presença de um homem se estivessem num local desconhecido. Para ela, no entanto, era indiferente: sabia muito bem defender-se de pervertidos e potenciais psicopatas, graças à prática de judô durante o ginasial. Além disso, ele não transparecia qualquer ar intimidador ― era mirradinho, até.
― Ora, temos um adivinho por aqui! ― replicou com ironia e rispidez. Era tudo de que precisava, um metido a príncipe salvador.
― Posso te ajudar se quiser ― ofereceu, ignorando seu mal-humor.
― Mas existe um detalhezinho minúsculo: ― Continuou a andar, prestes a ultrapassar o início da escada no qual ele se apoiara. Vociferou, enfurecida: ― Eu não quero sua ajuda!
Não foi possível prosseguir, entretanto. Rápido, o inconveniente descera os degraus com maestria ― quase a impressionara, na verdade. Era veloz, então. E também baixinho, como pudera comprovar ao vê-lo de perto. Deveria ter sua idade, ou algo próximo disto, já que muito de seu rosto estava encoberto por um óculos de aro grosso e um chapéu vergonhoso. Por baixo destes, era possível antever as madeixas loiras e curtas, claramente tingidas.
Pôs-se entre ela e o corredor estreito, impedindo a passagem. Se queria atenção, agora conseguira! Vislumbrou brevemente a garota à frente. Apesar da expressão mal-encarada, era mais baixa que os padrões. Era de uma beleza bruta, sem artifícios. E, acima de tudo: o modo com que falava, agia e se aborrecia explicitava o fato de que ela nunca quisera estar ali. Provavelmente fugira do espetáculo, se enfurnando na primeira fresta que encontrara, e terminara desorientada. Não saberiam se eram corretas, mas suas especulações eram interessantes. Insistiu, com um sorriso sugestivo:
―Tem certeza? É um lugar grande.
“Que sorrisinho irritante”, enojou-se ela daquela tentativa medíocre de cantada. Empurrou-o com violência, fazendo com que o rapaz cambaleasse minimamente. Deleitou-se com o orgulho de que era a mais forte dentre os dois, seguindo em seu caminho enquanto deixava claro que já estava grandinha o suficiente para não precisar de guias. No entanto, ele era retardado, ou surdo, porque apesar de concordar com suas palavras, estava em seu encalço tão logo se recuperou. Não dissera que o faria sozinha?!
― Por que você está me seguindo?
― Ora, eu também estou perdido ― indicou como se fosse óbvio. O mesmo sorriso cretino. ― Guie-me, Shitsumeishi²-chan.
― Então por que disse que poderia me ajudar, cacete?
A paciência, já limitada, se esgotara com a capacidade do imbecil de ser descarado. E para quê tudo aquilo? Ele esperava a oportunidade de agarrá-la em alguma superfície dali se insistisse o suficiente? seria um iludido se o fizesse.
Não passou pela cabeça, contudo, a noção (correta) de que ele estava perdido como ela, sentado no topo dos degraus a procurar sinal para o celular moderno. Quando encontrara outro infeliz na mesma situação, tratou de acompanhá-lo ― afinal, era um instinto de sobrevivência. E descobriu ser muito divertido zangar aquela desbocada, como assim o fez ao respondê-la com um fingido sorriso inocente:
―Trapaças são divertidas.
“Filho da puta!”
― Quer me fazer um favor? Vá se foder!
Foi obrigada a ouvir as gargalhadas do outro, enquanto avançavam por aquele labirinto impossível. Quando voltaram a ouvir o ruído agitado da plateia de dos músicos, passaram a guiar-se por ele ― o rapaz mostrou-se muito hábil naquilo, como se domasse o som e dele utilizasse como instrumento. Conseguiram, enfim, alcançar a entrada da área técnica, e dali já era visível parte do show, embora o sinal de celular ainda não os alcançasse.
―Por que está aqui? ― indagou, curioso, antes que ela partisse.
― Por que pergunta? ― Não iria respondê-lo, mas decidiu fazê-lo como um mínimo agradecimento diante do sentido aguçado do outro.
― Você não me parece do tipo que curte... esse tipo de música.
Não poderia ter sido mais certeiro. Mas a resposta era longa demais, envolvia problemas de família e assuntos dos quais ela não queria pensar no momento. Só de pensar que teria de imergir na multidão novamente... Seria impertinente, mas ela nunca se importara com a opinião de estranhos mesmo.
― Isso não te interessa. ― Acolheu as mãos no bolso do casaco largo que vestia. ― Você também não parece um espectador empolgado.
― Não sou bem um espectador ―murmurou para si mesmo. Tratou de desviar do tópico, com aquele esboçar de lábios alegre que a deixava possessa: ― A gata selvagem tem um nome?
― Nenhum que você precis-
― Sakura! ― gritou uma voz familiar ao longe. Logo se viu agarrada à mulher preocupada. E detestava abraços. ― Sakura, sua peste. Te procurei por todo lugar. Como veio parar aqui? Tem noção do que eu passei? É uma irresponsável, como sempre. ― Ah, ela não se cansava de tagarelar. Era tocante o seu receio, mas a mais nova nunca fora assim tão emocional.
― Eu já entendi, Ayaka ― interrompeu, no tom mais apaziguador que conseguiu manter. ― Vamos sair logo daqui, quero dormir e acordar só semana que vem.
― Quem é este aí? ―questionou, ao enfim enxergar o acompanhante da menor. Arregalou os olhos. ― Não me diga que conseguiu um namorado! Oh, por que não me disse? Quer que eu avise aos nossos pais que vai dormir na casa de uma amiga?
Um show de covers? Não, imagine! Isto é demais para minha irmãzinha oclofóbica³. Futebol? Você pode fraturar a perna num jogo, Sakura. Mas sair com um garoto que havia acabado de conhecer e poderia revelar-se um perseguidor psicótico? Tem todo o meu apoio! Para aquilo ela era boazinha, inacreditável.
― Ele é só um babaca desconhecido. ― Revirou os olhos, empurrando-a levemente nas costas para que não insistisse. ―Vamos logo.
Numa feliz coincidência, a mais velha pôs-se a reclamar da falta de sinal daquele “lugar precário e rural”, ignorando a expressão insinuante e levemente atrevida do loiro. Com o habitual jeito rude, agradeceu-o em poucas palavras, ansiando pela partida imediata, mas foi obrigada a ouvir a provocação:
― Sakura-chan? É um bom nome. Combina com o meu.
Não queria saber se os nomes combinavam ou não; nem ao menos gostava do próprio! “Flor de cerejeira”, que patético. O que deveria fazer no momento era apagar as recordações daquela noite desnecessária. Enquanto deixava (finalmente!) o maldito lugar ao lado da irmã, a visão foi atraída por um cartaz de uma das bandas que se apresentara na noite ― a primeira delas, na verdade.
Uxmishi, seja lá como se pronunciava aquela merda. Reconheceu facilmente a menor figura, ao centro da imagem. Não usava os óculos escrotos e o chapéu ridículo, mas era possível distinguir no rosto os traços do estúpido que infelizmente conhecera. Sakurai Kuuga, o vocalista daquela boyband. Repugnante!
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