Chains

3 Vai ter volta


Notas iniciais
Primeiramente eu sei que eu não sei nomear capítulo, não me apedreje ainda UHIDSHFSID Demorei mas consegui. Neste capítulo, você encontra: draminha, POV, draminha, gente com frio, draminha, dois focos narrativos em um mesmo texto, draminha. Já falei draminha? Draminha. Boa leitura ♥

Eu quero ver o que é. Mas esse nanico não me deixa. Na verdade, não é que eu não possa simplesmente sair andando e arrastar ele junto de novo; só sinto que algo me bloqueia de levantar dessa árvore. Talvez seja preguiça.

Mas não era. Você sabe disso.

Ouvi mais uma vez aquele tilintar metalizado, tão baixo que mal dava pra escutar. A luz insistia em acompanhar o som a cada timbre que ele dava, sincronizadamente, rasgando o céu em dois. Chega a ser irritante, porque aquela ânsia de curiosidade não ia embora, não importando o que eu faça para me acalmar. Era o mesmo sentimento que tive antes, quando acordei na sala de trono.

Eu passei o dia inteiro como um cachorro perdido, procurando o “nada” em um lugar repleto de “coisa nenhuma”, só porque Veigas quis. Esse desgraçado podia simplesmente morrer de uma vez, se isso não me levasse junto. Seria mais fácil.

Olhei de canto para aquela figura patética, deitada e completamente indefesa. No escuro, estava um pouco difícil de enxergar, mas nada que aquela luz incômoda não tivesse resolvido.

Não posso mentir, a única coisa que supera a curiosidade de saber que diabo de barulho é aquele, é a vontade de enfiar minhas garras na garganta desse infeliz. É tentador, mas se resisti mesmo estando com a minha cara à menos de cinco centímetros da dele, então devo aguentar.

Talvez você aguente.

O barulho dos metais me chamou a atenção mais uma vez; estavam mais altos, e seu ritmo menos frequente. Tentar ficar parado me deixava inquieto, então invoquei minhas asas novamente e voltei a mordiscá-las — isso me acalma um pouco. Um pouco, não o bastante.

Troquei a posição em que eu me sentava para ficar de frente à árvore de Veigas e comecei a chacoalhar a corrente, na esperança de acordá-lo. Evidentemente, foi inútil, já que ele parecia estar em sono profundo. Eu não iria gritar, não vou me dar o esforço de gastar minhas cordas vocais chamando-o. Neste ponto, já estava certo de que nesta noite eu não conseguiria fazê-lo acordar, e realmente eu não estou afim de carregá-lo nas costas de novo. Suspirei.

De repente, o clima simplesmente decidiu ficar mais frio, diferente de menos de dois minutos atrás, que estava razoavelmente agradável. Se eu estivesse normal, aguentaria sem incômodo, mas provavelmente pela perda de sangue que tive, comecei a tremer. Instintivamente parei de mordiscar minhas asas e as estiquei para então me agasalhar com elas, enrolando-as em volta do meu corpo e formando algo parecido com um casulo. Eu ainda sentia um pouco de frio através delas, mas minha temperatura tinha se normalizado.

Percebi que o tinido de metal ficava cada vez mais fraco, e a luz estava se dissipando lentamente. Me foquei em memorizar o mais rápido possível a direção da fonte daqueles sons — que era a mesma direção em que vinha a luz — e assim que o fiz, os sons se foram e o ambiente ficou cada vez mais escuro, só deixando a claridade da lua turva e inconstantemente azulada daquela dimensão irregular como fonte luminosa. Me recordo de as copas das árvores serem verdes, amarelas e avermelhadas quando estava de dia, mas enquanto regadas pela lua, ficavam tão azuladas quanto ela. Suas folhas faziam sombras cambaleantes no chão. Fiquei observando aquilo por um tempo, e logo me encontrei olhando para aquele nanico de novo. O ombro e o rosto dele estavam sendo iluminados já que as folhas não faziam sombra ali.

Ele estava muito machucado; seu rosto estava sujo do sangue seco de alguns arranhões que tinha levado. Hematomas o cobriam inteiro, e principalmente seu pulso direito, que me fez lembrar de mais cedo. Até agora, não me tinha caído a ficha completamente de que eu tinha o carregado. Eu ainda consigo sentir a sensação daquilo. Era estranho, e eu estava ficando confuso. Impensadamente, levei uma de minhas mãos as minhas costas, tentando reavivar aquela sensação.

Não demorou tanto para que eu notasse meus devaneios e perguntasse a mim mesmo sobre o que raios eu estava pensando. Talvez a queda de temperatura tivesse congelado minha cabeça.

Eu ainda estava olhando para ele, rapidamente percebendo que ele estava com frio, já que seu corpo estava todo encolhido, provavelmente tentando reter calor corporal involuntariamente. Toda vez que eu expirava, uma fumaça se formava por conta da baixa temperatura, e por isso, consegui perceber que o nanico estava respirando rápido. Rápido demais. Maldito frio.

Mas você não sabia o porquê de estar praguejando o frio ao vê-lo assim. Talvez... talvez você devesse...?

Não. A culpa não é minha se ele se ele gosta de se vestir com roupas do mesmo tamanho da própria paciência, eu não sou nenhuma babá.

Desviei meus olhos dele, tentei achar qualquer coisa para me distrair, fechei meus olhos e procurei tirar mais um cochilo, mas assim que o som da respiração dele falhou sequer uma vez, lá estava eu que nem um idiota olhando pra ele de novo. O que aconteceu comigo?

Comecei a me perguntar desde quando sou assim. Possivelmente o fato de eu ter passado a andar com a Grand Chase tenha me amolecido, porque eu finalmente admito estar preocupado com ele. Preocupado com esse nanico infernal, preocupado que ele vá morrer de hipotermia ou algo do tipo, ainda que esse mesmo desgraçado tenha tentado me matar e eu ainda queira muito ter o pescoço dele na minha foice.

Mas a Grand Chase não era desculpa, porque você sabia que mesmo lutando ao lado deles, nunca tinha sequer mostrado alguma inquietude ao ver as vidas deles em risco, nem de Lire, que era a mais próxima de você em todo o grupo. Porque, no final, eles sempre estariam bem. Eles são fortes o suficiente para se cuidar, e mesmo que você não estivesse ali, eles conseguiriam se virar muito bem. Não precisavam de você. Mesmo se você morresse, até a tribo demoníaca na qual você pertence acharia um novo líder em um piscar de olhos. Ninguém dependia de você. No entanto, aquela pequena criatura morrendo de frio do outro lado das suas correntes parecia depender. E por isso você se preocupava. Mas você relevou tudo isso pensando que era culpa de que a morte de Veigas significaria a sua também. E não era a primeira vez no dia essa mesma desculpa foi usada pelo mesmo motivo.

Minha cabeça estava um nó e eu não conseguia desviar meu rosto dele. Ele tossia de vez em quando, e cada vez que fazia isso, me dava agonia. Eu não quero ajudá-lo, realmente não quero. Não fazia sentido.

Meu braço, sem meu comando, ergueu-se sozinho. Minha intenção agora era invocar chamas próximas ao nanico afim de aumentar sua temperatura. Por mais que eu me esforçasse, eu não conseguiria invocar em uma distância que ficasse perto o suficiente dele. Quando estava em Ernas, eu conseguiria com grande facilidade conjurar o próprio inferno sobre a crosta terrestre, mas aqui, mal consigo que uma pequena labareda se acenda onde eu quero. Sério, de onde veio essa friagem toda?

Se antes eu estava decidido em não arredar o pé daqui, agora eu estava quase me levantando. “Quase” me levantando não; eu já estava de pé. Eu já tinha pisado em todos os princípios asmodianos tantas vezes hoje, que mais uma vez não faria diferença. Comecei a me aproximar, em passos lentos, enquanto a corrente arrastava algumas folhas no chão. As minhas asas, ainda enroladas sob meu corpo, me dificultavam um pouco. Ao chegar perto o bastante dele, consegui fazer o que queria, finalmente. O fogo era quente só para aquecê-lo sem o queimar. Poucos instantes após eu ter conjurado o fogo, ele já parecia não sentir mais frio algum, suas tosses pararam e sua respiração se normalizou. Me aliviei.

Me aliviei? Eu estava tão nervoso assim?

Claro que estava.

Com preguiça de voltar até onde eu estava antes — e porque eu não podia me distanciar senão o fogo se apagaria — me sentei naquela árvore mesmo, do lado oposto do tronco em que o nanico estava apoiado, e enfim fiquei “sossegado” o bastante para relaxar os músculos e dormir. “Sossegado” não, porque na verdade eu estava uma pilha.

Não consegui sonhar com nada, pois logo fui acordado de novo. Abri um pouco meus olhos, só o suficiente para notar a claridade da manhã, que me fez piscar. Pelo visto, eu não tinha dormido tão pouco assim quanto achava que tinha. Eu ainda estava grogue de sono, mas percebi uma silhueta em minha frente. Esfreguei os olhos com a mão direita para ver melhor. Era Veigas, que estava sentado a uma distância de mais ou menos dois metros de mim, conversando com aquele cubo falante dele. Eu não tinha mais visto o cubo desde quando fugi do dragão serpente.

— Mestre, parece que ele acordou. — O cubo alertou o nanico, ao mesmo tempo em que flutuava em minha direção.

Em resposta, Veigas só olhou para mim, bufou e desviou o olhar de novo, passando a mão no próprio cabelo. O Tesserato continuou vindo, e ao chegar perto o suficiente, pareceu murmurar que me agradecia por algo. Não prestei muita atenção.

Desenrolando minhas asas de mim, eu as estiquei, espreguiçando-as. O tempo parecia ter se normalizado, e o frio tinha ido embora. A chama que acendi ainda estava ali, atrás de mim, acesa. Eu a extingui, respirei fundo e me levantei da árvore em que estava encostado. Quando fiz isso, senti cheiro de sangue, e procurando a origem do cheiro, mais uma vez olhei para o nanico. Ele ainda estava sangrando, um pouco, mas sangrando. Na verdade, ele sangrava bastante.

— Tá olhando o quê? — Quando ele disse isso, percebi que eu o tinha encarado por tempo demais, de novo. Não sei quando peguei essa mania.

— Mestre, você está sangrando de novo. Recomendo que faça algo para estancar o sangue. — O Tesserato respondeu por mim.

Sem falar nada, Veigas colocou a mão sobre a ferida que estava mais evidente nele — a do abdome, onde o dragão serpente tinha o acertado por último — para comprovar se o sangue realmente estava lá. Alguém normal sentiria a dor do machucado e saberia se está ou não sangrando sem nem mesmo olhar. Mas eu sei muito bem como é isso, porque já passei pela mesma situação diversas vezes no passado: estar tão ferido, sentir tanta dor que o corpo se rejeita a te deixar sentir mais, e você passa a ficar com a área infligida relativamente dormente.

O nanico ficou parado, olhando a mão coberta do próprio sangue por um bom tempo. Ele levantou um pouco a camiseta para olhar. Mesmo que ele parecesse calmo com a situação, eu tinha certeza que ele não sabia o que fazer e nem como proceder. O tempo que ele ficou parado era o suficiente para eu perder minha paciência.

Como eu disse antes, eu já tinha feito tanta coisa que contradizia a mim mesmo desde que cheguei aqui, que mais nada podia me deixar encabulado. Se ele está acordado ou não, não importava.

Tirei meu colete deixando-o pendendo em meu quadril, desamarrei as faixas que ficavam na minha cintura e comecei a me aproximar dele. Logicamente recebi um olhar de “o que você está fazendo? ”. Ignorei, e com o rosto mais frio que pude fazer, puxei Veigas pelas correntes, fazendo-o virar-se para mim, erguendo o braço que foi puxado, para assim eu conseguir pegá-lo pelo pulso.

— O qu...!? Me solta, desgraçado! Agora! — Ele agarrou meu braço tentando se livrar da minha mão. Sério, ele realmente acha que machucado desse jeito ele consegue fazer algo contra mim?

Sentei-me no chão próximo a ele, colocando o pulso dele entre meus dentes tentando imobilizá-lo, e enquanto ele me chutava e gritava ordens para eu parar seja lá o que eu estivesse fazendo, levantei a camiseta dele até a área do estômago. A situação ali realmente não estava bonita, mas não era a pior coisa do mundo. Um corte razoavelmente profundo coloria todo o torso dele de vermelho.

Ele continuava berrando muito. Respirei fundo, me contendo de não meter um murro bem dado na cara dele pra ver se ele cala a merda da boca.

— Fica quieto. — Falei, estressado, com o som bem abafado pelo pulso dele.

— Me larga, seu maldito! Tesserato, faça alguma coisa, inútil! — Ele continuou aquele escândalo dele como se não tivesse me ouvido, se debatendo como um gato dentro d’agua.

— Fique quieto. — Repeti.

Mas ele continuou.

— Fique quieto. — Repeti de novo.

Mas ele continuou.

— FICA QUIETO, PORRA! — Gritei, já em cólera.

Senti um gosto metálico na boca. Ah, eu acabei mordendo o pulso dele com força demais, devo ter tirado sangue. Mais sangue do que ele já perdeu. Legal. Realmente legal, porque ele pareceu se acalmar. Se acalmar que eu digo é parar de berrar e me chutar, porque ele ainda devia estar furioso. Ele parecia um pouco tonto, talvez de pressão baixa de ter se mexido tanto, enquanto sabia que lhe faltava muito sangue no corpo.

Aproveitei aquela trégua momentânea para continuar o que pretendia fazer. Rasguei um pedaço das faixas que eu tinha desamarrado de mim anteriormente, e ainda com a camiseta dele levantada, limpei um pouco o sangue que o sujava ali. Olhei de relance para a face dele, que estava observando minha mão se movendo pelo seu abdome com espanto. Ele ergueu o rosto para mim com a mesma expressão. Obviamente que ele faria uma cara dessas, até eu mesmo estava um pouco espantado comigo mesmo.

Tentei mais uma vez usar o mínimo de força possível, coisa bem difícil de se fazer, ainda estando irritado por antes. Enquanto eu fazia aquilo, às vezes ele tremia um pouco, às vezes fechava os olhos e respirava fundo.

E você acha interessante, mesmo sem saber o porquê.

Terminei de limpar o que podia, e joguei para longe o pedaço de pano vermelho escuro que tinha virado a faixa. Peguei o restante das faixas e comecei a enrolar em volta do corte dele, como um curativo. Tentei lembrar de tudo o que a Lire fazia quando me dava curativos no QG da Grand Chase, e tentei imitar até mesmo a quantidade de camadas de esparadrapo que ela tinha uma vez dado no meu braço.

A cada volta de faixas que eu dava no nanico, mais eu via uma confusão inexplicável desenhada no rosto dele. Permaneci focado no que fazia; quanto mais cedo aquilo acabasse, melhor.

Na última volta, apertei com um pouco mais de força. Ele deu um pequeno, quase inaudível ganido de dor. Fiz um nó naquele curativo improvisado e afastei minha cabeça para ver melhor o resultado. Não estava ruim, estancou o sangue eficientemente.

Afrouxei o pulso dele dentre meus dentes, e percebendo isso, ele retirou o braço dali na mesma hora, coberto com o que parecia ser o sangue dele e a minha saliva. Ele ainda me olhava com aquela boa mistura de espanto e confusão. Não dando mais atenção a isso, do contrário eu perderia a cabeça, me levantei, vesti de novo meu colete e comecei a procurar em qual direção eu tinha ouvido aqueles barulhos de noite. Logo me recordei, mas quando eu ia começar a andar, fui interrompido.

— Ei. — Ele me chamava, com hesitação — Por quê?

— ... — Eu não sabia como responder. “Porque sim” não era uma opção, e todas as outras que eu tinha... Eu não falaria nem se eu fosse morto. A explicação que eu escolhi dar era mais plausível e vazia que existia — Porque eu quis.

— Você sabe que eu quero te matar.

— Eu sei. Eu também quero te matar.

— Então, por quê? — Ele reforçou a mesma pergunta.

— Eu já disse, porque eu quis. — O tom de voz que saiu da minha garganta não foi exatamente o tom que eu pretendia.

Olhei de canto para ele. A expressão confusa dele tinha desaparecido assim que eu terminei de falar, substituída por um sorrisinho de quem sabe mais do que deveria. Ele ficou me encarando confiante de algo.

— Que foi? — Encarei-o de volta.

Ele ergueu o braço direito, o que eu tinha mordido, mostrando a marca que meus dentes tinham deixado nele. Estava escorrendo sangue.

— Vai ter volta. — Ele, ainda com aquele sorriso irritante, lambeu o próprio pulso o mais lentamente possível, “limpando” com a língua um fio de sangue que percorria ali, ainda olhando para mim. Com certeza, só para me provocar.

Eu não sei porque raios eu ajudei esse infeliz. Fingi ignorar aquela provocação e comecei a caminhar em direção aos sons, só antes relembrando de onde tinham vindo, pois ele me fez esquecer por um breve momento. Alguns passos depois, eu já ouvi alguns ruídos atrás de mim, indicando que o nanico tinha se levantado e também começado a andar, sem nenhuma aparente resistência.

— Não vai me contradizer e querer ir por outro lado? — Era a minha vez de provocá-lo.

Ele revirou os olhos em meio a um “cala a boca”. Eu sorri de leve, quase cantando minha vitória. E por mais incrível que pareça, ele sorriu também. Aquele mesmo sorriso irritante de sempre.

Andamos uma boa quantidade de tempo pela floresta. O nanico mancava um pouco e caminhava com a ajuda do cubo. Comparado a quando estava no campo, o ritmo que eu andava era bem lento, para que ele conseguisse ao menos me acompanhar.

O Sol estava um pouco mais forte, e olhando-o entre as árvores, talvez fosse uma hora da tarde. E foi aí que o nanico empacou mais uma vez. Até pensei em ficar bravo, mas lembrei que ele estava machucado, com falta de sangue e provavelmente com as pernas doendo da caminhada de ontem, então relevei, diminuindo ainda mais o ritmo.

— Por que você ainda quer ir por aqui, se até agora não teve nada? — Ele disse, com a respiração rápida e pesada. Foi até um pouco de surpresa para mim ele começar a falar diretamente comigo do nada. Parei de andar.

— Eu ouvi algum som vindo dessa direção.

— Ah — ele não parecia nada convencido — e como eu vou saber se você só está falando isso para me convencer a continuar andando por onde você quiser?

— Talvez porque quando eu ouvi, você estava dormindo. — Ele acha mesmo que existem motivos para eu inventar historinhas agora, sendo que isso pode levar à minha morte?

Antes que ele pudesse responder, o cubo se pronunciou.

— Realmente tinha alguns barulhos por aqui, e um feixe de luz vindo da mesma direção. — Quase agradeci mentalmente por isso. Me pouparia de muito desperdício de saliva desnecessário.

Só contradizia o fato de que aquele cubo não estava presente no momento que eu ouvi os barulhos de noite. Mas se eu perguntasse agora onde ele estava, denunciaria essa “mentira” dele. O porquê de ele ter me ajudado mentindo desse jeito, eu não faço a menor ideia.

Veigas deve ter acreditado na palavra de sua arma, pois ele suspirou, fechou os olhos e sentou-se na relva. Pensei que ele faria todo um teatro novamente, esperando que eu sentasse primeiro, mas ele apenas se jogou como se sua vida dependesse disso. E mais ou menos dependia, no estado em que ele estava. Não se passou muito tempo para eu perceber que ele tinha cochilado.

Desde quando você se sente tão seguro perto de mim a ponto de cochilar bem na minha frente, nanico?

Se bem que eu tinha dado motivos. Motivos bem óbvios para ele não me considerar mais uma ameaça. Isso me incomodou. Porque eu ainda quero ser uma ameaça para ele. Mas agora, eu não posso fazer nada. Nada que não o mate.

Você realmente ainda conseguiria fazer algum mal a ele?

Sim.

Mais ou menos vinte minutos depois, ele tinha acordado e começado a se levantar.

— A bela adormecida finalmente despertou? — Eu não perderia a chance.

— Anda logo. — Previ que um “seu idiota” sairia da boca dele, mas ele só arfou e começou a andar de novo, e eu o acompanhei.

E assim fomos indo. Andando, parando para ele descansar, retomando a caminhada e parando de novo. Eu posso dizer que fui bem mais paciente do que eu mesmo me permito. Mas tudo foi recompensado, no final. De longe, consegui ver algo de diferente, finalmente. Pareciam muralhas, mas as árvores eram tão altas a ponto de bloquear quase toda a visão, e eu não posso sair voando para cima delas repentinamente para confirmar, já que eu ia acabar com aquela peste pendurada em mim de novo. A única opção era continuar andando.

O cubo estava piscando cada vez mais rápido assim que íamos chegando mais perto daquilo. Acelerei o passo.

Após alguns minutos, chegamos perto o suficiente para confirmar a muralha, feita de tijolos de pedra lisos, com aparência beirando o medieval.

— Isso é prova o suficiente para você que estamos chegando a algum lugar? — Eu não conseguia mais ficar calado.

— Mas eu vou voltar pro campo depois. — Ele retrucou, olhando para cima tentando medir a altura da muralha.

— Pensei que a ideia de ir por lá tinha sido descartada no momento que você foi surrado pelo dragão cinza.

— Por isso que eu vou voltar. Eu quero vingança. — Ele parecia confiante. Repentinamente, ele ergueu o braço, e apontou a margem da muralha. — Vai, faz teu trabalho.

Por um momento, pensei que ele estava dando ordens para o cubo dele, mas era para mim. Na realidade, soou mais como um pedido que podia ser traduzido como “estou cansado e não quero mais andar para a entrada de seja lá o que isso for, voe e me leve até lá em cima. “

— O quê? — Me fiz de bobo só para irritá-lo um pouco mais.

— Ande logo, use essas asas para alguma coisa, besta.

— Peça direito. — Continuei importunando-o.

— Vá a merda.

Sorri. Ele reusou o olhar dele de “vai ter volta”.

Estendi minhas asas e comecei a voar. Ele agarrou as correntes com a mão esquerda, aliviando a pressão na direita que estava machucada tanto pela algema quanto por mim. Saí das copas das árvores. Na altura de metade da muralha, meu equilíbrio aéreo já estava sendo desafiado pelo nanico de novo. Você nunca sabe ficar quieto?

Ao chegar na margem, desconjurei minhas asas e fiquei de pé lá em cima.

— Ei, seu idiota! — Ouvi ele gritando.

Ele estava pendurado do lado de fora da muralha. Fiquei parado olhando para ele por alguns instantes aproveitando a visão dele irritado, até perceber que ele já estava me assassinando com os olhos. Puxei ele para cima com as correntes, e assim que ele ficou de pé, jogou uma faísca de magia dimensional na minha cara. Não doeu muito, no máximo deve ter tirado um pouco de sangue; coisa que não me faltava tanto quanto ele. Eu tive vontade de revidar, entretanto, a situação dele estava tão deplorável que qualquer coisa parecia poder desmontá-lo.

O cubo ainda flutuava do seu lado, não saia de perto dele. E estava piscando tão rápido que parecia completamente aceso.

Olhei para o interior da muralha. Uma cidade, com um castelo ao canto. O chão em sua maioria era ladrilhado em branco, e tinha casas espalhadas por todos os lugares ao redor do castelo, com telhas azuis. Um pequeno coliseu parecia ser o atrativo do Oeste daquela cidade: um coliseu fechado, feito de vidro, reluzindo o Sol da tarde. Ao Norte, um trio de enormes sinos prateados eram polidos por pequenas formiguinhas que pareciam ser pessoas ao longe. O céu, como sempre, coloria tudo o que tocava, deixando a cidade lilás alaranjada, e toda vez que uma nuvem passava por cima do Sol, as cores originais voltavam: branco e azul, por todo o lado.

— Finalmente, alguma coisa interessante por aqui. — O nanico fazia sombra aos olhos.

— Pois é, e não foi pelo campo. — Eu continuaria a pressionar o mesmo botão até que ficasse satisfeito.

Ele já devia estar irritado, e com uma voz que se esforçava para não soltar um grito de raiva, perguntou:

— E agora, que cidade é essa mesmo?

O cubo continuava piscando, piscando muito. Ele aparentava querer responder, mas parou, porque parecia não precisar falar nada. E não precisava.

Olhei em uma bandeirola pendurada no exterior do coliseu, que continha um brasão em formato de um candelabro. Eu já tinha visto este brasão antes, e sabia de onde ele pertencia.

Era o brasão do reino de Serdin.

Notas finais
Oi de novo. Desculpa esse Veigas bugado aí (e a imagem estar espelhada, porque ficou melhor espelhado). Juro que tô fazendo o meu melhor, ou tentando. Espero que se prepare, porque vai ter MAIS draminha, eu adorei escrever draminha e vou continuar fazendo isso MUAHAHAHHAAHAH Essas mudanças de narrativa de começar a fic em terceira pessoa e mudar pra primeira e segunda pessoa ainda é um teste (na qual eu estou infinitamente insegura, aliás) ç^ç Pra quem quiser a imagem completa (a do cap é só um recorte): http://blackfoxu.deviantart.com/art/fanfic-cover-Be-quiet-652100515