Cerejeira
5 5 - Pesadelos
Apesar de ser noite, o mormaço entrava pelas frestas da janela fazendo-me suar. Dois banhos em menos de quatro horas não pareceram suficientes para sanar o calor, mas talvez fosse minha preocupação com o último acontecimento há quatro dias atrás.
Mergulhei meu rosto no travesseiro lutando contra a insônia, virava e tentava todas as posições possíveis, mas em vão, o sono havia desaparecido.
Desci as escadas sentindo o corpo amolecido pela temperatura alta e parei quando senti aquele chakra.
Um arrepio subiu pela minha espinha e passou por cada centímetro de mim, o coração batendo de forma descompassada. Olhei para todos os lado à procura de algo ou alguém que pudesse emanar aquela chakra, mas meus olhos encararam apenas o escuro da minha própria casa.
Ousei dar um passo para frente quando o senti novamente, a opressão, o poder que aquilo tinha sobre mim, aquela sensação de paralisia total do corpo. Encarei mais uma vez a escuridão quando aquele par de olhos vermelhos me encararam, o sharingan brilhava e quase me ofuscava, eu mal podia continuar a olhá-lo daquela forma.
O suor escorreu pelas minhas costas e eu não podia mexer meu próprio corpo, pois o par de olhos vermelhos começava a se aproximar cada vez mais até eu poder sentir sua respiração ofegante e gélida, até meu corpo começar a sentir choques elétricos desde a cabeça até a ponta dos dedos dos pés.
Eu não tinha certeza se era Sasuke, Itachi ou Madara, não sabia exatamente quem estava ali diante de mim dando-me a sensação de impotência.
— Sakura...
Alguém sussurrou meu nome ao vento, pude sentir o hálito em meus ouvidos como se falassem com a minha mente.
Engoli a saliva dolorosamente, meu peito ardia pela adrenalina que drenava minha sanidade. Tentei gritar, mas a voz não havia saído, não conseguia me mover ou me defender e o escuro intenso e opressor começou a me cercar.
Acordei com a cama molhada de suor, ofegante e zonza. Olhei para os lados procurando alguém, tinha a sensação de que eu ainda podia sentir verdadeiramente a opressão, o medo e o escuro que me rodeava.
Apalpei meu abajur ao lado da cama, por um segundo temi o que a luz poderia revelar, mas não havia nada fora do comum dentro do meu próprio quarto.
Esfreguei os meus próprios olhos tentando afastar a sensação ruim que espremia meu peito, olhando para o relógio percebi que não tinha dormido mais do que duas horas, ainda era madrugada.
Caminhei em direção às escadas tentando não pensar no pesadelo, não queria ficar com a paranoia de que eu não estava sozinha na minha própria casa.
Peguei um copo de água gelada que desceu refrescante naquela madrugada quente, olhei para fora onde a Lua estava alta e cheia no céu, fiquei pensando nos sentimentos que Kakashi me causava, fiquei pensando em como as coisas tornaram-se malucas desde que nos encontramos pela primeira vez.
O barulho do toque do celular me fez despertar, o nome do Iruka brilhava na tela.
— Alo?
— Sakura, desculpe incomodá-la a essa hora... Mas poderia vir até o pronto socorro?
Meu coração palpitou mais forte por um momento.
— Claro, aconteceu alguma coisa?
Ele ficou mudo por alguns segundos, pareceu escolher bem as palavras.
— Só poderia vir por favor?
O que era de tão importante que eu tinha que sair da minha casa de madrugada?
Me aprontei o mais rápido que pude e parti em direção ao hospital da vila.
Os corredores estavam com suas luzes diminuídas, havia um silêncio mórbido que inundava o lugar. Meu coração estava disparado, eu estava apreensiva todo o tempo, por mais que eu procurasse os meus funcionários não encontrava ninguém.
Minha respiração ofegante cortava o vento que se tornara gelado, eu esfregava as mãos nos braços tentando espantar o frio enquanto ia em direção à minha sala.
Com certa dificuldade girei a chave na porta e adentrei o lugar e para minha surpresa eu não estava sozinha.
O chão debaixo dos meus pés simplesmente havia sumido. Cada célula do meu corpo parou por um momento assim como meu coração, de repente o ar não entrava nos meus pulmões e a dor peitoral me fazia arfar.
Sasuke estava parado com um manto negro que cobria seu torso até os pés, os cabelos escorridos ao lado do rosto deixavam-no com uma aparência mais desleixada, sombria. Seus olhos pretos encaravam-me com certa surpresa.
— Sakura.
Há muito tempo não ouvia sua voz apática e fria.
— O que está fazendo aqui?
Perguntei de forma cautelosa, uma das mãos ainda estava na maçaneta e meu corpo estava entre a ele e a porta.
— Podemos conversar?
Ele quis saber.
Eu queria poder dizer que "NÃO, NÃO PODEMOS CONVERSAR". Era muita audácia voltar todo esse tempo e ainda por cima me procurar. Era ousadia demais da parte dele achar que tinha algum direito de falar comigo. Me acordar de madrugada com a voz do Iruka e me chamar!
— O que você quer?
As lágrimas queriam sair, mas não deixei, ele não saberia que elas estavam prontas para rolar.
— Eu só queria ver você.
Ele disse, seu semblante continuava sério, misterioso como sempre foi.
— Pois agora que viu pode ir embora!
As palavras simplesmente saíam, eu não sabia como controlá-las.
— Você não quer me ver?
Aquela pergunta atingiu-me como um soco no estômago, meu coração partindo-se em minúsculos pedaços que voavam soltos dentro de mim. Eu não sabia o que responder.
— Eu vi você com o Kakashi no campo.
Ele falou de forma natural e somente a menção do nome de Kakashi na boca de Sasuke fez meu estômago ferver.
— Então foi você? Foi você quem fez aquilo com Pakkun?
De repente as memórias começaram a voltar, quatro dias atrás aquele atentado em cima de mim e Kakashi...
— Não.
Ele respondeu, mas eu não estava convencida.
— Foi você quem tentou me matar? E Kakashi também? Que tipo de monstro você se tornou? Quem você pensa que é pra vir até a vila como se nada tivesse acontecido? Que importância você acha que tem pra mim Sasuke? Acha que vou ficar aqui me arrastando pra você? — Não tinha jeito, eu vomitava as palavras descontroladamente — Pois fique sabendo que por mim você tinha morrido naquela maldita guerra! Você é desprezível!
O ódio percorreu meu corpo e juntamente da adrenalina meu sangue ferveu.
Me vi jogando meu próprio punho contra Sasuke que desviou, fazendo com que eu atingisse a parede à minha frente. Houve um estrondo e o concreto subiu pelos ares, vidro e estilhaços de madeira misturavam-se entre nós.
— O que acha que está fazendo Sakura? Acha que pode contra mim?
Tão pretensioso e arrogante como sempre, a raiva de Sasuke só aumentava cada vez mais.
— Ela pode, mas não vai.
A voz de Kakashi soou atrás de mim e quando olhei em direção à Sasuke vi que Naruto se prostrava às suas costas de braços cruzados, olhar fixo e duro em nós.
A mão quente de Kakashi tocou meu braço e por um segundo senti o conforto de seu toque, acalmando-me gradativamente.
— Sakura — sua voz era suave, doce — Acalme-se.
Respirei fundo, o ar ainda tinha dificuldade para entrar.
Naruto colocou sua destra sobre Sasuke.
— Sasuke! Ficou tanto tempo fora e agora causa confusão? O que aconteceu aqui?
— Sakura é uma descontrolada.
Ele disse, sua expressão era de total indiferença.
— Cale a boca seu idiota!
Gritei, mas os dedos de Kakashi me apertaram.
— Pode nos dizer o que está acontecendo Sasuke?
Kakashi estava sério, suas palavras eram cautelosas.
— Não está acontecendo nada. — Sasuke continuou — Eu só queria ver ela.
Kakashi me apertava um pouco mais agora, sua voz tomou um tom mais duro.
— Acho que é perceptível que ela não quer ver você.
— Isso é você quem está dizendo — retrucou Sasuke — Na realidade eu nem sei porque você está aqui se metendo.
— Sasuke! — repreendeu Naruto — Por que está falando assim como Kakashi Sensei? Qual é o seu problema?
Mas Sasuke estava disposto a ignorá-lo, seu foco voltava-se para mim e Kakashi.
— Vamos Sakura, diz que não quer me ver mais.
Minha sala parecia girar ao meu redor, eu estava ofegante, coração acelerado e emoções visíveis.
Eu não tinha certeza dos meus sentimentos naquele momento, obviamente Kakashi mexera com algo quieto dentro de mim, algo que há muito tempo estava escondido. Mas era Sasuke quem plantara algo em meu coração, era ele quem esteve nos meus pensamentos por muito tempo.
— Eu... Eu...
As palavras são saíram, estavam entaladas na garganta.
— Bem, acho que você se precipitou Kakashi.
Olhei para o meu sensei que me encarava curioso, havia um olhar de desapontamento em seus olhos escuros.
Ele não estava errado, eu havia dado a certeza de que não sentia mais nada por Sasuke, mas eu não contava em vê-lo tão de repente.
— Acho que sim.
Disse Kakashi tirando sua mão de mim.
— Kakashi sensei!
Exclamou Naruto, mas ele já havia ido embora.
— O que você fez Sasuke? — perguntei sentindo a raiva me invadir de novo — Por que está aqui, droga!?
— Eu já disse o que vim fazer aqui, por um acaso ficou com problema de surdez?
— Pare Sasuke! Eu estou começando a perder a paciência com esse seu jeito arrogante.
Era perceptível a mudança repentina no chakra de Naruto, ele estava começando a ficar irritado.
Sasuke olhou para Naruto de forma indiferente, deu de ombros e depois me deu uma última encarada e sumiu madrugada a dentro.
— Espere!
Gritou Naruto, mas eu o impedi.
— Não, Naruto! Deixe ele, por favor.
— Mas Sakura ele...
— Não... Tem gente vindo, fique aqui e dê uma desculpa, eu vou atrás do Kakashi.
Naruto não gostou da ideia, mas parti antes mesmo que ele me desse alguma resposta.
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