Change!

11 Capítulo Nove - Uma manipulação necessária


Notas iniciais
Hello! Antes de tudo, um 'obrigadão' a Delicate, minahamo, bettie, NamiSwan, Patrícia Skylark, BouGrellado, arabesca e Vickiiihchan pelos comentários. E BOU, SUA MULHER FODA, QUE RECOMENDAÇÃO FOI AQUELA...!!!! Fazem meu dia mais feliz~~ Oh, atraso será comentado nas notas finais - boa leitura!

Sorrateiramente, aproximou-se do alvo sentado sobre a grama. Num barranco um tanto afastado, a morena míope observava o desenrolar das atividades esportivas muitos metros abaixo. Em uma das mãos, carregava uma bola de vôlei, e entre os dedos se antevia o dourado reluzente da medalha logo abaixo. Tão silencioso quanto possível, envolveu-a com os braços enquanto sentava-se de maneira a aninhá-la entre as pernas. Hideki sussurrou, orgulhoso, enquanto inalava a fragrância das madeixas curtas:

― Parabéns.

― Onde você estava? ― Shizuko suspirou, abraçando-o com um pouco mais de intensidade.

― Tentando pôr juízo na mente de um cabeça-dura. ― Mordiscou o ombro exposto quando ela inclinou para o lado a cabeça.

― Parece uma tarefa impossível. ― Quase ronronou com o contato, mas reprimiu-se quando lembrou que estavam na droga de um ambiente aberto, público e cheio de olhares curiosos.

Mesmo que não se importasse com a opinião alheia, o também míope abrandou os beijos e mordidas ― poderiam muito bem deixar isto para mais tarde. E a expectativa até chegarem em casa era estimulante. Contudo, os olhos foram atraídos por uma silhueta conhecida na pista de corrida, preparada para uma das mais importantes provas: a corrida masculina. Céus, pelo que parecia Shintani acreditara em suas palavras.

Não mentira quando dissera que ele não deveria descuidar-se com Chihiro e Ryotaro. Ambos assumiam as posições na largada, poucos metros além de onde Hinata se encontrava. Além de encarar estes possíveis competidores, porém, vigiava de soslaio um loiro tímido. Isto fez com que risse do próprio blefe, abafando o ruído nos ombros da namorada.

― Como o Hinata é idiota.

―O que você fez? ― indagou a garota, franzindo as sobrancelhas.

― Não fiz nada. ― Fez-se de inocente, em que Shizuko não acreditou, obviamente. Reformulou-se, então, no timbre de um jogador cujos peões são as pessoas: ― Talvez assim ele acorde mais rápido.

― Cruel e enxerido. ― Balançou a cabeça negativamente, incrédula.

Pressionou-a mais contra si mesmo, sussurrando, divertido: ― Até parece que não me conhece.

Ah, tanto faziam os outros. Inclinando-se para trás, a vitoriosa capitã do time de vôlei envolveu os lábios de Hideki aos seus. Saboreou da maciez com cálido desejo, enquanto o cabelo curto era agradavelmente acariciado. Como não adorar o namorado manipulador, abusado e intrometido?

***

Desconfortável. Esta deveria ser a palavra que o definia. Interação social, círculo de relações, contato humano: era tudo tão complexo a ponto de incomodar um iniciante como ele. Desta vez, no entanto, o desconforto não era produto de suas limitações; poderia ser facilmente traduzido em uma pessoa da qual só conhecia o nome.

Shintani Hinata. Aquele que despertara, pouco tempo atrás, uma pontada aguda de algo novo. Ciúmes. Como qualquer experiência nova para o rapaz, era incômodo. Racionalmente, não haveria porque temer a perda de alguém com o qual nem mantinha um relacionamento sério. No entanto, não conseguia pensar em melhor tradução para o que sentia ao imaginar que os dois eram próximos, ou se conheciam há tanto tempo. Mesmo que Ayuzawa o tratasse como um cachorro sarnento.

E pelo que parecia o desprezo era recíproco. No entanto, o moreno ainda por vezes o fitava furtivamente. O que ele fizera? Gradualmente, a irritação o tomou. O que ele esperava agindo daquela maneira? Se não sentia nada por Misaki, por que agir como se estivesse defendendo-a de alguém perigoso? Entender as motivações das pessoas já era difícil, não precisava de mais obstáculos.

Não percebera, porém, que não era o único que Hinata caçava com os olhos. Alternava as íris castanhas entre todos os potenciais competidores que Suzuki Hideki lhe dissera. Droga, eram tantos...! Que Suzuna chutasse e socasse do vencedor caso não alcançasse a linha de chegada antes dele. No entanto, não podia confiar apenas na força dela. Na verdade, não queria. Porque aquela era uma garota forte, e não poderia subestimar o monstrinho que lhe dera a pior surra da vida dez anos atrás.¹

Mas era algo que não conseguia controlar. Racionalmente, era óbvio que ela conseguiria se proteger e arrancar os olhos de quem tentasse encostá-la. Entretanto, havia uma necessidade quase instintiva de impedir que algo de ruim acontecesse a ela, além da raiva generalizada por qualquer um que viesse a tentar tocá-la.

Absorto, não notou que um de seus alvos correspondera, mirando-o de soslaio, até correspondê-lo. O loirinho. E tanto fazia se era uns bons dez centímetros mais baixo que ele.² Não dera tanto crédito assim a Usui em uma primeira impressão, mas se ele pretendia competir, daria o melhor de si. Ao sustentar o olhar, estava sinceramente enfurecido. E não perderia de jeito nenhum.

Pela última vez, verde e castanho se encararam. Foi dado o sinal da largada.

***

Sem dificuldade, cruzou a linha de chegada. Ultrapassara todos os competidores. Contudo, ao se aproximarem do suposto vencedor, os alunos que iriam entregar-lhe a medalha assustaram-se com as feições demoníacas deste. Porque ele mal parecia alguém que acabara de ganhar aquela que era uma das competições mais disputadas.

“Mas por que se alegrar?”, pensou Yukimura, tão zangado quanto possível. O maldito fugira! Aquele que seria capaz de proporcionar alguma rivalidade empolgante que tornasse divertido aquele evento escapara como um rato covarde. Nunca odiara Kanou como naquele momento.

Não somente porque não havia mais um competidor à sua altura ― o orgulho e a dignidade também foram seriamente atingidos. Após o amasso escandaloso no vestiário, o delinquente foi embora sem qualquer satisfação, como se pouco se importasse. E isto incluía tanto a disputa implícita entre os dois, até ali empatada, quanto o acordo que fizeram caso vencessem a maior parte das provas em dupla.

Como era detestável ser subestimado dessa maneira! Porque Soutarou o descartara como um empecilho insignificante, em vez de tratá-lo como um rival a ser respeitado. Além de desdenhar da punição que receberia, já que com a ausência ela viria de maneira automática. Já deveria ter desconfiado que aquele idiota nunca iria obedecer os termos; ele fora o verdadeiro ingênuo ao confiar em um rebelde problemático. Mas de qualquer forma queria socar o infeliz até a morte ― ou pior!

De longe, avistou a garota que se aproximava, e isto despertou nele algo que pensara que nunca sentiria: vergonha de si mesmo. O que diria à presidente quando ela descobrisse que não conseguira cumprir com a responsabilidade que assumiu? Logo ela, que lhe oferecera tantas chances; era imperdoável decepcioná-la. Teria que desculpar-se fervorosamente, talvez abandonar o posto de vice-presidente para cedê-lo a alguém mais eficiente...

Ao alcançá-lo, Misaki sabia que havia algo errado. Shouichirou era energético, explosivo e facilmente irritadiço, porém mais parecia arrependido e cabisbaixo. Talvez... Bem, tinha de perguntar para descobrir se seus receios eram corretos. E ao citar o nome do delinquente, notou como o garoto mais baixo que si mesma reagiu em contrariedade.

― Yukimura, onde está o Kanou?

― Ele... ― Demorou alguns segundos para responder, suspirando profundamente para controlar a própria raiva e indignação. Desviou os olhos, pois não queria encarar Ayuzawa. ― Fugiu. ― Com mais veemência, desculpou-se: ― Sinto muito, presidente!

Por alguns segundos, a morena encarou o subordinado sem nada expressar. Receoso, durante este interminável momento, ele permaneceu em estado de tensão. Ela estava zangada? Desapontada? Por que não dizia nada?! No entanto, o silêncio foi quebrado com um suspiro exausto.

― Ora, levante essa cabeça ― pediu, quase que de maneira desleixada, ainda que sem deixar faltar o orgulho tradicional. Complementou, um tanto aborrecida: ― A irresponsabilidade daquele cretino não é culpa sua. Achei que isso poderia mudar um pouco toda aquela rebeldia, mas parece que é imutável.

Incrédulo, Shouichirou fitou a determinação que havia nos olhos dela. A confiança inabalável nele mesmo. Definitivamente, era a melhor presidente. A melhor das melhores! Apertou os punhos, como se contagiado pela firmeza transmitida por ela, e jurou a si mesmo que nunca mais teria de se desculpar por um objetivo não alcançado. Nem que fosse obrigado a quebrar cada osso daquele maldito.

― Mudar eu não sei ― murmurou; os dentes cerrados. ― Mas o desgraçado vai pagar.

Com um sorriso no canto dos lábios, Misaki assentiu para o vice-presidente. Estava pensando em retirá-lo da função tão exaustiva, mas ele parecia muito empolgado em cumpri-la. E o que de pior acontecera desta vez foi a fuga do aluno problemático; ao menos nenhuma briga se iniciara. Talvez, de fato, a punição estivesse surtindo efeito ― que deixasse como estava. Entreter Kanou na rivalidade com Yukimura não era de todo mal.

Distraiu-se, todavia, com a visão de um rapaz loiro e familiar poucos metros adiante: sentado em uma das primeiras fileiras da arquibancada, a recuperar o fôlego perdido durante a corrida. Inspirava e expirava para compensar o esforço anterior, e os ombros largos movimentavam-se conforme este ritmo constante.

Olhava para baixo; os antebraços apoiados sobre as pernas, e isto deixava o rosto longe das vistas de qualquer um. “Uma pena”, pensou ela. Porque era muito mais interessante imaginá-lo mais visível quando deveria expressar um cansaço tão provocativo. E a linha de raciocínio era quase automática para ela. O arfar gerado pelo esforço físico de um esporte muito deveria se assemelhar ao gerado por... Outras atividades físicas.

Quase riu ao imaginar a reação dele se soubesse o que se passava em sua cabeça. Provavelmente, iria corar automaticamente, embora a mente se encarregasse de elaborar os mesmos pensamentos. Usui então se zangaria consigo mesmo por não conseguir controlar a vergonha, e o misto do constrangimento com a irritação iria diverti-la.

Algo, contudo, atraiu a atenção para além das suposições: ao lado dele, havia uma medalha de bronze. Isto despertou a curiosidade. Sabia que não havia um aluno que pudesse competir com Yukimura no quesito velocidade (ainda que a capacidade de Kanou fosse desconhecida, já que ele fazia questão de cabular todas as aulas de Educação Física). Entretanto, estava convicta de que Takumi seria o segundo colocado. Indagou, genuinamente impressionada:

― Terceiro lugar? Achei que fosse um desses gênios incompreendidos.

Enfim, o loiro apercebeu-se da presença dela, já que a exaustão o alienou por algum tempo. Ayuzawa então tomou ciência de quão medíocre era a imaginação perto da realidade. Quer dizer, nunca pensaria que ele estava de mau humor. Ainda que quando não encabulado Usui expressasse seriedade, nunca vira uma fisionomia tão revoltada. E duvidava que o motivo fosse a comparação que dissera.

Na verdade, ele estava zangado consigo mesmo. Afinal, por que fazer tanta questão de chegar à frente de Shintani na corrida? Nada tinha a provar para ele e essa competitividade não era normal nem racional. Porque ao cruzar a linha de chegada, o maior alívio foi ver que ele não estava entre os mais rápidos.

Contudo, outra raiva também se alimentava, crescente. Por quê... Por que o moreno continuou a fitá-lo como uma ameaça ao alcançar o final poucos segundos após cruzar aquela faixa pintada no pavimento da pista? O que ele queria? Transmitia todos os sinais de alguém que o encarava como rival, mas ele não poderia ter certeza porque nunca enfrentara qualquer rival antes. Iniciara há poucos meses o contato aprofundado com alguém além da própria família, e junto a isso veio um turbilhão de novas sensações e dúvidas. Por que era tudo tão complexo?

E ali estava ela. O centro do furacão. Ayuzawa tinha a capacidade de bagunçar seus pensamentos, assim como sumir com cada um deles com beijos que nada tinham de simples. Irritá-lo com provocações repentinas e inexplicáveis; ou apenas sendo a intrometida de sempre. Assim como envergonhá-lo com insinuações pervertidas, que somente despertavam nele concepções mais pervertidas ainda.

Ela sempre o distraíra ― completamente. Mostrara o que ele, além de toda a superfície introspectiva e fechada, tinha de humano: a raiva, além da timidez; a lascívia, além do embaraço; a indignação, e não a conformidade. Estavam ali todas as características, mesmo as aparentemente paradoxais, apenas aguardando o momento em que alguém fosse capaz de despertar nele tudo de uma só vez.

Para alguém com tantas falhas, como ela podia esperar por um gênio incompreendido?

― Eu não sou perfeito ― respondeu, franzindo o cenho.

― Isso faz de você mais divertido ― refutou ela, simplesmente.

Sentou-se ao seu lado, sorrindo em contentamento. Expirou pesadamente. Lidar com ela era tão cansativo. Talvez até mais do que correr por alguns minutos. Porque Misaki era incansável e perturbadora como ninguém. Ao menos quando estava com ele. Protestou, indignado, já que grande parte do cansaço causado pela corrida já havia acabado e fora substituído por algo igualmente problemático:

― Não sou obrigado a te divertir.

― Você já faz isso sem nem perceber. ― A presidente aparentou nem refletir antes de replicar de imediato.

É, era impossível lidar com ela.

Ao desviar o olhar dos orbes de topázio, cruzou-o novamente com o de Hinata. Desta vez, no entanto, ele não expressava qualquer nervosismo: apenas confusão, mesmo que dissimulada pelo semblante ainda crispado. Alternava as íris castanhas entre os dois sentados, como se não acreditasse no que via. Isto fez com que estreitasse os olhos. Estava certo, ao final das contas? Encerrando o rumo das suposições antes sequer de confirmá-las, Ayuzawa questionou, bem humorada:

― Ainda está com ciúmes do Shintani?

Pela maneira com que falara ― aquele leve ar presunçoso de alguém que se agrada bastante com algo ―, a reação imediata foi negar terminantemente. Entretanto, não havia como esconder se já deixara isso claro pouco tempo atrás. Como única solução, a verdade era necessária. Mas como era constrangedora! Fitando o chão, não conseguiu impedir as próprias bochechas de avermelharem-se, mesmo que mantivesse as feições irritadas. Murmurou pausadamente:

― Ele me pareceu ansioso para proteger alguém.

Oh, ela assombrou-se um pouquinho. Porque era impressionante como ele conseguia acertar e errar simultaneamente e com tanto sucesso. De fato, a percepção de que o moreno queria proteger alguém estava correta; ele só errara o alvo. E isto mostrava que o retraimento não o tornava um inábil socialmente, mas fazia com que se levasse por hipóteses errôneas. De algum estranho modo, adorável mesmo assim.

― O único interesse que ele pode demonstrar por mim é ser meu cunhado ― revelou, bem humorada.

Pagaria milhões de ienes à pessoa que eternizasse a fisionomia de Usui naquele momento. Porque a mescla de incredulidade, espanto, arrependimento e vergonha de si mesmo esculpidas em um belo rosto eram impagáveis. Mesmo que quisesse tranquilizá-lo, não negaria que achara divertido apreciar a confusão tão inédita para ele.

Talvez o vizinho estivesse correto ao denominá-la um pouco sádica, embora o passatempo de provocá-lo fosse fruto do sentimento que nutria por ele. Porque além de interessante, o loiro era encantador. E ser capaz de levá-lo a agir daquela maneira fazia com que se sentisse importante para ele.

Já o rapaz percebeu enfim que se fez de idiota. Quer dizer, como pudera não notar? Shintani estava acompanhado da irmã mais nova da presidente durante a confusão que afetara principalmente a ela. Nada mais natural do que tentar defendê-la. E o que havia feito? Correspondido o olhar de alguém disposta a proteger a caloura, gerando um desagradável mal entendido para ambos.

Pressionou o próprio rosto com uma das mãos, e o que se passava em sua mente era literalmente indescritível. Na verdade, somente esperava para que a habitual implicância de Misaki desse início. Contudo, ela nada fez dessa vez. Ou apenas um gesto: ofereceu-lhe uma garrafa d’água fechada, sem nada dizer. Encarou o recipiente um tanto desconfiado, mas permaneceu quieto e ingeriu o líquido.

― Ah, eu estava bebendo nessa garrafa ― indicou ela de repente, como se recordasse quando ele havia começado a beber. Perguntou, sugestiva: ― Sem problemas, não é?

Tão transparente quanto a água era a insinuação de beijo indireto que ela descaradamente incitou. A convivência, porém, fez dele mais preparado: mesmo que o rubor fosse rápido a se espalhar pela face, impediu a si mesmo de engasgar porque os goles foram controlados diante da antecipação da ocasião. Ao saciar-se, devolveu a garrafa, assegurando:

― Não vai me fazer cuspir de novo. ― De forma alguma iria repetir o episódio de quando ela o chamara de ‘gostoso’.

― Isso é um desafio? ― Os olhos brilhavam.

― Ayuzawa... ― lamentou ele, rendido com tanta obstinação.

O sorriso feminino tornou-se malicioso: ― Não diga coisas assim tão sugestivas, Usui.

― Hã?

― Falando desse jeito... ― começou Ayuzawa, estendendo-se do banco para alcançar os ouvidos do loiro. Sussurrou para que somente ele ouvisse: ― Consigo te imaginar direitinho gemendo meu nome. ― Como se nada demais tivesse dito, sugeriu sem cerimônias: ― Se você se esforçar um pouquinho, talvez consiga imaginar também.

Assim como antes, assistiu aos olhos dele arregalarem-se, pasmos. Mas bem sabia o motivo pelo qual ele se envergonhara tanto, ou porque o rosto tornou-se rubro como nunca visto: o rapaz conseguira, sim, imaginá-la. E pela intensidade do enrubescimento, assim como a longa falta de palavras, ele era muito, muito criativo.

― E não é que consegue? ― Desta vez não conseguiu segurar o riso. Com humor leve, ironizou ao olhá-lo de esguelha: ― Que trágico, no fundo é um pervertido.

As palavras fizeram com que se recuperasse, mesmo que ainda estupidamente corado.

― Como se você pudesse dizer isso...!

Quase que cronometrado, o anúncio da corrida feminina fez com que quaisquer reivindicações dele fossem deixadas de lado. Ao levantar-se de uma vez do banco, a morena avisou um tanto animada que esta era a sua vez. Preocupado, Takumi transpareceu desagrado, ao que ela rapidamente interpretou. Pela primeira vez mal humorada, argumentou de braços cruzados:

― Não faça essa cara. É só uma corrida. ― Bufou, contrariada. ― O que seria dos alunos se a própria presidente não participasse do Festival Esportivo?

― O problema é que essa presidente não inspira confiança nenhuma em atividades físicas ― indicou ele, certeiro.

Em ultraje, Misaki crispou os lábios em uma linha. Não se deixaria ser tratada com privilégios somente porque era tão desastrada a ponto de atrapalhar-se durante a organização e decoração do evento. Além disso, havia o seu orgulho. Estava determinada a competir, e desta vez ignorou (e prometeu a si mesma ignorar) tudo o que ele dissera. Citou a si mesma na terceira pessoa, refutando o argumento dele com palavras idênticas:

― E mesmo assim essa presidente vai competir e está contando com a sua confiança.

Permaneceu a encará-lo, tentando ao máximo convencê-lo. Se fosse outro a demonstrar preocupação, acharia uma afronta a si mesma; consideraria um abuso irritante e desnecessário. Mas no caso dele, a sensação era distinta. “Droga, Usui! Mesmo abusado continua sendo fofo!” Torcia para que ele compreendesse, porque o faria de qualquer maneira.

Takumi suspirou diante da expressão tenaz da morena, pois sabia que qualquer argumento seria inútil. Ela iria insistir. Como podia ser tão teimosa?

***

Merda, ele fizera de novo. Já repetira incontáveis vezes que detestava ser incluído nas manipulações e jogos do amigo, mas este deveria ser surdo. Ou idiota. Afinal, por que acreditara nas palavras de Suzuki Hideki mesmo? Talvez porque fosse um idiota também ― uma espécie que atrai seus semelhantes. No entanto, nada disto atenuava a raiva de Shintani.

Por que o levara a confrontar indiretamente aquele loirinho? Nada iria ganhar com isto! Apenas fizera com que voltasse o ódio para o rapaz errado. E pelo que percebera, este era insano o suficiente para mostrar-se interessado na Ayuzawa mais velha. Mas o que poderia dizer de si mesmo? Alimentou uma disputa inútil naquela corrida, para ao fim conquistar o quinto lugar. Uma posição atrás de Ryotaro, a quem realmente deveria focar-se. Mais uma vez: qual foi o objetivo daquele imbecil ao estimular a rivalidade entre ele e um garoto aleatório? Por sorte, o alvo das frustrações estava logo à frente. Tanto que pôde chamá-lo, no tom mais ameaçador que conseguira:

― Hideki...!

― Humm... ― Nem um pouco temeroso, o moreno de óculos pareceu analisá-lo. Concluiu o óbvio, sorrindo ingenuamente: ― Sua expressão está bem assustadora, Hinata. ― Cruzou os braços, balançando a cabeça de modo tão fingido que nem o mais ignorante dos seres não seria capaz de deixar passar a falsidade: ― Tenho pena de quem te deixou assim tão irritado.

― Então sinta pena de si mesmo. ― Tratou de deixar claro.

― O quê? ― Explicou, displicente: ― Eu falei que tinha que tomar cuidado com Usui Takumi, não que ele necessariamente estava interessado na pequenininha.

Socar um amigo era algo assim tão condenável? Os punhos quase coçavam com a vontade de atingi-lo. Contudo, Hideki sempre fora assim. E por vezes era divertido vê-lo irritar os outros sem se deixar afetar, mantendo aquele sorrisinho imutável e sacana. Disse, quase que para si mesmo, ainda ranzinza:

― ...Por que eu não me surpreendo?

O objetivo do representante do clube do shogi era simples: que melhor maneira de despertar a consciência de Shintani do que com a ameaça de um rival? Além disso, sabia do interesse de Takumi na presidente do Conselho desde que a namorada lhe dissera. Como previra, fora fácil manipulá-lo também. Se o resultado ultrapassara os limites imaginados e a fúria de ambos tivera crescido, bem, eram algumas desvantagens com as quais tinha de lidar. Porque, de alguma forma, aparentava ter surtido efeito. Indicou, pensativo:

― Parece que entendeu alguma coisa.

De fato, Hinata havia entendido. Querer que ninguém a tivesse era quase o mesmo que querê-la para si mesmo. Porque enfurecer-se com alguém que pretendia arrancar dela um beijo forçado não era exatamente algo que um amigo faria. Desejar fazer o mesmo também não, embora o foco divergisse um pouco disto em especial.

Apesar do desejo de agarrá-la, beijá-la, acariciá-la e fazê-la gemer, queria ser o único. E não sentia o mesmo por mais ninguém. A ideia podia não ser lá muito romântica, mas era sincera. Tanto que estava disposto a arriscar-se. Se antes pensara que poderia fazê-la sofrer caso tudo não desse certo, pondo em risco a amizade mais antiga para os dois, agora estava determinado a não deixar ninguém magoá-la.

Porque mesmo que existisse alguém que poderia gostar dela verdadeiramente, capaz de dizer todas as frases clichês e grudentas e dar-lhe flores de presente, era egoísta o suficiente para querê-la mesmo que fosse o extremo oposto. Se era insuportável pensar em si mesmo a machucando, o que diria de um estranho? Seria capaz de partir o infeliz ao meio.

E agora estava disposto a dizer a ela. Não sabia de que maneira, até porque uma declaração apaixonada estava fora dos seus planos. O que o levava de volta àquele que incentivara, mesmo que indiretamente, a esta decisão. Como de costume, Hideki exprimia a presunção de um jogador triunfante. Era tão irritante que qualquer boa vontade de agradecê-lo desaparecia completamente. Indagou, entre dentes:

― O que você quer?

Hinata era rabugento como ninguém, o que queria dizer que ‘obrigado’ não era uma de suas palavras prediletas. Além disso, não fizera aquilo para receber agradecimentos. Havia tido alguma diversão, conseguira convencê-lo do que queria e, o que realmente valia a pena, tudo saíra como planejara. Não poderia almejar nada melhor. Assim, como nada mais era capaz de fazer, somente disse antes de partir:

― Boa sorte na corrida.

Um ruído de resmungo deixou os lábios de Shintani. Aquele cara sabia como tirar alguém do sério.

Notas finais
¹ Hã... Vocês leram isso mesmo. Com cinco anos, Suzuna deu uma surra federal no Hinata e um dia eu explico isso em um especial sobre a infância dos dois. ² Os personagens continuam com a mesma aparência. O que significa que, mesmo sendo todo tímido e fofo, Usui ainda tem 1,86 m e é praticamente o mais alto da história (porque o Cedric tem 1,97 m). Então... essa é a segunda vez que escrevo esse capítulo. Porque perdi a pasta em que estava absolutamente TUDO sobre a fic. Todas as cenas futuras, como o encontro de Kanou com a irmãzinha do Yukimura, o evento especial do Maid Latte em que a Suzuna participa, o extra da infância do pessoal, a chegada do Gerard, a formatura... TUDO! E isso me deixou bem desanimada para continuar, tanto que essa versão do capítulo não está nem de longe tão boa quanto a primeira (mas eu tentei). Espero que entendam. Well, esse Festival (enfim!) tá acabando, tanto que vai acabar no próximo capítulo, dedicado exclusivamente à TakuMisa e SuzuHina. Mas aos fãs de yaoi: mais um casal de boys vai aparecer nos próximos capítulos =D Até!