Cerejeira

4 4 - Crepúsculo




Havia um ar misterioso por trás daquela tarde de domingo, talvez eu estivesse animada demais para encontrar meu antigo sensei.

O Sol brilhava no horizonte depois de uma pancada forte de chuva. Além disso, havia um extenso arco-íris que decorava o imenso céu azul.

As flores estavam cada vez mais desabrochando e enfeitavam o longo caminho de paralelepípedo ainda molhado, suas pétalas grudavam na água deixando tudo muito mais bonito. Por um minuto eu podia me esquecer que ali mesmo houvera uma guerra anos atrás.

Kakashi me esperava sentado em um banco debaixo de um ipê amarelo, vestia-se com suas roupas costumeiras de sensei.

Quando o vi senti que os pelos dos meus braços se arrepiaram e algo mexeu dentro do estômago, instantaneamente um sorriso se abriu sem que eu percebesse.

— Espero não ter me atrasado.

Falei olhando para as horas no meu relógio testificando se eu estava dentro do combinado.

— Não, você chegou bem na hora.

Ele disse com um sorriso meio sem graça. Ao seu lado havia um buque de tulipas maravilhosas.

— São para mim? — perguntei um pouco provocativa, sentindo a vergonha me invadir.

— Ah, claro — disse como se tivesse esquecido delas — Por favor.

Sentei-me ao seu lado e peguei o buque com delicadeza. Ali não deveria ter mais do que meia dúzia de flores, mas era o suficiente para me fazer corar.

— Obrigada.

Ficamos em silêncio por um momento. Imaginei o que aquilo significava, mas tentando não focar em nada além daquele instante.

— Então... Sasuke...

Ele começou a falar, mas não o deixei chegar ao fim da frase.

— Acho que não precisamos estragar a nossa tarde falando do Sasuke não é mesmo?

Disse colocando uma ponta de firmeza em minha voz, mas sem parecer rude, apenas decidida a não querer falar dele.

Kakashi não retrucou e continuou apenas a me encarar com seus olhos escuros. Eu nunca tinha reparado como aquelas órbitas negras eram tão profundas.

— Onde quer ir?

Perguntei interrompendo nossa conexão visual.

Ele se levantou e estendeu as mãos para mim num gesto para que eu o acompanhasse.

Seguimos ambos em direção à um bosque iluminado pelos raios de Sol, as copas das árvores brilhavam verdes e a relva ainda estava molhada pela chuva. Alguns pássaros piavam e quebravam o silêncio entre eu e Kakashi, estávamos num momento de paz no qual concordávamos com aquele tempo a sós sem dizer uma palavra.

Parei quando me dei conta de que Kakashi havia ficado para trás, estava encarando uma árvore.

— O que foi?

Perguntei curiosa.

Ele suavemente passou os dedos pela madeira úmida, seu semblante estava sério.

— Eu me lembro de passar por aqui uma vez, essa marca...

Olhei para onde ele apontava e havia ali uma inicial, na verdade duas. Não sei de quem eram, mas também não ousei perguntar.

— Você está bem Kakashi?

Ele pareceu despertar de um devaneio.

— Estou sim, desculpe.

O sorriso dele era de derreter o corpo.

Continuamos caminhando com aquela sensação física de desconforto, muitas vezes me perguntei se eu estava louca por estar tendo um segundo encontro com meu ex sensei e, além disso, atual Hokage.

Depois de alguns minutos andando e trocando lembranças chegamos à um campo florido que perdia-se de vista, no centro do campo havia um enorme carvalho antigo que proporcionava uma sombra fresca.

Debaixo do carvalho Pakkun nos esperava. Estava um pouco mais velho do que eu me recordava, mesmo assim seu senso de fidelidade e força vital permaneciam intactos. Na boca de Pakkun havia uma cesta de palha de fios que se entrelaçavam.

— Olá Sakura.

Disse-me ele entre os dentes, ainda não tinha largado a cesta no chão.

— Olá Pakkun.

Respondi gentilmente.

— Obrigado — disse Kakashi pegando a cesta — Até mais.

Pakkun alternou seu olhar entre mim e Kakashi, depois fez uma careta curiosa e desapareceu sob a fumaça de seu jutsu.

— Ele é exatamente como me lembro.

— Não tal ágil é claro, mas é um excelente companheiro.

Rimos ambos e Kakashi sentou-se à beira de uma raiz.

— Espero que não se importe de um programa mais leve.

Disse-me ele, havia rubor em sua face.

— Não se preocupe Kakashi, estava precisando mesmo de um descanso de toda a loucura que é o hospital.

Respirei fundo sem saber se eu tinha parecido muito cansada ou estressada demais.

— Desculpe, você não tem nada ver com isso.

— Não se preocupe Sakura, de responsabilidades eu entendo.

Trocamos olhares amenos.

— E por falar nisso como está a vida como Hokage?

— Apesar de me sentir honrado em cuidar da vila eu escolheria continuar sendo professor se pudesse.

— Mas não vai demorar muito para o Naruto ocupar seu lugar, mais uns anos e ele estará apto para isso.

— Talvez, esse sempre foi o sonho dele não é?

Rimos juntos sentindo a sensação nostálgica se apoderar de nós, um vento fresco soprou os cabelos acinzentados de Kakashi trazendo seu cheiro até mim, algo que misturava madeira e hortelã.

— Não vejo a hora de poder descansar de vez nas águas termais.

Ele sorriu de forma despojada fazendo me sentir envergonhada por um instante, tive a impressão de que eu estava o observando demais.

— Entendo você, agora com Ino grávida terei que tomar conta ainda mais das coisas do hospital.

— Você trabalha muito não é Sakura?

Não quis demonstrar ingratidão, Kakashi me ajudara muito com o cargo no meu atual emprego, mas de fato eu trabalhava demais.

— Os plantões são puxados, mas nada que eu não possa dar conta.

Os olhos dele me fitaram por um instante, sua cabeça estava jogada de lado e seu corpo apoiado na mão direita.

— Se quiser consigo arrumar alguém pra te ajudar.

— Seria bom — sorri — Precisamos de mais pessoas pra nos auxiliar.

Por alguns segundos ficamos nos olhando sem interromper a conexão, os olhos de Kakashi estavam distribuídos hora em meus olhos e outra em minha boca. Provavelmente eu estava fazendo a mesma coisa.

— Erh... Bem, vamos comer não é?

Falei um pouco desajeitada enquanto abria a cesta de comida, mas algo estava errado.

Grudado na parte inferior de dentro da cesta não havia nada além de um papel explosivo.

— Sakura!

— Kakashi!

Gritamos ao mesmo tempo, segundos antes da bomba explodir.

Estávamos parados lado a lado à quase sete metros de distância da explosão, havia fumaça e poeira para todos os lados, meu sentido estava em alerta.

— Sakura, você está bem?

O tom de alarme de Kakashi deixava-me ainda mais assustada.

— Sim!

Respondi tocando minhas costas na sua.

— O-O que aconteceu?

Perguntei enquanto olhava para os lados procurando qualquer indício de chakra, mas sem sucesso.

— Eu não sei... — Ele parou por um momento e depois simplesmente gritou — Pakkun!

De repente Kakashi virou-se para sua esquerda e com sua incrível velocidade começou a correr.

O acompanhei sem problemas, mas havia anos desde que eu correra daquela forma: preocupada e atenta.

Paramos na beira de um rio de águas rasas, sentidos aflorados faziam com que o silêncio fosse cortante entre nós.

Logo mais abaixo o corpo de Pakkun estava estirado sob a terra úmida de lama.

— Kakashi... — ele sussurrou, perceptivelmente faltava-lhe forças — Ele... Eu...

— Não fale nada — eu disse enquanto estendia ambas as mãos sob seu pelo. Concentrei chakra o suficiente para curá-lo, mas ele estava muito fraco — Não consigo fazer muito Kakashi.

Disse com pesar, eu sabia que as chances de Pakkun seriam boas se ele descansasse.

— Vamos levá-lo — Falou pegando-o gentilmente em seu colo, seus olhos traziam compaixão e dor.

Voltamos para o centro de Konoha o mais rápido que pudemos, havia um certo alarme em nossos rostos e urgência em nossas palavras.

— Sakura! O que aconteceu?

Perguntou Ino assim que me viu chegando junto de Kakashi no hospital.

— Separe um leito para Pakkun, rápido. Kakashi, pode deixar com a gente agora.

Ele não queria largar seu cão conosco, seus braços se estenderam com receio.

Toquei-lhe no rosto com a destra tentando trazer alguma segurança, o toque quente de minha mão em seu rosto fez meu corpo balançar.

— Sakura, eu... — Ele não conseguia falar, parecia abalado demais — Por favor.

Eu entendia a melancolia de sua voz, a tristeza de suas palavras.

— Está tudo bem, Pakkun vai ficar bem.

Ele finalmente concordou e deixou o cão em meus braços.

Eu estava em minha sala perdida em pensamentos quando alguém bateu.

— Entre!

Gritei.

Naruto adentrou minha sala com seu olhar sério, pelo tempo que eu o conhecia eu tinha certeza de que a notícia já havia chego até ele.

— O que aconteceu Sakura?

Encostei minhas costas na cadeira tentando relaxar, fiz movimentos circulares nas têmporas tentando afastar a dor de cabeça que se iniciava. Como explicar que eu e Kakashi estávamos sozinhos num encontro? Principalmente não longe de Konoha? Fiquei encarnado Naruto à minha frente enquanto escolhia as palavras certas.

— Eu e Kakashi estávamos no campo, depois do bosque... — dei uma pausa, achei que ele faria alguma pergunta, mas ele continuou calado — Pakkun apareceu com uma cesta de piquenique e quando eu abri havia um papel explosivo. Depois disso acho que Kakashi sentiu o chakra do verdadeiro Pakkun e o trouxemos aqui.

Naruto estava de pé com uma das mãos no queixo, os olhos azuis estavam intensos. Ele respirou fundo e eu esperei duras palavras.

— Não acha estranho isso ter acontecido no mesmo dia em que recebi uma mensagem do Sasuke?

Sasuke... Eu não havia sequer relacionado os acontecimentos da manhã com o que acabara de ocorrer. Mas o que ele teria a ver com isso? Ele ainda continuava se exilando, cumprindo uma missão idiota que ele mesmo se impôs.

— Eu não pensei nisso Naruto — respondi sinceramente — Eu não quero pensar na coincidência sobre a visita de Sasuke ter a ver com esse... atentado.

Ficamos ambos em silêncio, havia uma tensão forte ali, sabíamos que as coisas não podiam sair de controle, há anos desde que a vila estava em paz e queríamos que as coisas permanecessem assim.

Eu estava perdida nas possibilidades quando senti o corpo quente e forte de Naruto ao meu redor, ele me abraçava.

— Que bom que você está bem, Sakura.

Senti meus olhos arderem por trás, não permiti que as lágrimas rolassem. Me lembrei de um longo abraço com Naruto quando velávamos os mortos após a Guerra e aquela lembrança tocou-me profundamente.

Fiquei parada olhando pela janela quando Naruto saiu. Ele não tinha dito uma palavra sobre eu estar em um suposto piquenique com Kakashi, sequer tocou no assunto.

O crepúsculo se formava no horizonte, o início da noite misturava-se com os últimos raios de Sol daquela tarde turbulenta de domingo, e eu sabia que em algum lugar no escuro das montanhas havia alguém cujo chakra eu sentia me perseguir... me perseguir desde que a guerra havia acabado e que ignorei com todas as minhas forças lutando contra minha própria insanidade. Mas e agora?