CelleXty Saga - Temporada III

22 Entre o sagrado e o profano – PARTE II


O som da explosão não foi o fim, mas o início de um pesadelo que o Mosteiro de São Bento jamais imaginara em seus séculos de existência. O silêncio sagrado foi estilhaçado por um rugido de concreto e vidro, transformando a biblioteca em um necrotério de papel e poeira. Lucius sentiu o mundo girar violentamente. Com o impacto da explosão, seu corpo foi lançado pela porta do sótão, caiu pelo parapeito de uma das grandes janelas e só foi amortecido por um amontoado de colchões e roupas que estavam no pátio central e que seriam doados na manhã seguinte.

O ar era uma massa sólida de fuligem e concreto e o cheiro acre de ozônio queimado. Lucius tossiu, sentindo o gosto metálico de sangue na boca. Sua visão estava turva, mas ele sentia o volume de couro do Livro das Origens ainda pressionado contra seu peito, como se o manuscrito de Margot fosse a única coisa que o impedia de se dissolver no caos.


— Padre Benício... — sussurrou ele, a voz sumindo no estalar das chamas que começavam a devorar as cortinas pesadas.


Do lado de fora...Gritos de agonia, sons dos sinos do São Bento, dezenas de pessoas correndo pelas ruas em direção a Ladeira Porto-Geral e aos túneis do metrô. A explosão abriu um enorme rombo na muralha lateral e as pedras centenárias agora cobriam a Rua Florêncio de Abreu, ao lado. No interior, alguns mortos e feridos na nave principal. Era sábado e havia diversas pessoas nos bancos da igreja, ansiosos pelo canto gregoriano dos monges após o pôr-do-sol. Mas agora, apenas muita poeira, prantos e dor ecoavam pelo mosteiro.


Lucius tentou mover as pernas, mas a dor foi um relâmpago de agonia que o fez gritar. Foi então que ele ouviu. Não era o som de resgate, nem os gritos dos outros monges. Era um som mecânico, rítmico, como o pulsar de um coração de metal. Tum-dum. Tum-dum. Mesmo assim, lascas e pedras acertaram seu rosto e corpo, lhe deixando com diversos ferimentos. Lucius sentiu o medo se transformar em fúria. Ele era o Inquisidor. O “clérigo de Arantis”. Ele não morreria no meio de escombros e pedras. Fechou os olhos por um segundo, buscando a energia que residia em seu núcleo. Quando os abriu, seu olho esquerdo brilhou com uma intensidade azulada que cortou a penumbra.

...

Lucius olhava para o alto e ainda meio tonto pelo impacto, disparou seus raios psiônicos do olho e do braço em direção do chão, lhe dando o impulso necessário para retornar ao terceiro andar. O que restara da velha biblioteca agora não era mais importante que encontrar o seu tio. Lucius chamou pelo padre Benicio por diversas vezes. O som de sua voz se misturava com os gritos na rua em frente. Algumas pessoas conseguiam vê-lo em meio a poeira do concreto que se erguia e enquanto as sirenes indicavam que ambulâncias e a polícia militar se aproximavam. Infelizmente a visão inevitável se fez presente: o corpo de seu tio sepultado por grandes blocos das pedras do mosteiro. A dor da perda foi o gatilho final. Lucius sentiu uma onda de poder que ele jamais experimentara. Ele não apenas disparou; ele explodiu. A energia psíquica emanou de seu corpo em uma cúpula de força que arremessou os escombros para longe, libertando o corpo do Padre Benício e limpando a fumaça ao seu redor.

Lucius não tinha tempo para lágrimas. Ele guarda o livro no bolso do seu manto e com um salto, impulsionado por uma rajada de energia nos pés, atravessa o vidro quebrado e caiu sobre o telhado inclinado do mosteiro, sob a chuva fina que agora parecia lavar o sangue de seu rosto. Precisava ajudar aos sobreviventes como pudesse. Contudo, uma visão aterradora lhe cobriu a espinha ao chegar no púlpito. A visão não era pelos mortos e feridos, alguns seus colegas de habito, mas sim da figura parada na entrada da igreja do Mosteiro. Era alto, cabelos longos e ruivos que desciam até os ombros. O homem vestia um sobretudo branco que reluzia em contato com os raios de luz dos postes que invadiam a igreja pelo enorme buraco que a explosão criou. O homem se aproxima pelo corredor central até a metade da igreja. Lucius não acreditava. Não podia ser...


- Raziel*? – Perguntou Lucius engolindo seco

- Há quanto tempo jovem Lucius! Eu acho que você está de posse de algo que eu procuro há muito tempo. Entregue para mim, sim?

- Você...é.…um...Montreal?

- ...E não estou sozinho, Mon ami!

.

Raziel apenas sorria!


*Raziel é mencionado nos Capítulo 2, 3 e 4 da Temporada II

...

A quilômetros de distância e alheios a catástrofe que emergia no Mosteiro de São Bento, Venâncio finalmente retornava à Casa Noturna Mascarade. Com ele, já recuperada, a sua filha Verônica. O proprietário de uma das maiores casas de São Paulo, ingressou em uma jornada épica de salvamento juntamente com os membros mais velhos dos CelleXtys. A equipe conseguiu desmantelar, no Rio de Janeiro, não apenas a ameaça dos humanos tecnorgânicos conhecidos como Borgs mas colocaram abaixo um complexo secreto na Restinga de Marambaia, salvando dezenas de prisioneiros. Uma das cativas era exatamente Verônica que há meses havia sido capturada e submetida a todos os tipos de experimentos e torturas. Após algumas semanas se recuperando, Verônica estava ansiosa por retornar ao seu lar. Seu pai compartilhava da mesma opinião.

O final de ano batia a porta e o ano de 2001 prometia ser um ano de oportunidades. Como vampiros do Clã Toreador, ambos desejavam fazer mudanças profundas não apenas no Mascarade, mas na maneira como a Geração Vamp se organizava na cidade de São Paulo. Verônica estava empolgada em retomar a gerência da Casa e tentar preencher a mente com algo maior que as memórias recentes. Venâncio por sua vez tinha interesses mais ambiciosos: uma aliança de longa duração com as matilhas de lycans, licantropos vindos do passado e que agora “reinavam” no campus da USP. Venâncio via uma oportunidade de grandes negócios se conseguisse promover uma parceria amigável, algo que jamais conseguira com os licantropos da linhagem Guará.

...

Pai e filha se aproximam do Mascarade, porém, não havia sinais de festas, nem visitantes, nem música, nem dança. Não havia as filas que dobravam a esquina para comprar ingressos. Não haviam...vampiros!

Algo estava errado. O Mascarade jamais estaria fechado em um sábado à noite. Ambos adentram o local mantendo os sentidos em alerta e os caninos em posição de ataque. Os olhos amarelos de ambos brilham sob a pouca luz existente pelos corredores. A iluminação torna-se melhor no terceiro andar, onde fica a sala de reuniões de Venâncio. Havia um aroma diferente no ar. Para Venâncio, o cheiro lhe revelava algo mais antigo, tenebroso e diabólico. Algo que fazia o seu sangue gelar. A visão do longo corredor até a porta da sala de reuniões se mostrou aterradora. Haviam cabeças empaladas de ambos os lados do corredor. Em fileira, elas direcionavam a dupla como as luzes de uma pista de pouso de um avião até o hangar. Venâncio reconheceu a todos. Vampiros da Geração Vamp, a maioria jovens (neófitos) que trabalhavam na Casa Noturna. O sangue escorria pelas lanças de aço, mostrando que os empalamentos eram recentes.

Ao abrir a porta do grande salão de reuniões, notou que alguém estava sentado em sua cadeira, de costas. Segurava uma taça de cristal cheia até a borda com sangue. Não havia mais ninguém na sala. O fogo da lareira crepitava e iluminava o ambiente. Havia um silêncio quase sepulcral no lugar. Até que o estranho falou com uma voz grave inebriada por uma atmosfera sombria em cada palavra.


- Eu estava presente quando nossas leis foram criadas na Convenção Thorns em 1439. Uma de nossas maiores ordenanças sempre foi a de manter a verdadeira natureza dos vampiros jamais revelada aos mortais. Mas soube que isso já não é mais possível neste país, graças a vocês.

- Quem é você? – Perguntou Verônica


O estranho bebe mais alguns goles da taça e a deposita delicadamente à mesa. Ao se levantar, Verônica precisa erguer a cabeça para vislumbrar a face do visitante. A criatura possuía cerca de 2 metros de altura, a pele mais pálida que dos vampiros comuns. Possuía cabelos escassos que desciam seus fios até abaixo dos ombros. Vestia um grosso casaco de couro e pele de animal. Seus olhos brilhavam em um vermelho intenso que contrastava com os caninos brancos à mostra. Seu pescoço era ornado com um medalhão tão antigo que Verônica não sou reconhecer sua procedência, mas Venâncio já sabia de quem se tratava, afinal, fora aquele ser que o apresentou aos seres da noite, que o levou para aquele mundo de trevas...que o abraçou!


- Esta jovem fala por você, Venâncio?

- Lamento pelo ato impensado de minha filha, milorde!

- Milorde? Pai...quem é esse homem? - Indaga Verônica surpresa com a submissão do pai

- Basarab, da Romênia, ao seu dispor minha cara! — Responde a criatura a sua frente

...

...O Mascarade está sob nova direção


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