Chá verde
19 XIX. Confissões (Parte I)
Notas iniciais
Eu estava aflito, por mais que eu me esforçasse para agradar Anna nada funcionava, seu distanciamento se tornou acentuado e muitas vezes eu a observava para realmente ver se ela estava ali, o corpo sim, porém o que mais me interessava não, a sua mente permanecia longe.
Pensei em tantas maneiras de provar-lhe que nunca toquei em outra mulher depois dela, até procurar Aurora me passou pela cabeça, porém se eu invés de ajudar tal ação tivesse o efeito contrário? Resolvi não arriscar o fio que segurava o meu casamento.
Nunca entendi com precisão o esforço que Anna fez para manter o nosso conturbado relacionamento inicial, e agora percebo que ela me amou quando nem eu mesmo me amava, nossa história teria sido diferente diante do meu estado acomodado. O que me fazia repensar o que uma mulher como ela viu em mim?
Eu estava cansado de esperar e de não me mover o suficiente para recuperá-la de volta.
Eu queria chorar de remorso de culpa e por me sentir um fracasso de pessoa como marido e de pai, por minha culpa aquilo acontecia, demorei tanto para enxergar o que estava na minha cara.
Durante a minha troca de moletom a campainha da solitária casa tocou, eu realmente pensei em não atender, no fim me vi numa lenta caminhada até a porta.
A figura magra de Evelyn Dushkin estava parada de olhar fixo e preocupada?
Molhei os lábios numa reação exasperada.
— Posso entrar?
Avaliei as chances de lhe dizer um não, no entanto, o meu desgaste emocional estava mais que saturado. Dei um passo para trás numa confirmação muda.
Evelyn entrou na casa numa clara observação de espaço. Eu sei o que ela estava vendo, os olhos caídos sobre a mesa de centro voltaram para mim.
— Beber não vai resolver os seus problemas.
— Mas me faz esquecer.
— Não me parece estar tendo êxito na sua intenção.
— O que quer de mim, Evelyn?
Seu queixo tremeu levemente.
— Você não sabe o quanto me dói escutar você me chamar assim.
Afinal era o nome dela.
Esgotado para embates, permaneci calado.
Um suspiro cansado.
— Você nunca me perdoou, não é mesmo? Nunca entendeu a razão de eu não ter permitido você ficar com aquela garota infernal, mesmo depois de ter seguido você ainda está julgando pelo passado.
Passei a mão no rosto de maneira cabisbaixa. — Isso não tem mais importância faz muito tempo.
— Então por quê?
Voltar ao passado era a última coisa que eu gostaria de fazer. Todo aquele ressentimento pelo roubo da minha autonomia me nocauteou.
— Porque você me tirou o direito de escolha! Encarei-a duramente.
— Olha o que a minha vida se tornou, a minha mulher não quer mais saber de mim, Abbie está longe, tudo por causa de uma história mal resolvida. Tudo está indiretamente ligado, não vê?
— E você me culpa?
Suspirei, a culpa era minha, a fraqueza foi minha por deixar as coisas chegarem a esse ponto, por não ter tido a força necessária. Eu a culpei por longos anos, mas no fim a culpa era minha.
— Não diretamente, mas se eu pudesse ter tido a escolha, nós sabemos que eu teria ficado com ela.
— A sua raiva é por isso? Por eu não ter deixado você seguir com a sua escolha?
Ri amargamente.
Tudo parecia esclarecido para Evelyn, no entanto, ela não entendeu absolutamente nada.
— Provavelmente Anna pedirá o divórcio e não terá ninguém para impedir que fique com ela.
Lá no fundo, eu sabia que Evelyn não tinha intenção alguma de me ferir com aquelas palavras, mas foi o que ela fez.
Virei de costas, meu orgulho não a deixaria ver a dor que me causou refletida em meus olhos.
— Você não entendeu mesmo.
Passos curta me alertava da sua aproximação, às mãos tocaram no meu ombro.
— Alek, o que está acontecendo com você meu filho? Se você não me disser não poderei entender ou mesmo ajudá-lo.
Virei para abraçá-la, como um menino em busca de colo que um dia eu fui. E deixei as lágrimas caírem sem vergonha nenhuma de desabar na frente da minha progenitora.
A dor em meu coração estava implacável, impossível de ser remediada, eu precisava de um conforto de mãe, um consolo fraternal de alguém que me estendesse à mão...
— Meu filho. — Sussurrou mamãe. — Você não sabe a falta que me faz. — Ela beijou o meu rosto. — Sua presença, sua atenção, seu abraço. — Me apertou um pouco mais. — Meu Alek...
Eu não tinha a dimensão da falta que o abraço da minha mãe me fazia, o jeito que os seus braços me envolviam e aconchegaram no conforto do seu colo, suas palavras de afeto... O tempo pareceu parar ali comigo nos braços da minha mãe.
Suas pequenas mãos me afastaram delicadamente, ao me guiar até o sofá da minha casa, minha mãe me encarou profundamente, ela queria olhar em meus olhos e com ternura limpou as minhas lágrimas.
— Me perdoe meu filho... Eu... — Evelyn hesitou brevemente numa busca por palavras. — Eu não fazia ideia do mal que acabei fazendo a você, a minha interferência arruinou as nossas vidas. — As lágrimas brilhavam em seus olhos castanhos. — Tudo vai se resolver para você, sua mãe entende o seu direito de escolha se é aquela mulher que você ama... Uma pausa — Que você seja feliz ao lado dela.
Meu sorriso era condescendente, demorou tantos anos para Evelyn finalmente entender, ao menos se dar a oportunidade de tentar me compreender... Tudo mudou em minha vida.
Toquei em suas mãos sobre o colo.
— Não existe essa possibilidade.
Evelyn estava confusa.
— Como não?
— Eu não vivo no passado, minha mãe, ele foi importante para mim, ao ponto de ter me confundido no presente, entretanto, não tem mais importância na minha vida, sou um homem feliz, casado e principalmente ama a sua esposa e tudo o que construiu ao lado dela.
A minha mãe ficou estática sem reação, os olhos surpresos, a boca entreaberta. Seria possível ela ter perdido a fala?
Esperei calmamente Evelyn se recuperar, não foi uma espera longa, logo as mãos amáveis vieram para o meu rosto.
— Ah! Meu Alek você encontrou. — Afirmou admirada com os olhos brilhantes.
Eu encontrei?
— O seu amor.
Evelyn me explicou o sentido das suas palavras, para ela o amor sempre esteve presente numa intensidade menor quase imperceptível, construído lentamente, por compatibilidade, companheirismo, luxúria, paciência, motivação e empatia.
Minha mãe estava certa, ela viu que eu não enxergava o amor de Anna na sua mais profunda entrega. Eu queria dar um soco na minha cara por ter sido tão estúpido.
— Anna só precisa de tempo para processar tudo o que aconteceu, no entanto, mais cedo do que você imagina, ela vai voltar para você.
Ah! Minha mãe assim eu espero com toda a esperança do meu coração, Evelyn também se desculpou por dizer que Anna poderia pedir o divórcio. Eu aceitei não foi proposital, ao se despedir naquele começo de crepúsculo a minha mãe insistiu para eu deixar a minha casa e fosse com ela ficar no seu apartamento, não o fiz ali era a minha casa incompleta, mas ainda assim o meu lar.
Assim que cheguei à casa dos meus sogros me deparei com Anna na cozinha envolvida na finalização de um bolo que ela acabara de pôr no forno.
— Oi.
Ela me olhou de lado e disse baixinho.
— Olá.
Uma pequena quantidade de farinha sujava a lateral do seu rosto.
Silenciosamente me acheguei, aquele clima familiar me doía o coração de tanta saudade.
Sob o olhar curioso de Anna, levantei a mão para limpar o local sujo.
A pele macia ruborizou devido ao toque.
— Tinha um pouco de farinha. Mostrei os dedos a ela.
— Era só ter falado. Desviou-se.
E perder aquela oportunidade de tocá-la?
— Quando vamos conversar?
— Supus que nós já tivéssemos conversado. Apoiou-se na ilha central.
— Anna...
— Aleksandr.
Enquanto, eu disse seu nome cheio de afeto, ela foi neutra.
— Tudo bem, nós vamos conversar e voltar ao passado.
O mesmo passado que retornava para tirar a minha paz e o resto de juízo que restou.
— Por que não falamos do presente sobre nós? Tristemente a questionei.
Anna semicerrou os olhos.
— É pegar ou largar.
Por querer estar ao lado da minha mulher, eu faria o que ela quisesse.
— Ok. O que você quer saber?
Ela me olhou sem piscar ao procurar por quaisquer vestígios falsos em mim.
— Vai falar a verdade?
Nunca mentir sobre os meus sentimentos com relação a nós dois.
— Eu sempre falei a verdade para você.
Recebi um olhar acusatório.
— O que aconteceu entre você e a... Aurora?
Eu jamais esconderia o que quer que fosse da minha mulher, não repetiria o mesmo erro.
— Nós nos conhecemos na Polinésia naquela viagem que você também foi.
Vi o lampejo atravessar suas esferas azuis, mas ela não falou, era um sinal para eu continuar.
— Evelyn queria ir numa loja local, eu lembro que você não pode ir, pois, falava por vídeo com o seu pai. — Aurora era a atendente do caixa.
Toda aquela seriedade e controle das suas reações fazia-me trilhar um caminho às cegas.
Esperei Anna falar algo, mas diante do seu silêncio continuei.
— Depois daquele dia eu não a vi mais.
— Mas você a procurou. Anna montou o quebra cabeça.
Eu queria vê-la outra vez e como adolescente impulsivo voltei a procurá-la.
— Não a encontrei por dias até que por acaso a vi na praia.
— O que você fez?
— Fui até ela e a partir daquele momento nós passamos a nos ver com certa frequência.
— Você sempre tinha uma desculpa pronta.
Mirei-a culpado.
Sim. Depois que eu encontrei Aurora a gente iniciou um romance e todo tempo disponível ou não eu ficava com ela, eu fiz a teia de mentiras por estar louco de paixão.
— Não demorou para acontecer um envolvimento e em seguida um rompimento brusco.
— Você brigou com a sua mãe por causa dela.
Gastei anos da minha vida jogando a culpa das minhas decepções na pessoa errada. A minha mãe sofreu duramente com o meu desprezo, totalmente cego pela revolta na minha busca desenfreada por um culpado sendo que o responsável por todos os meus erros era eu.
— Evelyn nunca gostou da Aurora. — Você sempre foi à escolha dela.
Ela lançou-me um olhar impassível.
— Eu nunca fui a sua escolha. Afirmou.
Doeu-me não poder negar, mas tudo havia mudado.
— Ela atrapalhou o seu namoro, por isso a sua revolta e mudança repentina. — Você... Ela engoliu em seco. — Você nunca gostou de mim.
Ela estava enganada, a loira mais bonita que eu já tinha visto quebrou as minhas defesas ao me conquistar.
Tentei me aproximar dela, mas Anna recusou de palmas levantadas. — Só continue.
Puxei uma lufada de ar ao me apoiar na bancada, olhei de relance em direção ao jardim lateral.
— A perda do meu pai piorou tudo, então, eu saí de casa, cortei laços com a minha mãe e fui viver se é que posso dizer que vivi.
— Você se apaixonou por ela. Outra afirmação.
Tudo o que eu sentia pela Aurora foi forte demais para um adolescente na flor da idade.
— Acreditei que sim. Parei. — Anna, eu era um adolescente a flor da pele que se deparou com um sentimento novo e não vivido isso me trouxe alguns problemas de percurso. Mas os anos foram se passando e você apareceu e só aí a minha vida teve sentido outra vez.
— Você nunca mais voltou a procurá-la?
— Não. E nem quero, ela não pertence ao meu presente ou futuro. Andei até ela. — Você é a minha mulher com quem eu construí uma família e a mulher que faz parte do meu presente e eu amo isso. Toquei sua mão, feliz por ela não ter recusado, acariciei seu braço com as pontas dos dedos até subir ao rosto. Fitei seus lábios.
— Anna... Sussurrei ao pé do ouvido.
Eu queria tanto beijá-la, mas quando eu voltei a mirá-la seus olhos encheram-se de lágrimas.
Paralisei.
— Por favor, se afaste de mim, Aleksandr.
Atendi seu pedido, e a culpa por ser o motivo das suas lágrimas me nocauteou.
— Me perdoe Anna, acredite em mim, eu não queria fazer você chorar.
A ocultação do meu passado só havia afetado o meu presente e ainda estava ameaçando destruir a minha família.
Mais uma noite de tormenta em que eu não conseguia dormir, o clima sombrio da noite numa casa silenciosa me remetia à sensação de soturno.
As pazes com Evelyn me libertaram de um ressentimento de anos, eu estava finalmente livre daquelas amarras, todavia uma parte grande de mim se encontrava em infortúnio. — Vaguei pelos cômodos desertos até retornar ao meu solitário quarto.
— Sinto tanto a sua falta...
Eu sofria por amor, sofria por Anna Dushkin.
Eu que pensei ser conhecedor desse devastador sentimento, estava profundamente decepcionado ao experimentar uma dose maior e mais angustiante. Meu coração alcançava níveis maiores de desespero, eu já não estava suportando...
Eu precisava ter a minha família de volta.
Não dormi nem sequer me deitei, talvez eu virasse um vegetal. Ao me olhar no espelho eu constatei estar em um péssimo estado, com olheiras, desgrenhado parecia mais um zumbi do que alguém humano.
Não fui ao trabalho e não fui aos dias seguintes também, a minha secretária me ligou para saber o que estava acontecendo, contei-lhe que me dei férias, nunca as tirei, então, havia chegado o momento, os negócios estavam nas mãos dela.
Olhei pela janela o céu estava com as nuvens pesadas, não tardaria a chover naquela noite.
A cabeça pensava tantas coisas em simultâneo, e todas elas me levavam a minha família.
Não daria mais para viver assim, que espécie de homem eu era?
Onde estava a minha determinação?
Joguei a minha jaqueta de chuva sobre os ombros, decidido a ir até Anna.
Quem se importava com as horas?
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