CelleXty Saga - Temporada III
6 A procissão das criaturas

Personagens
Folkhen, Hypnos, Melissa, Irmãos Kzardos, Guarás
Ambiente
Santa Cruz do Sul (Centro, Catedral São João Batista, Banco do Estado, Parque da Oktoberfest)
Contexto
Após os eventos recentes envolvendo o avanço de forças mutantes e sobrenaturais pelo sul do Brasil, Folkhen se desloca para Santa Cruz do Sul ao identificar padrões anormais em uma série de crimes coordenados. A aproximação da Procissão das Criaturas cria o cenário ideal para ações encobertas, enquanto sinais indicam que novos mutantes estão operando de forma ousada e organizada. Ao mesmo tempo, a presença de forças ancestrais — como os Guarás — sugere que o conflito vai além de simples criminalidade.
...
Folkhen chega à cidade de Santa Cruz do Sul, dias antes da famosa Procissão das Criaturas. A Procissão é um evento cultural animado que transforma as ruas da cidade em um grande desfile cheio de criatividade. Os visitantes participam fantasiados com os mais variados personagens — monstros, personagens de filmes, super-heróis — criando um clima que lembra um Halloween misturado com carnaval. Com música, luzes e muita gente envolvida, o evento é aberto a todos e valoriza a diversão, a expressão individual e a diversidade, além de movimentar a cidade e ainda incentivar ações solidárias.
Contudo, Folkhen recebe pistas de ações perturbadoras sobre o movimento de gangues de jovens que estavam seguindo de cidade em cidade assaltando bancos, casas lotéricas, joalherias e concessionárias. As informações davam conta que mais de 5 cidades já haviam sido vítimas de suas ações e havia possibilidade de Santa Cruz do Sul ser a próxima.
O CelleXty começa uma investigação solo para descobrir se os crimes estavam sendo cometidos por mutantes. Diferentes dos mutantes de São Paulo que viviam as escondidas, os do Sul não se intimidavam facilmente. Na cidade de Santa Cruz isso ficou evidente quando um grupo de criminosos invadiu o Banco do Estado para um “rápido saque”.
A cidade pulsava em expectativa, mas havia algo deslocado sob aquela superfície festiva. Enquanto bandeiras coloridas se estendiam entre os postes e jovens testavam figurinos nas ruas centrais, Folkhen caminhava com atenção redobrada, sentindo o espaço ao seu redor reagir de maneira sutil, como se pequenas irregularidades gravitacionais surgissem e desaparecessem sem explicação.
Para alguém comum, aquilo passaria despercebido; para ele, era um alerta claro de interferência externa. Não era apenas a presença de outros mutantes — era a forma como eles estavam agindo, sem medo, sem tentativa de ocultação, como se a cidade fosse apenas mais um ponto em um percurso já traçado.
Diante da Catedral São João Batista, ele parou, erguendo o olhar para a estrutura imponente enquanto expandia sua percepção além do visível. A gravidade não era algo fixo para Folkhen — era maleável, uma rede invisível que ele podia sentir em camadas. Ali, ele percebeu algo mais complexo do que simples distorção física. Havia flutuações que não pertenciam ao mundo material, como se a própria percepção das pessoas estivesse sendo manipulada em sincronia com o ambiente.
— Não é só força… é controle de realidade subjetiva, murmurou, conectando rapidamente o padrão ao que já conhecia de mutantes mentais.
A confirmação veio minutos depois, quando a sensação de compressão se concentrou no centro da cidade. Ao chegar ao Banco do Estado, o contraste era perturbador: o lado de fora permanecia vivo, dinâmico, enquanto o interior estava preso em um silêncio antinatural. Ao atravessar a entrada, Folkhen sentiu imediatamente a invasão mental, como uma névoa tentando se infiltrar em seus pensamentos, oferecendo imagens falsas — rotas seguras, ausência de perigo, normalidade onde claramente havia ruptura.
Hypnos estava no centro de tudo, movendo-se lentamente entre corpos imóveis, sua presença quase etérea. Seu poder não era apenas hipnose simples; ele criava camadas de ilusão sensorial que substituíam a realidade percebida, permitindo que suas vítimas não apenas obedecessem, mas acreditassem genuinamente naquilo que viam. O alcance de seu controle era limitado a poucos alvos diretos, mas suas ilusões se propagavam indiretamente, afetando o ambiente como um campo psíquico distorcido.
— Durmam… ignorem… esqueçam, sussurrou ele, e cada palavra parecia ecoar em múltiplas direções ao mesmo tempo.
A sua comparsa, Melissa, próxima ao cofre, não estava apenas observando. A jovem com cerca de 22 anos era magra, cabelos cacheados e negros e adorava usar trajes pretos como coturnos, um vestido preto longo em godê e uma jaqueta jeans. Com gestos rápidos com as mãos, pequenos insetos começavam a surgir ao redor dela — primeiro discretos, depois em número crescente. Moscas, besouros, mariposas, lacraias venenosas. Ela não apenas os controlava; ela os convocava, guiando seus movimentos com precisão quase coreografada. O enxame formava padrões no ar, criando zonas de distração, bloqueando visão, invadindo narinas, ouvidos, pele. Era um poder psicológico tanto quanto físico.
— Se alguém acordar, eles não vão querer continuar acordados, disse ela, com um sorriso leve.
...
Os irmãos Kzardos eram adolescentes que trabalhavam em perfeita sincronia, ainda que sem consciência plena disso e, assim como Melissa, seguiam Hypnos sem titubear, mesmo ambos com apenas 15 anos de idade. O garoto pressionava a mão contra o cofre, e o concreto ao redor respondia como um organismo vivo. Ele não apenas manipulava estruturas existentes — ele as energizava, saturando o material com tensão interna até que este se tornasse instável.
Pequenas fissuras surgiam, vibravam e então liberavam explosões controladas, precisas o suficiente para abrir passagem sem destruir tudo ao redor. Seu corpo, revestido por uma camada crescente de concreto, absorvia impacto e aumentava sua massa, tornando cada movimento mais pesado, porém mais devastador.
Sua irmã, por outro lado, operava com fluidez. O vidro ao seu redor não era apenas manipulado — era recriado, refinado, alterado em propriedades. Fragmentos se tornavam opacos, escurecidos como lâminas invisíveis, ou ásperos como superfícies abrasivas. Ela podia transformar partículas minúsculas em correntes contínuas de corte, ou condensá-las em estruturas sólidas capazes de sustentar seu próprio peso, permitindo que se movesse pelo espaço em plataformas translúcidas.
Foi nesse momento que Folkhen interveio.
A entrada não foi explosiva — foi distorcida. O espaço ao redor da parede frontal do banco se contraiu abruptamente, como se fosse puxado para dentro de si mesmo, criando uma implosão silenciosa que abriu passagem sem espalhar destroços. Ao entrar, ele expandiu imediatamente seu campo gravitacional, aumentando a pressão sobre todos os corpos no ambiente. O chão cedeu levemente, móveis rangeram, e até o ar pareceu se tornar mais denso.
— Acabou, disse, avançando.
Hypnos respondeu sem se mover. O mundo ao redor de Folkhen colapsou novamente em ilusão. Desta vez, porém, não era apenas queda. Era inversão. Cima e baixo deixaram de existir, direções se tornaram irrelevantes, e seu próprio senso de controle começou a ser testado. Hypnos não tentava dominá-lo diretamente — tentava fazê-lo duvidar de sua própria percepção.
- Não se aproxime, estranho. Eu controlo o meu bando. Eles fazem tudo o que ordeno. Quer a sua boca cheia de insetos. Posso garantir que Melissa faça essa gentileza. Quer mesmo me enfrentar?
Folkhen não dependia apenas da visão. O gaúcho sentia. E a gravidade não mentia. Com um gesto firme, ele criou um ponto de ancoragem no espaço real, comprimindo as forças ao seu redor até que a ilusão se rompesse em fragmentos perceptivos. Quando o banco voltou ao normal, o ataque já vinha.
O garoto Kzardos avançou como um projétil, seu corpo mais denso, mais pesado, cada passo deixando marcas profundas no chão. O impacto de seu punho gerou uma onda de choque, mas Folkhen respondeu invertendo o vetor gravitacional ao redor do braço, desviando a trajetória e forçando o corpo do garoto contra o solo com peso multiplicado. Ainda assim, ele resistiu, puxando energia da própria estrutura ao redor, rompendo a pressão com força bruta.
Ao mesmo tempo, a garota lançou uma tempestade de vidro. Os fragmentos não seguiam trajetórias simples — eles curvavam, aceleravam e desaceleravam de forma imprevisível. Alguns se tornavam invisíveis, outros refletiam luz de forma distorcida, criando múltiplas camadas de ataque. Pequenos cortes começaram a surgir em Folkhen antes que ele ampliasse seu campo, criando uma zona de compressão que esmagou parte do ataque no ar.
...
A luta se expandiu para fora, arrastando-se até a região do Parque da Oktoberfest, onde o espaço aberto permitia maior movimentação. Folkhen estava em desvantagem. Um enxame de vespas vinha em sua direção, graças a Melissa, mas rapidamente, Folkhen consegue criar uma pressão antigravitacional forte o suficiente para fazer todo o enxame ir ao chão. Contudo, a “distração” não o preparou para os blocos de concreto que lhe acertaram em cheio.
Foi ali que os Guarás surgiram enquanto civis corriam apavorados e carros desviavam suas rotas. Diferente de lobisomens tradicionais, eles não se transformavam completamente. Mantinham uma forma híbrida, onde traços humanos se misturavam com a estrutura esguia e ágil do lobo-guará. Seus membros eram alongados, movimentos precisos, olhos atentos. Não havia brutalidade descontrolada — havia técnica.
- Sabemos quem tu és, mutante! – Falou um dos Guarás
- Estavas na batalha de São Paulo contra vampiros e Lycans. Temos muito o que conversar – Disse o segundo.
O primeiro Guará interceptou o garoto e seus ataques com concreto, não tentando enfrentá-lo diretamente, mas explorando sua limitação de peso. Ele se movia ao redor, desviando, forçando o adversário a gastar energia até que um erro surgisse. Quando veio, foi sutil. Um passo mal calculado. O Guará aproveitou o próprio peso do garoto contra ele, redirecionando seu movimento e lançando-o contra o solo com força suficiente para quebrar sua estabilidade.
...
O segundo enfrentou a garota do vidro com abordagem oposta. Aproximou-se rapidamente, reduzindo seu espaço de ação. Cada plataforma que ela criava era destruída antes de estabilizar, cada ataque interrompido antes de ganhar velocidade. Ele não lutava contra o vidro — lutava contra o tempo de reação dela.
Enquanto isso, Folkhen voltou-se para Hypnos, mudando completamente sua abordagem. Em vez de pressionar fisicamente, ele concentrou sua habilidade em algo mais abstrato: a gravidade da mente. Criou uma potente compressão no campo cognitivo ao redor de Hypnos, dificultando a manutenção simultânea de múltiplas conexões mentais. O efeito foi imediato. As ilusões começaram a falhar. Os corpos ao redor reagiram. Os Kzardos hesitaram.
Melissa enviou seus enxames de insetos para longe. A jovem levou a mão à cabeça, os insetos ao seu redor se dispersando momentaneamente.
— O que… está acontecendo…?
Hypnos recuou, ainda sorrindo, mas agora sob pressão real.
— Vocês ainda são úteis demais para serem perdidos, disse, antes de romper o vínculo de forma abrupta.
A fuga foi rápida, aproveitando o caos urbano que já se formava ao redor. Quando o silêncio finalmente retornou, ele era diferente. Natural. Ele entra em um carro e faz menção para o trio o seguir. Apenas Melissa aceita fugir com o homem.
Os irmãos Kzardos estavam livres.
Folkhen observou em silêncio, enquanto os Guarás se aproximavam, retomando uma postura menos agressiva, mas ainda vigilante.
— Eles não escolheram isso, disse ele, com firmeza.
Um dos Guarás assentiu lentamente.
— Então não devem carregar essa culpa. – Disse o primeiro
- Em breve iremos até você, gaúcho. Conversaremos em um momento mais propício. – Disse o segundo
...
Folkhen olhou para o horizonte escuro, onde a cidade continuava viva, ignorante ao que havia sido evitado enquanto a dupla de Guarás se perdia entre a multidão de visitantes fantasiados para as festas. Afinal, muitos foram levados a crer que se tratava de parte do espetáculo da Procissão das Criaturas. O CelleXty volta a sua atenção para os irmãos.
- Como se chamam?
- Meu nome é Kostya. – Disse o rapaz
- Mika. – Respondeu a menina
— Kostya e Mika... Existe um lugar para vocês. Estou disposto a ajuda-los, se vocês quiserem. Olha, não prometo luxo, mas prometo que serão acolhidos e bem tratados e onde os seus dons serão respeitados!
...
A dupla aceita seguir com Folkhen sem hesitação, embora ainda houvesse resquícios de incerteza em seus olhares. Não era medo dele — era do que haviam sido até aquele momento. Do que ainda poderiam ser.
O silêncio que se formou entre os três não era desconfortável. Era um silêncio de transição.
Folkhen caminhou alguns passos à frente, observando o céu agora limpo, onde as luzes da cidade voltavam a dominar o horizonte. A Procissão das Criaturas seguia seus preparativos, como se nada tivesse acontecido. Risos, música, fantasias. Um mundo alheio ao outro que quase colapsara sobre ele.
— Cambará do Sul, disse por fim, com voz firme. — Lá vocês vão ter tempo… e escolha.
Kostya trocou um olhar rápido com Mika. Pela primeira vez desde que haviam sido libertos, não havia comando algum guiando seus movimentos. Apenas decisão.
— E se a gente não souber o que fazer? — Perguntou ele, ainda carregando o peso de tudo que viveu.
Folkhen parou e olhou para trás, encarando os dois com uma seriedade tranquila, quase paternal.
— Então vocês aprendem. Como todo mundo.
Mika respirou fundo. Seus dedos ainda tremiam levemente, reflexo de um poder que parecia sempre prestes a escapar. Mas, desta vez, ela não o ativou.
— A gente vai, disse ela.
Ao longe, o som de sirenes começava a crescer. A cidade finalmente despertava para algo que não conseguiria explicar completamente. Folkhen assentiu e seguiu em direção ao carro. Os dois o acompanharam.
Enquanto o motor ganhava vida, ele lançou um último olhar para Santa Cruz do Sul. Não havia vitória ali — apenas um movimento interrompido. Um padrão que ainda estava sendo desenhado. Dentro do carro, o ambiente era outro. Mais contido. Mais real.
Kostya apoiou a cabeça no banco, fechando os olhos por um instante.
— Aquele cara… Hypnos… ele vai voltar, né?
Folkhen não respondeu de imediato. Seus olhos estavam na estrada, mas sua mente já avançava muito além dela.
— Vai, disse por fim. Se ele controlava vocês três, ele não vai deixar barato perder vocês assim. Mas não se preocupem. Teremos tempo de falar sobre isso.
O carro deixou a cidade, mergulhando na escuridão das estradas que levavam à serra. À medida que as luzes urbanas desapareciam no retrovisor, o ar parecia mudar — mais frio, mais denso, mais antigo.
As curvas começaram a surgir, acompanhadas pelo silêncio profundo das matas.
Mika olhou pela janela, observando as sombras das árvores se alongarem como se estivessem vivas.
— É sempre assim lá?
Folkhen esboçou um leve sorriso.
— Não. Lá… é mais honesto.
A estrada serpenteava em direção ao desconhecido, mas, pela primeira vez, aquilo não parecia uma ameaça.
Era um começo.
...
Em Santa Cruz em um ponto nos limites da cidade, Hypnos observava seus “bens” serem retirados de seu domínio. Melissa, por outro lado, decidiu ficar, por conta própria ao seu lado.
- Não se preocupe, querida, em breve iremos ao encalço de nossas amadas crianças!
Fale com o autor