Chained Fates
2 O Príncipe e Seu Cavalo Branco
Notas iniciais
Empoleirado no topo dos confusos e entrelaçados galhos de uma árvore, o príncipe suspirou.
Em algumas horas montaria no familiar cavalo branco que sempre o acompanhava nas aventuras insanas que insistia em buscar, e logo depois faria seu caminho para uma populosa e influente cidade litorânea não muito longe dali.
E então deixaria seu olhar recair sob a garota com quem passaria o resto da vida acorrentado.
Sua noiva.
Ouvira rumores sobre uma princesa rebelde, desprovida de quaisquer traços de humor, de expressão estóica e inabalável. Buscara informações nas proximidades do reino, mas apenas descobrira todo um histórico de fugas consecutivas da donzela, que quase sempre que era vista carregava uma horda de guardas consigo.
No momento da descoberta, ele riu.
Sem se preocupar com seus modos, apoiou-se no ombro do aldeão para suporte e soltou altas gargalhadas, como se o homem houvesse lhe contado uma das mais engraçadas piadas já inventadas.
Mas agora, engoliu em seco.
Com que tipo de louca se casaria, afinal?
— Ei, esquentadinho! Desce daí, os cavalos estão prontos! — ele ouviu seu melhor amigo, e chefe de segurança, gritar alguns metros abaixo de si.
Relaxou seu corpo conta o tronco e bocejou, desafiando-o com um visível sorriso sugestivo.
— E se eu não quiser, picolé?
Grunhidos potentes se fizeram ouvir, enquanto o moreno chutava a árvore com força, tentando convencê-lo a descer.
— Idiota, sua noiva está esperando. Levante seu traseiro inútil dessa árvore e se apresse!
Natsu bocejou novamente, curvando-se numa bola e deixando o corpo afundar por entre as folhas, até sumir de vista. Sua voz rouca e desanimada perguntou, tão baixo que foi difícil entender o que dizia.
— Descobriu algo sobre ela, geladão?
Gray revirou os olhos, claramente irritado. Com alguns resmungos abafados, chutou a árvore novamente, insatisfeito quando o breve farfalhar de seus galhos não precedeu concordância de seu companheiro.
Sem escolha, ele assumiu:
— Não, idiota. Ela é sua noiva, não é minha obrigação saber nada! Se quiser mesmo saber como ela é, descubra sozinho.
O príncipe revirou o torso, tomando o cuidado de não cair, varrendo os arredores do palácio com o olhar, tão afiado quanto olhos de uma águia. Girou a cabeça em todas as direções possíveis, encontrando de tudo, menos a pequenina mancha azul pela qual buscava.
— Cadê o Happy? — perguntou coçando a cabeça, ignorando o foco do assunto anterior.
O líder de guerra, — e ocasional exibicionista— trincou os dentes, sua paciência se esvaindo a cada segundo. Num ato de cólera, ele usou seu último truque, reservado especialmente para tais situações.
— Você sabe, Natsu... se nos atrasarmos, cavalos não serão rápidos o suficiente; talvez tenhamos que pegar um trem ou talvez algo mais rápido... — ele disse, mascarando a inquietude de seu olhar sob a franja, tentando soar o mais convincente possível.
E aquilo foi o suficiente para motivar o príncipe a se levantar e pular da árvore como quem mergulha em águas claras, correndo desesperadamente em direção aos cavalos, com um olhar tão aterrorizado que fazia acreditar que vira a mais pura definição de terror.
Algo que geralmente era reservado aos confrontos mensais que tinha com Erza Scarlet, ainda que não fosse inteiramente culpa dele.
A guerrilheira não sabia disso, é claro.
[...]
O cavalo cambaleou numa freada ríspida e inesperada, rinchando alto perante os cavaleiros armados bloqueando sua passagem.
Um grande muro, com algumas torres de observação e corredores elevados, se erguia à frente do regente, bloqueando seu campo de visão e deixando-o levemente curioso quanto o que encontraria do outro lado.
— A partir daqui, nossos prados repousam sob proteção e domínio da família Loxar, governantes de Oak Town. O que desejam em nossa cidade, forasteiros? — perguntou um dos guardas, instintivamente repousando a mão sob a bainha da espada em seu cinto.
Natsu separou os lábios na melhor das tentativas em sorrir, mas no momento em que o fez selou a boca com a mão, inclinando-se sob o animal e recebendo em sua pele uma coloração azulada doentia.
— Ele está bem? — perguntou um dos homens, visivelmente desconfiado.
O moreno tomou frente e retirou um pequeno rolo da mochila que carregava. Abriu-o apenas para conferir, e entregou aos guardas, ignorando o fato de que deveria ser ele a ler.
— Certo, abram os portões. É o noivo da princesa! — o primeiro dos guardas vociferou, e com um leve e rápido gesto os portões aos poucos começaram a se abrir.
Gray agarrou Natsu pelo colarinho e puxou-o enquanto cavalgava, arrastando o pobre animal por debaixo dele consigo.
— Ei, rosadinho... quando passarmos dos portões, pode continuar a pé. Ouvi dizer que o castelo é bem próximo da entrada. — ele murmurou, puxando o amigo próximo o suficiente para que apenas ele o ouvisse.
De relance, o príncipe assentiu e agarrou o pescoço do cavalo branco, dando leves tapinhas em seu pescoço.
— Vamos garoto, não me deixe agora... — ele pediu esperançosamente, acidentalmente chutando algo na traseira de seu companheiro.
O animal relinchou e ergueu as patas frontais, quase abandonando seu senhor no processo. Com uma última demonstração, saiu em disparada.
Onde iria parar, ninguém sabia.
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