CelleXty Saga - Temporada III
21 Entre o sagrado e o profano – PARTE I

A manhã sobre São Paulo não trouxe o sol; trouxe apenas uma claridade cinzenta e lavada pela garoa, que limpava a fuligem das fachadas decrépitas dos Campos Elíseos. Dentro do Hospital São Dimas, o ar finalmente parecia ter perdido o peso de ferro que esmagava o peito dos CelleXtys desde a sua chegada. Havia uma calmaria nova, quase estranha, que se estendia pelas alas residenciais. Pela primeira vez em semanas, as tubulações não gemiam durante o amanhecer e os elevadores inúteis permaneciam perfeitamente imóveis em seus poços escuros.
Era o silêncio das consequências. — A destruição da Escola Brasil X pelos Borgs, a fuga desesperada e os embates com os vampiros no litoral santista e, por último, os fantasmas do São Dimas — parecia ter sido tragado pelas paredes do antigo sanatório. Para a maioria dos que ali se abrigavam, o São Dimas finalmente começava a perder a face de um monstro de concreto para assumir os contornos de um refúgio. Um lar temporário, mas seguro.
Beatrice conseguira adormecer no sofá da biblioteca, com o caderno de desenhos fechado sobre o peito, livre dos pesadelos que antes guiavam seus traços. Noah e Gregory conversavam em tons baixos perto do relógio de mogno que voltara a bater seu tique-taque ritmado, enquanto Raial Puri e La’Vern organizavam os mantimentos na ala da cozinha, compartilhando uma cumplicidade silenciosa que não necessitava de palavras para se justificar. O ambiente respirava. O perigo imediato passara.
Mas no salão de treinamento do terceiro andar, Lucius Viriato não respirava em paz.
O jovem clérigo mutante permanecia de pé, exatamente no mesmo lugar onde o holograma de Testament o acuara horas antes. Seus olhos fitavam o chão, mas sua mente estava longe, estilhaçada por uma crise que vinha se arrastando como uma infecção silenciosa desde os tempos em que deixou o Mosteiro de São Bento e se uniu aos CelleXtys.
Inquisidor nunca aceitara bem as engrenagens ocultas que moviam aquele grupo. Ele era um homem da palavra, da ordem, da teologia mística e das barreiras psicocinéticas que construía com precisão cirúrgica. Para ele, mutação era uma herança biológica e espiritual que deveria ser conduzida sob a luz da disciplina e da fé na divindade conhecida como Khyrie. Lucius é o único da equipe que mantinha essa relação e crença em algo maior, uma divindade acima de tudo e de todos. Isso nunca havia sido um entrave, pelo contrário, o rapaz acabou se tornando uma espécie de conselheiro espiritual da equipe. Contudo, o que ele testemunhara no subsolo — e o que vinha testemunhando ao lado de Basco Khassan e do jovem Gregory — desafiava e agredia sua compreensão.
Ele sentia repulsa pela facilidade com que o sobrenatural e a feitiçaria pareciam se enroscar na carne daqueles colegas da equipe. Gregory, na visão de Lucius, fora criado nas entranhas do Limbo, moldado por criaturas e forças que ele considerava profanas. O próprio Basco cruzara o véu da realidade mais de uma vez, e para Lucius, misturando-se com a linhagem de clãs vampíricos do Mascarade ou fazendo alianças de convivência com os Lycans manipulava energias que nenhum mutante deveria ousar tocar. No início, Inquisidor acreditava que ambos seriam bons amigos, mas quando Basco levou Gregory ainda criança para o Limbo, algo mudou. Ver a maneira como Basco foi amistoso com o vampiro português Gentil, em Santos, também gerou desconfianças por parte de Lucius. O jovem ex-monge beneditino esperava o momento em que Basco ou Gregory poderiam trair os CelleXtys.
No subsolo, a resolução do conflito com os espíritos de Raul e Antônio não viera por meio da justiça ou da força divina, mas pela sutil e incômoda aceitação de uma realidade fluida, onde os mortos governavam e os monstros guardavam segredos que os vivos abraçavam. Apesar de poder descansar sem aparições fantasmagóricas, Lucius começou a crer que a presença de pessoas como Basco, Gregory e até mesmo Noah e Beatrice poderiam ser um problema para o futuro da equipe.
Lucius olhou para as próprias mãos. Elas tremiam levemente. Não de cansaço físico, mas de um descontentamento profundo que corroía sua alma. O São Dimas mudara, sim. Fora purificado de uma dor, mas o preço dessa purificação fora escancarar que as barreiras entre os mundos estavam ruindo no Brasil. E ele, um ex-clérigo, sentia-se um hipócrita vestindo o manto de protetor dos mutantes enquanto ignorava o avanço dessa escuridão mística. Ele não conseguia encontrar respostas no pragmatismo de Raial ou na alquimia mundana de Noah. A paz que os outros sentiam operava nele como um veneno, isolando-o em sua própria paranoia.
Uma necessidade febril de ordem, de dogmas antigos e de purificação teológica começou a queimar em seu peito. Ele precisava de terra firme. Precisava silenciar as vozes e as visões que o hospital incrustara em sua mente.
Sem avisar a ninguém, Lucius recolheu seu sobretudo escuro e caminhou em direção à saída do hospital. Ele não estava se afastando por curiosidade intelectual ou por um capricho mundano. Era uma fuga. Uma crise de identidade e de fé que o empurrava para longe da simbiose mutante e sobrenatural que ameaçava engoli-lo.
Ele precisava voltar para onde tudo começara. Precisava do cheiro de incenso, das paredes de pedra que resistiam ao tempo e do silêncio sagrado que um dia chamara de lar. Cruzando a garoa fina que caía sobre o centro de São Paulo, os passos determinados de Lucius o guiavam em direção às portas pesadas do Mosteiro de São Bento. Ele buscava respostas e a Khyrie, mas o que o destino reservara para ele nas sombras daquela biblioteca ancestral mudaria para sempre o rumo da guerra pelo amanhã.
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O Mosteiro
O Mosteiro de São Bento erguia-se como uma sentinela de pedra no centro de São Paulo, uma ilha de oração cercada por um oceano de asfalto, fumaça e pressa. Para Lucius, cruzar o umbral daquelas portas pesadas de madeira não era apenas retornar a um prédio; era mergulhar de volta em um tempo onde o mundo possuía regras claras e o silêncio era a linguagem de Khyrie. Meses haviam se passado desde o expurgo espiritual do Hospital São Dimas, mas as vozes dos mortos ainda ecoavam em seus sonhos, fragmentadas e acusadoras. Ele precisava do claustro. Precisava da regra de Ora et Labora para silenciar a própria mente.
Seu antigo quarto — a cela monástica que chamara de lar na adolescência — permanecia quase idêntica. Uma cama estreita, um crucifixo de madeira escura na parede e o cheiro persistente de cera de abelha e incenso. Ao vestir novamente o hábito beneditino, Lucius sentiu o peso do tecido áspero contra a pele, uma âncora que o prendia à terra. Ao vestir novamente o hábito beneditino, o jovem Inquisidor sentia-se ancorado. Ele não era ali o soldado de Alex Aleff, mas apenas um jovem que buscava em Khyrie uma resposta para o poder que carregava nos olhos e nas mãos. No entanto, ali, diante do Padre Benício, seu tio e mentor, ele voltava também a ser apenas Lucius. O olhar do velho monge era profundo, carregado de uma sabedoria que não precisava de palavras para questionar as cicatrizes que o sobrinho trazia na alma.
Os primeiros dias foram dedicados à rotina exaustiva do mosteiro. Lucius acordava antes do sol, unindo-se aos cânticos gregorianos que faziam as colunas da igreja vibrarem em uma frequência celestial. Ele buscava em cada nota, em cada oração em latim, uma resposta para a sua mutandade. Seria ele um erro da natureza ou uma ferramenta divina? Seus amigos CelleXtys pareciam aceitar seus dons com naturalidade, mas Lucius carregava o fardo da dúvida teológica.
Como parte de sua penitência e busca por clareza, Padre Benício designou-lhe a limpeza do sótão da biblioteca, um local que poucos, além das pombas, visitavam. O sótão era um labirinto de estantes que alcançavam o teto, cobertas por uma poeira secular que parecia guardar os segredos de séculos de fé e heresia. O ar ali era pesado, estagnado, movendo-se apenas quando Lucius passava com sua flanela e óleo de peroba.
Foi na tarde do quinto dia, enquanto organizava uma pilha de tomos que pareciam ter sido esquecidos desde o século passado, que o acaso — ou a providência — agiu. Ao mover um pesado volume sobre a história das missões jesuíticas, Lucius notou um volume menor, encadernado em couro curtido e amarrado com uma tira de barbante apodrecido. Não possuía título na lombada, apenas um símbolo gravado a fogo que fez seu sangue gelar: uma pequena rosa envolta em um véu.
Seus dedos tremeram ao desatar o nó. As páginas não eram de papel comum, mas de um pergaminho fino, quase translúcido. A caligrafia era elegante, mas urgente, escrita com uma tinta que o tempo transformara em um tom de sangue seco. Na primeira página, o título revelava a magnitude do que ele tinha em mãos:
Lucius sentou-se no chão de madeira fria e, sob a luz pálida de uma claraboia, mergulhou na leitura das Crônicas do Véu*. O texto de Margot, a cigana de Sabará, desenrolava-se como uma linha de tempo de sangue e poder:
"Eu, Margot, da linhagem Sinti, escrevo estas linhas para que o sangue não se perca no esquecimento. Minhas visões não são dons, são cicatrizes do tempo. Vi o que foi, o que é e o que jamais deveria ser.
A cada página virada, Lucius começava a compreender que o mundo como conhecia estava prestes a mudar. Não eram revelações vazias. O mutante não havia encontrado aquele livro ao acaso. Havia um propósito maior. As histórias ali contidas não eram apenas a narração de uma velha cigana, mas a abertura de algo assustador.
*Leia também o capítulo 11 — As crônicas do véu
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O MANUSCRITO DE MARGOT: A COSMOGONIA E A QUEDA
Em um tempo, antes da humanidade surgir, Khyrie reinava poderoso acima da Terra. Ele criou a primeira raça de seres fantásticos, conhecidos como Montreais, os mais poderosos do seu reino. Os Montreais eram dotados de grande sabedoria, poder e intelecto além de grandes guerreiros. Todos serviam a Khyrie. Contudo, um dentre eles, chamado Heósphoros, não aceitava seu Criador como rei e majestade. O renegado iniciou uma guerra civil no reino celeste. Ele liderou um grupo de 30 dos mais poderosos Montreais, juntamente com grotescas criaturas que formavam legiões de soldados, para tentar tomar o reino e assassinar o filho de Khyrie, o príncipe Arantis. Houve uma grande batalha que fez os céus e a terra estremecerem e ficou conhecida como “a sombra das mil luas”! Cada Montreal das sombras liderava uma legião de criaturas horrendas e prontas a invadir e tomar o reino dourado de Khyrie. Apesar de grande poder, O reino tinha os seus guardiões, Montreais de grande luz e glória fies à Khyrie e ao reino. Heósphoros foi derrotado, suas legiões dizimadas e junto com seus Montreais sombrios, foram expulsos do reino para a Terra.
Com o surgimento dos primeiros seres humanos, Heósphoros viu a oportunidade de se vingar de seu criador através de suas criações, trazendo morte e destruição por onde os seus Montreais passavam. Aqueles que decidiam seguir à Heósphoros recebiam dos renegados conhecimentos que iam das artes à medicina...do plantio à guerra... do combate à magia arcana profunda.
Khyrie, juntamente com os Montreais fiéis aos domínios da luz, derrotaram a Heósphoros mais uma vez e o baniram, juntamente com os Montreais renegados, para uma região medonha e fantasmagórica criada para os inimigos do reino celeste chamada de Limbo. Heósphoros jurou vingança e que um dia conseguiria deixar o seu exílio e destruir a humanidade. Enquanto tal dia não chegasse, Khyrie selecionou jovens entre os mortais para lutar contra as forças do mal dos humanos que decidiram continuar fiéis à Heósphoros. Assim, ele concebeu poderes e criou os primeiros mutantes chamados CelleXtys e que dariam à luz as gerações seguintes de mutantes como conhecemos hoje.
Lucius sentiu um calafrio percorrer sua espinha ao ler sobre os antepassados de sua própria espécie. Ninguém jamais havia mencionado aquela história antes. Estaria ele lendo um conto de fadas sinistro e secular? O jovem se mantinha atento a cada nova página e lia com atenção cada letra, cada palavra e cada frase daquele livro. Lucius descobriu alguns nomes dos primeiros mutantes e contextos que supostamente teriam ocorrido pela Terra:
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A LINHAGEM DOS ESCOLHIDOS: DA PRÉ-HISTÓRIA À ANTIGUIDADE
Cabelo de Fogo
(1.000.000 antes de Arantis.): Uma mulher mutante da Idade da Pedra, hospedeira da Força Fênix, liderando a primeira tribo de mutantes.
Highwalker
: O mentor telepata, cuja morte pelas mãos de humanos primitivos marcou o início do eterno conflito entre o medo e o dom.
Selene Gallio
(17.000 anos atrás): A vampira psíquica, a humana mutante que era fiel à Khyrie, mas decidiu seguir aos Montreais renegados após a morte do seu amado marido.
Apocalipse
(En Sabah Nur, séc. XXX a.C.): Nascido no Egito, o mutante de linhagem contínua que moldaria impérios.
Margot escrevia que nem todos os mutantes decidiram seguir a Khyrie. Muitos preferiram seguir a Heósphoros e seus Montreais banidos. Cerca de 15.000 anos atrás, muito antes dos impérios humanos organizados, existiam duas facções rivais de mutantes com aparências extremas:
Azazel e os Neyaphem: Mutantes com aparência demoníaca (pele vermelha, cauda pontuda e teletransporte). Eles escravizaram humanos primitivos e se autodenominavam deuses e demônios. Foram banidos para a Dimensão do Limbo pelos Cheyarafins.Os Cheyarafim (15.000 a.C.): Surgiram logo após o declínio de Atlântida. Eram mutantes com aparência angelical (asas de penas e habilidades curativas milagrosas). Possuíam uma visão moral extremamente rígida, absolutista e puritana. O sangue deles agia como um ácido letal contra os Neyaphem.
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A Linhagem dos Imortais e Magos e a primeira vinda de Arantis
O manuscrito detalhava como a mutandade se infiltrou em todas as culturas e civilizações. Agamotto, o primeiro Mago Supremo, cooperava com mutantes como Cabelo de Fogo. Kulan Gath, o “feiticeiro terrível”, extraía sua longevidade de um potencial mutante latente. Até mesmo figuras como Absalom, Gideon e Crule vagavam pelo mundo como deuses errantes desde a transição da Idade da Pedra para a dos Metais.
O livro também trazia anotações da vinda do Príncipe Arantis à terra, há cerca de 2.500 anos, como ele reuniu seguidores contra a tirania de humanos e mutantes ainda aliados dos Montreais sombrios. Margot revelou em suas visões que, apesar do líder – Heósphoros – ter sido banido para o Limbo, alguns dos seus Montreais sombrios conseguiram escapar para o nosso plano de existência e se misturaram à humanidade na esperança de preparar os humanos para quando o Limbo fosse rasgado e a horda de Heósphoros pudesse invadir o nosso plano.
A CRÔNICA DO BRASIL E A PROFECIA FINAL
A cigana Sinti trazia a história para o solo que Lucius pisava:
1554: O Padre José de Anchieta selando fendas espirituais em Piratininga.
1640: A Rainha Ginga de Angola, cujos poderes cinéticos resistiram aos colonizadores.
1674: Fernão Dias Pais Leme e as "esmeraldas" que eram, na verdade, fragmentos de poder dos Montreais.
1942: O nascimento dos Borgs em Marambaia, a tentativa humana de replicar o poder dos Montreais demonstrando que o governo brasileiro já sabiam de sua existência.
Lucius lembrou de um fato curioso. No final dos anos 1980 quando noticiários mostravam as ações dos X-MEN contra uma mutante chamada de Rainha dos Duendes e a quase invasão das criaturas demoníacas do Limbo sobre Manhattan. Anos depois, Basco era recebido entre os CelleXty. O jovem ex-monge se questionava se Khassan sabia da existência de Heósphoros em suas idas e vindas com Illyana Rasputin àquele lugar de trevas. Era possível que Basco tivesse contato com estes seres quando esteve novamente naquela dimensão e acompanhado de Gregory? – Lucius se mostrava num misto de indignação, dúvidas crescentes e desafios perante a sua fé.
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A Revelação
Lucius fechou o livro. Precisava de ar, respirar um pouco diante de tantas revelações. O jovem CelleXty sentiu o peso de séculos esmagando seus ombros. Não conseguia ler até o final daquelas páginas. O suor frio escorria por seu rosto, manchando o hábito de lã. Ele olhou para o crucifixo na parede do seu quarto e, pela primeira vez, a imagem do Cristo da religião judaico-cristã, ressuscitado, fundiu-se com a figura de Arantis em sua mente.
“Então nós não somos um erro”, sussurrou ele para o silêncio do sótão. “Somos soldados de uma guerra que começou antes do primeiro homem respirar”.
A descoberta sobre os Montreais e que os primeiros CelleXtys foram mutantes e criados por Khyrie — e que Heósphoros ainda conspirava do Limbo — transformava sua luta no Hospital São Dimas em algo muito menor. Ele não era apenas um mutante; ele era um escolhido de Arantis. Mas a dúvida ainda o corroía: se eles eram os instrumentos de Arantis, por que o mundo os odiava tanto?
O jovem clérigo estava tão perdido em seus pensamentos que não percebeu a entrada do Padre Benício no ambiente. Trazendo uma bandeja com bule, xícaras e uma cesta de biscoitos feitos pelos próprios monges na panificadora do Mosteiro, Benício observou o livro nas mãos do sobrinho e finalmente, depois de décadas, respirou aliviado. O ancião serve uma xícara de café para Lucius e lhe oferece os biscoitos
- Coma enquanto estão quentes – Disse Benício
- Tio eu...
- Eu não a conheci...A cigana Margot. Eu era apenas um jovem padre em uma paróquia em Barbacena. Mas eu tinha ouvido as histórias da tal cigana Sinti de Sabará. O povo da cidade ora a detestava, ora a amava. Margot era conhecida como a melhor benzedeira de Sabará. Curava qualquer mal e também podia prever o futuro. Previu até a própria morte. O livro que tem em mãos não é um livro qualquer, Lucius. São profecias!
- Como assim, profecias?
- Quando cheguei no mosteiro no final dos anos 70 apresentei esse livro aos meus colegas do sacerdócio. Alguns deles queriam queimá-lo, outros queriam enviá-lo para o Vaticano, mas os convenci de deixa-lo no mais profundo deste sótão enquanto o destino nos ajudava a esquecê-lo. Margot era especial...como você.
- Uma mutante e pelo que li e o senhor tá falando, uma mutante curandeira e precognitiva psíquica.
- Eu não entendo os termos técnicos, mas o que posso dizer é que, os manuscritos que tens em mãos são apenas o começo. Um de três!
- Como assim? – Perguntou Lucius inquieto e sem tocar no café ou biscoitos.
- Pelo visto não leu até o final (risos). Margot descreveu uma série de profecias para o futuro. Algumas eu sei que se cumpriram como você sendo um CelleXty, meu filho! A cigana Sinti dividiu as profecias em 3 partes. Esse nas suas mãos é o Livro das Origens, que trata dos eventos já ocorridos em diversas nações pelo mundo, o segundo, o Livro dos Caminhos, descreve eventos atuais e como vencer certos inimigos poderosos, como os Montreais que ainda vagam por aqui e o Terceiro, o Livro das Virtudes Finais, revela as guerras que ainda serão travadas entre a humanidade, os mutantes e os Montreais.
- Tio isso é muito sério? Como o senhor teve acesso a tudo isso?
- Esse livro me foi entregue por um cigano calon em passagem por Barbacena. Seu nome era Sandro. Ele descreveu com exatidão o dia e a hora que iria encontrar um jovem padre caminhando por uma estrada de chão, segurando uma maleta em uma mão e o chapéu na outra. Ele deveria entregar esse livro ao padre e relatar tudo o que ouvira de seus pais quando criança. O jovem padre era eu, Lucius! A partir daí comecei uma peregrinação em Sabará e outros locais a procura dos outros dois livros, mas sem sucesso.
Lucius percebeu que o Livro das Origens era apenas o começo. Padre Benício alerta ao sobrinho que ele deveria reunir os três livros antes que os Montreais soubessem de sua existência. O velho padre acreditava que dentre as profecias da cigana Sinti, estaria a chave para erradicar este mal antes que tomassem a Terra.
A profecia de Margot precisava ser revelada. Inquisidor levantou-se, os olhos brilhando com uma resolução nova e perigosa. O silêncio do Mosteiro de São Bento não era mais um refúgio; era o prelúdio.
O ar no sótão tornou-se denso, carregado de eletricidade estática. Lucius sentiu uma presença. Não era a paz de Khyrie, nem a agonia dos fantasmas do São Dimas. Era algo frio. Algo que o observava através das frestas das estantes. Ele teve apenas um segundo de percepção. Um estalo metálico, seco, vindo debaixo de seus pés.
Subitamente uma grande explosão destrói parte da ala oeste do Mosteiro. Era onde se encontrava o sótão, o livro...e Inquisidor. A explosão não foi apenas som; foi uma onda de choque que transformou o silêncio sagrado em um rugido infernal. O chão do sótão desapareceu em uma nuvem de fogo e estilhaços de madeira centenária. Lucius sentiu-se arremessado para trás, o manuscrito de Margot apertado contra o peito. Enquanto o teto do Mosteiro de São Bento desabava sobre ele, a última coisa que viu antes da escuridão foi um brilho roxo elétrico cortando a fumaça.
Continua...
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