Personagens: Folkhen, Málaca, Kaila Silveira, Antônio Silveira, Helena Silveira, Bernardo Silveira.

Ambiente: Município de Torres, litoral norte do Rio Grande do Sul, especialmente a região da Praia da Guarita, suas falésias de basalto e o oceano Atlântico sob a luz fria da madrugada.

Contexto: Dias antes da batalha final em Santos contra os vampiros portugueses, Folkhen deixa discretamente São Paulo após o confronto em Osasco. Ele retorna ao litoral gaúcho acompanhado de Málaca para cumprir uma promessa feita semanas antes durante uma investigação sobre os Sete do Rio D’Ouro.


Dias antes

No calçadão congelado de Osasco, os CelleXtys haviam enfrentado Acordador e Tempestade, dois dos temidos vampiros portugueses conhecidos como Os Sete. Durante o confronto, Acordador revelou sua arma mais cruel: trouxe de volta à vida antigos membros da equipe mortos pelo Vírus Legado — Tornado, Rosa Vermelha, Carcará, Lídia e Gerson — obrigando os mutantes a lutar contra aqueles que um dia haviam sido seus próprios companheiros de batalha. O combate foi brutal e emocionalmente devastador, pois cada golpe desferido era também uma lembrança amarga de perdas recentes. Com a ajuda do vampiro Simeão e da determinação de Alex Aleff, os CelleXtys conseguiram finalmente derrotar os mortos-vivos. Quando tudo parecia terminado, porém, os vampiros simplesmente desapareceram das alturas do Osasco Plaza Shopping. Aquilo deixava uma mensagem clara: toda aquela batalha havia sido apenas um teste. Um experimento para medir a força dos CelleXtys antes do verdadeiro confronto que ainda estava por vir.

...

Minutos depois do combate, enquanto os demais ainda tentavam recuperar o fôlego em meio aos destroços do calçadão, Folkhen se aproximou de Alex Aleff com uma expressão incomum de preocupação. O líder dos CelleXtys ainda observava o local onde o corpo de Carcará havia caído quando percebeu a presença do velho amigo ao seu lado. — Preciso resolver um assunto delicado — disse Folkhen em voz baixa. Alex franziu levemente a testa. Todos estavam exaustos, e a ideia de qualquer nova missão naquele momento parecia quase absurda. Ainda assim, ele conhecia o gaúcho há tempo suficiente para saber que Folkhen jamais abandonaria a equipe sem um motivo sério. — Agora? Perguntou Alex. Folkhen apenas assentiu. — Não pode esperar. O líder respirou fundo por um instante antes de responder. — Vá então. Mas tenha cuidado. O mutante sulista apenas fez um aceno discreto com a cabeça antes de se afastar, caminhando em direção a Málaca, que observava em silêncio o cenário devastado ao redor.

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Pouco depois, Folkhen explicou rapidamente a situação à jovem mutante. Ambos sabiam que precisariam de algumas horas de descanso depois daquela batalha, mas o tempo era um luxo que não podiam se permitir. Após passarem algumas horas em um hotel barato nas proximidades da rodoviária, os dois seguiram para a Rodoviária do Tietê e embarcaram em um ônibus noturno rumo ao Rio Grande do Sul. Durante a longa viagem pela madrugada, Folkhen finalmente revelou o motivo da viagem.

— Enquanto investigava pistas sobre aqueles vampiros no litoral gaúcho, conheci uma família que me ajudou bastante. Eles suspeitavam que a filha fosse mutante, mas na época não havia sinal algum de poderes.

Málaca ouviu em silêncio enquanto observava as luzes da estrada passando pela janela do ônibus. — E agora? Perguntou ela. Folkhen suspirou antes de responder. — Antes da batalha em Osasco, recebi uma ligação do irmão dela. Os poderes despertaram… e a menina perdeu o controle.

Málaca cruzou os braços. — Ainda não entendi por que você escolheu justamente a mim. Folkhen esboçou um pequeno sorriso. — Quando chegarmos lá, você vai entender.

Horas depois, quando finalmente cruzaram a divisa do estado, o ônibus começou a se aproximar do litoral norte do Rio Grande do Sul. O destino deles era o município de Torres, uma cidade singular na geografia gaúcha. Diferente das longas faixas de areia plana que dominam a maior parte da costa do estado, Torres é marcada por imensos paredões de basalto que se erguem abruptamente do oceano como torres naturais esculpidas pela ação de milhares de anos de vento e mar. Entre essas formações destacam-se a Torre Sul, a Guarita e a Torre do Meio, gigantes de pedra escura que dominam o horizonte e criam um cenário que parece mais próximo de um antigo mito marítimo do que de uma cidade costeira comum.

Durante o dia, o local atrai turistas, trilheiros e fotógrafos fascinados pela paisagem dramática. À noite, porém, o ambiente assume uma atmosfera completamente diferente. O vento do Atlântico atravessa as falésias produzindo sons graves e prolongados, e muitos pescadores antigos juram que já viram luzes estranhas sobre o mar ou ouviram ruídos vindos das cavernas nas encostas rochosas. Para muitos moradores mais velhos, aquelas águas escondem segredos muito mais antigos do que a própria cidade.

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Algumas semanas antes, quando ainda investigava os possíveis movimentos dos "Sete do Rio D’Ouro" pelo litoral sul do país, Folkhen havia chegado a Torres no final de uma tarde cinzenta. O mar estava agitado naquele dia e o vento carregava o cheiro forte de sal e algas que se acumulavam entre as pedras da Praia da Guarita. Depois de dias viajando e coletando relatos fragmentados sobre criaturas antigas que poderiam estar ligadas aos vampiros portugueses, o mutante decidiu permitir-se um raro momento de descanso.

Caminhou pela areia úmida observando o horizonte enquanto o sol desaparecia lentamente atrás das nuvens baixas do Atlântico. Foi um erro. Uma corrente marítima repentina o puxou para longe da costa antes que pudesse reagir. O mar aparentemente tranquilo revelou-se traiçoeiro, e as ondas começaram a bater violentamente contra as formações de basalto. A água gelada drenava rapidamente suas forças enquanto ele lutava para alcançar alguma rocha próxima. Foi então que um pequeno barco de pesca surgiu entre as ondas.

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O homem que o retirou da água chamava-se Antônio Silveira, um pescador local acostumado às mudanças bruscas do mar naquela região. Sem fazer muitas perguntas, ele ajudou Folkhen a subir no barco e o levou até sua casa simples próxima à Lagoa do Violão. Ali o mutante conheceu o restante da família: Helena, a esposa de Antônio, e os dois filhos do casal — Bernardo, um rapaz de vinte e dois anos, e Kaila, a caçula de quinze.

Naquela noite, enquanto bebiam café quente na cozinha aquecida pelo fogão a lenha, a conversa acabou tomando um rumo inesperado quando o noticiário da televisão começou a mostrar imagens dos recentes incidentes envolvendo mutantes em São Paulo. Helena balançou a cabeça com desaprovação enquanto observava a reportagem.

— Esse mundo tá ficando cada vez mais estranho… agora dizem que tem gente nascendo com esses poderes.

Antônio concordou em silêncio.

— Essas coisas sempre acabam trazendo problema.

Bernardo lançou um olhar nervoso para a irmã antes de falar. — E se um deles nascer aqui? O silêncio que se seguiu foi pesado. Helena respondeu primeiro. — Deus nos livre. Folkhen permaneceu calado por alguns segundos antes de improvisar uma história. — Sou professor. Viajo pesquisando histórias antigas das cidades. Mutantes provavelmente existem há séculos… só foram perseguidos.

Antônio apenas resmungou. — Pois espero que essas aberrações fiquem bem longe daqui. Kaila não disse nada durante toda a conversa, mas observava Folkhen com uma curiosidade silenciosa que o mutante jamais esqueceria.

...

Agora, semanas depois, o telefone finalmente havia tocado. Quando o ônibus parou na rodoviária de Torres, a madrugada estava fria e o vento vindo do mar atravessava as ruas quase vazias da cidade. Folkhen e Málaca caminharam em silêncio até a casa da família Silveira. Quando chegaram, encontraram Helena caída no chão da sala com um ferimento na cabeça enquanto Bernardo tentava desesperadamente acordá-la.

— Professor! Ainda bem que o senhor veio! disse o rapaz com a voz trêmula.

— O que aconteceu? perguntou Folkhen.

Bernardo respirou fundo antes de responder. — Era ela… era a Kaila. Ela começou a gritar… mas não foi um grito normal. Parecia um demônio. Metade do bairro ouviu. Teve gente passando mal.

Málaca se aproximou lentamente. — Onde ela está agora?

Bernardo apontou em direção ao mar. — Meu pai levou ela pro barco. Disse que ia dar um jeito nisso. Folkhen trocou um olhar rápido com Málaca. Ambos entenderam imediatamente o que aquilo significava.

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Quando chegaram à Praia da Guarita, encontraram o pequeno barco de pesca parcialmente destruído próximo às pedras e o próprio Antônio caído na areia, ainda tentando recuperar o fôlego. O pescador levantou a cabeça ao reconhecer Folkhen. — Professor… era ela… Kaila é uma dessas coisas.

Ele apontou para o mar escuro. — Tentei dar um jeito… mas ela se jogou na água. O barco virou e eu fui arremessado.

Foi naquele instante que o oceano começou a se agitar. Uma figura emergiu entre as ondas e desapareceu novamente na superfície agitada. Kaila lutava contra algo que parecia ser o próprio corpo. Um som agudo começou a ecoar pelo ar, primeiro como um sussurro distante, depois crescendo até se transformar em uma vibração impossível de ignorar. O grito atravessou as falésias como uma lâmina sonora e fez o ar vibrar ao redor da praia.

O corpo da jovem se arqueou violentamente enquanto a transformação começava. Pequenas escamas prateadas surgiram sobre a pele de suas pernas, refletindo a luz fraca da lua como fragmentos de metal vivo. Seus pés desapareceram lentamente enquanto os ossos se reorganizavam sob a pele. Em poucos segundos, as duas pernas haviam se fundido em uma única cauda poderosa que cortava a água com força impressionante. O oceano ao redor começou a vibrar, e ondas pequenas surgiram em todas as direções como se o próprio mar estivesse reagindo ao grito da jovem. Cardumes inteiros fugiram para águas mais profundas enquanto aves marinhas levantavam voo em pânico sobre as falésias.

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— Meu Deus… murmurou Málaca, observando a transformação com os olhos arregalados. Folkhen cruzou os braços, analisando a situação com calma surpreendente.

— Metamorfismo aquático.

Kaila emergiu novamente das águas, agora completamente transformada. Seus cabelos molhados colavam no rosto enquanto seus olhos brilhavam com uma intensidade sobrenatural. Mas havia algo errado. Ela não estava no controle. O grito voltou, desta vez mais forte, espalhando ondas invisíveis que fizeram a areia vibrar sob os pés de Folkhen e Málaca. Se aquele poder se expandisse pela cidade, poderia facilmente causar pânico generalizado ou até mesmo matar alguém.

— Ela está em pânico — disse Málaca.

— E quanto mais medo sentir… mais forte vai ficar.

Kaila mergulhou novamente nas águas profundas e desapareceu por alguns segundos antes de emergir outra vez a dezenas de metros de distância. Foi então que Málaca fechou os olhos e estendeu as mãos em direção ao oceano. A vegetação costeira respondeu imediatamente ao seu chamado. Longas algas começaram a se mover sob a superfície da água, primeiro lentamente, depois com maior intensidade, formando uma rede viva que se espalhava pelas correntes marinhas. Quando Kaila emergiu novamente, as algas já a cercavam.

...

A jovem tentou escapar mergulhando novamente, mas a vegetação viva acompanhou seu movimento como serpentes verdes deslizando pela água. Folkhen se aproximou da beira do mar e ergueu a voz.

— Kaila!

A jovem emergiu novamente, respirando com dificuldade enquanto seus olhos finalmente reconheceram o homem parado na praia.

— Professor…?

O canto cessou quase instantaneamente. O mar voltou lentamente ao seu ritmo natural enquanto as algas mantinham a jovem apenas parcialmente presa, impedindo que ela desaparecesse novamente nas profundezas. Alguns minutos depois, Kaila conseguiu nadar até a faixa rasa da praia. Sua cauda começou lentamente a desaparecer conforme seu corpo retornava à forma humana. Exausta, caiu de joelhos na areia molhada enquanto tremia de frio e medo.

Folkhen se aproximou e colocou seu casaco sobre os ombros da garota. Mais atrás, Antônio observava tudo com um olhar de puro desprezo.

— Levem essa aberração daqui. Isso não é mais minha filha. O pescador virou as costas e caminhou em direção às dunas sem olhar para trás.

...

Málaca permaneceu em silêncio por alguns segundos observando a vegetação ao redor da praia. Então franziu levemente a testa.

— Ela não é a única.

Folkhen virou-se imediatamente. — Como assim?

A mutante apontou para as dunas e para os morros cobertos de vegetação que cercavam a praia.

— As plantas me contam coisas. Eu consigo sentir… outras mudanças acontecendo.

O gaúcho permaneceu em silêncio por alguns segundos enquanto o vento do Atlântico soprava entre as falésias. Aquilo confirmava uma suspeita que ele vinha nutrindo havia meses. Mutantes estavam surgindo. Não apenas em São Paulo ou nas grandes cidades, mas também ali, espalhados pelo interior do Rio Grande do Sul. Ele voltou o olhar para Kaila, ainda tremendo na areia enquanto tentava entender o que havia acontecido com seu próprio corpo.

— Então é verdade… murmurou Folkhen. Málaca cruzou os braços.

— O quê? O mutante respondeu com um tom grave.

— O Sul vai precisar de ajuda.

Enquanto observava o oceano escuro diante das falésias de Torres, Folkhen começou a considerar pela primeira vez algo que até então parecia distante. Talvez fosse hora de construir um novo refúgio. Um lugar onde mutantes como Kaila pudessem aprender a controlar aquilo que estavam se tornando. Porque se os sinais estavam corretos, aquela jovem sereia não era uma exceção.

Era apenas a primeira de muitos.