CelleXty Saga - Temporada III

20 Com amor e para todo o sempre!


A sirene antiga continuava ecoando pelas profundezas do Hospital São Dimas, enquanto o prédio inteiro parecia respirar com dificuldade, como um organismo adoecido tentando despertar após décadas enterrado sob concreto, ferrugem e esquecimento. O som lúgubre atravessava corredores vazios, tubulações antigas e alas desativadas, fazendo vibrar portas metálicas inutilizadas havia anos.

Do lado de fora, a chuva permanecia fina e persistente sobre os Campos Elíseos, escorrendo lentamente pelas grades de ferro do terreno enquanto figuras imóveis observavam o edifício através da madrugada. O mais intrigante era os transeuntes e vizinhos externos, alheios ao que estava acontecendo no interior do prédio. Eles não viam os homens, mulheres e idosos fantasmagóricos que permaneciam espalhados pela calçada em absoluto silêncio. Nenhum deles buscava abrigo. Nenhum demonstrava sentir o frio da noite paulistana. Apenas olhavam. Como se aguardassem algo. Como se soubessem que determinados acontecimentos precisavam ocorrer antes que a noite pudesse, finalmente, terminar.

Dentro do São Dimas, contudo, o tempo parecia funcionar sob outras regras. Os relógios atrasavam. O ar tornava-se espesso, quase sólido. E o sofrimento acumulado em décadas começava, lentamente, a encontrar caminhos para emergir da terra.

No terceiro andar, Raial Puri permanecia imóvel diante da antiga parede oculta, enquanto La’Vern observava a abertura recém-formada através dos instintos selvagens que ainda lutava diariamente para controlar. O francês sentira primeiro a diferença na temperatura; depois, o odor abafado de mofo e matéria orgânica aprisionada durante gerações. Os golpes violentos aplicados por ele haviam destruído parte do reboco, revelando um espaço improvisado às pressas por homens que, no passado, desejaram esconder um segredo definitivamente. O vazio atrás dos tijolos era pequeno, estreito e profundamente desconfortável, como uma sepultura erguida dentro do próprio coração do prédio.

Raial aproximou-se devagar, permitindo que sua percepção espiritual alcançasse o cubículo. O impacto foi imediato. Imagens invadiram sua mente em fragmentos desconexos e dolorosos: homens quebrando concreto durante a madrugada, lanternas tremendo nas mãos de enfermeiros assustados, ordens dadas em sussurros ásperos e o som de alguém chorando baixinho.

Quando recuperou o controle de seus sentidos, encontrou diante de si restos humanos acomodados contra a alvenaria interna. O esqueleto permanecia sentado, envolto por fragmentos de tecido hospitalar deteriorado pelo tempo. Próximo aos ossos, ainda existiam pequenos objetos preservados pela poeira: uma medalha religiosa simples, um botão de uniforme antigo e uma fotografia parcialmente destruída pela umidade. Dois rapazes sorriam na imagem. Jovens demais. Vivos demais. No verso, havia apenas um nome escrito à mão, quase apagado pelos anos: Raul.

A compreensão surgiu lenta e pesada no olhar de Raial. O aperto em seu peito não vinha do medo, mas da percepção abrupta de que determinadas dores jamais desaparecem completamente. Algumas permaneciam presas aos tijolos onde nasceram; outras atravessavam o tempo. La’Vern aproximou-se em silêncio, observando a fotografia antes de desviar os olhos para o esqueleto oculto. O lado monstruoso dentro dele reagia de maneira estranha. Não havia sede de sangue. Apenas uma inquietação ancestral. Como um animal que reconhece o sofrimento no corpo de outro ser vivo. Raial segurou a fotografia entre os dedos trêmulos enquanto tentava organizar os pensamentos.

...

O espírito encontrado por Noah. O nome registrado no diário. O aviso gravado no teto. Pela primeira vez desde a chegada ao São Dimas, tudo parecia amarrado pela mesma linha invisível de sangue e tragédia.

Enquanto isso, nos corredores inferiores do hospital, Gregory tentava recuperar o fôlego após ser lançado violentamente contra a parede de uma antiga sala cirúrgica. O espírito diante dele deixara de possuir qualquer aparência humana estável. Raul permanecia envolto numa névoa escura que oscilava continuamente ao redor de sua silhueta, alimentada por décadas de abandono, medo e revolta. Instrumentos metálicos vibravam sobre bancadas enferrujadas enquanto o frio aumentava a cada segundo, congelando o hálito dos vivos.

Próxima à parede, Beatrice chorava silenciosamente, incapaz de separar as próprias emoções daquelas que emanavam do lugar. O sofrimento alheio atravessava sua mente como ondas contínuas de um mar negro. Não eram memórias dela. Nunca haviam sido. Ainda assim, ela sentia tudo em sua própria carne. O medo da lâmina. O amor interrompido. A violência do hospício. A solidão do isolamento.

Noah surgiu acompanhado por Lucius poucos instantes depois. O alquimista ajoelhou-se imediatamente diante de Beatrice, segurando suas mãos entre as próprias enquanto pequenos fragmentos dourados percorriam lentamente seus dedos, transmutando a energia ao redor. A alquimia jamais significara apenas a alteração da matéria física. Durante os anos em que trabalhou ao lado do vampiro Venâncio e conviveu com criaturas da noite muito mais antigas que ele, Noah aprendera que determinados processos permitiam estabilizar emoções, reorganizar correntes psíquicas e impedir que mentes sensíveis fossem consumidas por memórias externas.

...

Aos poucos, a respiração de Beatrice tornou-se menos irregular. O choro diminuiu. Foi então que Noah, com a voz baixa e urgente, começou a explicar tudo o que descobrira nas páginas amareladas do diário que encontrou na biblioteca. Antônio. Raul. O relacionamento secreto entre ambos. A perseguição moral. Os experimentos “aberracionais”. A execução sumária. A maldição lançada pelo rapaz moribundo pouco antes de seu último suspiro.

Gregory ouviu cada palavra em silêncio, sem desviar os olhos da entidade sombria à sua frente. Quanto mais compreendia a história, menos enxergava um inimigo ali. Via apenas alguém preso. Alguém acorrentado há tanto tempo a uma única e cortante emoção que deixara de lembrar quem fora antes de se tornar dor.

Raul avançou novamente. O corredor inteiro reagiu ao seu movimento. As lâmpadas oscilaram, ameaçando apagar, enquanto frascos e pinças espalhados pela sala começaram a tremer sobre o metal enferrujado das bancadas. Lucius assumiu uma postura defensiva imediatamente, o braço direito erguido, ainda carregando as pequenas marcas de sangue deixadas pelos punhais do holograma de Testament. O clérigo estava exausto. Conseguira interromper o sistema de treino minutos antes apenas ao desligar completamente os disjuntores gerais do Forge, percebendo algo profundamente desconfortável: certas manifestações do hospital alimentavam-se diretamente da violência e isso também se personificou nos aparelhos tecnológicos, como o holograma de Testament. Quanto mais ele lutava, mais fortes as sombras pareciam tornar-se.

Gregory, contudo, permaneceu imóvel. Não criou prata viva ao redor dos braços. Não assumiu posição de combate. A atitude chamou a atenção até mesmo de Lucius, que o encarou de relance. O garoto crescera no Limbo. Sobrevivera aos jogos mentais dos vampiros portugueses. Convivera com criaturas deformadas pela culpa, pelo arrependimento e pela perda no Mascarade. Aprendera cedo demais que algumas batalhas jamais terminavam através da força.

O rapaz de prata caminhou lentamente na direção da entidade espectral. Havia cautela em seus movimentos, mas nenhuma agressividade. A presença de Raul hesitou por um breve instante diante daquela ausência inesperada de ataque. O jovem mutante percebeu o recuo imediatamente. O Limbo lhe ensinara uma verdade dura: monstros nem sempre nasciam monstros. Às vezes, eram apenas pessoas que permaneceram sozinhas e no escuro por tempo demais.

Gregory parou a poucos metros do espírito antes de falar, sua voz ecoando mansa e firme na sala fria. Disse que Raul não queria matar ninguém. Fazia tempo demais para aquilo. Disse também que entendia perfeitamente o peso de permanecer preso a um lugar, incapaz de seguir adiante, acorrentado ao passado. Noah também se aproximou de Raul. Ao juntar as mãos e bate-las no chão, manifestou o seu dom sobre a alquimia, criando uma estátua de pedra de Antônio. Revelou à Raul o seu encontro com o jovem minutos antes.

O corredor pareceu silenciar por alguns segundos. A névoa ao redor da entidade oscilou. Houve resistência. Uma última lufada de dor. Depois, a dúvida.

Foi nesse exato instante que Raial e La’Vern surgiram no topo da ala, carregando a fotografia envelhecida encontrada atrás da parede do terceiro andar. O olhar de Noah encontrou imediatamente o de Raial. Nenhuma explicação verbal fez-se necessária. A líder dos CelleXtys aproximou-se e ergueu lentamente a imagem em direção ao espírito vingativo.

A reação foi imediata. Toda a agressividade de Raul vacilou. A névoa escura que o cobria diminuiu brevemente, revelando, por alguns segundos, o rosto do rapaz humano que existira antes do sofrimento. Noah deu um passo à frente e explicou sobre Antônio. Sobre o corpo que fora emparedado no terceiro andar para não ser descoberto. Falou sobre o fato de ele jamais ter sido esquecido ou abandonado; Antônio passara as décadas seguintes procurando-o pelos corredores. As palavras pareciam atravessar Raul lentamente, como um idioma esquecido tentando retornar à mente após uma longa amnésia, mas o sentimento de vingança de Raul servia como uma barreira que impedia Antônio de descer até o subsolo.

O silêncio que veio depois tornou-se quase insuportável. Então, outra presença surgiu próxima às escadas do subsolo. Muito mais fraca. Menos marcada pela raiva, mais leve. O vulto do jovem usando boina, camisa de mangas dobradas e suspensórios apareceu gradualmente entre as sombras, mantendo os olhos baixos, como alguém inseguro até mesmo do próprio direito de existir.

Antônio. Nenhum dos presentes precisou perguntar. O espírito adentrou o recinto primeiro. Sem discursos teatrais. Sem dramatização. Apenas pura presença.

Raul permaneceu imóvel durante alguns segundos que pareceram longos demais para os vivos. A névoa negra começou a desprender-se lentamente de seu corpo, dissolvendo-se no ar como fumaça antiga expulsa por uma janela aberta. Pela primeira vez em cinquenta anos, havia algo diferente dentro dele além da cólera. Havia o reconhecimento.

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Quando Antônio adiantou-se e segurou sua mão espectral, o hospital inteiro pareceu mudar de frequência. O frio ártico diminuiu. As lâmpadas pararam de piscar, estabilizando-se. A sala de treinamento se ascendeu e os hologramas retomaram à normalidade. A sirene de alerta cessou lentamente nas profundezas até desaparecer por completo do plano auditivo. Não houve clarões místicos, nem explosões de luz, tampouco manifestações grandiosas. Apenas o silêncio. Um silêncio completamente diferente daquele que costumava dominar as madrugadas do São Dimas. Não era o silêncio do vazio ou do abandono. Era o silêncio do descanso.

Raul começou a chorar. Não eram lágrimas humanas, mas pequenos fragmentos escuros que se desprendiam de seu corpo e sumiam antes de tocar o chão de azulejos. Décadas de tortura abandonavam lentamente aquilo que restara de sua alma. Gregory observava tudo em absoluto silêncio. Talvez porque compreendesse, melhor do que qualquer outro mutante ali, o peso e o alívio de finalmente deixar um inferno para trás.

Os dois espíritos começaram a desaparecer juntos, fundindo-se gradualmente à penumbra que descia sobre o subsolo. Antes de sumir por completo, Raul ergueu o olhar uma última vez na direção dos CelleXtys. Não havia mais ódio ou desejo de sangue em suas feições. Havia apenas um cansaço infinito. E algo muito próximo da gratidão. Do lado de fora do São Dimas, as pessoas se mantinham ainda imóveis ao redor do prédio começam a mudar sua forma para algo quase translúcido. Eram as almas daqueles que também foram vítimas dos médicos e funcionários do São Dimas. Suas almas ainda estavam presas até mesmo nas calçadas ao redor do prédio, interligadas pelo desejo de vingança de Raul. O reencontro com Antônio quebrou o ciclo perpétuo de ódio fazendo com que as demais almas também pudessem finalmente repousar em paz. Uma a uma, todas elevam-se ao céu como fachos de luz.

O Hospital São Dimas voltara a adormecer. Gregory constata que o “lugar estava finalmente limpo”. Talvez agora, os CelleXtys poderiam finalmente chamar aquele local de lar.

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