Change!

4 Capítulo Quatro - Uma punição ideal


Notas iniciais
Hello! É. Eu sei. Demorei um tempão. MAS agora estou de férias! Ou seja, sem mais atrasos durante algum tempo. Muito, muito obrigada pela recomendação, Mutareli! Ficou incrível! Duas recomendações e 35 comentários em 3 capítulos? Amando muito vocês! ❖ [EDIT 12/12/2013] Capítulo editado. 2031 palavras adicionadas + 1395 reescritas.


Assim como à presença de Ayuzawa Misaki a entrar sorrateiramente em sua vida, acostumou-se à rotina de seu novo emprego de meio-período. Cozinheiro temporário do Maid-Latte, um café cosplay. Inicialmente, Usui estranhara o ambiente e o linguajar excêntricos; as vestes excessivamente elaboradas; a relação empregada-patrão; contudo, era a própria maneira de afastar-se do apartamento vigiado e também de conquistar o próprio dinheiro uma vez na vida.

Todavia, tanto a nova relação que se desenvolvia com a garota quanto a inédita experiência de trabalho causavam nele um desconforto generalizado; passível de ser amenizado, é claro, embora nunca desaparecesse por completo. Não estava em uma situação na qual pudesse escolher dentre várias opções, mas suspirou de alívio ao assumir a cozinha, e não o salão. Ainda que o vínculo com a presidente tenha se estreitado com o tempo, isto não se estendia a toda habilidade social.

Seria capaz de gaguejar vergonhosamente diante do pedido de um estranho, e a demissão seria o destino mais provável. Ao menos ali, no território isolado da culinária, tinha de lidar somente com as vindas esporádicas das maids. Ainda que uma delas fosse inconvenientemente insistente.

Recordou-se, então, da reação da morena ao declarar que aquele era seu primeiro emprego ― o sorriso de satisfação que esboçara fez com que se sentisse uma criança a impressionar um adulto. Geralmente, era este o sentimento instigado por ela: inquietava-se diante daquela ilimitada experiência. Porque sabia: por detrás daquela fachada provocativa, estava uma garota cujas capacidades analíticas alcançavam níveis desconhecidos para alguém como ele.

Ainda que soubesse disso, era impossível não sentir-se incomodado com tanta atenção, mesmo durante o serviço. Talvez para descontrair o ambiente de trabalho, ela continuavaa implicá-lo sempre que possível: os intervalos do expediente eram sofridos para o rapaz. Perturbavam a paz de sua bolha, e Takumi tinha consciência de que era proposital, pois a intenção dela era extravasar aqueles limites e tornar-se mais próxima dele. O que não fazia qualquer sentido.

Enquanto preparava uma espécie de sundae personalizado, a presidente e agora colega de trabalho adentrou na cozinha.

― E como vão as coisas aqui, Ta-ku-mi-kun? ― Misaki simulou um timbre doce ao denominá-lo; deveria ser o mesmo ao tratar os clientes.

Sinceramente, ele assustou-se com o tratamento. Sempre admirara aquele aspecto da cultura japonesa, largamente difundido: a impessoalidade transmitida através do uso de sobrenomes. Adequava-se ao caráter recluso, além de uniformizar os modos de tratar diferentes pessoas. Neste aspecto, o loiro nunca sentira dúvidas ou dificuldades; não havia regras de conduta da qual não estava acostumado. Era simples e direto: o nome da família, seguido ou não de algum sufixo adequado.

Por que, então, ela desejava mudar algo já consolidado ― e tão confortável? Irritou-se com a brusca mudança de tratamento e, mais que isto, com o próprio embaraço diante de algo tão simples.

―N-Não diga meu nome tão levianamente ― censurou o rapaz, cobrindo a vermelhidão das bochechas com o dorso da mão.

― Então não me provoque reagindo dessa maneira adorável ― retrucou ela, sem afetações na voz desta vez. Apontou então o cartaz sobre uma parede próxima para avisá-lo: ― É seu intervalo.

Rapidamente, apanhou do balcão o prato preparado pelo loiro e o pôs na bandeja, enquanto Takumi retirava o próprio avental. Fitou longamente o copo com a sobremesa de morango, apreciando o modo hábil e requintado com que os ingredientes foram arranjados. No mínimo, ele tinha experiência neste tipo de refeição ocidental refinada; todavia, pouco sabia de seu passado para afirmá-lo.

― Além de tudo, sabe cozinhar muito bem ― comentou a maid, mirando-o de soslaio. Sorriu ao notar que reagira conforme esperava.

― Não pode guardar suas opiniões para si mesma? ― sugeriu o loiro, evidentemente constrangido. Como se para provocá-lo uma vez mais, enunciou antes de voltar ao salão:

― E qual seria a graça?

Ao rapaz restou suspirar, resignado. Elogios naturalmente o embaraçavam; quando acompanhados de malícia atiçamento, era impossível não enrubescer. Sem dúvidas, os dias mais tranqüilos eram aqueles nos quais os expedientes não coincidiam, pois as outras funcionárias tratavam-no normalmente. Por normalmente, traduzia-se: “não invadem meu espaço social.”

Embora a gerente, Satsuki, exigisse-lhe o primor de forma autoritária, tanto Honoka quanto Erika e Subaru eram amigáveis. Ainda que, para ele, o conceito de amigável se restringisse ao fato de que não lhe repugnavam nem lhe notassem em demasia, já que a ruiva concentrava o esforço em repelir as insinuações da morena de óculos. Dentre as quatro, aquela que lhe transmitia algum “perigo” era Honoka, mesmo que minimamente prestativa. Só não mais que uma certa maid pervertida, como assim designara secretamente Ayuzawa. E, mesmo assim, todas as funcionárias (ou quase todas) mantinham um seguro e saudável distanciamento dele.

Não havia dúvidas: o saldo final daquele serviço era positivo ― e, à sua maneira, agradecera a presidente pela oportunidade. Interrompendo seus pensamentos, uma nova mensagem fez com que o celular chamasse a atenção ao vibrar.

“O outono do Japão não é maravilhoso?”

É, ele não se cansava de recados cifrados. Naquela única linha descobrira que o irmão o visitaria dali a alguns meses. Alegrou-se com o fato, pois há muito não encontrava Gerard pessoalmente, e provavelmente o moreno traria soluções à delicada situação consigo. Além de, é claro, arrastá-lo consigo pelo país a fugir de Cedric e das obrigações como líder. Embora não admitisse a ele, pois preferia recriminar sua imaturidade, aqueles momentos que partilhavam eram preciosos, mesmo que problemáticos.

Prestes a respondê-lo, foi interrompido por uma pequena garota que invadiu a saleta e avançou contra ele ao abraçá-lo. Por um instante (que durou sabe-se lá quanto tempo), estagnou-se com a ausência de qualquer centímetro entre eles. Estava. Abraçado. A uma menina, ainda por cima! E ela parecia firme em seu aperto, ou era apenas sua falta de reação que o interpretava como indissociável. Abraçado a alguém, repetia insistentemente, confuso diante do gesto impulsivo. Desesperou-se mais ao ouvi-la soluçar. O que fizera? Melhor, o que faria?

― Me ajude! ― pediu a loira, encarando-o com os olhos azuis chorosos. Repetiu a súplica inúmeras vezes, comprimindo a face contra sua blusa. Continuou: ― Me esconda!

Como diabos iria ajudá-la? E escondê-la de quê? Encontrar alguma solução era complicado: além da incapacidade ao lidar com problemas alheios, tinha de lidar também com o torpor causado pelo contato tão próximo. Somente refletia nos olhos a mesma exasperação contida nos da pequena.

― Aoi-chan! ― chamou Misaki. Sua expressão, num misto de preocupação e compaixão, era inédita para o cozinheiro. A voz feminina libertou-lhe do transe, e, sem perceber, passou a fitá-la dali em diante (o que não ocorreria em outra situação.).

― Misaki-chi! ― Tão logo a viu, a menina dirigiu-se até ela, que a acolheu carinhosamente. ― Ele fez de novo!

― Sshh... Acalme-se, Aoi-chan ― consolou a mais velha, acariciando a cabeça da menor com suavidade. ― Vamos arranjar alguma roupa para você.

― O... O que há com ela? ― indagou Takumi, perplexo diante da inusitada cena.

Eram parcas as suas aptidões sociais; contudo, não era nenhum irracional para não captar a estranheza de tudo aquilo. E, como sempre, as dúvidas eram maiores que a prudência. Ao ouvi-lo, a pequena loira acentuou o choramingar, envolvendo a cintura da maid com ainda mais força.

― Hã... Usui... Este é o sobrinho da gerente, Hyoudou Aoi ― apresentou a morena, desconfortável diante do “deslize” do novo funcionário.

Sobrinho!?

― Eu sou um garoto! ― reclamou Aoi ao retirar a própria peruca, revelando madeixas escuras e curtas.

Após muitas (e desajeitadas) desculpas, o loiro finalmente conseguiu o perdão do ginasial ― com o auxílio de Misaki, é claro. O embaraço diante do erro grosseiro de gênero fez com que a articulação das palavras se tornasse um enigma para o rapaz que mal se recuperara do abraço repentino.

Enquanto o moreno despia-se das vestes femininas em troca de outras mais adequadas ao seu gênero, a maid explicou-lhe que o pai do menino metia-lhe naqueles vestidos para satisfazer um desejo secreto: ter uma filha. Obviamente contrário aos delírios do genitor, Aoi sempre fugia em busca da tia; a mulher severa era a única a pôr algum juízo naquela mente ensandecida. Ao menos até que um novo surto se iniciasse.

Apesar de nunca ter passado por situação semelhante, Takumi identificou-se com o pequeno: eram ambos desajustados, cada qual à sua maneira. Enquanto um tinha de lidar com o ônus da própria aparência infantil, ele arcava com as consequências de uma timidez quase patológica. É, não era realmente uma boa comparação. O que de fato era uma verdade ― assimilada aos poucos pelo loiro ― era que Ayuzawa sentia alguma atração bizarra por desajustados. E, era inegável, tinha um talento ímpar ao lidar com eles.

― Não está muito grande? ― perguntou o menor ao deixar o vestiário.

Como o uniforme reserva ajustava-se perfeitamente ao corpo de Usui, era nítido o quão desproporcional era diante do corpo magro e ainda não completamente desenvolvido do garoto que mal completara 15 anos ― aparentava ser muito mais infantil do que era de fato, e isto o frustrava. Não queria ser fofo ou delicado como o pai desejava, e sim um simples e normal adolescente do sexo masculino. Num instante, uma ideia clareou a mente de Misaki.

― Vou te emprestar alguma blusa unissex.

― Ela não é incrível? ― murmurou o moreno quando a maid foi ao vestiário feminino. Takumi demorou a notar que era a ele mesmo que o pequeno se dirigia.

―O... O que quer dizer com “incrível”? ― desconversou o mais velho, incomodado com o rumo da conversa. Na verdade, incomodado com a conversa em si. Ainda se culpava pelo desentendimento.

― Incrível, oras. Ou você não acha a Misaki-chi tão... inteligente, esforçada e bonita?

Que tipo de pergunta era aquela, tão repentina? Como se aguardasse uma resposta, Aoi fitava-o com a expressão inocente, provavelmente convicto de que concordaria com suas palavras. Foi distraído pela adoração ingênua e incondicional, mas logo lhe veio à mente: o que ele achava sobre Ayuzawa? Além de julgá-la impertinente e atrevida, é claro. Porque esta foi a primeira impressão sobre a presidente.

Analisando agora, nunca mudara o julgamento sobre ela ― ou melhor, nunca refletira verdadeiramente sobre ele. Influenciado pela sensação desagradável de estar acompanhado por outra pessoa, não pensava nela como alguém diferente dos demais, ainda que ela o fosse. E não eram os atributos que Aoi listara que faziam dela alguém distinto.

Se Ayuzawa era inteligente? Certamente o era, para ocupar tal cargo na presidência do Conselho estudantil. Esforçada? Já havia comprovado este fato da pior maneira possível, diante da perseguição insistente. E... bonita? Encabulado, Usui não domava os próprios pensamentos. Como homem, sim, a considerava inegavelmente bonita. A questão era que “aparência” nunca fora para ele algum diferencial: o desconforto diante do sexo feminino estendia-se a qualquer uma. No entanto, ainda que pouco acostumado a lidar com os outros, sabia reconhecer quando uma mulher era obviamente atraente. E Misaki era.

Não apenas no sentido literal da palavra, pois as feições proporcionais eram belas. Contudo, com a convivência foi capaz de perceber detalhes dos quais nunca seria possível se ambos fossem estranhos, como anteriormente. Mais que isso: havia, além dos exóticos orbes amarelados, uma diversão contagiante e constante em seu olhar; além do semblante harmônico, um misto de delicadeza e força, capaz de expressar-se simultaneamente como maduro e jovial; além do corpo esguio, alguma altivez e confiança em seus passos e gestos.

Sua opinião era parcial, pois além dos poucos relacionamentos durante a vida, atualmente o contato próximo restringia-se a ela. No entanto, ao recordar-se daquele mês desde que se conheceram, não eram somente más as lembranças. Existia de fato a raiva diante das provocações da morena, e talvez este sentimento mascarasse outros, também existentes. Porque Misaki era direta, espontânea, extrovertida, segura de si ― tudo aquilo que ele não era, e secretamente admirava. Mergulhado em nas próprias reflexões, não respondera o menor, que corara diante de sua falta de palavras. Entretanto, foi despertou o loiro do transe ao falar novamente:

― Ah, eu sei ― murmurou, encabulado. Sorriu como se pedisse desculpas. ― Não consegui me explicar muito bem. Ela é muito mais que isso, né?

Interrompido pelo garoto, Usui tomou consciência do rumo dos pensamentos, ou ao menos em parte. Era tudo tão confuso: não saberia mais dizer se a presença dela em sua vida era prejudicial ou benéfica e ― acima de tudo ― se ele a queria por perto ou não. As únicas pessoas das quais era próximo eram suas conhecidas desde o nascimento. Novos contatos eram para o loiro exatamente isto: novidades. Daí tantas incertezas naquele caos mental. Porque não havia paz com Ayuzawa Misaki, e não mais sabia se aquilo lhe comprazia ou desagradava. Provavelmente, um misto dos dois, ou talvez não... eram tantas as dúvidas!

E o ginasial moreno aguardava uma resposta (na verdade, uma confirmação), o que o obrigou a balbuciar a primeira aleatoriedade que lhe veio à mente:

― Hã... eu- ― Foi convenientemente interrompido com o retorno da garota, que trazia em uma das mãos uma sóbria blusa social azul.

― Misaki-chi, eu te adoro! ―declarou o ginasial, abraçando-a uma vez mais.

Retribuiu o sorriso do pobre (e coagido) cross-dresser, mas logo voltou o olhar ao mais novo colega de trabalho, quando Aoi partiu uma vez mais para trocar-se. Havia algo de estranho naquelas íris amareladas, percebeu Takumi. Mais que isto: o fato de que passara os últimos instantes pensado nela ― e era vergonhoso admitir a verdade ― fez com que se sentisse estranhamente culpado, e atento à Ayuzawa. Quando ela se aproximou, fez com que o rapaz erguesse o rosto para visualizá-la, já que permanecia de pé enquanto ele estava sentado. Apesar do constrangimento, ele estava muito curioso sobre sua intenção, e tentava, sem sucesso, prever-lhe próximo gesto. A poucos centímetros do rosto masculino, ela sussurrou:

― Também quero saber a sua resposta.

Ciente de que ela citara o indagado por Aoi, o loiro ofegou enquanto as bochechas adquiriam o tom rosado do constrangimento. Nem ao menos conseguira responder ao garoto; era impossível elogiá-la diretamente ― a mera perspectiva era embaraçosa demais para concretizar-se. Todos os pensamentos originados daquela pergunta vieram juntos, numa enxurrada, para confundi-lo ainda mais. Além disto, nem ao menos concluíra uma opinião definitiva sobre a morena, mantendo as incertezas como se estas adiassem algum evento específico. Somado a tudo isto, a proximidade tornava a circunstância muito mais constrangedora.

― ... Não sou obrigado a responder ― afirmou, na defensiva. Indisfarçável, a vermelhidão das faces se acentuava.

A relutância manifestava-se com maior força diante dela mesma, já que ainda não aprendera a lidar com toda aquela provocação. Era irritante, como sempre, principalmente o fato de que sempre reagia da mesma maneira, de forma a agradá-la. Porque aquele maldito contentamento surgiu no olhar da presidente, que converteu a expressão séria em outra, mais divertida.

― Um dia ― cantarolou, antes de sumir por entre os corredores.

Detestável mania de considerá-lo tão previsível! Ou era ele mesmo previsível, e era este o alvo de sua raiva. De qualquer forma, agradecera pela interrupção: não saberia mais como acalmar os próprios batimentos. Quando próximo dela, assim como de qualquer pessoa, sentia todo o retraimento habitual. Com Ayuzawa, entretanto, havia também nervosismo, e uma implacável conturbação interna. O fato de que provocava tudo aquilo indicava que aos poucos se tornava alguém importante para ele? Ou era apenas a mente, pregando alguma peça emocional?

****

― Não acredito que ainda não decidiu, nanica ― murmurou, incrédulo.

Apoiando o cotovelo sobre a mesa da sala de jantar do sobrado da família Ayuzawa, Hinata tentava aplacar a monotonia, já que a caloura ocupava-se ao ler um catálogo de sorteios. Procurava ali a maneira com que ele pagaria o favor, já que por mais que pensasse, nenhuma boa ideia lhe viesse. Planejou até mesmo uma vingança contra todas as vezes nas quais ele vencera, mas a ameaça de um troco ainda pior fez com que retornasse aos pedidos inofensivos.

A lentidão ao escolher dentre as várias opções, porém, deixaram-no entediado. Poderia esperá-la decidir-se em casa, mas que diferença faria? Eram literalmente vizinhos; contudo, o moreno morava sozinho, já que era órfão e deixou os avós no interior. Não eram lembranças agradáveis, e ainda que tenha superado a morte dos pais, procurava ao máximo esquecer-se da época.

E o lar vazio que o esperava era deprimente perto da energia vibrante transmitida por Suzuna. Desde a infância, era naquela residência em que passava a maior parte do tempo livre, pois a caçula comoveu-se com sua solidão. E esta mesma garota agora tentava, inutilmente, ignorá-lo. Desistiu com muita facilidade, pois deixou de folhear o encadernado para mirá-lo:

― Estou escolhendo, seu apressado!

― E a escolha envolve doces? ― indagou, acenando com o queixo para o bolinho que ela trouxera da cozinha. Permanecia intocado, já que a distraída esquecera-o tão logo foi absorvida pela revista.

― Bem, chocolate é delicioso. ― Fitou o cupcake, girando-o entre os dedos. A capacidade de mudar de assunto era incrível. ― Mas preferia algum de morango. Porque morango é divino.

― Divino? No final das contas, é só açúcar enfeitado. ― Para ele, era tudo a mesma coisa. Como era capaz...!

― Herege, como pode não gostar de doces?

Shintani deu de ombros. Segundo ele, alimentar-se era uma necessidade e não um prazer. Portanto, não entendia toda a importância que ela dirigia, principalmente às sobremesas. Era irônico, até ― porque dentre todos os alimentos os quais comia sem reclamações, detestava particularmente os doces. Achava-os enjoativos demais, enquanto a vizinha era uma amante das “delícias açucaradas”.

E as expressões que ela utilizara... tão exageradas. Na verdade, todo o emocional de Suzuna era exagerado, explícito. Não havia necessidade de ser transparente; não para ela, que deixava à mostra cada mínima sensação e a intensificava. Isto fazia de sua felicidade, de um entusiasmo incomum, e da raiva, contundente. Assim como tornava as mudanças de humor bruscas de tão potente a distinção entre os estágios emocionais, tornando-as quase impossíveis de se acompanhar. Era a pessoa mais expressiva que ele conhecera.

― É mais divertido te ver comer como uma monstrinha.

― Comer bem é saudável ― assinalou ela, solene. Não gostara nem um pouco de ser comparada a um monstro enquanto devorava o que quer que fosse.

― Sei ― depreciou o rapaz, reclinando-se contra o espaldar. Sorriu ao antever uma provocação: ― Se surtisse algum efeito, já teria ultrapassado o metro e meio.

Eu já ultrapassei!

De tão zangado, o rosto de Suzuna adquiriu um tom vermelho intenso, e os orbes amarelados fixaram-se aos seus em fúria. Pareciam reluzir com o olhar intenso. Afinal, tocara no mais delicado dos temas para ela: a altura. Bem sabia que, se a chamasse de fofa naquele momento, iria receber um belo de um soco no rosto. Contudo, à sua maneira, era adorável a visão da pequena irritadiça e de toda a energia que transmitia através da raiva. Não era de forma alguma frágil (poderia facilmente vencer a irmã mais velha num embate físico, por exemplo), tanto físico quanto psicologicamente, e o contraste com a aparência diminuta era arrebatador. Ou era somente ele mesmo que desenvolvera algum gosto estranho por anãs problemáticas.

― Ah, é? E quanto mede, pirralha? ― Mirou a menor em atrevimento e desafio.

― Eu tenho... ― iniciou ela, confrontando-o numa briga de olhares. Engasgou com as próprias palavras, pois não aparentava estar nada satisfeita em continuar. Repetiu-se, alguns decibéis a menos, e as bochechas rosadas agora deviam-se ao retraimento. Desviou o olhar para todos os pontos do cômodo, ao procurar alguma fuga. Não havia nenhuma; teve de voltar a olhá-lo com as sobrancelhas franzidas, emburrada e corada, ao prosseguir baixinho: ― Tenho um metro e... ― O restante foi balbuciado de modo ininteligível.

― O quê?

Ria-se tanto do desespero claramente estampado na face dela quanto da ironia da situação. Ao tentar evitar demonstrações fofas, estava ela mesmo agindo conforme esquivava-se exasperadamente. E ao perceber o divertimento do outro, Suzuna bradou, enfurecida:

Seu babaca!

― Só perguntei sua altura, Suzu-chan. ― Fez-se de desentendido. Afinal, era uma pergunta normal, não era?

― Está me desconcentrando ― desconversou ela, cruzando os braços.

― Ok, ok ― assentiu, ao desistir. Como se dissesse: “Vou ficar quietinho.”

Com a desconfiança, o lábio inferior feminino projetou-se minimamente para frente, em um biquinho, e Shintani sentiu-se tentado a mordê-lo. Todavia, guardou para si seus desejos, enquanto suspirava, resignado. Se continuasse a guiar os pensamentos neste rumo, lembraria-se do dia anterior, no qual fez a colegial contorcer entre seus dedos com as cócegas. Mesmo ao remexer-se, descontrolada e risonha, era capaz de sentir a textura leve e macia da pele sensível. Foi impossível não imaginá-la a retorcer-se... por outros métodos. “Não comece”, exigiu para si mesmo. Só lhe restava esperá-la, pensou enquanto fitava a pequena voltar a atenção às páginas. Projetou-se contra a ponta da mesa, concentrada na leitura, e mal notou que o veterano a observava.

A atenção fora retida pelo pescoço tenro e delgado da menor, exposto devido ao penteado habitual; perdera-se entre a suave curva da garganta, que sumia entre o uniforme escolar. Subjugado pelos próprios sentidos, fixou-se à visão daquela tentadora superfície convidativa. De maneira involuntária, estava ela ali, seduzindo-o com os lábios entreabertos, a respiração branda a expandir e retrair levemente o busto magro, as curvas irresistíveis a delinearem-se sutilmente sob as vestes. Do seu ponto de vista, Hinata era capaz de vislumbrar o contorno da clavícula da garota, e a imaginação corrompida pela luxúria tratou de esboçar o restante.

Mas não bastava apenas isso. Não, tudo piorou, e o desejo escureceu os olhos ainda mais quando ela levou o cupcake à boca. Era ridículo, mas prendeu a respiração ao observá-la comer. Porque era hipnótico a forma com que ela deslizava a língua pela cobertura do bolinho aos poucos, sugando com suavidade o chocolate cremoso. Como abria a boca, quase que sedutoramente, mesmo que inconsciente disso, para morder a sobremesa. Apertou os punhos ao tentar ignorá-la ao afundar os dentes no cupcake, como numa carícia. E acentuar a tortura, a expressão satisfeita ao dar uma mínima mordida no petisco era deliciosa. Saboreava com gosto, transformando o ato de comer em algo prazeroso. E aquilo era excitante. Mal se conteve quando ela levou a ponta de um dos dedos sujos aos lábios, para limpá-los numa lambida rápida ― queria lambê-los ele mesmo.

― O que está olhando? ― questionou a mais nova, arqueando as sobrancelhas. Voltou a si mesmo. Incrível, o mirar longo e constante conseguira chamar a atenção da criatura mais avoada do Japão! No entanto, ela mal notara o que tanto o atraíra. Com a ausência de uma resposta, sugeriu, ao estender o aperitivo para o rapaz: ― Quer também?

Não era disto que estava com fome, embora. Mas no que estava pensando? “Merda, ela só está comendo a droga de um cupcake” Censurou-se. “Não é motivo para ficar excitado, idiota.” Devia muito ao cheiro distinto e enjoativo do bolinho, assim como à interrupção ingênua de Suzuna: ambos os trouxeram de volta à realidade, afastada do mundo de lascívia do qual viera. Havia algum sarcasmo sádico a envolvê-lo, expresso tanto no fato de que fora seduzido enquanto ela comia, logo após compará-la a uma monstrinha, quanto no desejo que sentira de devorar aquela porcaria açucarada, apenas porque a morena encostara a boca ali.

E o fez, enfim. Esticou da cadeira para alcançá-lo, abocanhando uma porção razoável. Não desviou os olhos dos dela uma vez sequer, e a tapada estava tão confusa quanto nunca estivera diante da ação repentina do vizinho. Como era frustrante! Além disso, arrependeu-se tão logo sentiu o gosto a dilatar-se na língua e garganta. Por que ela não avisara que estava comendo um cupcake sabor “diabetes concentrada”?

― Argh, essa porcaria é doce demais ― queixou-se, desgostoso. Ao menos estava distraído do instinto voraz de outrora.

― Comeu porque quis. ― E engoliu o último pedaço.

― Já encontrou, afinal? ― perguntou, impaciente.

― Encontrei! ― exclamou, triunfante, ao lembrar-se. Como era capaz de ser tão esquecida? Apontou uma propaganda da revista num gesto teatral. Com uma empolgação tamanha como se apresentasse um dos grandes feitos da humanidade ― Você vai me acompanhar.

― É sério? Você nunca ganha nada, pirralha ― argumentou ele ao fitar o aviso de um evento de sorteios. Que masoquista. ― Por que vai participar?

― Por que ainda me surpreendo com seu pessimismo? Se eu não tentar, nunca vou conseguir mesmo. ― Complementou com ameaças: ― E você me deve um favor; qualquer um.

― Vou até lá para te ver perder ― suspirou Shintani.

― Não tem sua própria casa, vagabundo? ― Ouviram ambos uma voz familiar.

Enquanto Suzuna cumprimentou a irmã mais velha, ela atravessou o umbral até alcançá-los, no centro do cômodo. A feição, ao avistar o vizinho ali, não era das mais amigáveis, e acentuou-se quando ele destinou-lhe um sorriso dissimulado. Afinal, existiam muitas semelhanças entre suas personalidades, como o gosto pelas provocações, embora desta vez ele tenha sido o único a utilizá-la.

Existia entre os dois uma espécie de repulsa mútua, recíproca, que a ninguém sabia afirmar quando se iniciara. Talvez porque eram muito parecidos em alguns aspectos, e completamente diferentes em outros. Ou porque julgavam-se insuportáveis entre si, ou ainda a herança de uma rivalidade infantil, quando disputavam ambos pela atenção de Suzuna. E para ambos pouco importava como se originaram tantas farpas: elas existiam, fim.

― Aposto que não trata assim os seus clientes, Misa-chan ― replicou o moreno, simulando ultraje.

― Não me chame assim fora do café. ― Misaki reprimiu um arrepio involuntário. Odiava aquele apelido, principalmente quando pronunciado por um homem. ― E desapareça da minha frente também; não quero que estrague meu bom-humor.

Contudo, foi ela a deixar a sala, rumo às escadas. Num estado similar, a menor encarava-o com uma fisionomia levemente repreensora. Sempre achara muito boba toda aquela rivalidade, e balançou a cabeça em negação, como se cansada de uma repetição exaustiva de conflitos injustificados. Mal percebia que, apesar das tantas dissonâncias entre ela e Misaki, também existia entre ela mesma e Hinata uma espécie distinta de competição velada. E, de qualquer forma, entre as Ayuzawas, o rapaz preferia a baixinha dramática e avoada.

****

Concentrou-se em dominar a própria cólera ao avistá-lo naquela sala. Sentado sobre uma das carteiras, como se alguma disciplina enfim adentrasse naquela mente delinquente. No entanto, Kanou não estava ali por obediência, ou por remorso ao que fez da última vez em que se viram. O sorriso sarcástico explicitava que o único objetivo era provocá-lo. E Yukimura não se deixaria levar mais uma vez.

Se aquele imbecil achava que ele agiria conforme queria, estava enganado! Assim como Soutarou, o menor detestava sentir-se obrigado a qualquer coisa ― mesmo que indiscutivelmente quisesse iniciar ali mesmo um combate, dar aquele sabor de vitória ao outro era inadmissível. Era, sim, um teimoso; mas não cederia, de maneira alguma.

E martelava insistentemente em seu interior: você é um vice-presidente. Deve trazer a ordem. Ele é um delinquente. Deve ser corrigido. Eram estas as regras; era desta maneira com que o sistema seguia adiante em funcionamento. Afetado pela raiva, concordou (durante alguns poucos instantes) na repulsa do outro por aquela “injus tiça mascarada da instituição falida”. Porém, era perturbador demais imaginar-se subversivo como ele; iria discordar sempre, mesmo que as ideias fossem tentadoras. Porque não eram corretas! E, mais preponderante ainda, o ódio por ele refutaria o melhor dos argumentos.

Recordou-se de quando acordou, muitas horas depois de hipnotizado, sozinho naquele mesmo ambiente. O. Imbecil. Fugira. Aproveitara-se da habilidade hipnótica para livrar-se do castigo, e durante vários dias não voltou para cumprir a punição. Ele, como um idiota, deveria aguardá-lo na sala, como se este fosse o seu castigo. Fora inútil, já que Kanou não viera ao colégio nos dias subsequentes. Estava zombando dele, com certeza ― principalmente naquele momento, em que enfim viera. Como se dissesse: “estou aqui porque quero, e a punição por me aguentar é toda sua.”

Novamente usava os desgraçados óculos escuros, a única proteção que o menor tinha diante da potente hipnose. Não existiam limites para a indignação diante daquela desvantagem. Shouichirou não reconhecia a si mesmo quando pensava nela, já que a habilidade despertava a opressão, o temor, a fraqueza diante de algo inexorável e poderoso. Devia era afastar estas impressões; poderia muito bem lidar com ele enquanto ele não fosse injusto o bastante para apelar para aqueles métodos escusos.

― Há quanto tempo, Yukimura-senpai ― murmurou o mais novo, cínico.

Cale a boca, idiota!

― Por que toda essa raiva? ― Soutarou fingiu-se de desentendido. ― Espero que não tenha guardado rancor daquele incidente.

Que vontade de socá-lo ali mesmo! Apertou os punhos para conter as intenções menos diplomáticas ― brigar no colégio era sinônimo de ouvir horas e horas de broncas de Misaki. Tentava se convencer: não iria entrar nos jogos dele. Kanou queria o caos, e isto o seduzia: a irresponsabilidade estava ali, sempre a testá-lo. Ironicamente, o membro do Conselho que aparentava ser mais livre de regras era aquele cujas limitações próprias eram mais intensas.

Todavia, lembrou-se de seus motivos: aquela era a posição mais vantajosa para alguém como ele. Se não restringisse a si mesmo em alguns aspectos, acabaria como aquele que mais detestava. E, enfim, não desejava de forma alguma decepcionar a presidente. Fora ela a lhe estender um chance, quando todos o desacreditavam. Mais controlado, ainda que furioso, apanhou os exercícios sobre a mesa para literalmente jogá-los sobre a mesa do delinquente. Ordenou, simplesmente:

― Faça.

E se eu não quiser? ― A voz do maior tingiu-se de uma petulância nunca antes vista.

― Vou te obrigar a resolver ― ameaçou Shouichirou, ainda frio para conter os desejos violentos.

― Me obrigar? ― Mal conteve uma risada. Ele esquecera-se de quem possuía a capacidade de persuadi-lo sem esforço algum? ― Como vai fazer isso, Yuki?

Foi o estopim para o moreno menor. Abreviar seu sobrenome daquela maneira ridícula! Deixou manifestar-se livremente a própria irritação, que alcançara níveis críticos. Ah, ele teria o que merecia. Entretanto, sabia que a chance de vencê-lo em um embate físico não era das maiores ― com pouco menos da metade das vitórias, ainda era arriscado. Lutar era entregar os pontos a Kanou, pois era isto que ele esperava; seria previsível e involuntariamente convencido. Porque o adversário tinha confiança da própria força e, mais ainda, de como a irritação afetaria o desempenho do mais velho. Apesar de delinquente, era surpreendentemente perspicaz. E o desejo de Yukimura não era apenas vencer. Queria humilhá-lo, na mesma proporção em que fora quando foi deixado inconsciente.

Tomou consciência de algo que estava lá, a todo momento: para quê devia limitar-se às soluções violentas a que ambos estavam acostumados e das quais se resumiam suas ações? Qualquer humilhação eficiente deve ser arrebatadora através do inesperado! Era isto que aprendeu com a vice-presidência: poderia manter-se, com toda a autonomia, se soubesse como acomodá-la a algo (ou alguém) que a amparasse. Era esta a sua vantagem.

E o plano perfeito esboçou-se mentalmente. Sim! Que melhor modo ridicularizar aquele calouro insolente, cujas conquistas entre as garotas eram quase tão conhecidas quanto as entre as lutas? Se aquele canalha sentia-se vitorioso por provar dos mais diversos sabores femininos, iria mostrar-lhe que nunca deveria ter lhe subestimado ― pois agora provaria de seu próprio gosto.

Foi pensando nesta humilhação que puxou a gravata avermelhada e o beijou. Para tornar o momento desagradável para o outro, o fez com vontade. Como se o gosto do delinquente fosse o mais desejado dentre todos; transmitindo entusiasmo através da prática tão intensa. Desfrutou da expressão aturdida, seguida do desconforto quando selou os lábios aos dele. Bem feito!

Aproveitando-se de seu desorientamento, meteu a língua em sua boca, tornando a experiência mais profunda e marcante para aquele estúpido provocador. Resvalou-se contra a língua dele, sentindo pela primeira vez na vida aquele estremecimento característico que as carícias proporcionavam. Deleitou-se deste pequeno prazer; mais um perverso modo de se vingar: usá-lo como instrumento de satisfação.

Não durou mais que meros segundos este contato, pois ao sentir algo úmido a remexer-se em sua língua, Kanou empurrou-o com toda a força disponível. Carregava no semblante aquela incredulidade que Shouichirou esperava alcançar. Recompensado, o menor continuou a encará-lo com superioridade no olhar.

― Ficou maluco, seu merda? ― protestou o calouro, possesso. As palavras lhe fugiam, em meio à exasperação.

― Me obedeça ou eu vou fazer de novo. ― Sorriu, num misto de triunfo e insinuação. Encontrara a punição perfeita. O superara através do raciocínio e da dissimulação!

Não importava-se nem um pouco em entregá-lo o seu primeiro beijo, já que pouco caso fazia destas “primeiras vivências”. E havia apreciado o toque daqueles lábios rudes, pois aquilo fazia parte da vingança. Afastou estes pensamentos trivias, concentrado em contemplar o maior a executar ordens sem questionamentos.

Mais importante que o próprio prazer físico, era a sensação de estar sobre o controle mais uma vez. Esta, sim, lhe proporcionava uma satisfação sem igual, e cada vez mais exigia dele a humilhação, insaciável.

Mal sabia que Kanou incomodou-se não com o castigo excêntrico, e sim com a própria reação. Já fizera bem mais que aquilo com as mais variadas garotas; encontrou em todas a maneira de satisfazer a avidez sexual. Contudo, nunca um gesto simples como um beijo havia provocado nele um sobressalto tão veemente. Mais que isso: nunca sentira com tal intensidade outros lábios contra os seus, concentrado no que viria após; no prazer exponencialmente crescente. Talvez porque desta vez a própria experiência tenha sido surpreendente em si mesma.

Porém, nada daquilo importava. Também havia gostado do maldito beijo.

Notas finais
E quem iria imaginar que o primeiro beijo seria KanouxYukimura, não? E, enquanto no original, o vice-presidente é beijado por aliens, aqui é ele que toma a iniciativa xD Ah, estou com um monte de ideias para o casal SuzuHina, aguardem ;D