Central De Atendimento
4 Será que você vai saber o quanto penso em você?
Notas iniciais
Estela estava infeliz como nunca esteve em toda sua vida, a fraqueza de tanto chorar a impedia de sair do quarto, sua mãe mostrava uma preocupação forçada camuflando o interesse de saber o que tinha acontecido, a ponto dela ficar no quarto o dia todo, o padrasto se sentia satisfeito com aquilo, pensava que quanto menos a garota saísse melhor seria a impressão que teriam os vizinhos.
Desde a última conversa com Natasha perdera todo o ânimo pela vida, além de perder a namorada, havia perdido a amizade do melhor amigo e nada tinha importância agora.
Deitada de bruços na cama, retirou da gaveta do criado um caderno usado com a capa manchada do que parecia ser café, folheou até encontrar uma página limpa e com uma caneta falha escreveu:
"Vó, queria que lesse essa carta, ninguém mais leria ou ouviria o que quero dizer agora. Estou sozinha no mundo de novo, dessa vez é pior do que quando a senhora morreu, porque foi por resultado de minhas ações, como sempre te ouvia dizer: nunca é tarde pra mudar, não sei como mudar o que aconteceu.
Eu me apaixonei demais por muitas garotas, mas nunca assim. Parece que meu coração tá com o tumor, ele dói cada dia mais forte e o ar que respiro parece contaminado com todas as lembranças que tenho dela, quero morr"
À medida que escrevia a caneta começou a falhar até parar de funcionar nessa palavra.
Debruçou em cima do caderno e voltou a chorar desesperada, fazia mais de uma semana que não ouvia a voz de Natasha, quatro dias que não tinha nenhuma notícia nem resposta da amiga dela. O celular estava jogado no chão ao alcance das mãos, no visor a última conversa:
– Como ela tá? — Estela.
– Já disse há meia hora que ela tá melhor, amanhã volta pra casa mas é melhor você não ligar nem encher o saco. — Alana.
– Eu preciso saber se ela me perdoa, sinto muita falta, não vou conseguir viver sem ouvir a voz da Natasha de novo. — Estela.
Aquela foi a última mensagem que enviou e ainda não obtivera resposta.
Cansada de esperar a garota dormia o máximo de horas que seu corpo aguentava, segurava o choro perto da mãe para não ter que contar sobre a namorada, o resto do tempo permanecia deitada ou sentada lendo as cartas de Natasha e chorando.
Já haviam trocado dezenas de cartas, todas elas com algum objeto ou coisa em particular com algum significado, a última por exemplo tinha duas folhas de caderno e um pequeno retalho xadrez vermelho e branco, numa das linhas da parte branca estava escrito em letras minúsculas quase indecifráveis: 'Pra você sentir meu perfume novo, lembra um pouco cheiro de danone né?'
Estela já havia decorado cada palavra daquelas cartas já que suas atividades diárias eram ler e chorar, passava muito tempo pensando no que fazer para não perder a amada, e nunca chegava a uma conclusão sensata.
Agora estava se acalmando da crise de choro, fez um risco no cabeçalho da página e notou que a caneta voltava a funcionar, não sabia mais o que escrever, então terminou a carta da avó dizendo:
"Eu preciso de um milagre vó, preciso da Natasha pra ser feliz"
Destacou a folha do caderno e guardou embaixo do travesseiro como se esperasse por uma fada do dente que levasse cartas para pessoas mortas. Esticou o braço até o chão e pegou o aparelho jogado, discou o número da casa da namorada várias vezes, como sempre caía na caixa postal, sabia que haviam mudado o número desde que a garota saiu do hospital. Cansada, tentou ligar para o celular, a mesma mensagem de todos os dias:
– Você ligou para Natasha, no momento não estou, deixe sua mensagem após o sinal. — era a única forma de ouvir a voz da garota dos seus sonhos.
– Você ligou para Natasha, no momento não estou, deixe sua mensagem após o sinal. — por mais desalinhadas que soassem aquelas palavras, a garota queria ouvir aquela voz infinitamente.
Desligou e já ia discar de novo, até se assustar com o som indicando a chegada de um torpedo.
"Vrum Vrum".
– Seu egoísmo me enoja, não vai conseguir viver sem a Natasha, sente falta, quer que ela te perdoe. Você só pensa em si mesma, como acha que ela se sente com uma artéria explodindo a cabeça e uma namorada vadia como você? — Alana.
Aquelas palavras atingiram a mais profunda consciência da garota, esperou quatro dias por uma mensagem que lhe fizesse parar de chorar e recebera uma capaz de estuporar seu coração. Desde o dia que conheceu a namorada, aquela era a primeira vez que se preocupou em como ela estava se sentindo, o quanto seus sentimentos eram pequenos perto dos de Natasha naquele momento.
Ficou refletindo por um tempo com o celular nas mãos, até finalmente chegar a conclusão que procurava há dias no holocausto de seus próprios pensamentos. Levantou o travesseiro e pegou a folha de caderno que havia guardado ali, na última linha modificou:
"Eu preciso de um milagre vó, preciso da Natasha pra ser feliz e fazer a Natasha feliz." MUDAR
Dobrou a folha em oito, levantou da cama com vertigem e caminhou tropeçando no ar até o guarda-roupa, tirou de lá a caixa que guardava as cartas memorizadas da namorada, juntou entre elas a carta recém escrita.
– É minha última teoria. — sussurrou baixinho olhando uma foto da avó colada no espelho.
Deu uma examinada no reflexo pálido e doentio, seus cabelos negros tingidos estavam mais desgrenhados que o normal, os olhos inchados cobertos com olheiras enormes não eram mais encantadores como antes, mal se percebia o brilho do azul turquesa, talvez fosse a primeira vez que estivesse tão desleixada, uma agressão ao espelho. Apesar disso, sentia-se melhor que nos dias anteriores, a vaidade ferida não a abalava.
Saiu do quarto se apoiando nos móveis até o banheiro ao lado, o desiquilíbrio físico contrastava com seu equilíbrio mental recém-adquirido. Trancou a porta, arrancou o pijama trêmula, ainda estava vertiginosa por ter se movimentado, girou a torneira do chuveiro e em milésimos de segundos sentiu a água gelada percorrendo seu corpo quente.
Deslizou a mão pelo abdômen sentindo as costelas a mostra, devia ter perdido peso na última semana, seus pelos arrepiavam com a temperatura da água e aquele choque térmico era o ímpeto que a fazia entender o quão forte amava Natasha.
Saiu do banho meia hora depois, vestiu-se com uma roupa qualquer, desceu até a cozinha e fez uma refeição decente, depois de alimentar-se, foi atrás de uma grande ideia.
Caminhou alguns quarteirões tentando ver o falso crepúsculo causado pelos prédios, até que chegou na casa conhecida.
– Oi — cumprimentou com certa ansiedade.
– Eaí — respondeu levantando uma sobrancelha — Achei que tinha morrido.
Por um segundo pensou na insensatez que cometera indo até lá, devia voltar para casa e resolver seus problemas sozinha, até ouvir a voz perguntando afável:
– Tá melhor?
Hesitou um pouco para responder:
– Um pouco, essa semana me fez pensar em muita coisa.
– Devia fazer mesmo, ficou muito tempo fora da escola, as garotas perguntaram todos os dias se eu sabia o que te aconteceu.
– E o que tu respondia?
– Disse que tava com conjuntivite mas depois me arrependi porque pediam teu endereço.
– Por favor, diga que não passou. Passou? — sua voz saiu rouca e em tom de súplica.
– Não, relaxa. — riu do desespero da garota.
– Ufa. Já tô enrolada demais com meus pecados antigos, não quero adquirir novos.
Ele encarou os pés cabisbaixo, como se estivesse desconfortável com a visita da amiga.
– Me desculpe por não ter entendido seus sentimentos antes, eu fui muito egoísta.
– Tudo bem, também não foi nada nobre contar seus segredos pra Natasha.
– Isso foi o que me fez acordar, no fundo fez bem.
– Mas se eu não tivesse contado, ainda estariam juntas. Me arrependo de ter contado tudo, tava torcendo pra te ver por esses dias, pra consertar isso, eu posso ligar pra ela e dizer que é mentira o que falei. — Pedro disse num fôlego só.
– Não, eu não quero mais mentir.
O amigo arregalou os olhos como se estivesse ouvindo algo grave, ou pelo menos, inesperado.
– Eu vim aqui pra pedir ajuda, preciso de uma ideia.
– Ideia pra reconquistar?
– Não, uma ideia pra ir vê-la.
– Tá falando sério? — perguntou espantado.
– Sim.
– Acho difícil conseguir ir pra lá sozinha, tua mãe não vai concordar com isso e pensa.. Olha tua idade, ninguém sai do estado com quinze anos.
– Preciso encontrar uma maneira, se não for de avião, pego um ônibus.
– Ônibus demora um dia in-te-i-ro articulou prolongando a última palavra.
– Não ligo.
– Acho que vão te barrar na rodoviária por ser menor também.
– Que droga! — reclamou.
– Sim.
Os dois sentaram no chão da varanda e passaram a tarde fazendo planos para aquela viagem impossível, discutiam desde desculpas esfarrapadas até o problema mais oneroso que era como chegar lá.
– Então, o jeito mais fácil é ir de carona até São Paulo, mas é muito arriscado também.
– Tu tá mesmo louca pra ver essa guria?
– Nunca estive tão louca de amor por alguém como agora. — seus olhos turquesa brilharam.
– Por que não liga e tenta falar com ela pra marcarem direito essa viagem? Tu não tem condições de se manter longe de casa.
– Ligar onde? A amiga disse que ela quebrou o chip do celular, a família mudou o número do fixo, só o que tenho agora é contato com a amiga que talvez me odeie mais que ela.
– Hm.. — Pedro parou, alisou o queixo por um tempo como se estivesse pensando em algo. — Tive uma grande ideia, uma ideia genial, com isso a Natasha vai voltar a ser sua namorada, mas as chances de dar certo são mínimas.
– Não importa, tento qualquer coisa. Qual a tua ideia?
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