CelleXty Saga - Temporada III
17 Toda a vitória tem seu preço

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O retorno não teve celebração.
A mesma embarcação que os levou até a Restinga de Marambaia agora cortava o mar em silêncio absoluto, mas o peso que carregava era diferente. Não havia vitória ali, apenas sobrevivência. O vento frio atravessava o convés naquela gélida madrugada, sem encontrar resistência, como se até o próprio ambiente evitasse interferir naquele momento. Cada um ocupava um espaço distinto, não por distância física, mas por necessidade de processar o que havia acontecido.
Elana permanecia sentada próxima à proa, os dedos apoiados sobre o metal da embarcação, ainda sentindo os ecos do sistema ao qual havia se conectado. Mesmo desconectada, algo persistia, como um ruído residual em sua percepção. — Eles não pararam, — disse, sem olhar para ninguém. — Aquilo não foi uma derrota. Foi… uma coleta de dados.
Alex estava encostado na lateral, os braços cruzados, o olhar perdido no horizonte escuro. — Então a próxima vez vem mais preparada, — respondeu, sem surpresa, apenas constatação.
— Sim, — disse Elana, finalmente erguendo o olhar. — E mais rápida.
Folkhen permanecia de pé, próximo ao centro da embarcação, mantendo uma postura firme que contrastava com o desgaste evidente em sua expressão. A gravidade ao redor já havia voltado ao normal, mas a sensação de pressão ainda parecia acompanhá-lo. — Então não temos mais tempo para erros, — disse, mais para si do que para os outros.
Venâncio não participava da conversa.
Sentado ao fundo, mantinha Verônica apoiada contra si, com um cuidado que não combinava com a figura imponente que sempre apresentava ao mundo. Enquanto cuidava da jovem, seus pensamentos também repousavam sobre o manuscrito que havia encontrado na estranha sala de artefatos do complexo. O nome "Basarab" estava cravado em sua memória. Isto porque, Basarab era o responsável por abraçar Venâncio na Portugal de 1652.
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Portugal não era um império rico e pacífico; era um país pobre, militarizado e lutando desesperadamente pela sua sobrevivência. O reino vivia o 12º ano da Guerra da Restauração (1640–1668) para consolidar sua independência da Espanha após 60 anos de União Ibérica. O país era governado por D. João IV, o primeiro rei da Dinastia de Bragança. Ele passava os dias assinando decretos de guerra, cobrando impostos e tentando obter o reconhecimento internacional de sua legitimidade de governar. Nesse contexto, Venâncio era um mero mercador de especiarias a serviço da coroa portuguesa, mas ao contrário de seguir com grandes embarcações e cruzar o oceano Atlântico, preferia as rotas terrestres juntamente com mercadores venezianos, genoveses ou holandeses. Venâncio conseguiu chegar as frias regiões da Moldávia e Valáquia e lá, ser abraçado por Basarab!
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As lembranças de Venâncio foram quebradas apenas pelos breves gemidos da filha em seus braços. A jovem ainda não havia recuperado totalmente a consciência, mas sua respiração já era estável. De tempos em tempos, seus dedos se moviam levemente, como se lutasse para retornar por completo.
— Você vai ficar bem, — murmurou ele, passando a mão pelos cabelos dela com uma delicadeza quase imperceptível. — Eu não vou deixar acontecer de novo.
Não havia ninguém ali para responder. E ele não precisava.
Mais afastada, Carmem permanecia sentada, o corpo ainda se adaptando ao próprio peso após décadas de contenção. O colar ao redor de seu pescoço já não pulsava mais. Seus olhos percorriam o mar, mas não buscavam paisagem. Buscavam tempo. Cassiopéia estava de pé, a poucos passos dela.
Por um longo momento, nenhuma das duas falou.
O silêncio entre elas não era vazio. Era carregado de tudo o que não havia sido dito em anos.
— Você ainda usa preto, — disse Carmem, finalmente, sem desviar o olhar do horizonte.
Cassiopéia cruzou os braços, mantendo a postura ereta. — Funciona.
— Sempre funcionou e gostei do novo corte de cabelo — respondeu Carmem, com um leve desvio de tom que poderia ser interpretado como humor… ou memória.
Cassiopéia hesitou por um instante quase imperceptível antes de responder. — Eu procurei por você.
— Eu sei, — disse Carmem, simples. - Alex... e Folkhen? A velha guarda reunida novamente.
A resposta não trouxe absolvição. Mas trouxe alívio
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O barco atracou nas docas da Praça XV. Venâncio conseguiu criar uma ilusão de camuflagem para a chegada. Já, para Carmen, rever os seus antigos amigos de equipe era algo acolhedor para ela, mesmo que acompanhados por um vampiro. Folkhen observava à distância, sem interferir nas conversas entre Carmen e Cassiopeia, afinal, a dupla sempre teve uma afinidade muito grande na equipe.
Alex também se manteve afastado. Nenhum deles tinha o direito de entrar naquele espaço. Tampouco revelar a amiga recém-liberta que Cassiopeia os havia enfrentado como uma inimiga grotesca há pouco tempo.
— Não estamos nos falando muito ultimamente, — disse Cassiopéia, a voz mais baixa do que de costume, mas ainda firme.
Carmem finalmente virou o rosto, encarando-a diretamente. —E mesmo assim estão aqui, juntos, no Rio de Janeiro.
Não havia acusação na frase. Mas havia peso.
Cassiopéia sustentou o olhar. — Eu precisava acreditar em alguma coisa. O vento atravessou o espaço entre elas.
— E agora? — Perguntou Carmem.
Cassiopéia levou alguns segundos para responder.
— Agora eu quero respostas. (Encarando Venâncio que estava de costas com Verônica). Cassiopeia parecia ter percebido algo no vampiro secular que os demais não notaram.
Pela primeira vez, houve algo diferente em sua voz.
Não fraqueza. Mas direção. Carmem assentiu levemente, como se aceitasse aquilo sem precisar de mais explicações. Ao fundo, Elana se levantou de forma abrupta, a expressão mudando. Seus olhos focaram em um ponto vazio, como se estivesse escutando algo distante.
— Não… — murmurou.
Alex percebeu imediatamente. — O que foi?
Elana levou a mão à têmpora, como se tentasse bloquear algo. — Eles estavam… se reorganizando. Sua respiração falhou por um instante. — Não em um ponto. Em vários, mas com a explosão do complexo, agora só sinto o silêncio nos pulsos magnéticos eletrificados do local.
O silêncio voltou. Mas não o mesmo de antes.
— Nível? — Perguntou Folkhen.
Elana olhou para ele.
— Todos os níveis.
A palavra não ecoou.
Ela se instalou. Venâncio apertou levemente o corpo de Verônica contra si, como se o instinto paternal dissesse que aquilo ainda estava longe de terminar. O vampiro descobriu muito mais em Marambaia do que apenas sua filha.
Alex descruzou os braços.
— Então isso não foi uma missão. Foi um reencontro
Ninguém respondeu.
Porque todos já sabiam. Cassiopéia voltou o olhar para o mar por um breve instante antes de falar, com a mesma firmeza que carregava desde que entrou naquela guerra.
— Foi divertido. Ser CelleXty por um dia!
E, desta vez…
Ninguém discordou.
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