Chained Fates
1 Prólogo
Notas iniciais
Senhorita Loxar não era uma dama qualquer. Aquela era uma verdade incontestável.
A julgar pelo fino e lustroso tecido que emoldurava a silhueta curvilínea, poderia facilmente se deixar ser confundida como uma das jovens que muitas vezes vira por detrás das frestas das cortinas anilares de seu quarto.
Poderia estampar o sorriso simulado em que costumava distorcer os lábios e fingir estar feliz, assim como a maioria a seu redor parecia estar. Seria mesmo capaz de balbuciar palavras desconexas e sem sentido sobre casamento — que era exatamente onde começava seu problema.
No entanto, apesar de carregar como verdade absoluta cada uma das afirmações e conceitos no qual trabalhara desde a infância, sabia que aquele não era o lugar adequado para monologar — não se desejasse viver para se opor ao matrimônio.
Afinal, o que era pior?
Morrer... ou casar?
Se sentiu tentada a optar pela segunda opção, mas não demorou a balançar cabeça resignadamente em negação a sua própria blasfêmia. Algumas vezes sua imaginação infame e abjeta a guiava por complicadas questões, até mesmo a picuinhas internas que a levavam momentaneamente a crer em sua própria insanidade— aquela que muitos comentavam ser parte de sua herança genética, cortesia da família que nunca conhecera.
Agora, pendendo do peitoril de uma janela aberta do segundo andar, não era uma hora propícia a pensamentos, mas uma das desvantagens de ter uma mente insana era justamente essa: não havia um botão para se desligar, havia apenas um fluxo continuo e ilícito de tolices que teriam certeza de prejudicá-la nos piores dos momentos.
"Momentos como esse" — Ela pensou com desdém.
Libertando-se de sua distração momentânea, aumentou a pressão de suas mãos contra o mármore e esticou sorrateiramente o corpo um pouco mais para baixo, tentando alcançar seu próximo ponto de despenho.
— Ugh... por que a vida da Juvia é... — arfou enquanto alongava-se para seu pé buscar a rocha — tão... difícil?! — grunhiu entredentes, não se importando com a doce ironia de suas palavras.
Ela era uma princesa, afinal. E ,de acordo com a crença popular, princesas eram seres ricos, carismáticos, sorridentes e encantadores, com um tipo de luz discernível a quilômetros.
Quanto à Juvia, bem... ela já tentara se encaixar no estereótipo, rendendo-se após poucas tentativas miseravelmente fracassadas. Lembrava-se do sofrimento de seus professores de etiqueta e a descrença mórbida com que as governantas a encaravam, como se com a força da mente fossem terminar por cumprir sua meta.
Não posso acreditar que essa é nossa futura rainha, elas diziam, imaginando soar discretas.
A menina soltou breves e abafadas gargalhadas relembrando seus bons e sádicos momentos ao lado dos subordinados que tanto insistiam em transformá-la numa dama.
Quando seus pés finalmente alcançaram o peitoril, ela respirou fundo, consciente do que viria a seguir.
Ao ouvir as pegadas distantes e coletivas precedentes de gritos de encorajamento dos guardas dos quais tanto já fugira, decidiu não abter-se de seu desejo.
Aquela ida à cidade era mais que um simples luxo, era quase uma necessidade para a provisão de sua saúde mental — não tão intacta quanto ela gostaria.
Soltou-se das pedras e deixou seu corpo cair, com um baque estrondoso, ao chão. Agradeceu internamente por seus pés serem capazes de mantê-la e se pôs sob eles, pronta para fugir da horda de soldados que logo estaria atrás de si.
Enroscou a saia na palma da mão e correu tão rápido quanto suas pernas foram capazes de fazê-lo.
No ápice de adrenalina, prestes a atravessar os portões convencionalmente abertos, virou a cabeça ligeiramente para trás e exibiu um raro e zombeteiro sorriso.
Puxou a capa negra de modo a ocultar-lhe o rosto e gritou, estendendo os braços de forma descontraída, como uma louca que acabara de fugir de custódia.
— Nunca me alcançarão!
Com risadas e uma postura claramente errônea para alguém de seu porte, ergueu os braços novamente e sorriu, afastando-se de seus perseguidores.
Voava para sua liberdade.
A liberdade que apesar de temporária e limitada era a única capaz de salvá-la da realidade rígida e desenfreada em que vivia. Mesmo que por breves momentos, desejava experimentar esse sentimento outra vez.
E então, entregaria-se de bom grado ao fardo do matrimônio.
Mas antes... experimentaria aquilo pela última vez.
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