Dr. Bennet o encaminhou para o ambulatório, diminui as luzes da sala, fechou as cortinas, pediu a medicação intra venosa para a enfermeira e se sentou ao lado dele.

_E então ... uma nova crise, Gilbert ?

_Está insuportável ... como nunca !

_Tem sentido as dores com frequência ?

_Não ... há algum tempo que não acontece.

_Vamos precisar o intervalo, depois daquela crise o ano passado, aconteceu mais alguma vez ?

_Não ... na verdade, não aconteceu mais. -Ele pensou que desde que começaram o relacionamento ele não tivera mais suas crises , o olhar que ele lhe lançou foi apaixonante. _Há meses que não acontecia, não é querida ?

Até aquele momento ela estava em silêncio, ainda tremia com medo.

_Sim, Gil.

O médico a olhou com atenção, depois se virou para ele.

_Você se casou ?

_Não, ela é minha namorada ... Sara !

Ele pareceu pensar por um momento.

_Estou feliz por você ... espero que me ajude com essa criança, Sara ... teimoso como tal, ás vezes merece umas palmadas.

Sar lhelançu um olhar engraçado, ele era engraçado.

_Nem mesmo uma dor menos intensa ?

_Não, nem mesmo !

A enfermeira o preparou e o medicou.

_Me diz como está sua rotina, Gilbert ?

_Como sempre.

_Nada de extraordinário ?

Ele se direcionou a ela, como se quisesse saber de detalhes específicos, não apenas respostas incompletas.

_Ele está sobrecarregado, doutor ... essa é a verdade. — ela confessou, sem se importar se ele iria gostar ou não.

_E sua alimentação nesses últimos dias ?

_Bem ...

_Sara ? — parecia um jogo de casais.

_Bastante deficiente, doutor.

_Sara ! — Grissom queria a advertir, mas depois se rendeu. Só o fato dela estar ali, já lhe valia muito.

O médico abaixou a cabeça e suspirou.

_Você vai ficar aqui para fazer alguns exames mais específicos, tomografia, e também laboratoriais. Minhas suspeitas é que seja emocional, sem contar com a sua alimentação desregrada. Está querendo se matar, Gilbert ?

Ela precisava saber mais, então com muita naturalidade perguntou ao médico.

_Quando acontecem essas crises tão intensas, existe alguma possibilidade de haver algum dano colateral ?

_Sempre há, principalmente se percebemos que a intensidade tem se agravado.

Ela olhou para seu namorado e ele percebeu o pavor em seus olhos, assim como o dr. Bennet também percebera.

_Existe a possibilidade de um tratamento preventivo ?

_Sim ... porém para o caso específico dele, acredito que algumas medidas devem favorecer o alívio.- Ele quis tranquilizá — la. _ A frequência com que acontece é muito baixa, mas não menos preocupante. Mas de qualquer forma deixe-me ajudá — la a entender melhor. Hoje trabalhamos com duas linhas básicas: remédios para usar durante a crise, e outros para evitar as crises, que são os neuromoduladores, cuja função é deixar o cérebro menos “agitado”. O tratamento segue duas linhas. Os analgésicos são indicados para crises fracas. Para as fortes, usamos medicações específicas, que é o caso, neste momento. Sabe, Sara ... a dor de cabeça pode devastar a vida da pessoa. Mas é possível melhorar a vida de quem sofre com esse problema.

De repente sentiu uma confiança excessiva no médico, tinha que fazer alguma coisa, ele não estava mais sozinho, havia ela .... e o amava, mais que a si mesma. Tudo o que ele fazia afetava diretamente a ela.

_Você quer acompanhá — lo nos exames ?

_Não precisa doutor ! — ele se adiantou, depois a encarou. _Sara eu ... vou ficar bem ... a dor já está mais suportável ... posso ficar sozinho.

_Tem certeza ?

Ela viu o médico sorrir, o conhecia bem para saber de sua teimosia.

_Quando terminar, posso chamar um táxi.

_Nem pensar, Grissom ! Venho buscá — lo, vou para o laboratório ... mas espero sua ligação.

O médico saiu, talvez ela quisesse dizer alguma coisa para ele, e não o queria por perto.

Ela aproximou — se delicadamente, tocou seu rosto e deslizou o polegar sobre suas sobrancelhas, num gesto extremamente carinhoso.

_Você vai ficar bem ?

_Sim ... não quero que fique preocupada comigo, querida !

Ela encarou seus olhos azuis, estavam avermelhados, ele ainda sentia dores, tinha certeza.

Sara relutou alguns instantes, uma mão apoiada no encosto da cama, e a outra agora passeava pelos seus cabelos, os dedos enroscados aos fios prateados, depois ela beijou seus lábios suavemente.

_Me ligue, assim que terminar. — ela sussurrou._Fique bom logo, meu amor !

Ela saiu e ao chegar à porta, o olhou mais uma vez. Se alguma coisa acontecesse a ele, talvez perdesse a própria vontade de viver. O que sentia estava se tornando cada dia mais profundo.

Ele a olhou também, uma emoção diferente tomou conta dele. O carinho dela chegou a comovê — lo, ia resolver aquela situação, não podia mais esperar ! Que viesse o problema que fosse para resolver, não queria mais que afetasse o relacionamento deles, ele a amava tanto que a possibilidade de pensar nela chateada com ele lhe cortava o coração.

..........

Ecklie resolveu integrar a equipe no lugar de Grissom.

Eles fizeram uma pequena reunião entre si e resolveram se unir, havia muito trabalho a fazer, era o momento de se entregar totalmente. Decidiram por uma convivência mais pacífica possível com Ecklie, provando a ele o que era uma equipe de verdade.

Todos estavam igualmente preocupados com seu supervisor.

A cada vez que um telefone tocava eles se olhavam entre si, num estranho código secreto.

Eles sabiam de sua enxaqueca, ela era famosa, mas da forma como o acometera desta vez, nunca tinham visto. Ele era amado, a prova estava ali, para quem quisesse ver.

Ecklie ficou impressionado coma a agilidade da equipe, e como eles pareciam entrosados. Teve que admitir que Grissom fizera um bom trabalho. Acusá — lo de pouco rendimento lhe trouxe um pequeno arrependimento, mas não diria a ele, talvez de outra forma e em outra ocasião. Era orgulhoso demais para tanto !

Ele quis saber como ele estava passando, Sara lhe deu todas as informações, e ouviu dele próprio que fosse buscá -lo quando estivesse liberado.

Ela estava feliz, de certa forma com a possibilidade de lhe passar tranquilidade, as coisas estavam se encaminhando muito bem.

O restante de sua equipe prometeu a Sara que o visitariam assim que pudessem.