Personagens:

Raial, La’Vern, Sennefer, Julia, Nico, Caetano, o Militar de Olho Vermelho.

Ambiente:

Túneis abandonados do metrô de São Paulo e áreas subterrâneas utilizadas pela Escola Brasil X como contenção de ameaças. A região permanece mergulhada em escuridão quase absoluta desde as obras interrompidas da década de 1970.

Contexto:

Após os eventos recentes envolvendo lycans na Universidade de São Paulo e o confronto contra forças militares desconhecidas, Raial busca desesperadamente uma maneira de impedir que seu companheiro La’Vern complete a transformação em um licantropo. Para isso, conta com a ajuda do líder egípcio da alcateia, Sennefer, e dos jovens lycans sobreviventes — Julia, Nico e Caetano. No entanto, algo os persegue nas sombras do metrô. Algo que observa. Algo que caça.

...

Enquanto o caos era contido em Santos e, no extremo sul do país, Folkhen e Málaca auxiliavam o despertar de uma nova mutante nas praias de Torres, nos túneis esquecidos do metrô paulista outro tipo de batalha silenciosa se desenrolava. Ali, longe da superfície e do conhecimento do público, um homem lutava contra a própria natureza — e cada minuto o aproximava mais perigosamente da lua cheia.

Raial guiava o pequeno grupo pelos corredores subterrâneos com passos rápidos e calculados. Ao seu lado seguiam Sennefer e os jovens lycans sobreviventes da emboscada ocorrida na Universidade de São Paulo: Julia, Nico e Caetano. O caminho que percorriam era antigo, quase esquecido pelo tempo. Trilhos enferrujados mergulhavam na escuridão enquanto paredes úmidas revelavam marcas de obras interrompidas ainda na década de 1970. Aquela região havia sido abandonada antes mesmo da expansão moderna do metrô, e a EBX havia transformado parte da estrutura em um conjunto de instalações de emergência.

Raial desviou dos trilhos que levavam diretamente para a Escola Brasil X e seguiu por um corredor lateral muito mais profundo. A iluminação ali era escassa e irregular, composta por poucas lâmpadas de segurança alimentadas por geradores independentes. O eco de seus passos misturava-se ao som distante da água escorrendo pelas paredes de concreto e, vez por outra, o trepidar dos trilhos com o tráfego dos vagões em outros túneis. Depois de diversas descidas e curvas pelos túneis estreitos, o grupo finalmente chegou a um grande salão subterrâneo.

O lugar havia sido utilizado décadas atrás como abrigo para equipes de escavação. Agora servia como um dos locais de contenção emergencial da EBX. Cinco celas metálicas estavam alinhadas contra uma das paredes, protegidas por grades reforçadas e sistemas energizados de segurança. Apesar da estrutura aparentemente abandonada, os sensores e dispositivos de contenção continuavam funcionando perfeitamente.

Apenas uma das celas estava ocupada.

La’Vern.

...

O mutante estava preso por correntes de contenção presas ao chão e às paredes da cela, enquanto uma pesada coleira tecnológica envolvia seu pescoço. O dispositivo havia sido projetado para suprimir temporariamente habilidades mutantes, mantendo seu poder em estado de hibernação. Fora o próprio La’Vern quem solicitara aquela medida extrema antes de perder completamente o controle da transformação. Todos sabiam o motivo. Um lycan descontrolado com habilidades elementares ligadas à lua poderia se tornar uma catástrofe dentro da cidade de São Paulo.

Quando o grupo se aproximou da cela, Raial sentiu o coração apertar. La’Vern parecia muito pior do que da última vez que o havia visto. Seu corpo estava mais musculoso, os ombros arqueados de maneira antinatural, enquanto pelos escuros surgiam em várias regiões da pele. As mãos já apresentavam garras parcialmente formadas, e seus olhos brilhavam com um tom amarelado selvagem. O mutante respirava de maneira irregular, emitindo rosnados baixos que ecoavam pelo salão subterrâneo.

Sennefer observou a criatura por alguns segundos antes de falar.

— A transformação ainda não está completa.

Raial ergueu o olhar.

— Tem certeza?

O líder egípcio assentiu lentamente.

— Segundo você mesma relatou, ele foi apenas arranhado superficialmente por um de nós. Isso retardou o processo de conversão. Além disso, ele não passou pelo ritual tradicional da nossa alcateia. Sem a cerimônia de iniciação, o vínculo espiritual da transformação permanece incompleto.

Raial respirou aliviada, embora apenas parcialmente.

— Então ainda há uma chance?

Sennefer voltou a observar La’Vern.

— Talvez.

O líder da alcateia então virou-se para ela.

— Abra a cela.

Raial hesitou imediatamente.

— Você está louco?

O rosnado vindo da cela tornou-se mais intenso, como se La’Vern pudesse sentir a discussão acontecendo.

— Se deseja salvá-lo, precisamos testar algo primeiro, respondeu Sennefer calmamente.

Depois de alguns segundos de tensão, Raial caminhou até o painel de controle. Seus dedos tremiam enquanto digitava a sequência de segurança que desligava o campo elétrico da cela. As luzes vermelhas do sistema de contenção se apagaram. Assim que a porta metálica se abriu, La’Vern avançou como um animal selvagem.

O impacto foi brutal. Correntes se esticaram violentamente enquanto o recém-lycan investia contra Sennefer com presas expostas e olhos cheios de fúria. Porém, antes mesmo de alcançar o líder egípcio, algo aconteceu. Sennefer apenas ergueu o olhar. O efeito foi imediato.

La’Vern parou no meio do movimento como se tivesse sido atingido por uma força invisível. Seus músculos se tencionaram por alguns segundos antes de lentamente recuar. O lycan abaixou a cabeça, exibindo um gesto claro de submissão diante da presença dominante do líder da alcateia.

— Ele compreende a hierarquia, murmurou Sennefer.

Raial observava a cena em silêncio.

— Mas não conseguirei ajudá-lo aqui.

Sennefer aproximou-se lentamente e colocou a mão sobre a cabeça da criatura. Seus dedos pressionaram a testa de La’Vern por alguns segundos. O mutante desmaiou imediatamente. Sennefer ergueu o corpo do lycan com facilidade surpreendente e o colocou sobre os ombros.

— Preciso levá-lo para um dos nossos esconderijos secundários. Temos um aliado que talvez consiga interromper o processo.

Raial cruzou os braços.

— Talvez?

Sennefer a encarou diretamente.

— Reverter a transformação é possível. Mas será doloroso.

Ele então se aproximou mais.

— Nos encontre na Rodovia Bandeirantes em três horas.

O líder da alcateia virou-se para os jovens lycans.

— Nico, você vem comigo.

Julia e Caetano permaneceram ao lado de Raial.

Antes de desaparecer nos túneis, Sennefer disse apenas uma última frase:

— Você terá sua resposta. Mas haverá um preço.

Quando ele desapareceu na escuridão carregando La’Vern, Raial permaneceu imóvel por alguns segundos.

— Espero que eu tenha feito a escolha certa…

Julia colocou a mão no ombro dela.

— Ele vai ajudar seu amigo.

Caetano bufou.

— Eu preferia ele preso.

Raial olhou para os dois.

— Por que não vamos todos juntos?

Julia respondeu imediatamente.

— Porque estamos sendo seguidos desde que entramos no metrô.

Caetano completou em voz baixa:

— O homem de olho vermelho.

...

Próximo à Universidade de São Paulo, um caminhão militar estacionava discretamente a uma quadra da Estação Butantã. Do veículo desceu o homem conhecido apenas como o homem de olho vermelho. Era alto, musculoso, com postura rígida de veterano. O corte de cabelo militar denunciava décadas de serviço, e seu rosto carregava cicatrizes antigas que não apareciam nos registros oficiais. Diferente dos soldados que o acompanhavam, ele não carregava armas de fogo.

Não precisava.

— Retornem à base, ordenou ele.

Um dos soldados hesitou.

— Mas senhor… vai mesmo seguir a cachorrada sozinho no metrô?

O homem sorriu.

— Quem disse que eu estarei sozinho?

Ele então virou-se para o grupo.

— Sigam o protocolo.

Os soldados retornaram ao caminhão. O militar entrou calmamente na estação. Eram pouco mais de oito da noite. Poucas pessoas aguardavam o próximo trem.

Uma mulher lia um livro em um dos bancos, distraída com o tempo.

Um funcionário da limpeza varria o chão próximo às escadas.

Uma senhora idosa caminhava lentamente apoiada em uma bengala.

Então o olho direito do militar brilhou. Um vermelho intenso. Imediatamente os três civis pararam o que estavam fazendo. Suas cabeças se ergueram lentamente. O olho direito de cada um deles também brilhou em vermelho. Sem dizer uma palavra, os quatro caminharam juntos até as escadas que levavam aos túneis.

Então começaram a correr.

...

Alguns quilômetros adiante, Raial, Julia e Caetano avançavam pelos trilhos abandonados na direção oposta à estação Palmeiras-Barra Funda que dava acesso à Rodovia Bandeirantes.

Não podiam permitir que o perseguidor encontrasse o esconderijo da alcateia. Depois de alguns minutos correndo pelos corredores escuros, uma luz apareceu no final de um dos túneis. Saída.

Assim que emergiram na superfície, uma explosão ecoou. O chão tremeu. Uma figura caminhava lentamente em direção a eles. Era a senhora idosa da estação. Ela sorria.

— Não podemos deixar que esses vira-latas infestem a cidade… não é mesmo?

Raial sacou seu espadim.

Julia e Caetano assumiram suas formas híbridas de lycan, com garras e presas expostas.

— Quem é essa vovó? Perguntou Caetano.

A resposta veio em forma de ataque. A mulher que lia o livro apareceu de repente e acertou um soco brutal no estômago de Julia, lançando a lycan contra a parede do túnel com violência.

— Mas quem são essas pessoas? Gritou Raial enquanto bloqueava o ataque do faxineiro com sua lâmina.

Mesmo ferido pelos golpes do espadim, o homem continuava avançando sem demonstrar dor.

— Escória como vocês não deveriam existir neste país! Disse a mulher.

A idosa sorriu novamente.

— Mas não se preocupem… vamos exterminar todos vocês. Até os bebezinhos mutantes e os seus filhotes de cachorro irão queimar.

Julia avançou com um rugido furioso. Suas garras rasgaram o rosto da velha. Mas, ao invés de carne, algo metálico apareceu sob a pele rasgada.

— Mas essa velha é um robô? Gritou Julia.

Uma voz respondeu atrás deles.

— Não.

Todos se viraram.

O militar de olho vermelho estava parado na entrada do túnel. Seu olho brilhava novamente.

— Nós somos o futuro.

Ele ergueu a mão. Da palma aberta surgiu um disparo metálico. O projétil atravessou o ar e atingiu Julia na cabeça.


Continua...