Notas iniciais
Oi, só queria dizer que esse cap atrasou e eu fiquei fazendo a imagem dele a noite inteira sem dormir. Eu te odeio perspectiva, do fundo do meu coração, EU TE ODEIO. Até as notas finais onde você me presenciará sobre os efeitos ilícitos do sono. OBS: Sim, não precisa repetir, eu sei que sou uma merda em fazer títulos. OBS²: Como já deve ter percebido, se não clicar na imagem do capítulo pra dar zoom, a expressão deles fica meio bugada. Então clique e, "Ver imagem", senão a cara do Dio bugado vai lhe assombrar pro resto da tua vida.

— Parece ser um dos reinos de Vermécia. — Dio respondia a Veigas.

— Vermécia? Vermécia... — Veigas ponderava — Oh, eu me lembro. Vermécia é aquele continente próximo à Trivia. Espere, Vermécia? Nós estamos em um reino de Vermécia?

— Serdin, para ser mais exato, Mestre. — O Tesserato, na verdade, não tinha certeza de sua resposta. Ele continuava piscando freneticamente.

— Então quer dizer que essa dimensão que estou é Ernas? — Disse Veigas, com uma ponta de descrença.

— Os dados dimensionais daqui são tão conturbados que é impossível dizer que aqui seja Ernas. — O cubo explicava. — Talvez uma dimensão paralela, mas definitivamente não é Ernas.

— Pronto. Estamos em Serdin, que fica em Ernas, só que não estamos em Ernas. Faz sentido. — Veigas revirava os olhos em sarcasmo, fazendo sua arma decidir não o responder mais. Alguns momentos depois, tornou a falar. — Como faz pra entrar aí dentro?

E recebeu o olhar indignado de Dio.

— Sério? Você quer entrar aí, mesmo depois do cara de cinza?

— Por acaso eu andei até aqui só pra ficar olhando? Claro que vou entrar. — Enquanto falava, levantou-se e começou a fazer algo, sem que Dio percebesse.

— Você tentou pensar na hipótese de todo mundo daqui ser igual àquele cara?

— Ah, sobre isso, tudo bem. Eu já tenho o meu plano.

Ao dizer isso, Veigas aproximou-se de Dio, enquanto era acompanhado pelos olhos do mesmo.

— O que está fazen...--!? — Antes que terminasse sua frase, Dio já estava em queda livre.

Veigas havia o chutado para dentro da muralha, sem nem um pouco de ressentimento por quem o ajudou. Ao invés de sentir o mínimo de remorso, estava lá em cima, rindo. “Quem é que está pendurado desta vez, chifrudinho? ”

— Esse é o seu plano, seu desgraçado!? — Dio agarrou-se à parede com a garra, para não ficar balançando de um lado para o outro.

— Você vai primeiro e comprova se eles são ou não iguais ao cara de cinza. Se forem, você dá seu jeito aí. — Veigas sentou-se na ameia em que a corrente estava amarrada, pendurando Dio. Era o que ele tinha feito anteriormente sem que o maior percebesse.

E para sua sorte, não tinha nenhuma fera colossal indo atrás da cabeça de Dio, mesmo após ele ter vociferando um grande leque de xingamentos em um tom de voz tão alto que dava para se ter certeza que ao menos metade daquela cidade escutaria.

Estendendo as asas, começou a voar para cima de novo, desejando insanamente ter o pescoço de Veigas entre seus punhos. E Veigas, já esperando por isso, desamarrou as correntes da ameia, e com a mesma cara que sempre fazia, se jogou muro abaixo. Diante do peso repentino, Dio acabou se desequilibrando do voo e caindo junto.

A queda mal durou dez segundos, e Veigas já estava com os pés do outro lado da muralha, seguido pelo Tesserato e por Dio, que mesmo tentando bater as asas o mais rápido que pôde para se reequilibrar, conseguiu a proeza de cair como um saco de batatas no chão. Essas suas tentativas falhas tinham amortecido bastante a queda de Veigas, mas não a dele próprio.

— As casas parecem bem maiores aqui em baixo do que lá em cima. — Veigas fingia muito bem não ter notado a fúria do outro logo atrás de si, mas ainda estava um pouco tonto.

Dio desinvocou suas asas, levantou-se da posição totalmente vergonhosa em que estava e sem nenhum receio, apanhou a garganta do menor. Para ele, parecia que ter aquele pescoço em sua mão era a melhor sensação do mundo. Mas ao invés de tentar contestar, Veigas só deixou um pequeno riso sair de sua boca.

— Você quer morrer, infeliz? — Dio envolvia a garganta do outro com um pouco mais de força.

— É claro — ele respondeu, com uma voz que apesar de um pouco falhada pela tontura, não deixava de ser irônica — e a melhor parte é que você vai junto.

E continuou a sorrir. Não importando o quanto seu pescoço fosse apertado, Veigas continuava a sorrir. E isso importunava Dio. Por que ele sorria?

Encarando aqueles olhos dourados em silêncio por alguns momentos, o soltou. E massageando a garganta, Veigas deixara escapar mais um risinho, quase fazendo Dio querer agarrá-lo mais uma vez, mas logo o ato foi interrompido. As orelhas de ambos se remexeram ao som de alguém correndo em suas direções.

— Ei! Vocês estão bem!? — Os dois olharam para a direção daquela voz, descobrindo que a fonte dela era uma mulher morena gritando e correndo na direção deles, acompanhada de uma ruiva que vinha ao seu lado.

Eles estavam sem reação. Deviam correr? Atacar? Tentar gritar de volta? Esperar as duas virarem dragões para terminarem de matá-los? Para qualquer decisão além dessa última, já era tarde demais. Elas já estavam a menos de quatro metros.

— Vocês estão bem? — A morena repetiu, desta vez já perto o suficiente para não precisar gritar — Eu vi os dois caindo da muralha! — Ela não expressava nenhum tipo de agressividade, somente preocupação.

Seu cabelo escuro era curto, liso e um pouco esverdeado, e ela trajava-se com um vestido azul e branco que alcançava até abaixo de seus joelhos, parecendo até mesmo um uniforme, pelas cores serem tão parecidas com todas as estruturas da cidade.

— Não parecem nada bem, eles estão acabados. — A ruiva, que tinha um pouco menos de altura, respondeu por eles.

Já ela, completamente diferente da morena, usava seu cabelo laranja e ondulado preso em um rabo de cavalo que seguia até os ombros, e sua roupa parecia um traje de batalha, misturando malha, couro e metal.

— Principalmente o menorzinho! Vocês querem ajuda?

— “Menorzinho”? Quem você tá chamando de baixinho, insolente!? — Veigas retrucou na mesma hora, já se virando em direção a ela com uma faísca de magia dimensional na mão. Mas quando atirou, a de cabelos escuros se defendeu com as costas da mão como se não fosse nada.

— Calma, calma, a gente só quer ajudar. — A mesma tentava acalmar a fúria de Veigas — Vocês não são daqui, são?

— Não é possível que eles sejam daqui, nunca vi nenhum dos dois pelas redondezas. E... — Respondeu a ruiva levando a mão ao queixo e analisando os dois — Eles são dois elfos. Olhe as orelhas.

— Elfo!? Não ouse me chamar dessa raça inferi... — Veigas teve seu grito cortado pela mão de Dio tapando sua boca e jogando-o para trás.

— Sim, somos elfos. E não sabemos onde estamos. — Ele pronunciou-se de maneira rude, mas a mais educada que sabia.

— Oh.... Certo. É meio difícil de acreditar que vocês não saibam onde estão, mas de todo modo... Aqui é Serdin, o reino da magia. — A morena respondeu, ainda cheia de bom grado em sua voz.

Agora, eles tinham a completa certeza de que realmente estavam em Serdin. Dio, já com sua dúvida saciada, se pôs a andar, sem nem mesmo proferir sequer uma sílaba em agradecimento pela informação dada. Veigas ainda estava fulo da vida; contudo, ele sabia que não ganharia nada ficando mais tempo parado, dialogando com aqueles “humanos insignificantes”, então seguiu o outro.

— Ei, esperem. Vocês estão machucados pra caramba, realmente não querem nossa... Ajuda? — Mas antes que a ruiva terminasse de falar, eles já tinham se afastado e ido embora. — Puts... Quem será que eram eles, Arani? Deram o fora antes mesmo de eu poder perguntar o nome...

— Não sei, Nahu. — A morena sorriu docemente, olhando para onde os dois estavam antes de sumir. — Elfinhos estranhos.

— ...Ei, Arani. — A ruiva tornou a falar.

— O que foi?

— O maiorzinho não tinha chifres?

—------------------------------------------------------------------------------

Sem demora, eles já estavam perto do centro da cidade, e mesmo assim a cor predominante ainda era somente azul e branco por todos os lados. Algumas pessoas rodeavam o local, e um terço dessa gente usava uma roupa da mesma cor da cidade, semelhante à mulher morena que encontraram antes.

Dio se pôs a analisar a área silenciosamente calmo, diferindo-se de Veigas que já estava indo de encontro com um dos que perambulavam por lá.

— Você! — Gritava ele para um cidadão que passava, fazendo-o parar e olhar com incerteza. — Sim, você!

— O que foi, pirralho? Fale rápido, estou apressado. — Respondeu o sujeito, que também se trajava daquela espécie de uniforme.

— Tch... “Pirralho”... Todos vocês têm vontade de ir pro caixão, insetos? — Disse Veigas já em descontrole, esquecido do que queria perguntar.

— Ei, olha como fala comigo. Você tem ideia de quem sou eu, anãozinho?

— Eu não tenho mínimo interesse em descobrir os nomes dos insetos que vou esmagar.

E um segundo depois já havia se formado uma roda de pessoas em volta deles, todos murmurando. Dio, que estava distraído e um pouco afastado do lado de fora do tumulto, olhou para a multidão amontoada.

Curioso, ele observou tentando saber o motivo daquilo. Até olhar para a extensão das suas correntes e descobrir que a pessoa presa do outro lado delas estava dentro da roda. “Não é possível...” ele pensava, enquanto tentava descobrir o porquê de Veigas sempre querer arranjar confusão em um espaço tão curto de tempo. Torcendo para não ser mais nenhum problema, se espremeu entre as pessoas e entrou na roda. Quando conseguiu, se deparou com três coisas: pessoas de todos os tipos com suas bocas totalmente abertas, algumas manchas pequenas de sangue no chão, e a fonte daquelas gotas de sangue, que era um homem loiro aparentemente não muito velho, sendo segurado pelo colarinho de sua roupa por nada menos que Veigas.

Aquele homem mostrava-se totalmente abatido fisicamente, como se uma manada de elefantes tivesse passado por cima dele. Ele cuspia sangue, mas não tinha ferimento nenhum a não ser uma marca de punho no rosto. Uma marca bem feia, quase negra, exibindo um formato de dedos com algumas depressões que denunciavam que a pessoa que tinha o socado usava anéis. Se isso não deformasse a cara daquele ser permanentemente, era certo de que deixaria um roxo enorme.

Sobre quem tinha sido o agressor, a resposta era mais do que óbvia.

Mas para qualquer um além de Dio, não era tão fácil assim de engolir que Veigas tinha o socado, já que ele não apresentava um físico muito “lutador”, mas sim um físico pequeno e esguio, sem muitos músculos visíveis. Sendo assim, a concepção de que ele conseguiria dar algum golpe forte o bastante para fazer um estrago daqueles era perto de nula. Porém, valia lembrar que mesmo Veigas parecendo fraco, ele era asmodiano, o que lhe conferia uma boa vantagem de força em comparação à um humano normal, e até a grossa porta da sala de trono de antes ele conseguira amassar.

E mesmo depois daquele “feito”, Veigas ainda não estava satisfeito, já acumulando energia em sua mão para terminar de matar o homem. Ele estava tão absorto em seu próprio mundo, que mal notou a população em sua volta. Um sorriso estampava seu rosto. Não o sorriso de desdém, não o de ironia, mas um sorriso maligno, cheio de sede de sangue. Ele já estava pronto para lançar seu ataque.

“Devastar”

Mas é claro que alguém tinha de o interromper. Era muito previsível, já que ele estava chamando muita atenção.

Um velho com uma longa barba branca, vestido de uma túnica violeta, viera desesperado tentar parar Veigas de seu ataque, este que estava tão distraído que não percebeu o ancião se aproximando. O velho pegou-o pelo braço o fazendo errar o golpe que foi em direção ao céu, para logo depois afastá-lo do homem machucado.

— Por favor, jovens! Parem com isso, ou vão acabar matando um ao outro! — Bradava ele, fazendo gestos para que ambos parassem. — Principalmente você! Você nunca foi um dos mais comportados, mas eu nunca pensei que arranjaria tantas brigas! — Virou-se para o homem machucado, gritando ainda mais alto.

Enquanto ele estava ocupado dando sermões no homem que mal parecia ouvir por estar tonto demais, Dio puxou a corrente bruscamente, tirando Veigas daquele meio o mais rápido que pôde.

— Uh, você de novo. — Veigas parecia acordar de um transe. — Perdeu a melhor parte.

— O que diabos você tá fazendo? — Irritado, Dio falava baixo para que só Veigas escutasse — Quantos problemas você quer arranjar, desgraçado?

— Foi aquele verme insolente que começou. — E depois de ter falado isso, perguntou a si mesmo qual a razão de estar tentando se explicar. — Mas do que importa? É só um humano.

— Vamos logo embora daqui, porque depois de você ter quase matado um deles, duvido muito alguém querer cooperar.

Mas quando os dois já iam se virando para sair dali, o velho quis os parar.

— Espere jovem, espere!

Os dois continuavam andando, mas ele insistiu.

— Por favor, espere um momento, eu queria falar contigo!

— O que é, velhote? — Veigas parou de andar.

O ancião chegou mais perto, e passando a mão ossuda pela própria barba, olhou Veigas por inteiro, até chegar em seu pulso direito, e por consequência a corrente. Fitou-a por um breve momento, mas logo voltou a falar.

— Vocês não parecem ser daqui das redondezas. De qual grupo élfico você e seu amigo são?

— Ele não é meu amigo e eu não sou um elf... — Mais uma vez Veigas teve sua boca tapada.

— Não pertencemos a nenhum grupo élfico. — Dio respondeu.

— Oh, que estranho... Normalmente os raros elfos que existem são todos sobreviventes do grupo de Eryuell... Mas basta disso! O que eu queria falar é sobre a magia que vi o jovem usando agora a pouco. Nunca vi nada parecido em anos. Você é aluno de alguma academia de magia? — virou-se para Veigas.

— Não, eu nunca precisei de algo desse tipo pra saber como se faz. — Veigas sorria confiante.

— Pois devia! Sua magia ainda é fraca!

— Minha magia o quê? — Veigas quebrou seu sorriso e irritou-se de maneira fenomenal, se recordando de todas as dimensões que já pôs fim, em todos os mundos em que destruiu em um só mísero golpe para agora ouvir “sua magia é fraca” de um humano insignificante.

Em meio a isso, Dio quase riu, mas mordeu a boca mantendo a expressão séria.

— Não se preocupe, jovem! Você tem muito potencial. — O velho pigarreou. — Não me apresentei ainda, não é? Me chamo Serre, sou o diretor da Academia de Magia principal do reino. Qual o nome de vocês?

— E qual o motivo de eu querer dizer o meu nome pra voc...

— Dio. E o nanico se chama Veigas. — Ele interrompera o outro mais uma vez. Veigas pisou em seu pé quando ouviu “nanico”.

— Eu vejo que estão machucados, venham para minha casa, e eu ajudarei vocês.

Sem a opção de negar, ambos foram puxados por Serre. Eles podiam até se opor à força, mas sabiam que precisavam de ajuda e que ao mesmo tempo eram orgulhosos demais para pedir, então a situação tinha caído como uma luva.

— Ei, seu pirralho... — Dio, Veigas e Serre ouviram uma voz um pouco rouca vinda de trás — Meu nome é Aldun, não se esqueça... Porque da próxima vez, eu que vou te dar uma surra... E você que vai cair morto no chão... — O homem que Veigas tinha socado falou em uma voz tão trêmula pela tontura que mal conseguia passar a fúria que ele estava sentindo.

— Aldun, hein? — Veigas olhou para trás e soltou um último sorriso — Já esqueci.

Com isso, o auto-nomeado Aldun acabou desmaiando de fúria, e foi levado por dois cidadãos que ainda vagavam por ali. A roda de pessoas, entretanto, havia se dispersado faz muito tempo.

— Desculpem os modos desse garoto, jovem Veigas. Não culpo você de ter dado uma bela bofetada nele, eu às vezes tenho vontade de fazer o mesmo. — Serre riu — Mas não precisa se preocupar com ele, as magias de cura da cidade são muito boas.

Mas Veigas pouco importava-se com o fato de Aldun morrer ou deixar de morrer.

Ambos ele e Dio ficaram quietos, só deixando se levar por Serre onde quer que ele fosse. O velho, durante o trajeto, conversava animado com os dois que ainda permaneciam calados. Passando por muitos cidadãos que sempre paravam o que estivessem fazendo para olhar, percorreram todo um caminho até ficarem nas proximidades de três gigantescos sinos prateados. Eram os mesmos sinos que os dois tinham visto de cima da muralha, aparentemente.

Nessa região não tinham muitas casas, e elas ficavam totalmente espalhadas pela paisagem.

— Estamos chegando. — Disse o velho — Minha casa é logo em frente.

“Minha casa”. Agora ambos asmodianos se intrigavam sobre o motivo de um velho humano que mal conheciam levar dois estranhos para a própria casa, sendo que um deles quase tivera matado um conhecido seu. Talvez estivesse se passando de bonzinho para pegá-los desprevenidos e ter vingança pelo conhecido. Mas como era “só um velho”, pensaram que seria fácil dar cabo dele caso tentasse fazer algo, então só continuaram o seguindo. Porém, já estava anoitecendo.

Com os sinos estando logo em frente, Serre desviou o caminho para a direita, dando em uma casa que, igualmente à todas as outras, era branca com o telhado em cor azul. Ela era a única casa em vista, todas as outras foram escondidas pelas árvores do grande jardim que ficava do lado.

— Chegamos! — O velho andou até a porta também branca, abrindo-a e fazendo um gesto para que eles entrassem. — Entrem, podem entrar!

E assim fizeram. Veigas entrou primeiro, e Dio em segundo. Os dois ficaram olhando para todos os lados, procurando qualquer coisa que denunciasse alguma ameaça. Mas por mais que tentassem, era somente uma casa normal. O piso era de madeira escura, as paredes eram cor creme com alguns artefatos pendurados nelas, e os móveis eram também em madeira escura, muito bem entalhados e polidos. Estava óbvio que ali era a sala, já que tinha um enorme sofá e uma lareira velha, um pouco chamuscada pelos anos de fogo que provavelmente eram acendidos ali. Para os olhos de qualquer um, era uma casa simples, bonita e acolhedora.

— Sejam bem-vindos, podem sentar se quiserem! — Serre os convidou, sorrindo.

Dio analisou um dos cantos do sofá, verificando se tinha algo de estranho para depois finalmente sentar-se. Veigas, ao contrário, se jogou com tudo sem pensar duas vezes, no assento mais afastado de Dio.

— Agora, vamos cuidar desses seus ferimentos, jovens. — O velho andou até um corredor e bateu na primeira porta. — Venham aqui, está na hora do teste! Tem dois garotos esperando.

A porta abriu após mais três batidas, e de lá saíram duas mulheres, uma ruiva e outra morena, esta última sendo um pouco mais alta. Espere, eles já as tinham visto antes.

— Cadê? — A ruiva olhou de um lado para o outro, e acabou achando os dois sentados no sofá. — Ei, são os elfos de mais cedo.

— Olá mais uma vez! Que bom vê-los de novo! — A morena falou, docemente.

— Seus testes são esses! Se conseguirem deixá-los sem nenhum arranhão, vocês passam. Nahu, você fica com o de lá, e a Arani fica com o de cá. — Serre apontava para Veigas e Dio, respectivamente.

— Espera, o que significa isso? — Veigas estava inquieto. — Como assim, “teste”?

— Ah, elas são minhas alunas, e estão aprendendo magia de cura. Eu precisava dar um teste para elas, e vocês apareceram na ocasião perfeita! — Ele respondeu, penteando a barba com os dedos. — Perdão por trazerem os dois para cá só por isso.

Essa resposta irritara um pouco a Veigas, mas ele ficou calado. As mulheres andaram até o sofá e ficaram em frente a eles: A ruiva ficou em frente à Veigas, e a morena em frente à Dio, ambas em uma distância de um metro e meio de cada um, e pegando dois cajados que estavam pendurados nas paredes, os apontaram para frente e ficaram prostradas como estátuas, esperando um sinal. A desconfiança de Dio e de Veigas ainda não tivera ido embora, tanto que Veigas estava pronto para conjurar o Escudo Negro se sentisse qualquer tipo de perigo.

Ao som do “podem começar” gritado por Serre, elas fizeram um gesto em formato estrelar com os cajados, que começaram a brilhar.

“Foi com um cajado brilhando que o homem de cinza tinha se transformado em um dragão. Talvez realmente...” os dois pensaram, quase se levantando. Mas ninguém tinha se transformado em nada; ao invés disso, os ferimentos deles começaram a brilhar levemente também, na mesma intensidade dos cajados.

Cada arranhão pequeno em ambos havia se fechado, só restando os ferimentos maiores.

— Meu nome é Arani, e o dela é Nahu, prazer! — A morena se apresentou, repentinamente, e ainda com um sorriso doce no rosto. — Quais são os nomes de vocês?

— Arani, não fique falando, isso tira um pouco da minha concentração. — Disse Nahu, a ruiva. — Mas quais são seus nomes?

— Ah, o que está na sua frente é Veigas, e o outro se chama... — Serre respondia por eles, sem dá-los a chance de falar, agora coçando a cabeça e tentado se recordar do nome que perdera. — Ah, Dio! É Dio, lembrei! — Ele riu.

Incomodados por não terem a chance de responder e aliviados pelo mesmo motivo, observavam os ferimentos mais graves deles se fechando. Poucos minutos depois, Dio já estava novo em folha, como se nunca tivesse sido machucado.

— Terminei! — Arani declarou, abaixando o cajado que já tinha parado de brilhar. — Sente-se melhor, Dio?

Ele olhou para as mãos e os braços, girando-os para ter uma visão melhor. Realmente estava tudo bem, mas ele continuou em silêncio, e não respondeu.

— Bem, acho que sim. — Ela confirmou, e depois virou-se para Nahu. — Você já terminou também?

— Ainda não. Está um pouco difícil, ele tá muito machucado. — Nahu respondeu, com seus olhos focados. — Não fique falando, tira minha concentração.

— Onde vocês estavam pra terminar desse jeito? Não pode ser que só cair da muralha tenha feito tudo isso. — A outra perguntou aos dois.

— Arani, pare de falar, tira minha concentração. — E Nahu mais uma vez pediu por silêncio.

— Agora que vi o estado dele! Foi sorte não ter morrido, agora eu não sei como que ele estava consciente quando nos encontramos antes. Tanto sangue...

— Arani, pare de falar, tira minha concentração.

E isso continuaria até que Veigas estivesse totalmente curado, o que só aconteceu depois de mais ou menos dez minutos. E dez minutos era tempo o suficiente para os dois estarem com falta extrema de paciência, revirando os olhos e tapando os ouvidos, desejando que aquele disco arranhado de Nahu e a lista de perguntas de Arani acabassem de uma vez, para que eles pudessem sair correndo dali. E esses dez minutos passaram. Ambos entraram em estado de alívio instantâneo quando viram Nahu abaixando o cajado e falando o tão esperado “Terminei”.

Checando o próprio corpo, viu que não tinha mais nenhuma ferida, somente manchas de sangue na roupa.

— Pode tirar o esparadrapo que você tá usando, eu preciso ver se o machucado que você tinha aí realmente foi curado, ele que deu mais trabalho. — Nahu dizia à Veigas, apontando para o abdômen dele, onde estavam as faixas que Dio tinha amarrado.

— Você está me dando ordens? — Veigas respondeu impulsivamente, mas por um divino raio de consciência, lembrou que se começasse a brigar agora, existia a possibilidade de provar mais um pouco daquele disco quebrado e daquelas perguntas as irritantes. — Tch.

Ele colocou as mãos por debaixo da blusa, tentando desamarrar as faixas de si. Estava demorando mais que o previsto, pois não conseguia desfazer o nó que as prendia. Ouviu-se um barulho de portas rangendo, mas Veigas estava concentrado demais no dilema com o nó para notar.

E Dio, após dois minutos assistindo isso, aproximou-se e puxou veigas pelo antebraço, rasgando as faixas ele mesmo com sua garra do indicador, rápido como uma navalha, para depois voltar para o canto do sofá em que estava antes. A ação fora tão veloz que Veigas mal teve tempo de reagir. As faixas caíram dele, e ele constatou que o arranhão que havia ali tinha sumido.

Então, o ranger de portas voltou a ecoar.

— Pronto, achei! — Serre tinha saído da segunda porta do corredor, com uma tesoura na mão. — Ah, vocês não precisam mais?

— Não, acho que não. Eu vi a barriga dele, parece que está bem. — Arani afirmou. — Aliás, eu queria perguntar umas coisinhas pra el... — E foi interrompida por Serre, mas parecia acostumada com isso, então fechou a boca na mesma hora e riu sutilmente.

— Bem, com isso, podem voltar ao quarto de vocês, o resultado do teste eu lhes digo daqui a pouco.

As suas assentiram, e prendendo de novo o cajado na parede, voltaram para o corredor e entraram na primeira porta, que correspondia ao quarto delas.

— Então, vocês se sentem bem agora? — O velho perguntou, mas continuou a falar sem deixá-los responder. — De todo modo, eu gostaria de ter uma pequena conversa com vocês antes de irem embora.

Os dois olhavam para Serre com a expressão de “fale logo”, expressão que Serre entendeu e por isso continuou.

— Onde vocês moram? Quero saber onde encontrá-los de novo.

Um breve silêncio se manifestou, ambos não sabiam como responder.

Valeria a pena revelar que vieram de outra dimensão?

— Não moro em lugar nenhum. Esse outro também. — Falou Dio.

Não, não valia a pena.

— Isso é verdade? Mas como... — O velho se pôs a pensar. — Bem, eu ouvi boatos que elfos ficam desabrigados quando são banidos do grupo por terem nascido híbridos... que é o que vocês são, não é?

— O quê? — Dio ia perguntar, mas Veigas o fez primeiro.

— Olhando de perto, os chifres do jovem Dio são inconfundíveis, são exatamente iguais aos de um asmodiano legítimo. Eu acreditei que era um mito até hoje, mas realmente existem híbridos de gente das nossas terras com aqueles seres malignos... No entanto, ao contrário dos grupos dos elfos, eu não vou expulsá-los daqui só por terem nascido assim, eu compreendo que culpa não é de vocês. Ou melhor, vocês disseram não ter onde morar, não é? Pois se quiserem podem ficar aqui.

— Mas... Hã? — Os dois falaram em uníssono.

— Tudo bem, não precisam ter vergonha. Eu sei que isso deve ser difícil para vocês, e eu não conseguiria me manter em paz se vocês não ficassem, sabendo que não tem mais para onde irem. Temos dois quartos de hóspedes, podem pegar eles pra vocês!

E mais uma vez sem poder replicar, só seguiram Serre até os quartos de hóspedes, que representava as últimas portas do corredor. Por mais que quisessem, não iam recusar a oferta de estadia, já que eles realmente não tinham mais para onde ir e não estavam muito dispostos a dormir em uma rua qualquer ou pular a muralha mais uma vez para dormir no meio do mato de novo. Dio era o que mais repudiava essa última opção, por ter constatado o frio maldito que aquela dimensão fazia à noite.

— Aqui estão os quartos. Ah! Perdão, eu esqueci. Vocês só podem ficar em somente um quarto — O velho coçou a cabeça — por causa das correntes amaldiçoadas.

— Correntes amaldiçoadas? O que você sabe sobre elas, velhote? — Veigas se aproximou dele, quase agarrando-o pelo pescoço, mas o velho deu um passo para trás. — Foi você quem fez isso?

— Oh, não! Eu não consigo fazer isso. — Mas mesmo que ele tenha afirmado que não, Veigas continuara desconfiado, então mudou de assunto. — Vamos, entrem no quarto, entrem!

Serre girou a maçaneta e abriu a porta para os dois. O quarto era o mais simples possível, já que tinha somente duas camas, separadas por um criado-mudo de madeira tão escura quanto todos os outros móveis da casa, sustentando um abajur em sua superfície.

Com um pouco de dificuldade, o ancião conseguiu fazer com que os dois entrassem, mesmo eles estando extremamente apreensivos. Depois de todos botarem os pés ali dentro, fechou a porta atrás de si.

— Agora que estamos aqui, vamos conversar sobre essa corrente, que eu tenho certeza que vocês não sabem muito. — Ele disse, colocando a tesoura que tinha esquecido até agora de guardar no primeiro lugar que bateu os olhos.

— Sobre o que você sabe? — Dio perguntou, já mais curioso e menos desconfiado.

— Sobre algumas coisas, como “quem criou a maldição”, “o que essas correntes são”... — pausou por um momento, pensativo — “como retirar o feitiço”...

Finalmente.

Esse era o tópico que eles estavam esperando.

Notas finais
OEEEHHH MINNA-SANNNN DAIJOUBU KAAAAAAAAAA Tão gente, desculp pelo cap não ter muita interação daora e eu ter vomitado quatro personagens novos na cara de vocês. Então deem boas-vindas pra Arani, pra Nahu, pro Serre e pro figurante que ninguém se importa e até eu já esqueci o nome, eeeeeeeeeeeee ♥ Caso tenha interesse pela imagem do capítulo sem edição nenhuma por algum motivo que não consigo imaginar, taqui: http://blackfoxu.deviantart.com/art/fanfic-cover-I-wanna-kill-you-655342049 Aliás pra quem não lembra o céu dessa fic é viadão assim mesmo, eu não saí tacando arco iris e estrelinhas só porque eu quis (na verdade é só porque eu quis sim) Até o proximo capítulo e eu vou dormir senão eu morro