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5 Gartic - Penúltimo capítulo


Notas iniciais
Não, esse não é o último capítulo. Cheguei a terminar a fic com um último capítulo mas não consegui postá-lo, seria muito injusto resumir a história para ter logo um final, então refiz dando valor a detalhes importantes que dão mais sentido a história. Espero que alguém leia/goste

São Paulo, tempo nublado, 13º.


Já era madrugada na capital e como esperado de todos os invernos, a temperatura estava baixa, os vidros das janelas embaçadas comprovavam o frio congelante que fazia lá fora. Na gigantesca capital que não dorme, pessoas passeavam pela av. Paulista dentro de seus agasalhos pesados tentando se aquecer, embaixo daqueles prédios altos ainda havia vida noturna.

No alto de um desses prédios, uma garota mantinha a janela limpa apagando os sinais deixados pela madrugada gélida com as mãos. Tinha cabelos castanhos bagunçados, pequenos olhos míopes que com os óculos lhe davam um certo charme, alta, magra e pálida, sua aparência naquele momento parecia doentia, principalmente com o tecido azul claro que vestia, roupa de hospital, bastante apropriada para a situação, já que estava em um quarto de hospital.

Seu quarto era pequeno e com poucos móveis, uma cama alta inclinável com colchão d'água, uma mesinha de madeira com algumas revistas, e o aparelho que há alguns dias era o que a mantinha viva; perto da porta da saída havia uma discreta porta sanfonada que levava ao banheiro. Nos últimos dias não lembrava quantas pessoas passaram por ali para visitá-la, trazer flores e desejar melhoras, sua mãe era quem mais passava o tempo com ela, só não podia dormir porque não havia espaço para acompanhante. Natasha preferia assim, desde do dia que lhe tiraram do aparelho, passava as noites dormindo profundamente, só era acordada por volta das quatro da manhã para tomar a dose rotineira de diazepam.

Mas essa noite foi diferente, não conseguiu dormir rápido como de costume, então ficou sentada na cama esperando a hora que por fim cairia no sono, folheou as revistas da mesa procurando alguma notícia interessante, rasgou algumas páginas e fez origamis de pássaros esperando que estes voassem em busca de um punhado de sono, até ficou encarando o teto branco entediante, e nada de sono.

Enfim, levantou e foi para a janela ofuscada fitar o movimento da avenida lá embaixo, limpou o vidro embaçado com as mãos e aproximou-se colando o rosto quente na janela gelada e úmida. Sentia-se sozinha e triste por não conseguir dormir, queria ligar para alguém, ouvir uma voz conhecida, mas não queria preocupar ninguém, por um instante pensou em ligar para Estela, mesmo depois de ter quebrado o chip do celular sabia seu número de cór, só não saberia o que dizer, queria xingá-la, ferir aquela garota estúpida de todas as formas possíveis, tirar toda a felicidade da sua vida, assim como um dementador, assim como Estela fizera com ela. Também queria dizer que estava desesperada, que mesmo se terminassem precisava ouvir sua voz rouca, que tinha medo de morrer naquele quarto gelado sozinha.

É claro que não ligaria, não ia fraquejar agora, depois de implorar para a mãe trocar o número do telefone, pedir às amigas para cortar relações com Estela e excluir todas as possibilidades de contato com a garota, não era justo se humilhar agora.

Tentou desviar os pensamentos e esquecer a dor, suspirou melancólica e percebeu que o vidro havia embaçado de novo com sua respiração quente, não adiantava limpar, também não adiantava tentar esquecer, a janela voltaria a embaçar do mesmo modo que voltaria a pensar em Estela, essas coisas levam tempo.

Deitou na cama e se cobriu com o edredom branco e pesado do hospital, já desistira de tentar dormir, ia esperar a enfermeira lhe ver para dar o diazepam e talvez depois do remédio pegasse no sono. E enquanto esperava não podia evitar pensar na menina que há uma semana era tão importante, então resolveu lembrar apenas das coisas boas que lhe aconteceu.

***********~Flashback Natasha 1~****************


– Eu não acredito que meu lápis 6B sumiu de novo! É a segunda vez hoje, não tem como sombrear meu desenho sem ele. — disse indignada para o nada.

Ela era uma lunática compreensível, não tinha muitos amigos na escola e passava o tempo que restasse desenhando, criando figuras que só existiriam na sua imaginação, a maioria delas eram deixadas de lado antes que terminasse, mas aquele desenho era especial, um cenário sombrio com árvores velhas e seus galhos secos, em uma das árvores uma garota escrevendo algo parecido com kanji japonês. Era um desenho sinistro e interessante, por isso merecia ser sombreado, só que para isso...

– Merda, merda, merda, cadê o meu lápis 6B?! — gritou franzindo a testa de indignação.

Não ouviria resposta já que estava sozinha em casa, sua mãe trabalhava e a irmã estava passando a semana na casa do namorado.

E, ali estava ela jogada no chão com uma prancheta segurando a folha do melhor desenho que já fizera. Natasha, libriana, dezesseis anos, cursando o último ano da escola, segunda filha e irmã caçula, poucos amigos e muitas histórias, a maioria não dividia com ninguém, era melhor guardar para si aquele mundo só seu. Como adolescente até era normal, já havia namorado dois garotos da escola, jogava vôlei nas aulas de educação física e conversava sobre meninos no intervalo, a única diferença que a separava dos outros jovens era sua devoção por desenhos japoneses e o mundo que ela criava dentro de si.

Possivelmente essa diferença seja a responsável por tudo que aconteceu, se não fosse introvertida Natasha receberia convites para sair, recebendo convites para sair ela não estaria em casa numa quarta-feira a tarde, e longe de casa não perderia o tão necessário lápis 6B.

Mas como as coisas precisam acontecer, ela era introvertida, mal saía de casa e perdera seu lápis, por isso não podia finalizar aquele desenho macabro, deprimida guardou os materiais de desenho e ligou o computador, ia jogar gartic, outro hobbie que costumava fazer quando não estava desenhando. As salas de cadastrados estavam cheias, entrou em uma sala qualquer com o Nick cade meu lapis6B, havia duas pessoas no sala, uma delas usava o Nick star6B e a outra polly. Logo que entrou Natasha riu do comentário da star6B:

star6B -Não sei onde está seu lápis.

cade meu lapis6B — meu lápis é 6B ._..

star6B — eu também sou 6B, mas não sou seu lápis.

star6B — :/.

cade meu lapis6B — hauhsuahsuahushua.

cade meu lapis6B — se fosse meu lapis eu te usaria para sombrear meu desenho.

A essa altura, o outro nick polly já havia saído da sala, e aquela conversa idiota gerava uma empatia entre Natasha e o outro ser desconhecido. Conversaram sobre o lápis perdido, desenhos sombrios, extraterrestres, coxinhas e outros assuntos absurdamente estranhos.

star6B — agora não me diga que seu nome é cade meu lapis, né.

cade meu lapis6B: não, é só meu apelido de infancia.

star6B — ufa, seria muito estranho alguém com esse nome.

star6B — sou Estela, e star 6B é o nome da banda que toco.

cade meu lapis6B — hm... não tem nome de banda.

star6B — cade meu lapis6B também não é um bom apelido.

cade meu lapis6B — u.u

cade meu lapis 6B — Natasha, é meu nome legal.

star6B — é bem mais bonito.

E assim as duas se conheceram, trocaram contato, e uma amizade virtual se iniciou a partir daquele bate papo no gartic. Estela lhe contava dos planos que tinha com a banda, tocava violão pela web cam, como se estivesse fazendo um show só para a amiga, no final era aplaudida e acabavam rindo. Natasha desenhava a guitarrista em situações constrangedoras, como no banheiro fazendo suas necessidades enquanto treina guitarra ou dormindo abraçada com o violão, discutiam desde assuntos inúteis até os mistérios da vida.

– O problema é que até hoje não tem como a gente ter certeza absoluta que tá vivendo e não é só um sonho.

– Tu tá precisando de um beck pra desencanar dessas ideias, kkk.

As duas tinham pouco em comum, por isso passavam muito tempo se provocando, era uma relação de amizade e intrigas, não tinha como imaginar que um dia aquilo passaria a ser o começo de um caso de amor.

Estela, geminiana, quatorze anos de vida, uma vida um tanto turbulenta nas últimas semanas. Vivia com o pai e a avó desde a infância, não conhecera a mãe e nem desejava conhecê-la, não tinha tios nem tias, seu pai exagerava na bebida e isso lhe causava muita raiva, por isso brigavam todos os dias, a avó era quem mantinha a ordem entre os dois, paciente e amorosa, a velha acalmava os nervos da neta. Só que nas últimas semanas, a garota não ligou para o que acontecia ao seu redor, tocava guitarra na banda de rock da escola e pouco ficava em casa, nos fins de semana marcava ensaios no estúdio municipal, poucos apareciam para ensaiar, então ela ensaiava sozinha e escrevia letras que não faziam o menor sentido.

Mesmo com tanto empenho, não aceitavam suas letras e ainda era considerada uma guitarrista mediana, Estela desejava de ser a melhor da banda, não podia ser apenas a sombra do grupo, ela tinha necessidade de chamar atenção por ser melhor em alguma coisa. Um dia lhe chamaram para jogar um jogo bobo em que tinha que adivinhar o que a outra pessoa estava desenhando, aceitou e foi aí que descobriu que era pior naquele jogo do que tocando guitarra.

Então, aquela rotina de ensaios foi substituída pela obsessão de jogar até se tornar uma jogadora melhor, entrava no site do jogo e conhecia dezenas de pessoas, estava ficando popular entre os jogadores assíduos, a maioria deles eram de outros estados, usava o apelido star6B em homenagem a banda. Em um desses dias de jogar, Estela conheceu uma garota de São Paulo, ótima desenhista e lunática, o tipo de garota que as pessoas evitam quando estão de mau humor, as duas conversaram muito e jogaram pouco, trocaram contato e daquele dia em diante uma amizade foi nascendo.

A guitarrista tocava Beatles no violão enquanto era observada pela garota de São Paulo, o jogo tinha sido deixado de lado, agora o objetivo já não estava tão implícito, Estela não precisava ser a melhor guitarrista nem ganhar partidas no gartic para se sentir especial. Falar com a nova amiga era uma boa maneira de deixar de lado os problemas em casa, algumas vezes o assunto das conversas eram esses problemas e mesmo assim conseguia se sentir satisfeita, Natasha era boa ouvinte, seus conselhos não passavam de: Foge para o Alaska com a sua avó ou Avisa seu pai que beber causa impotência, usava o humor como forma de distração, já havia sugerido para a amiga virar hippie e vir para São Paulo, ambas venderiam música e desenhos para sobreviver, assim teriam alguma aventura.

Naquele tempo, aventura é a necessidade mais constante das duas, assim como de todos os jovens frustrados com a realidade. Estavam passando por noites mais longas acompanhadas de pensamentos profundos, é nessa época em que é inevitável não se imaginar mudando o mundo antes de dormir.

Estela e Natasha, se falavam todo o dia, trocavam cartas, revistas em quadrinhos e cd's, o fato de morarem há mais de mil quilômetros de distância era um detalhe sem importância, as duas brigavam por bobagens, havia amizades em comum, dividiam histórias, segredos e um sentimento.

– Eu não sei o que me faz gostar tanto de tu.

– É o meu charme, as garotas daí não devem ter tanto poder de sedução como eu.

– Não seja convencida, tu é igual todas as outras garotas daqui.

– Tem certeza?

– Claro, eu que tenho mau gosto, daí te escolhi como melhor amiga.

– Acho que não, você me ama e não admite porque é tímida.

– Hahaha, que besta.

O problema dessa época intensa de pensamentos noturnos é que a fragilidade está sempre presente, não é fácil criar segurança para confessar o motivo que te leva a querer mudar o mundo, poucos se arriscam dizendo a verdade.

Natasha também imaginava como mudar o mundo antes de dormir, sentia o coração acelerado pensando num mundo onde as pessoas, como dizia Estela, seguissem o mesmo ritmo. Desejava ter uma ideia melhor que virar hippie para fazê-la feliz, no seu mundo o pai de Estela não beberia tanto a ponto de feri-la e seria possível dizer o que está guardado no coração, sem medo.

Após quase um ano de amizade, uma dependência afetiva era evidente, as duas se completavam como música e melodia ou traço e cor. A desenhista já terminara a escola, seu plano de passar no vestibular deu certo com a ajuda da melhor amiga, faria design de games já que seu hobbie era desenhar e jogar, o próximo objetivo era encontrar um estágio e passar as férias em alguma cidade diferente com Estela.

********- Flashback Natasha-*************

Um dia durante a aula, Natasha passou mal, uma dor de cabeça enorme acompanhada de enjôo, foi ao hospital e fez alguns exames, enquanto esperava o resultado na recepção ligou para a melhor amiga, ainda estava mole com os medicamentos que tomara na veia mas queria ouvir a voz rouca e preocupada de alguém.

– Será que está grávida? — a pergunta lhe tirou risos bobos.

– Acho que não, deve ser um vírus que você me passou por telefone.

– Poxa, isso que dá falar com gente que não é vacinada.

– Idiota, mongona.

– Ah, eu preciso te perguntar uma coisa...

– Pergunte. — Respondeu curiosa.

– É que... — Natasha ouviu um som de telefone tocando no fundo Droga, alguém tá ligando aqui, vou ter que atender a minha avó saiu.

– Tá bem, a gente se fala mais tarde, me deseje melhoras.

– Ok, não morra ainda e te... cuida a voz rouca da guitarrista dessa vez saiu doce e terna.

Desligou e guardou no bolso o aparelho que mantinha a proximidade das duas. Logo uma senhora de meia idade lhe chamou para entrar na sala do médico, os resultados dos exames haviam saído.

– Natasha, verifiquei os seus exames, o hemograma deu normal, mas há uma alteração visível no eletroencefalograma muito preocupante, vou ter que pedir que refaça esse exame amanhã.

A notícia deixou a garota assustada, nunca tinha estado doente, as poucas vezes que foi no hospital eram por motivos pequenos: resfriado, cólica, dor de estômago. Essa dor de cabeça incomodava bastante, só que dessa vez foi a pior dor que já sentira, agora não sabia o que pensar com a notícia de que há algo errado na sua cabeça.

Não contou nada a ninguém e no dia seguinte foi novamente ao hospital, estava com medo mas precisava saber o que tinha de errado.

– É um aneurisma cerebral. Pelo que vejo no seu exame um dos vasos sanguíneos está aumentado comprimindo o cérebro, isso é o que provocou a dor de cabeça de ontem.

– E agora? — A garota ouviu atentamente, só absorvendo a parte: 'vaso sanguíneo comprimindo o cérebro'.

– Bem, ele não é tão grande, então não posso te encaminhar para uma cirurgia pois não há risco que ele se rompa ainda, mas vamos ter que acompanhar todos os meses, procure não se estressar e principalmente dormir bem. Um aneurisma por menor que seja pode se romper a qualquer momento se você não se cuidar, seja cuidadosa com a sua saúde.

Aneurisma, era a primeira vez que ouvia essa palavra, talvez já tenha ouvido em algum seriado médico americano, não sabia há quanto tempo a garota estava com isso, será que seria essa a causa da sua morte? E se ele rompesse durante o sono? Terminaria o dia sem saber que era o último da sua vida, nenhum dos planos que faz antes de dormir seria realizado, nunca conheceria Estela.

Naquele dia, chorou durante o banho e todo o tempo em que esteve sozinha em casa, decidiu que não contaria para ninguém sobre o aneurisma, preferia não preocupar a família e nem os amigos. Estava esperando a ligação de Estela desde o dia anterior, a última vez que se falaram a guitarrista ia lhe perguntar algo mas foi interrompida por um telefonema. Não era muito comum ficar sem se falarem por mais de um dia, por um momento Natasha começou a pensar se a garota realmente existia, se não era uma alucinação da sua cabeça com aneurisma, uma alucinação que desaparecia quando descobrisse a existência da doença. Esses pensamentos sumiram quando ouviu o celular tocando.

– Oi — Natasha atendeu animada disfarçando a voz de quem chorou o dia todo.

– Oi Na A voz rouca estava embargada como se estivesse chorando.

– Tá chorando? O que aconteceu? — Perguntou imaginando a resposta, o responsável pelas lágrimas dela sempre era o pai bêbado, dessa vez deve tê-la agredido, sua raiva por esse cara só aumentava quando isso acontecia.

– A minha avó... — começou a falar soluçando cada vez mais.

Natasha não queria mais contar para a amiga sobre a doença, ela tinha problemas demais, não seria justo preocupá-la com mais um. O que desejava naquele momento era lhe falar que não importa o que tinha acontecido, Estela poderia contar com ela sempre, estava apaixonada e desejava viver uma aventura ao seu lado, mesmo se esses problemas não resolvessem pelo menos as duas teriam um momento de felicidade juntas...

– A minha avó morreu em um acidente de carro, meu pai estava dirigindo bêbado e atropelou... — Estela terminou chorando desesperadamente.

********-Flashback Natasha & Estela-************

Após a morte da avó, o pai foi preso e a Estela ficou na casa de uma vizinha até descobrirem a localização da mãe biológica, não era agradável a ideia de morar com alguém que lhe abandonou quando pequena, fez de tudo para não ser entregue a mãe mas não tinha escolha, mudou-se para a cidade da mãe na mesma semana de todo o ocorrido.

A nova casa era enorme assim como o vazio no peito, além da mãe o padrasto também vivia ali e ele era quem mais se esforçava para aumentar a tristeza da menina, enquanto a mãe tentava animá-la.

Eles se incomodam muito comigo aqui, seria melhor se eu morresse.

Não tinha o menor ânimo para sair de cama, perdeu um mês inteiro de aulas e sua rotina era baseada em dormir, falar com a amiga virtual e se alimentar quando lhe obrigavam.

– Por favor, eu sei que você tá triste, mas come um pouquinho, por favor. — Natasha pedia.

Estela cedia aborrecida, queria acabar com a própria vida a ter que viver naquela casa, raramente esboçava alguma emoção positiva, o primeiro sorriso depois da mudança foi por causa da amiga desenhista.

Estavam conversando em uma chamada de vídeo, diferente das conversas de antigamente, há tempos Natasha não ouvia o som do violão da guitarrista, os desenhos também estavam raros. A garota mais nova reclamava da vida, iria completar quinze anos no dia seguinte e seria o pior aniversário da sua vida, no relógio faltavam menos de meia hora para meia noite.

– O que vai querer de presente?

– Nada, to ignorando esse aniversário.

– Mas você tem que querer alguma coisa, qualquer coisa.

– Uma arma, talvez. — disse com voz mórbida

– Tá bem, vamos fazer uma aposta, se eu ganhar te peço uma coisa, se você ganhar te dou uma arma.

– Pede? Mas o aniversário é meu!

– Você acabou de dizer que tá ignorando o aniversário, ué.

Estela debruçou a cabeça na cama, o notebook que estava na mesinha do lado já não alcançava mais seu rosto, o foco da câmera mostrava apenas as costas magrelas e parte dos braços, vestia um pullover preto com touca e o short de dormir, estava um dia frio.

– Hey, não me ignore! Olha pra cá, vamos fazer essa aposta, vai te animar bastante.

– To ignorando apostas, não quero olhar.

– Aff, você tá me ignorando também, okey falou triste e desanimada.

– Desculpa Na, tu não tem culpa do meu mau humor- levantou a cabeça e lançou-lhe um olhar arrependido.

– Então... Podemos fazer a aposta? Por favorzinho. — suplicou.

– Tá, só porque vou ganhar e com a arma posso te dar uns tiros quando me estressar.

– Sua do menina do mal disse fazendo biquinho.

– Como é essa tal aposta?

– Então, eu vou te fazer cinco perguntas e você vai ter que responder todas mentindo.

– Hãan? E qual o sentido?

– O sentido é que se você perder eu te peço uma coisa, e se ganhar pode me pedir o que quiser, isso é a aposta.

– Hum... Parece idiota, mas pode começar. — Estela sentou-se na cama e apoiou o notebook no colo.

– Primeiro, qual a cor dos meus olhos?

– Vermelhos.

– Certo. Quantas cordas tem sua guitarra?

– Sei.. sete.

– Hahaha, quase. Ah, quantas perguntas te fiz até agora?

– Duas.

– Uhul, você perdeu! — berrou entusiasmada.

– Ãhn? Do que tu tá falando?

– Errou na terceira pergunta. Agora vai ter que pagar a aposta, mwahahaah!

– Isso não vale, me enganou.

– Não, eu disse que faria cinco perguntas e você tinha que mentir nas respostas, só que caiu na terceira como um patinho — Natasha debochou da confusão mental que havia provocado na garota.

– Aff, não tem como te suportar sóbria, preciso beber. — Estela terminou de falar e saiu do quarto, deixando o visor da câmera filmando a cama bagunçada e o vazio das paredes azul melancólico.

Pouco tempo depois, voltou com uma garrafa de vinho pela metade e um copo gigantesco com a outra metade. Ligou o music player do notebook em um volume baixo o suficiente para falar com a amiga, estava tocando Te devoro do Djavan.

– Tá servida?

– Vai beber na minha frente mesmo? — Natasha perguntou indignada.

– Não, fica de costas aí.

– Cretina mostrou o dedo do meio enquanto falava.

– Sabe que te amo.

– E eu te suporto por educação apenas.

– Mas... é verdade, espero que seja educada sempre. — desviou o olhar e seu rosto corou.

A desenhista ficou muda por alguns minutos tentando ignorar o acanhamento da outra, queria entender o motivo do desvio de olhar turquesa. Ás vezes imaginava como seria aquela amizade se ambas morassem na mesma cidade, ou pelo menos, no mesmo estado, questionava se aquela confiança e empatia seria a mesma coisa.

Estela tragava o vinho devagar, precisava se ocupar com algo que mantivesse a boca ocupada para justificar seu silêncio, mesmo com a demora para ingerir a bebida sentia a face pegando fogo, uma sensação estranha percorria o estômago. Aquele silêncio perpétuo começara a incomodar, esperava uma resposta da garota desenhista, nem que seja provocativa, não sabia o que dizer se essa resposta não viesse. Ouvia apenas o barulho mecânico da chamada de vídeo, fantasiava que se estivessem lado a lado, a situação seria diferente, queria um abraço de Natasha e uma certeza de que ficariam juntas para sempre, se ao menos aquele silêncio indicasse algo.

– Feliz aniversário bêbada, já é meia noite. -a voz suave e doce despertara a guitarrista de suas fantasias.

– Obrigada, nem bebi direito — as palavras saiam forçadas, não era comum ficar encabulada.

– Do jeito que tá bebendo rápido, antes de acabar, o vinho já virou vinagre. — ironizou.

A garota olhou para o gigantesco copo e percebeu que estava quase cheio, instantaneamente ficou ainda mais corada, deixou a bebida de lado e encarou a imagem da desenhista distraída, esta quando percebeu começou a falar:

– E então, eu ganhei a aposta lembra? Você deve me obedecer agora.

– Tá, o que quer que eu faça?

– Por enquanto vou pegar leve, vamos jogar gartic e depois penso em mais castigos.

– Gartic? Faz um tempão que não jogo, cansei de perder.

– Relaxa, vou ser gentil dessa vez.

As garotas abriram uma sala no jogo para começar a sessão de desenhos e adivinhações, era nostálgico aquele fundo cinza quadriculado, esse mesmo fundo antes costumavam ver durante várias tardes e foi naquele jogo que haviam se conhecido.

A rodada estava terminando e assim como o esperado Natasha estava na frente com uma diferença exorbitante, ela desenhava muito melhor que a amiga.

– Sua vez, vê se desenha direito.

A palavra era apaixonado. Estela não sabia exatamente o que desenhar naquele quadro, pensou em pular a vez mas estaria entregando o jogo, suspirou e começou sem pensar muito no que estava fazendo.

Primeiro fez um círculo no meio do quadro e riscou o que podia ser um rosto, pintou os olhos de um azul bem claro, fez alguns fios de cabelo curto pretos e completou com algumas curvas tortas representando o resto do corpo, atrás do corpo o que parecia ser uma espada ou violão, ela desenhava de forma infantil e incompreensível.

Enquanto fazia no quadro o desenho, ou conjunto de rabiscos indecifráveis, Natasha tentava adivinhar o que era aquilo: coxinha, smile, pessoa, pessoa de olho claro, músico, você.

O tempo estava pela metade, a garota que não sabia desenhar precisava terminar aquilo logo e de maneira que pudessem entender o desenho, agora era um desafio pessoal. Contornou um coração no peito da sua personagem e dentro daquele coração fez outro círculo, olhos castanhos, óculos finos, cabelos lisos, tentou puxar um braço na segunda personagem, com dificuldade usou bem o espaço minúsculo do coração. O resultado final foi o desenho de uma pessoa segurando um lápis 6B dentro do coração de outra pessoa com uma guitarra ou espada nas costas, uma figura bem complexa.

Bala, tiro, furo de bala, coração, amor.

– Hey, essa do lápis sou eu? — perguntou confusa.

– Sim respondeu confiante.

Furo de lápis, cutucar.

– Tá difícil, não sei... Dá uma dica.

– É como me sinto agora.

Faltava menos de cinco segundos para o tempo acabar, Estela estava perdendo as esperanças de ser compreendida, talvez fosse besteira pensar que Natasha também sentisse isso ou desconfiasse que ela sente.

Apaixonado.

– Ufa! — suspirou aliviada.

– Desde quando você está apaixonada? — agora era Natasha que estava corando.

– Não sei.

– E, por quem?

– Dãh — mesmo com o coração pulando pela garganta a garota conseguiu ser sarcástica e falar com uma segurança impressionante.

– Como apaixonada?

Era a pergunta que Estela temia, porque a resposta nem ela conseguia entender, menos ainda explicar.

– Eu não sei como explicar, desculpa.

Soava estranho ouvir um pedido de desculpas da garota durona que a pouco estava resmungando da aposta inventada. Natasha não sabia o que responder, pensou em fazer perguntas ou mudar de assunto mas seria muito egoísmo, queria confessar que também sentia algo forte pela garota que não sabia desenhar.

– Eu... — Estela respirou fundo e deixou que aquele sentimento fosse arremessado pela garganta a fora. — eu.. acho que gosto de ti, sabe, gosto de verdade, eu não sei o que tá acontecendo comigo, mas tipo, meus amigos dizem que eu falo muito de ti, e nem noto, e eu falo demais contigo, e quando eu falo contigo me sinto bem, é diferente, daí quando estou com outras pessoas fico comparando, é estranho. Mesmo quando não estou falando contigo eu penso em ti, toda a hora, cada coisa que eu faço ou que acontece, eu só fico pensando quando vou te falar e... Eu, te amo. — Terminou pausadamente dizendo aquelas três palavras que estavam lhe sufocando.

Ao ouvir aquilo Natasha corou cada vez mais, chegando a pensar que seu rosto estava em chamas, sentia uma felicidade diferente, inexplicável, um diferente bom e ao mesmo tempo assustador. O silêncio pairou nos quartos das duas garotas, um suspense que seria lembrado como parte do momento único que estava acontecendo, o primeiro amor.

– Eu também te amo, Estela.

Notas finais
Pronto, agora só falta postar/escrever o último capítulo... Nossa, me apeguei tanto a essa história que não quero terminá-la .-. mas então, espero que alguém leia e goste ou passe tempo lendo. Bem, resolvi escrever sobre relacionamento a distância porque isso é uma coisa bem comum hoje em dia e embora algumas pessoas banalizem muito isso, as vezes a gente sente umas coisas tão loucas que não fazem o menor sentido, acho que a vida em si não faz sentido.. Mas enfim, tá aí o penúltimo capítulo, agora preciso ir porque minha mãe quer me matar, preciso dormir ç.ç