CelleXty Saga - Temporada III
5 Protocolos de Contenção: Elana Agnes

Personagens: Elana Agnes, Homem de Olho Vermelho, Dr. Matheus, Verônica, Carmem Kalitch, agentes Borg.
Ambiente: Complexo subterrâneo da Restinga de Marambaia – RJ.
Contexto: Elana Agnes infiltra-se em uma instalação secreta do governo e descobre a existência dos Borgs, uma ameaça capaz de assimilar humanos e mutantes.
...
Restinga de Marambaia, Rio de Janeiro.
Poucos civis no país sabiam o que realmente existia sob aquela faixa aparentemente comum do litoral. À superfície, o cenário era previsível: vegetação densa, áreas militares isoladas, silêncio institucional. Mas sob aquela paisagem, enterrado em concreto e segredo, escondia-se um complexo subterrâneo construído ainda durante a Ditadura Militar. Não era apenas uma instalação. Era um sistema — prisional e científico — altamente informatizado, sustentado por uma aliança silenciosa entre as Forças Armadas do Brasil, setores do governo norte-americano e investidores privados. Todos unidos por um único objetivo: compreender, controlar — e, se possível, reproduzir, para fins militares — o chamado Gene X.
Após o surto do Vírus Legado, que dizimou centenas de mutantes em território nacional, aquele lugar deixou de ser apenas um centro de pesquisa. Tornou-se um ponto estratégico. As atividades se intensificaram, os protocolos se tornaram mais rígidos e os interesses, mais urgentes. Três frentes orientavam os trabalhos: descobrir a origem do vírus, encontrar uma forma de contê-lo e avaliar sua possível replicação como arma biológica. A ciência, ali, havia deixado de ser neutra. Tornara-se instrumento de guerra.
Passava pouco da uma da manhã quando um Chevrolet Vectra vermelho metálico atravessou o portão principal do complexo. Os soldados na guarita fizeram uma verificação breve, quase automática, antes de liberar o veículo. A mulher que desceu do carro caminhou com naturalidade pelo prédio principal, sem hesitar, como alguém que já conhecia cada detalhe daquele ambiente. Seus cabelos loiros cacheados contrastavam com a expressão firme, concentrada, quase impenetrável. Elana Agnes não era apenas mais uma especialista convocada para colaborar. Ela fazia parte daquele sistema — ainda que poucos compreendessem o quanto.
Ao descer cerca de trezentos metros por elevadores de acesso restrito, Elana sentiu a mudança no ar. O silêncio era diferente ali embaixo. Mais denso. Mais controlado. Ao atravessar os corredores das celas de contenção, dois militares a acompanhavam, atentos, monitorando cada movimento. Muitas das celas estavam vazias — um reflexo direto do Vírus Legado. Ainda assim, algumas permaneciam ocupadas, e era nelas que o peso daquele lugar se tornava mais evidente. Em uma delas, Elana parou e leu a placa de identificação na porta de ferro.
Uma jovem de aparência frágil, pele pálida e cabelos curtos permanecia sentada, olhando para o chão, completamente imóvel. Havia algo na postura dela que ia além do cansaço. Era silêncio resignado.
— Estão te tratando bem… Verônica?
Nenhuma resposta. Nem um movimento. Nem um olhar.
Elana sustentou o silêncio por um instante, como se esperasse algo mais, mas não insistiu. Desviou o olhar para a cela ao lado. Ali, a realidade era ainda mais dura. Uma mulher mais velha permanecia presa por correntes energizadas, o corpo tensionado pela contenção constante, um colar inibidor ajustado firmemente ao pescoço. Na placa, a identificação fria:
Carmem Kalitch — 00013 — 1984
— Isso vai acabar logo… para vocês duas.
A frase saiu baixa, quase como uma promessa — ou talvez um desejo.
Ela retomou a caminhada, e o som dos passos ecoou pelos corredores metálicos. No fim do trajeto, o Dr. Matheus a aguardava. Sua postura denunciava ansiedade antes mesmo de qualquer palavra.
— Elana Agnes! Até que enfim. Leu os relatórios?
— Li. O corpo da mutante Althy desapareceu. Quero ver as imagens… mas antes preciso revisar alguns cadáveres.
— Posso acompanhá-la...
— Não será necessário, doutor. Me aguarde.
O sorriso leve que ela ofereceu não chegou aos olhos. Era calculado. Funcional.
...
A sala de necropsia era fria, iluminada de forma clínica e impessoal. Corpos de mutantes preservados flutuavam em tanques e câmaras especiais, como relíquias científicas suspensas no tempo. Testament, Jihad, Brahma, Sphinx… nomes que um dia significaram vidas, histórias, escolhas. Agora eram registros. Dados. Em outro compartimento, o corpo de um vampiro repousava submerso em líquido azul. Era Caio. Mas Elana não estava ali por aquilo. Seu foco estava além.
Ela mudou de direção, avançando por corredores mais profundos, onde o silêncio parecia mais tecnológico do que humano. Ali, a sensação era diferente. Mais artificial. Mais… observada.
Após se certificar de que não estava sendo seguida, desviou discretamente um cartão de acesso de um soldado distraído e entrou em uma área restrita. O ambiente era outro nível de operação. Máquinas trabalhavam de forma contínua, conectando corpos a cabos, estruturas, sistemas. Um deles, suspenso no centro da sala, chamou sua atenção. A forma era… errada. Parcialmente humana. Parcialmente outra coisa.
Sem perder tempo, Elana entrou em uma sala menor e fechou a porta com cuidado. O silêncio ali dentro era absoluto. Ela sentou-se, respirou fundo e conectou o pen drive. Sabia que o sistema não permitiria acesso convencional. Mas ela não dependia disso.
Ao estender as mãos sobre o terminal, pequenas descargas elétricas percorreram seus dedos, quase como se respondessem ao toque. A energia infiltrou-se no sistema. Seus olhos brilharam por um instante — rápido, controlado. O acesso foi concedido.
Elana começou a busca. Procurava falhas. Brechas. Qualquer coisa que permitisse uma futura evacuação dos detentos. Mas, no meio dos arquivos, algo chamou sua atenção.
[ Protocolos de Contenção: Borgs ]
Ela abriu. E então… tudo mudou.
Diagramas. Relatórios. Vídeos. Registros detalhados de assimilação. Aquilo não era contenção. Era integração forçada. Um sistema coletivo. Uma mente distribuída. Humanos sendo convertidos em algo novo… melhor. Ou, ao menos, era assim que os relatórios descreviam.
Uma linha se destacou: “Expansão exponencial por contato direto.”
O estômago de Elana se contraiu.
— Isso não é controle…
— É substituição.
Ela retirou o pen drive com rapidez, mas sem perder a precisão. E foi então que as luzes oscilaram. Um único segundo. Mas suficiente. O sistema havia percebido.
Ao sair da sala, Elana manteve o controle. Seus passos continuavam firmes, naturais. Mas por dentro, tudo havia mudado. Ela sabia que havia sido detectada. Em algum nível profundo do sistema, algo havia sido ativado. Não era um som. Não era um alerta comum.
Era uma sensação. Como uma presença. Como se a rede estivesse… consciente.
[— Acesso não autorizado detectado.]
Sem hesitar, ela mudou de rota. Evitou a sala de reuniões, desceu por escadas de serviço e entrou em um setor de manutenção. Precisava sair antes que o alerta se tornasse visível para todos. Antes que fosse tarde.
Mas não foi rápida o suficiente. Ao virar um corredor, encontrou o Dr. Matheus.
— Não precisa ser desse jeito, Elana. O que estamos fazendo aqui é mais do que ciência, é um vislumbre do futuro. — Disse o doutor de maneira gentil.
— Eu li os arquivos, Matheus. Jamais eu compactuaria com isso.
— É uma pena, Elana. Achei que pudesse ver como nós vemos. O mundo está mudando. Estamos em pleno ano 2000, mas lidamos com tecnologias muito além desta época. Mentes como a sua seriam de grande valia para a segurança do país.
— Não serei sua cobaia, Matheus.
— O bom de uma conversa assim, doutora, é não ter que repeti-la.
O olhar dele mudou. O olho direito brilhou em vermelho — frio, mecânico. Ao mesmo tempo, o braço direito se distorceu, alongando-se de forma antinatural em direção ao pescoço dela.
[— Unidade localizada.]
Elana reagiu por instinto.
O pulso elétrico explodiu no ar com violência, lançando Matheus contra a parede. O impacto foi forte o suficiente para rachar o revestimento metálico. Mas não para detê-lo.
Ele se levantou.
E agora não havia mais dúvida. Parte do braço revelava mecanismos expostos, fios pulsando com energia artificial.
[— Sem dor. Sem hesitação, Elana. Sua resistência é inútil.]
Ela correu.
Com um dispositivo portátil, acionou remotamente o destravamento de todas as celas. Um estalo em cadeia percorreu o complexo. Portas começaram a se abrir. Travas cederam. Contenções falharam.
Elana ergueu o braço. E a eletricidade respondeu.
Uma onda elétrica percorreu os corredores, saltando pelas paredes, conduzida pelas estruturas metálicas. Os alvos eram claros: os colares inibidores. Um a um, entraram em curto. Faíscas explodiram. Sistemas falharam.
Verônica. Carmem. E tantos outros. Livres.
O caos começou a se formar. Os corredores tornaram-se um labirinto vivo. Portas se abrindo, alarmes silenciosos sendo ativados, luzes vermelhas piscando sem parar. Atrás dela, passos coordenados avançavam com precisão mecânica. Não havia hesitação na perseguição. Contudo, os simples guardas de outrora, agora, exibiam olhos vermelhos e uma posição quase robótica.
[ - Contenção em andamento. Sistemas em operação máxima. ]
Enquanto isso, Elana alcançou um elevador de carga. Forçou o painel com eletricidade e entrou. As portas se fecharam com um impacto seco. Enquanto subia, ela fechou os olhos por um instante.
— Só mais um pouco…
As portas se abriram. E ele estava lá. O homem de olho vermelho.
[— Elana Agnes.]
O tempo pareceu parar. Ela congelou. Ele sabia.
[— Unidade prioritária.]
A palma da mão dele se abriu, revelando estruturas mecânicas internas.
[— Assimilação iniciada.]
Elana era mutante e como tal conseguia: poder sentir campos elétricos de seres vivos, interferir em tecnologia, provocar apagões e até detectar criaturas sobrenaturais pelo padrão bioelétrico. A mutante não pensou duas vezes e disparou uma descarga elétrica direta contra o militar. O impacto o fez recuar, mas não o derrubou. O homem apenas inclinou levemente a cabeça. Uma segunda descarga acertou o Dr. Matheus que se aproximava por traz.
[— Adaptação iniciada.]
O ar parecia mais pesado naquele nível do complexo. Não era apenas a presença dele. Era como se tudo ao redor tivesse sido recalibrado para aquele encontro. As luzes, o silêncio, até a vibração metálica das paredes — tudo parecia responder à mesma origem.
O homem de olho vermelho não se movia. Mas também não precisava. Havia algo profundamente errado na forma como ele ocupava o espaço. Não era postura. Não era expressão. Era… domínio. Como se aquele ambiente inteiro fosse uma extensão dele.
[— Unidade prioritária.]
Elana não respondeu. Seu corpo reagia antes da mente conseguir organizar qualquer pensamento. A eletricidade já percorria seus dedos, sutil, quase invisível — um reflexo involuntário do perigo iminente. Seus olhos se fixaram no dele, tentando medir distância, tempo, possibilidade.
— Você não vai me levar — disse, firme, mas sem levantar a voz.
Por dentro, ela já sabia. Aquilo não era uma negociação. O homem inclinou levemente a cabeça, como se processasse a informação, não como quem escuta — mas como quem avalia.
[— Resistência identificada.]
O movimento foi instantâneo. Ele avançou. Não como um humano. Não como um soldado. Como um sistema. Elana liberou a descarga antes mesmo de pensar. Um arco elétrico cortou o ar com violência, atingindo o torso dele. A energia reverberou pelo corredor, fazendo as luzes explodirem em sequência. O impacto o lançou para trás — ou deveria ter lançado. Mas ele não caiu. A energia foi absorvida.
Redistribuída. Por um segundo, o brilho vermelho de seu olho se intensificou.
[— Energia assimilada.]
O estômago de Elana afundou.
— Não… — sussurrou, quase sem perceber.
Aquilo mudava tudo. Ela recuou um passo. Depois outro. O instinto gritava para atacar, mas a lógica — aquela parte dela que sempre analisava — já começava a reorganizar o cenário. Se ele absorvia energia… então cada ataque direto só o fortalecia.
Ela precisava pensar diferente. E rápido. Ele avançou novamente. Desta vez, mais rápido. Elana girou o corpo e lançou uma descarga lateral, não contra ele, mas contra a estrutura metálica do corredor. A eletricidade percorreu as paredes, explodindo painéis, soltando faíscas, criando uma sobrecarga generalizada no sistema ao redor. O ambiente respondeu. Luzes apagaram. Portas travaram. Sistemas falharam. Por um instante, o controle dele sobre aquele espaço… oscilou. E isso foi o suficiente.
Elana correu. Seus passos ecoavam enquanto ela atravessava o corredor escuro, guiada mais pela memória espacial do que pela visão. O coração batia acelerado, mas sua mente começava a se ajustar ao padrão. Ele não era apenas forte.
Ele era conectado.
E isso significava que havia limites.
Atrás dela, o som voltou. Passos. Precisos. Constantes. Inevitáveis. Ela virou à esquerda, depois à direita, descendo por uma escada de emergência. Cada movimento era calculado, mas a pressão crescia. Não era só perseguição. Era rastreamento. Como se ele soubesse onde ela estaria antes mesmo de chegar.
— Ele está me lendo… — murmurou.
Ou pior. Estava antecipando. Ao alcançar um novo corredor, Elana parou por um segundo. Fechou os olhos. Ignorou o caos ao redor. Ignorou os gritos distantes, os alarmes, o som de portas se rompendo. Focou apenas na eletricidade. Ela sentia. Sempre sentiu. Mas nunca daquela forma. Correntes nos cabos. Pulsos nos sistemas. Interferências no ar. E algo mais. Um padrão. Uma frequência que não era natural.
Ele. Os olhos dela se abriram devagar.
— Eu consigo te sentir…
Pela primeira vez desde o início, havia algo diferente em sua expressão.
Não medo. Compreensão.
Quando ele surgiu novamente no fim do corredor, ela já não estava apenas reagindo. Estava esperando.
[— Unidade localizada.]
— Eu sei — respondeu ela, agora com outra postura.
Desta vez, não levantou as mãos imediatamente. Em vez disso, tocou a parede ao lado. A energia não explodiu. Não se dispersou. Ela concentrou. Puxou. A eletricidade do sistema ao redor começou a convergir para ela. Luzes piscaram. Cabos vibraram. O ar pareceu ganhar peso. O homem avançou. Mas dessa vez, Elana não atacou.
Ela liberou. Não contra ele. Mas contra tudo. Uma descarga massiva percorreu o andar inteiro, não como um golpe, mas como uma interferência total. Um ruído elétrico absoluto. Um colapso momentâneo de todos os sinais. Por um segundo tudo parou.
O olho vermelho falhou. Piscou. E apagou. Foi o bastante. Elana não hesitou. Correu novamente, agora com vantagem. Seu corpo ainda tremia pela descarga, mas sua mente estava mais clara do que nunca. Ela não podia vencê-lo. Mas podia sair viva.
E, mais importante — Agora ela entendia o inimigo.
Ela correu. Minutos depois, o Vectra vermelho atravessava o portão do complexo em alta velocidade. Para os soldados, parecia apenas uma saída autorizada. Mas não era. Na estrada escura, Elana apertava o volante com força. O mundo que ela conhecia havia mudado. E ela era uma das poucas pessoas que sabia disso.
— Preciso encontrá-los… Alex e os outros. Antes que seja tarde.
No interior do complexo, os sistemas já haviam se reorganizado, porém alguns detentos conseguiram escapar. Contudo, isso parecia pouco importar para os Borgs agora reunidos na sala de reunião.
[— Fase dois iniciada.]
[— Expansão nacional autorizada.]
E, naquele momento, o Brasil deixava de ser apenas um território de incidentes isolados. Tornava-se o próximo alvo.
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