CelleXty Saga - Temporada III
19 Atos de vingança

No mesmo instante em que Gregory e Beatrice eram atacados no subsolo, o restante do Hospital São Dimas pareceu reagir silenciosamente, como um organismo colossal despertando após anos de dormência. O prédio possuía ruídos próprios desde a chegada dos CelleXtys — portas estalando sob a ação do tempo, tubulações antigas vibrando durante as madrugadas úmidas, elevadores desativados emitindo estalos metálicos sem explicação —, mas, naquela noite, havia algo diferente. Os sons não pareciam acidentais. Existia uma intenção. Era como se uma presença invisível, incrustada nas paredes de concreto descascado, começasse a perceber que seu território sagrado e maldito fora invadido.
No terceiro andar, Raial Puri caminhava lentamente ao lado de La’Vern pelos corredores menos utilizados da ala residencial. A aproximação entre os dois tornara-se inevitável nas últimas semanas. O francês carregava marcas físicas e emocionais profundas desde os eventos brutais envolvendo os lycans, e Raial fora uma das poucas a permanecer por perto durante sua dolorosa recuperação. Ela conhecia seus silêncios. Percebia, pelo tremor sutil de suas mãos, quando o lado monstruoso tentava emergir da carne. Talvez por isso ela tenha notado a alteração no ambiente antes mesmo de ele parar de súbito diante de uma porta de madeira pesada, no fim do corredor, uma das poucas que não haviam passado pela reforma do mutante Forge.
La’Vern sentiu o cheiro primeiro. O olfato apurado captou o odor ferroso. Sangue. Sangue velho, seco, impregnado no ambiente há décadas.
As pupilas do caçador contraíram-se imediatamente. Pequenas agulhas de gelo começaram a surgir sobre as rachaduras do piso de granilite enquanto a temperatura ao redor despencava alguns graus. O francês permaneceu imóvel por segundos, encarando a madeira escura como um animal diante de uma armadilha contaminada. Raial aproximou-se lentamente, permitindo que sua percepção mística e espiritual alcançasse o interior do quarto.
Foi quando a onda a atingiu. Pressão. Não era medo, tampouco uma ameaça direta. Era sofrimento. Uma quantidade absurda e sufocante de dor, como se centenas de emoções agonizantes estivessem acumuladas atrás daquela parede durante meio século. Com um rangido choroso, a porta cedeu e abriu-se com dificuldade.
O quarto estava vazio, mergulhado na penumbra, mas pesadas correntes de ferro permaneciam presas ao chão. Argolas metálicas enferrujadas. Estruturas de contenção bruta. Marcas profundas de unhas e ranhuras riscadas no concreto indicavam anos de uso contínuo e desespero. Raial ergueu o olhar lentamente até o teto descascado e sentiu o estômago revirar ao ler as palavras gravadas diretamente no reboco, feitas por dedos trêmulos:
“NÃO ABRAM O SUBSOLO”
O ar faltou em seus pulmões. Naquele instante, a líder dos CelleXtys compreendeu algo que preferia ignorar desde que pisaram no São Dimas. O hospital inteiro estava conectado por uma teia invisível de agonia. E alguma coisa esquecida nas profundezas abaixo deles acabara de despertar.
Alheio ao horror que se desenhava nos corredores, Noah apreciava o silêncio da Biblioteca. O local fora atualizado com uma considerável quantidade de obras que englobavam ciência, política e cultura global, um acervo que La’Vern havia se prontificado a organizar em breve. O ambiente, contudo, mantinha o aspecto nostálgico e gótico de outros tempos, com luzes quentes e suaves que recortavam a penumbra aqui e ali, além de um belo exemplar de um relógio de pedestal feito de mogno, cujo tique-taque ritmado ecoava em perfeito funcionamento.
Noah, porém, sentia-se atraído não pelas coleções atuais, mas pelos volumes que já pertenciam ao acervo original do hospital e que, durante décadas, ninguém ousara folhear. Além de livros de medicina raros do século XIX, havia periódicos amarelados, listas de pacientes, registros de médicos, fichas de medicamentos experimentais e diários de enfermeiras que trabalharam ali nos anos de chumbo.
Um item em especial chamou sua atenção: um pequeno caderno de capa de couro desgastada, parecendo perdido em meio aos exemplares empilhados que ainda aguardavam catalogação. Ao abrir as páginas manuscritas, descobriu tratar-se do diário de uma jovem alemã que trabalhara no São Dimas como enfermeira logo após o término da Segunda Guerra Mundial.
...
A cada parágrafo lido, Noah deparava-se com descobertas assustadoras e macabras. O diário narrava experiências sinistras deflagradas por médicos alemães e brasileiros nos porões mais sombrios do lugar. O alquimista leu, horrorizado, que muitos pacientes estavam ali apenas por possuírem alguma deficiência física, intelectual ou motora. Outros eram despachados pelas próprias famílias ao serem diagnosticados com “desvios de comportamento moral” — estes, catalogados friamente como pacientes “sodomitas”. E havia, ainda, uma categoria mais alarmante e peculiar, chamada “pacientes aberracionais”. Geralmente eram jovens que manifestavam dons inexplicáveis para a ciência da época: a capacidade de controlar animais, de acender o fogo com as mãos ou de ler a mente dos outros. Mutantes.
Noah encontrou “a lista”. Mais de trezentos nomes divididos nessas categorias de horror. Para cada grupo, os médicos utilizavam os mais diversos e cruéis métodos de “tratamento”. A repulsa e a revolta subiram pela garganta do mutante. Tanta dor condensada em páginas amareladas. Tanto pavor.
Mais adiante, o diário detalhava a história de dois jovens pacientes: Antônio e Raul. Segundo as anotações secretas da enfermeira, ambos possuíam algo além de uma amizade plausível para a época. Eram apaixonados. Contudo, em uma das sessões de tortura nos porões, Raul manifestou seus poderes em um ato de desespero, revelando sua mutandade. A enfermeira testemunhou a execução sumária do rapaz no subsolo, em uma pequena sala de cirurgia que fora adaptada para os experimentos sádicos dos médicos. Porém, pouco antes de o seu coração parar, Raul ergueu os olhos cheios de ódio e proferiu uma maldição contra o prédio e contra todos os envolvidos em seu sofrimento:
— No São Dimas eu encontrei o amor, mas vocês encontrarão a morte!
O horror não tardou a cobrar o preço. Dias depois, médicos, enfermeiros e seguranças envolvidos na morte de Raul começaram a morrer das maneiras mais trágicas e violentas imagináveis, todos dentro do perímetro do hospital. O diário revelava que, após a eliminação dos funcionários, os próprios pacientes também passaram a morrer de formas inusitadas — desde escorregões fatais no chuveiro até o ato extremo de atear fogo ao próprio corpo. Os sobreviventes, trancados em suas celas, relatavam em surtos que eram ordenados por uma voz sussurrante nas sombras a cometerem tais atos.
Em um dos últimos escritos, a enfermeira relatava o pavor de, numa madrugada de ronda, ter presenciado o vulto do “finado Raul” abraçado ao jovem Antônio no pavilhão residencial. Ao denunciar o fato a um dos médicos sobreviventes, o homem, tomado pela paranoia e pelo medo do além, invadiu o quarto de Antônio e injetou-lhe uma dose cavalar de estricnina. A morte em massa no São Dimas já levantava muitas suspeitas das autoridades externas. Para que o corpo de Antônio não fosse descoberto, o médico, com a ajuda de comparsas, levou o cadáver para uma sala escura e desativada no terceiro andar. A enfermeira os acompanhou, registrando cada passo. Os seguranças quebraram uma das paredes de tijolos da sala. Foram horas de trabalho tenso até que o nicho improvisado pudesse acolher o corpo do jovem. Em seguida, a parede foi novamente fechada e, na manhã seguinte, recebeu uma nova camada de pintura.
Antônio, de coração amoroso, calmo e tímido, ficara eternamente emparedado naquele lugar frio e escuro. Raul, revoltado, arrancado de seu amor, vingativo e cheio de ódio, fora enterrado na ala decrépita do subsolo.
Noah finalizou a leitura estarrecido, o coração martelando contra as costelas. Subitamente, ele notou que o tique-taque do relógio de mogno havia parado. O silêncio tornou-se absoluto. Um ar gélido e sobrenatural invadiu a biblioteca, fazendo seus pulmões liberarem vapor fino a cada respiração. No canto mais escuro da sala, onde a penumbra era predominante, as sombras se moveram.
...
Noah tentou manter a calma, mas seus olhos petrificaram no vulto à sua frente. Era um rapaz jovem, franzino, de pele pálida e cabelos curtos, meticulosamente bem penteados. Usava uma pequena boina, uma camisa branca envelhecida com as mangas dobradas até os cotovelos e suspensórios que seguravam suas calças de alfaiataria antiga. Noah notou que o rapaz não possuía os pés; ele flutuava a poucos centímetros do chão, envolto em uma névoa tênue. Outra pessoa teria entrado em pânico, mas o jovem alquimista já havia presenciado o impossível enquanto frequentava a Mascarade sob as ordens do patriarca vampiro Venâncio.
— Raul? Você é o Raul? — perguntou Noah, a voz saindo num sussurro tenso.
A figura fantasmagórica deu um leve aceno negativo com a cabeça.
— Antônio, então!
O rapaz acenou positivamente. Com um braço pálido, apontou em direção ao corredor e desapareceu no ar como fumaça sob o vento. Noah largou o diário sobre a mesa e correu para a saída. O fantasma reapareceu metros adiante, flutuando exatamente em frente às escadarias que desciam para o subsolo.
— Quer que eu desça? Por quê? O que há lá embaixo? — questionou Noah, o suor frio escorrendo pelo pescoço.
O vulto de Antônio moveu os lábios, e uma voz que parecia vir de lugar nenhum ecoou na mente do mutante:
— Seus amigos... Em perigo.
Então Noah sentiu. Uma onda de energia fragmentada, ferida e violenta que estivera presa sob o hospital durante décadas subiu as escadas. O desconforto cresceu rapidamente em seu peito. Antes de descer rumo ao desconhecido, ele sabia que não conseguiria resolver aquilo sozinho. Girou nos calcanhares e correu no sentido oposto, disparado diretamente para o salão onde Lucius costumava treinar. A madrugada avançava, mas o São Dimas parecia cada vez mais desperto conforme o restante da cidade de São Paulo adormecia.
No salão de treinamento, Lucius suava frio enquanto tentava desviar dos ataques ferozes do holograma de Testament, que parecia ter ganhado uma sobrevida bizarra e violenta. O ambiente do hospital interferia diretamente em sua mente mística. Vozes distantes e lamentosas atravessavam continuamente seus pensamentos durante as investidas da vilã virtual, como ecos de almas esquecidas dentro do prédio.
Em determinado momento, ao fechar os olhos por um milésimo de segundo para concentrar sua energia, Lucius teve uma visão: viu um corredor antigo coberto de sangue; pacientes extremamente magros permaneciam alinhados contra a parede enquanto homens vestindo aventais médicos empurravam uma maca em direção a uma grande porta metálica marcada com a palavra SUBSOLO.
Lucius abriu os olhos imediatamente, respirando com dificuldade. O suor escorria por sua testa no exato momento em que as luzes do quarto começaram a piscar. Primeiro uma vez. Depois duas. Na terceira, o hospital inteiro mergulhou na escuridão completa. O holograma de Testament passou a brilhar em um tom roxo elétrico, movendo-se com uma rapidez assustadora. Lucius disparou seu raio psicocinético do olho esquerdo e do braço direito, mas os feixes de energia azulada atravessavam a projeção, que apenas sorria de forma escarninha. Contudo, os punhais que ela brandia e que golpeavam o clérigo mutante eram bem reais e afiados, rasgando o ar com silvos perigosos.
O grito de Noah ecoou segundos depois, atravessando o corredor como uma lâmina de aço. O rapaz adentrou a área de treinamento ofegante, com os olhos arregalados. Lucius ergueu a mão direita imediatamente, e sua energia psíquica azulada iluminou parcialmente o ambiente, uma resposta instintiva à entrada tempestiva do amigo.
— O que aconteceu, Noah? Parece que viu um fantasma! — disse Lucius, tentando recuperar o fôlego.
— E vi mesmo, meu! — disparou Noah, escorando-se na parede. — Eu estava na biblioteca e descobri umas paradas muito sinistras sobre esse lugar. Temos que encontrar os outros agora! No subsolo!
O hospital pareceu reagir àquela declaração imediatamente. As tubulações vibraram com violência dentro das paredes de alvenaria. Portas bateram estrondosamente em andares distantes. Alguma coisa terrivelmente pesada moveu-se abaixo do prédio. Muito abaixo, nas profundezas do subsolo.
...
Lucius sentiu a presença. Era antiga. Fragmentada. Uma dor que sofria há décadas. Aproximou-se lentamente da janela do corredor enquanto a chuva continuava a cair de forma implacável sobre São Paulo. Ao olhar para baixo, o clérigo congelou. Havia pessoas do lado de fora do hospital. Homens, mulheres, idosos — dezenas deles — permaneciam parados na calçada sob a garoa fina, observando silenciosamente o prédio do São Dimas. Nenhum deles se movia. Nenhum parecia conversar. Apenas encaravam as janelas escuras, como se aguardassem um chamado.
Noah aproximou-se da vidraça, tentando compreender quem eram aquelas silhuetas na noite paulistana. Ninguém teve tempo de responder, porque, naquele instante, uma sirene antiga e estridente começou a soar em algum lugar abaixo do hospital. O som atravessou as paredes do São Dimas lentamente, metálico, agudo e profundo, como o urro de um animal despertando após décadas enterrado vivo sob o concreto.
Em seguida, veio o impacto. Algo golpeou violentamente uma estrutura metálica no subsolo. Uma vez. Depois outra. Na terceira, o prédio inteiro estremeceu, fazendo poeira cair do teto.
— São fantasmas, Lucius! — gritou Noah, perdendo a compostura.
— Como é que é? Tá doido, meu?!
— São fantasmas, e um deles tá comandando isso tudo por vingança! Vem logo, temos que sair daqui!
— Eu sairia correndo — devolveu Lucius, apontando para a penumbra do salão —, mas a gente tem um pequeno problema aqui.
O holograma de Testament agora flutuava no ar, os olhos roxos brilhando com escárnio, apontando os punhais afiados na direção de ambos.
— Mais um fantasma?! — Noah praguejou, preparando a alquimia em suas mãos.
— Não... Uma porcaria de holograma travado que eu não consigo desligar!
No subsolo, o cenário era de puro terror. Beatrice começou a chorar silenciosamente enquanto Gregory se levantava do chão, recuperando-se do impacto da agressão sofrida. O rapaz de prata viva permaneceu imóvel, observando a escuridão espessa da sala de cirurgia desativada como alguém que finalmente confirmava seu pior e mais antigo pesadelo.
Beatrice fechou os olhos por alguns segundos e ouviu o som ecoar pelas paredes de azulejos quebrados. Não eram vozes inteligíveis. Era sofrimento puro. Décadas de agonia humana atravessando o concreto do São Dimas como um eco interminável e faminto. Naquele momento, a jovem desenhista compreendeu algo que nenhum dos CelleXtys ainda estava preparado para aceitar. O hospital não estava apenas assombrado. Aquilo seria simples demais. O São Dimas fora contaminado pela dor e pela tortura durante tanto tempo que o véu entre o mundo dos vivos e o plano espiritual simplesmente começara a rasgar.
E a criatura escondida nas profundezas daquele subsolo acabara de perceber que os mutantes haviam chegado para o banquete de sangue.
Diante de Gregory e de Beatrice, emergindo das sombras densas da sala de cirurgia, o jovem Raul surgiu. Seus olhos emanavam o brilho frio do ódio acumulado, e sua silhueta mutante e espectral avançou, sedenta por vingança.
Fale com o autor