Cerejeira

10 10 - Aprisionada


Acordei sentindo meu corpo doer, mas não mais do que os meus braços, esticados e presos em argolas grossas em uma parede espessa de tijolos.

Tentei com todas as minhas forças me soltar, mas eu não conseguia sequer controlar meu chakra, ele parecia ter sido bloqueado.

Olhei ao redor, estava em uma cela escura e fria, havia umidade por todos os lados e o cheiro era de urina, suor e dejetos, o que me deixava cada vez mais enjoada.

Meus pés também estavam algemados em pesados grilhões, tão pesados que senti os músculos doerem quando tentei mover as pernas.

— Ei! Tem alguém aí!?

Gritei.

Não demorou muito para que eu ouvisse uma movimentação próxima a mim, cheguei a pensar que não estava sozinha na cela. Mas o barulho vinha da cela à minha frente.

— Quem é você?

A pergunta soou abafada, quase sem forças.

— Sakura — Me limitei a responder, eu não sabia com quem estava conversando — Onde estou?

— Sakura... — Sussurrou meu nome como se lembrasse de algo — Você está em um lugar onde nunca poderá sair.

— O que?! Como assim?! Qual é o seu nome? Onde eu estou!?

Sentia a raiva tomar conta de mim, achei que meu chakra poderia se movimentar dessa forma, mas nada, eu estava quase vazia.

— Você não consegue usar o chackra, não é?

Perguntou a voz.

— Como você sabe?

— São os receptores negros... Eles foram injetados em nós.

Senti-me nauseada, os receptores negros... Pain... Mas ele estava morto, então quem estava por trás disso?

— Shhh! — Advertiu-me o estranho — Eles estão vindo, estão vindo.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa ouvi o barulho de chaves e passos vindo em minha direção. Abaixei a cabeça fingindo-me de desacordada, talvez assim conseguisse algumas respostas.

— Ela está aqui.

Disse uma voz que eu não reconheci.

— Ainda desmaiada? — perguntou outra voz, também nada familiar — Ela pode se mover?

— Na verdade não, os receptores podem controlar o seu chakra, bem como os seus movimentos.

— Quer dizer que ela pode fazer o que quisermos? Que interessante...

Ouvi o portão da cela se abrindo. Meu coração estava disparado, minhas pernas estavam bambas, podia sentir minha nuca eriçada. Eu estava temendo pela minha vida, pelo que podiam fazer comigo. Tentei me acalmar, mas as lágrimas começaram a aglomerar nos olhos.

Alguém se aproximou e pegou em meu rosto erguendo-o. Permaneci de olhos fechados, relaxando toda a cabeça para que pensassem que eu ainda estava inconsciente.

— Que belo achado — disse a voz masculina próxima a mim — Tenho certeza de que nos será muito útil.

Falou enquanto passava seus dedos nojentos pelos meus lábios. O medo e a raiva podem nos impulsionar a atitudes que não faríamos se estivéssemos totalmente sãos.

Em um movimento rápido o mordi, forte o suficiente para arrancar-lhe um pedaço de dois dedos.

O homem gritou e seu grito ecoou pela cela quase vazia fazendo minha cabeça zunir. Cuspi o resto do sangue que havia em minha boca, o gosto férreo na minha língua causava-me ânsia.

— Seu desgraçado! — gritei, a raiva me possuindo aos poucos — Me solta daqui pra você ver o que eu não faço com você seu filho da puta, covarde!

O outro que estava fora da cela se aproximou rapidamente e com habilidade rasgou um pedaço da minha camisa e enrolou na mão ferida do homem.

— O senhor está bem?

O homem parecia descontrolado, chacoalhava a mão ferida fazendo com o que o sangue transpasse o pano enrolado que tentava, inutilmente, conter o sangramento.

— Sua cadela! Então você gosta de morder não é? — Vociferou — Vamos ver se consegue morder sem os dentes.

O soco foi bem ao lado esquerdo do meu rosto, senti o sangue da boca cortada acumular no mesmo instante, quase tive certeza de quem alguns dentes do fundo foram quebrados. Eu teria dito algo se não estivesse tonta, meu cérebro parece ter sido chacoalhado dentro da cabeça.

— Vamos, senhor.

Pediu o primeiro.

— Sim, vamos, mas leve-a.

— Levar para onde senhor?

— Para os meus aposentos, ela vai receber o que merece.

Senti meu estômago revirar, a raiva e o medo colidindo dentro do meu corpo.

— Se colocar um dedo em mim...

Falei tentando parecer confiante, mas a verdade era que eu estava apavorada, só não podia deixá-lo saber disso.

— Vamos ver o que você vai conseguir fazer. Rápido, tire-a dai.

Falou ele enquanto saía da cela e caminhava para longe da minha vista.

— Quem é você?

Perguntei ao homem que havia ficado. Aos poucos minha visão voltava ao normal, mas a cela era escura demais para vê-lo totalmente.

Ele não parecia ser um tirano ou um sádico, na verdade estava vestido com um jaleco branco, deduzi que fosse algum ninja médico. Por um momento senti vontade de morder sua orelha quando ele se aproximou, mas não adiantaria, eu teria que tentar ganhá-lo como um aliado.

— Eu sou médica também.

— Eu sei.

Respondeu ele nada interessado na conversa, parecia estar com pressa para me tirar dali.

— Estou com sede. Pode me arrumar um pouco de água?

— Depois.

— Por favor.

Implorei tentando ganhar sua misericórdia.

— Escute Srta. Haruno, quanto mais você colaborar menos irá sofrer.

— Como é? Você quer que eu colabore com vocês? Ficou louco?

Meus braços e pernas foram finalmente soltos, mas eu não conseguia movê-los, parecia uma consciência presa dentro de um corpo de boneco. Sasori. Pensei por um segundo.

— Escute, se precisa de um auxílio médico eu posso ajudar.

O homem riu com desdém, como se eu não fosse nada.

— É melhor ficar calada, o Sr. Sizuko não gosta muito quando as... quando ficam falando.

Fiquei pensando no que ele diria, presas? vítimas? pacientes? Senti um formigamento nos meus membros, algo como quando o sangue para de circular, senti que aos poucos o meu chakra estava voltando ao meu controle, era como uma pequena labareda bem no fundo do meu espírito, não era o suficiente, mas era um começo.

Atravessamos o corredor comigo nos ombros daquele estranho sem poder fazer nada além de levantar a cabeça e olhar em volta. Haviam diversas celas dispostas em ambos os lados, algumas pareciam vazias, outras com pessoas que eu nunca tinha visto antes, cobaias.

Eu soube naquele instante que a maioria dos presos jamais escaparia, talvez estivessem lá tempo demais para reunirem forças e tentarem escapar, provavelmente o receptor negro fora inserido neles por tanto tempo que e isso tirou totalmente suas capacidades de revidar. Mas isso não aconteceria comigo, eu não permitiria.

Subimos uma escada em caracol, o conjunto de celas estava ficando para trás juntamente do escuro e caminhávamos em direção à um lugar claro, mas ainda sim subterrâneo. As paredes eram tão espessas que ninguém ouviria os gritos, grossas o suficiente para não serem derrubadas, sabia que não conseguiria sair dali na força física, precisava de mais.

Fechei os olhos, meu chakra um pouco mais visível agora, eu não poderia deixar que me inutilizassem de novo, que usassem os receptores mais uma vez, caso contrário seria o meu fim, por isso controlei o pouco do meu chakra para disfarça-lo o máximo possível.

O homem que me trazia nos ombros era alto, forte e tinha um cheiro esquisito, mas nada que fosse tão enjoativo quanto o lugar onde eu estava. Caminhamos cerca de cem metros até entrarmos em uma espécie de quarto, ouvi quando a porta se abriu.

— Finalmente.

Reconheci a voz, era a do homem que havia me socado.

— Vá logo sua inútil — gritou ele para alguém, vi quando uma moça de jaleco saiu correndo chorando.

— Como está sua mão, senhor?

— Melhor, quase curada.

Curada? Pensei. Não havia se passado nem meia hora desde que eu o havia ferido e ele já estava curado? Era um poder de regeneração bem grande.

— Jogue-a na cama.

Ordenou o homem.

O que me carregava não disse nada, mas achei ter ouvido um "sinto muito" quando meu rosto se aproximou do dele. Ele ficou encarando o outro por um tempo.

— O que está esperando? Saia!

— Sim, senhor.

Pela primeira vez pude ver o homem que me carregava. Rosto sereno, cabelos escuros jogados para trás, óculos de grau na frente de um par de olhos azuis intensos, escuros. Seria um homem bonito se não fosse um covarde.

Ouvi a porta se fechar. Meus dedos se moviam, dos pés e das mãos, mas não era o suficiente para me defender, mas talvez fosse para outra coisa.

Fiquei a sós com o desgraçado, e com raiva o encarei. Ele era incrivelmente grande, forte, os músculos quase saltavam da camisa. Tinha apenas um dos olhos, o outro era cego com a íris esbranquiçadas. Sem bandana não pude reconhecê-lo, nem saber de onde era. Eu não fazia ideia de quem estava à minha frente.

— Você fez um belo estrago, querida.

Disse-me ele, os dedos que sobraram se aproximando de mim mais uma vez.

— Mas não vou cometer o mesmo erro duas vezes.

Sua mão desviou-se do meu rosto e desceu, lentamente por entre os meus seios ainda por cima da blusa, depois tocou a parte desnuda da minha barriga onde um pedaço de pano fora arrancado.

Segurei as lágrimas e virei o rosto. Chakra. Chakra. Não era o suficiente, mas estava crescendo, eu precisava enrolá-lo.

— Por favor, não faça isso.

Implorei tentando não olhá-lo enquanto ouvia o barulho do zíper de alguma coisa.

— Não faça isso — gemeu ele — Eu adoro quando vocês imploram, sabia?

Engoli a seco, não sei porquê mas pensei em Kakashi. Tentei me apegar às lembranças de seus olhos, sua boca, seu corpo no meu. Tentei fingir não estar prestes a ser brutalizada. Tentei chamá-lo em minha mente, meu coração estava explodindo e as lágrimas começavam a escapar dos olhos.

— Não chore, prometo que não vai acabar rápido.

Senti a pressão em meu corpo e fechei os olhos para não enxergá-lo.