CelleXty Saga - Temporada III
18 Sussurros depois da meia-noite
Obs.: estes eventos ocorrem simultaneamente ao Spin-off CelleXty Saga a Nova Geração (centrada no RS) e ao Resgate no Complexo Marambaia, no RJ, com a equipe CelleXty Original (capítulos 13 a 17)
...A chuva caía sobre São Paulo havia horas, transformando os Campos Elíseos em um labirinto de concreto molhado, luzes borradas e sombras comprimidas entre edifícios antigos. Não era uma tempestade violenta, mas uma garoa espessa, persistente, daquela que parecia nascer do próprio asfalto e subir lentamente pelas paredes dos prédios. As ruas estavam estranhamente vazias para uma sexta-feira à noite. Alguns ônibus ainda cruzavam avenidas distantes, bares permaneciam abertos em esquinas decadentes e o som ocasional de sirenes atravessava a madrugada paulistana, mas existia algo errado naquela região da cidade. Algo difícil de explicar. Como se o bairro inteiro respirasse de forma diferente quando a noite caía. Como se parte da população evitasse instintivamente certas ruas depois de determinado horário, mesmo sem compreender exatamente o motivo.
O Hospital Psiquiátrico São Dimas permanecia imóvel no fim da rua, ocupando quase um quarteirão inteiro entre grades antigas de ferro e árvores altas que ocultavam parcialmente sua estrutura principal. O prédio parecia deslocado do restante da cidade, como uma lembrança doente que São Paulo havia tentado esconder sem jamais conseguir apagar completamente. Sua arquitetura externa lembrava antigos sanatórios europeus do século XIX: janelas arqueadas, paredes grossas e uma imponência silenciosa que provocava desconforto antes mesmo de alguém atravessar os portões. Com a ajuda dos X-MEN, o interior do São Dimas se tornou um complexo altamente sofisticado onde os CelleXtys poderiam chamar de lar. O campo de energia psíquica construído pelos mutantes Fera e Jean Grey, davam a camuflagem perfeita que o local exigia. Assim, para os transeuntes, o antigo hospital psiquiátrico continuava abandonado. O concreto ainda carregava décadas de infiltrações, rachaduras e marcas de abandono. Algumas luzes funcionavam precariamente. Outras piscavam de forma irregular, criando a impressão de que o próprio prédio tentava permanecer acordado.
O São Dimas parecia possuir uma presença própria. Não como pessoas possuem presença, mas como lugares marcados por sofrimento permanecem impregnados de memória durante décadas. Qualquer pessoa sensível conseguiria perceber aquilo atravessando as paredes do hospital como uma vibração contínua, silenciosa e doente. O ar parecia mais pesado próximo dali. Mais frio. Como se alguma coisa observasse discretamente cada pessoa que se aproximava do prédio.
Com o passar dos dias e semanas, os CelleXtys foram se adaptando ao lugar, deixando-o mais parecido com os seus moradores. Cada um tinha o seu próprio quarto adaptado a realidade do seu ocupante.Lucius mantinha o seu treino em dia. A túnica escura balançou sob a garoa enquanto ele erguia lentamente o olhar para os andares superiores do hospital em uma “praça” central no meio do prédio. Sua postura lembrava a de um inquisidor diante de uma igreja profanada. Havia tensão em seus movimentos, principalmente no braço direito, onde pequenas correntes de energia psíquica pulsavam discretamente sob o tecido negro da roupa.
O clérigo acionou o mecanismo na parede que fechava o teto da praça, transformando-o em um espaço coberto e repleto de hologramas de treino. Lucius podia simplesmente buscar no banco de dados um adversário nos arquivos instalados por Forge. Todos os adversários que os CelleXtys já haviam enfrentado até o momento, estavam catalogados. O treino começa sem muitos problemas. Lucius seleciona um holograma de uma antiga rival: Testament! Contudo, o holograma toma uma proporção de violência acima do esperado. Lucius sente que algo estava errado, tenta desligar o programa, mas sem sucesso. Testament nada dizia, apenas sorria a cada golpe e avançava ferozmente contra Lucius munida de punhais afiados.
Lucius tentou desligar o sistema novamente, mas os comandos no painel não respondiam. O ambiente escureceu por um breve instante antes dos hologramas secundários desaparecerem, deixando apenas Testament no centro da arena. Havia algo errado em sua expressão. Os olhos artificiais não reproduziam mais padrões digitais. Pareciam úmidos. Humanos. Como se outra consciência tivesse encontrado um caminho para existir através do programa.
...
Gregory começava a entender que o Hospital São Dimas nunca seria apenas uma nova base para os CelleXtys. Durante semanas tentara enxergar o prédio como todos os outros pareciam fazer: um abrigo temporário, uma fortaleza improvisada após a destruição da antiga EBX, um local seguro entre guerras, perseguições e governos cada vez mais hostis aos mutantes. Contudo, existiam lugares no mundo que recusavam novos significados. Lugares que permaneciam pertencendo ao passado independentemente de quantas reformas recebessem ou quantos computadores fossem instalados em seus corredores.
O jovem mutante de prata decidiu conhecer mais do grande espaço que agora chamava de lar. Sentia falta do amigo Basco e isso tinha uma razão clara: o laço de amizade entre os dois ficou sólida e enraizada quando Khassan levou Gregory, na época com apenas 13 anos, para o Limbo na esperança da criança ser curada do vampirismo. A dupla permaneceu naquela dimensão por cerca de 3 anos até que finalmente conseguiram retornar, descobrindo que haviam se passado apenas alguns meses. No Limbo, Basco não apenas conseguiu evitar que a criança vivesse eternamente como um vampiro, mas forjou um adolescente forte e experiente em usar os seus poderes sobre a prata.
Basco pediu que o adolescente auxiliasse os demais colegas nessa nova fase, após as lutas contra os vampiros portugueses no litoral santista. Além disso, pela experiência, Nevoeiro queria que Gregory ficasse em alerta máximo caso descobrisse qualquer pista sobre o vampiro conhecido como Sétimo. Este não estava em Santos e isso significava uma ameaça em potencial.
Conforme avançava pelos corredores internos, o hospital revelava suas camadas ao jovem Gregory. Equipamentos modernos ocupavam antigas salas administrativas, computadores funcionavam atrás de portas reforçadas e sistemas de monitoramento haviam sido instalados discretamente em setores estratégicos do prédio. Mesmo assim, as reformas pareciam superficiais demais diante do passado impregnado naquele lugar. O São Dimas não parecia aceitar ser transformado em base operacional. Era como tentar instalar tecnologia avançada dentro de um cadáver ainda quente.
O edifício carregava uma memória própria. Gregory percebia isso nos silêncios excessivos do hospital, nas tubulações que vibravam durante madrugadas sem vento e principalmente na sensação constante de que alguém o observava nos reflexos das janelas quando atravessava determinados corredores sozinho. Talvez por isso tivesse descido ao subsolo naquela sexta-feira chuvosa. A curiosidade sempre fora uma parte perigosa de sua personalidade. Basco costumava dizer que sobreviventes aprendiam duas coisas rapidamente: desconfiar do silêncio e investigar aquilo que provocava medo. Gregory crescera ouvindo aquilo enquanto aprendia a controlar a prata que corria em seu organismo.
O medo podia proteger, mas também cegava. E desde que chegara ao São Dimas sentia existir algo escondido sob o hospital. Não uma criatura exatamente. Algo pior. História. Sofrimento. Segredos antigos demais para permanecer enterrados.
...
Beatrice o seguira sem anunciar presença, como fazia frequentemente quando preocupações silenciosas começavam a crescer dentro dela. Gregory percebeu os passos apenas quando já atravessavam juntos uma antiga ala cirúrgica parcialmente preservada pelas reformas de Forge. A jovem carregava o caderno contra o peito, hábito adquirido desde a infância, quase como outras pessoas seguravam amuletos religiosos. Nenhum dos dois conversou muito. O ambiente parecia desencorajar diálogos longos. O silêncio do subsolo era espesso demais, pesado demais. O som dos passos ecoava pelos corredores de maneira irregular, criando pequenas reverberações que às vezes davam a impressão de existirem outras pessoas caminhando alguns metros atrás deles.
Conforme avançavam, começaram a surgir marcas nos azulejos antigos. Desenhos. Primeiro poucos. Depois dezenas. Olhos riscados repetidamente sobre paredes úmidas, portas metálicas e até encanamentos expostos. Alguns pareciam infantis, traços simples produzidos por mãos pequenas. Outros possuíam detalhes perturbadores, pupilas profundas e expressões de sofrimento impossíveis de ignorar. Beatrice diminuiu os passos diante de uma parede completamente coberta pelos desenhos. O coração apertou de maneira estranha. Aquilo lembrava obsessão. Como se pessoas diferentes, separadas por décadas, tivessem desenvolvido o mesmo impulso dentro do hospital.
Foi então que Gregory percebeu algo errado numa das divisórias de compensado instaladas durante as reformas. A parede vibrava discretamente, quase imperceptível. Não parecia consequência das tubulações. Era mais parecido com pulsação. Aproximou a mão e sentiu o frio imediatamente atravessar a pele. Um frio antigo. Instintivamente materializou um machado de prata ao redor do braço direito e golpeou o compensado. Pensou em contatar os colegas, mas ignorou esse pensamento minutos depois.
O primeiro impacto abriu rachaduras. O segundo derrubou parte da estrutura. No terceiro golpe, a parede cedeu completamente, revelando uma porta metálica escondida havia décadas.
...
A inscrição acima dela desaparecera quase por completo com o tempo, mas ainda era possível distinguir algumas letras corroídas pela ferrugem. SALA CIRÚR… O restante fora consumido. Gregory empurrou a porta com cautela. O que encontrou do outro lado interrompeu imediatamente qualquer expectativa. A sala permanecia impecavelmente organizada. Instrumentos cirúrgicos alinhados, armários fechados, macas limpas e equipamentos antigos posicionados com precisão absurda. Não parecia um espaço abandonado. Parecia preparado. Como se alguém tivesse saído dali poucas horas antes.
Beatrice sentiu o desconforto crescer de forma quase física. Seus dedos apertaram o caderno enquanto observava o ambiente. Havia algo profundamente errado naquela ordem excessiva. Hospitais abandonados acumulavam poeira. O tempo deixava marcas. Mas ali o tempo parecia não existir. Ela precisava ajudar Gregory de alguma maneira.
Gregory deu mais alguns passos para dentro da sala antes de sentir algo agarrar violentamente seu pescoço. O impacto foi imediato.
Seu corpo atravessou parte do corredor e atingiu a parede externa com força suficiente para quebrar azulejos antigos. O ar desapareceu dos pulmões. Antes que pudesse reagir, tentou localizar o agressor. Não encontrou ninguém. Apenas uma presença.
Beatrice abriu a boca para chamar pelo amigo, mas o som morreu antes de surgir. Uma figura começava lentamente a tomar forma próxima à mesa cirúrgica principal. Era um rapaz jovem, talvez pouco mais de vinte anos, extremamente magro, pele acinzentada e olhos fundos demais para parecerem vivos. Vestia um pijama hospitalar listrado e mantinha os braços caídos ao lado do corpo. No antebraço esquerdo havia uma sequência numérica marcada diretamente sobre a pele.
Não nome. Não sobrenome. Números. Como identificação de alguém que deixara de ser pessoa.
A aparição ergueu lentamente a cabeça. Os olhos encontraram os de Beatrice. Naquele instante ela compreendeu duas coisas ao mesmo tempo: aquilo não era exatamente um fantasma e, pior, aquela entidade reconhecia a presença deles. O corpo da garota foi lançado contra a parede segundos depois. O caderno de Beatrice escapou de suas mãos e caiu aberto sobre o piso. Numa das páginas desenhadas dias antes sem perceber, havia o rosto do mesmo jovem.
...
Fale com o autor