Chá verde
20 XX. Confissões (Parte II)
Pelas ruas quase desertas da cidade eu dirigia até a casa dos meus sogros, a chuva caia em gotas pesadas, a vizinhança estava tranquila, sem nenhum movimento de pessoas. As luzes da entrada estavam acesas, no entanto, a casa permanecia numa quietude sem fim.
Parei o carro duas casas antes da fachada dos Stepanov, eu respirei profundamente ao avaliar as minhas opções.
Eu poderia simplesmente dar meia volta e voltar para casa.
Andar até a porta da entrada e tocar a campainha, talvez se eu tivesse sorte Gerald não ligaria para a polícia.
Ir sorrateiramente até a janela do quarto de Ana.
Coloquei o capuz da jaqueta na cabeça e saí do carro, a passos determinados eu caminhei até a lateral da casa.
As gramíneas do jardim estavam encharcadas devido à chuva, andar sobre a grama úmida fazia o meu pé afundar com facilidade. A reminiscência de casa antiga possuía uma extensão das colunas no piso térreo.
Parei de andar para olhar fixamente em direção ao quarto de Anna, através da sacada eu teria acesso à porta, do chão até o balaústre tinha cerca de 350 cm, assobiei ao pensar na altura. Olhei em volta atrás de algo que me ajudasse na escalada, a chuva molhou o meu rosto e naquele curto intervalo de tempo a minha jaqueta já estava ensopada.
A treliça de madeira fixada na parede da casa servia como base de apoio para o crescimento de plantas trepadeiras, o que criava um muro verde no espaço externo como um jardim vertical.
O braço recém-sarado não era a minha preocupação, muito menos a chuva torrencial que caia sobre mim. Eu só esperava que aquela estrutura reticulada aguentasse os meus 85 quilos.
Mais alto que a minha cabeça eu enfiei os dedos nos espaços abertos entre os cruzamentos da treliça, impulsionei o corpo para cima e procurei um espaço irregular com a ponta dos pés. Escalei cautelosamente devido à chuva que dificultava o meu progresso, o tamanho do meu pé também não ajudava.
O processo de subida demorou mais do que pensei, mas finalmente as minhas mãos seguraram o guarda corpo. Pulei para dentro da sacada, parado em frente à porta francesa de abertura dupla com painéis de vidro, tirei o capuz.
Joguei os cabelos úmidos e gotejantes para trás. Constatei que o capuz não fora de muita utilidade.
Olhei mais de perto numa clara intenção de ver Anna, o ambiente escuro do quarto era parcialmente iluminado pelos raios que cortavam no céu. Anna estava sob as cobertas, pensei que estivesse a dormir, mas ao ver o seu corpo se mover, eu notei que ela ainda estava acordada.
Porque ela não estava dormindo?
Levei o punho contra a porta sem querer fazer demasiado barulho, eu só queria chamar a sua atenção.
Resolveu, pois Anna se virou para ligar o abajur, completamente surpresa eu a vi se levantar e caminhar até mim, parou em frente à porta como se não acreditasse que eu estava ali na sua sacada.
— Aleksandr?
Os cabelos loiros e lisos estavam desgrenhados, tão charmosos, como eu sentia vontade de colocar as minhas mãos neles.
— Oi amor.
Anna ponderou se abriria a porta, acredito que a sua curiosidade venceu a luta contra a indecisão pôr fim a porta de abertura central revelou a sua figura.
Ela usava um conjunto de pijama cinza composto por uma blusa de manga longa com um bordado frontal de um coelho e calças fleece. Anna parecia uma adolescente irresistível, eu queria agarrá-la.
— O que faz aqui há essa hora e abaixo de chuva? Demonstrou preocupação e eu gostei disso.
— Eu vim ver você minha vida.
Dei-lhe o meu melhor sorriso, ela me olhava triste, eu não suportava mais.
Ela suspirou.
— Aleksandr, nós não estamos no melhor momento para gracinhas. — O que quer aqui? Insistiu.
— Nós precisamos conversar.
Anna desviou o olhar seu queixo tremeu.
— Podemos conversar amanhã e de manhã.
Eu via o medo no olhar da minha mulher, ela queria fugir de mim, não deixaria acontecer outra vez.
— Estou aqui para isso.
Ela entrou no quarto.
— Doce Jesus... O que os vizinhos vão pensar?
Seguir ela de perto.
Ah! Meu amor... Não me importo com eles e sim com você.
— Sou seu marido e momentos sozinhos foram o que mais nós tivemos ao longo de todos esses anos.
Anna ficou vermelha, provavelmente com as lembranças de nós dois perdidos entre lençóis, como eu sentia sua falta...
— Eu sinto a sua falta amor. — Declarei ao levantar as mãos para tocá-la, Anna se desviou.
— Você me traiu. — Acusou-me.
Essa história outra vez?
Eu estava farto de ser acusado sem ter a chance de me defender. Os grilhões poderiam ser colocados em meus pulsos, já que eu havia sido condenado pelo amor da minha vida.
— Mais que droga Anna! Quantas vezes eu vou ter que repetir que eu nunca, nunca traí você!
Estressado como eu estava quase entrei em desespero e arrancava os cabelos.
— Eu vi vocês dois abraçados! Vai me dizer que os meus olhos me enganaram?
O meu temperamento deveria ser contido, no entanto, eu fiz o oposto e a instiguei.
— E o quê mais? Viu-me beijando-a? Perguntei de sangue quente.
Ela ficou muito mais vermelha que antes, estava com ciúmes, quase sorri.
— Não. Me. Provoca. Falou estridente. — Vocês pareciam íntimos.
Encarei-a fixamente.
— Antes de você chegar, eu estava explicando-lhe que nós não poderíamos ter nada, e que a nossa história havia ficado no passado, agora eu sou um homem casado que amo a minha mulher.
Ela me olhou ainda endurecida, a minha declaração não a demoveu.
Ir até ali não foi uma boa ideia, meu plano de fazermos as pazes só funcionaria se os dois quisessem.
Dirigia-me até a sacada, quando parei brevemente para dizer. — Você está sendo muito dura comigo Anna, amar você parece não ser um motivo suficiente para querer ficar perto. Eu que pensei que vindo até aqui nós poderíamos nos acertar de uma vez por todas, porém, eu estava errado já que na sua cabeça a ideia de uma traição está fixa, não é?
Retornei à caminhada, mas a mão de Anna segurou-me pelo braço.
— Espera, ainda está chovendo. Foi perigoso vir até aqui e é perigoso sair debaixo de chuva, foi uma ideia maluca subir pela treliça.
Libertei-me do seu toque e continuei a caminhar em direção a porta de acesso à varanda.
— Foi o meio que eu usei para vir até você e é por ele que eu vou descer.
— Alek, não. Não vai. — Ela me suplicou.
Parei de andar, baguncei os cabelos, agitado.
Eu estava cansado de brigar, cansado de me explicar, cansado da sua descrença em não acreditar em mim. Numa última tentativa, girei nos calcanhares para olhá-la, com toda a dor e sofrimento que eu sentia lhe disse.
— Você não acredita em mim.
Se não fosse pelo som da chuva o silêncio teria sido sepulcral.
Parei uma última vez, derrotado e fiz a última coisa que queria.
Ir embora.
A descida pela treliça foi pior por eu me esquecer de puxar o capuz, então, as gotas de chuva me atingiam diretamente no rosto, eu não me importei, a dor no meu coração partido ocupava todo o espaço.
No último pulo, já estava no chão.
Sem olhar para trás, passei pela lateral em direção a esquina da rua onde deixei o carro, pus as mãos no bolso, o céu desabava em água.
Anna poderia me recusar quantas vezes ela quisesse, mas eu não desistiria dela nunca. Eu a amo e meu amor era imutável.
Repentinamente uma mão tocou em meu braço, parei bruscamente.
Era a minha mulher apenas de pijama contra a chuva e o frio, ela tremia.
— Por Deus, Anna, o que aconteceu?
— Não vai não.
Fiquei alarmado vendo-a naquela situação, a noite estava terrivelmente chuvosa e fria.
Anna poderia adoecer.
Fiz a primeira coisa que me passou pela cabeça, tirei a Jaqueta de frio e passei sobre seus ombros.
— Vou levar você de volta.
Segurei-a colada a mim.
Anna queria enlouquecer só pode!
Sair de casa há essa hora e numa tempestade...
— Espera.
Anna ergueu a cabeça para me olhar fixamente, a sua doçura estava derretida naqueles olhos da cor dos oceanos.
— Eu acredito em você.
Ela sorriu docemente com os olhos tão expressivos. Eu nunca quis beijar tanto alguém em toda a minha vida como naquele momento, as mãos pequenas de Anna tocavam os meus cabelos molhados, seu toque afetuoso trazia arrepios a minha carne, inclinei-me para alcançar seus lábios, inserir meus dedos em seus cabelos da nuca numa atitude de posse.
Sem conseguir me conter mais eu a tomei nos braços e a beijei com urgência, ela correspondeu de maneira apaixonante.
— Eu sinto a sua falta minha Happiness. — Repeti com nossas bocas coladas, inspirei seu cheiro delicioso, vendo-a estremecer levemente em meus braços.
— Eu também sinto a sua.
— Como é bom ouvir isso, meu amor.
Eu queria abraçar e beijá-la muito mais, porém, a chuva estava implacável e a minha preocupação aumentou.
Voltamos para a casa dos pais da minha mulher, agora sem o desafio da treliça. Assim que entramos pela porta do quarto a trouxe para mim, eu sentia tantas coisas ao mesmo tempo, num efeito bola de neve que me roubava à sensatez só o que me importava era aquele momento e aquela mulher.
Diante daquele olhar sedutor, eu precisei dizer o que o meu coração gritava em cada batida.
— Eu quero você.
— Eu também o quero.
As carícias no meu braço eram um claro sinal eu a conhecia muito bem sabia reconhecer as vontades do seu corpo suas reações me fascinavam, aquela mulher era minha, a minha Happiness.
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