CelleXty Saga - Temporada III
14 Entre fios e parafusos

Personagens:
Elana Agnes, Alex Aleff, Folkhen, Cassiopéia, Venâncio
Ambiente:
Complexo subterrâneo da Restinga de Marambaia — corredores tecnorgânicos, alas experimentais e setor de contenção biológica
Contexto:
Após serem “aceitos” pelo sistema Borg, a equipe adentra o complexo e descobre que não está enfrentando apenas inimigos, mas uma inteligência adaptativa em tempo real. Enquanto avançam, percebem que o ambiente reage, aprende e reorganiza estratégias. O resgate se transforma rapidamente em sobrevivência — e a equipe começa a ser fragmentada.
O primeiro movimento não veio de um inimigo visível, mas do próprio ambiente. O chão sob os pés da equipe ondulou com uma sutileza inquietante, como se a estrutura metálica tivesse abandonado sua função passiva para assumir um papel ativo na interação. Não houve impacto brusco ou tremor violento — apenas uma mudança precisa, calculada, quase orgânica. As luzes estabilizadas começaram a pulsar em um ritmo irregular, e um zumbido grave percorreu o corredor, não como um alarme de emergência, mas como uma resposta consciente. Elana foi a primeira a compreender que aquilo não era apenas um sistema reagindo. Era um sistema avaliando.
— Não é defesa… — murmurou, os dedos pressionados contra o painel enquanto seus sentidos mergulhavam no fluxo elétrico do complexo. — É leitura. Ele está aprendendo com a nossa presença.
Alex avançou alguns passos à frente, os músculos tensionados enquanto uma camada invisível de energia começava a se condensar ao redor de seu corpo. Pequenas partículas vibravam no ar ao seu redor, respondendo ao campo que ele acumulava. — Então não vamos dar tempo pra ele aprender demais. Sua voz saiu firme, mas havia cálculo nela. Ele já estava analisando trajetórias, pontos cegos, padrões possíveis. Cada passo era uma equação em movimento.
Antes que qualquer estratégia pudesse ser formalizada, as paredes laterais se abriram em segmentos quase imperceptíveis, como se nunca tivessem sido sólidas de fato. O interior revelado não lembrava máquinas convencionais. Não havia fios, circuitos ou estruturas reconhecíveis. Era como se a tecnologia ali tivesse ultrapassado a necessidade de parecer tecnologia, assumindo uma forma funcional, mas alienígena em sua lógica. A própria arquitetura parecia… viva.
E então eles surgiram.
As primeiras formas se projetaram a partir das aberturas, corpos humanos — fardas da marinha ainda parcialmente reconhecíveis — mas profundamente alterados. A pele apresentava padrões metálicos integrados, como se tivesse sido reescrita em nível estrutural. Os olhos, completamente vermelhos, não focavam em alvos individuais. Observavam o conjunto. Moviam-se de forma coordenada, precisa, sem hesitação ou emoção.
— Contato, — disse Folkhen, já expandindo um campo gravitacional ao redor do grupo. O ar pareceu se tornar mais denso, comprimido por uma força invisível, e o primeiro avanço das criaturas desacelerou instantaneamente, como se estivessem atravessando uma resistência física inexistente para olhos comuns.
Mas não pararam.
Elana sentiu antes de compreender totalmente. A assinatura elétrica daqueles corpos não era individualizada. Não havia separação entre eles. — Eles não estão separados… é uma rede. Sua voz ganhou urgência, mais intensa, mais rápida. — Uma mente coletiva. Se um aprende, todos aprendem.
Um dos Borgs avançou primeiro, ignorando parcialmente a pressão gravitacional, como se estivesse recalibrando sua própria densidade estrutural em tempo real. Alex reagiu no instante seguinte. Ele não bloqueou o ataque — ele o absorveu. A energia do impacto foi convertida, redirecionada e devolvida em um único movimento fluido. O golpe que desferiu não foi apenas força. Foi transformação. A criatura foi lançada contra a parede com violência suficiente para deformar o metal ao redor.
Mas não houve pausa.
Antes que o impacto cessasse, os outros já estavam reagindo.
— Eles estão ajustando a resistência! — alertou Elana, sentindo o padrão coletivo se reorganizar.
Folkhen intensificou o campo gravitacional, agora concentrando a força em pontos específicos, criando zonas de pressão extrema. Alguns dos Borgs foram imediatamente imobilizados, seus corpos pressionados contra o chão com força esmagadora. No entanto, outros começaram a redistribuir massa e estrutura, ajustando o próprio peso como se recalculassem a equação gravitacional aplicada.
Cassiopéia avançou.
Seu movimento foi direto, agressivo, sem qualquer hesitação ou contenção. Ao bater as palmas, liberou um facho de calor extremo que atravessou o corredor como uma lâmina incandescente. O impacto foi devastador. Dois dos Borgs foram atingidos diretamente, suas estruturas se desintegrando sob a temperatura absurda, partes do corpo se fragmentando e fundindo ao mesmo tempo. Por um breve instante, pareceu que aquilo funcionaria.
Até que os outros recuaram.
Não por medo.
Por adaptação.
— Eles estão aprendendo com isso, — disse Elana, sua expressão se tornando mais tensa à medida que os padrões se reorganizavam diante dela.
...
A SALA DOS BRUXOS
Venâncio surgiu entre eles como um borrão. Sua movimentação era elegante, quase artística, mas havia violência pura em cada gesto. Ele não atacava apenas o corpo — ele atacava o comportamento. Um dos Borgs hesitou por uma fração de segundo, afetado pela presença sobrenatural do vampiro, e isso foi suficiente. Venâncio atravessou sua defesa e o lançou contra o solo com força brutal, atravessando o peito da criatura e arrancando seu coração junto a fios e estruturas tecnorgânicas.
Mas a resposta veio imediata.
Um golpe violento o atravessou pela parede de uma sala adjacente. O impacto abriu um buraco irregular na estrutura metálica, e a criatura que o atingira avançou pela abertura, pronta para um segundo ataque. Venâncio, porém, não deu essa oportunidade. Com um movimento preciso, brutal e definitivo, arrancou a cabeça do Borg antes que qualquer reação fosse possível.
Venâncio, ainda ofegante, percebeu imediatamente que aquele espaço era diferente. Havia algo no ar — um cheiro distinto, uma presença mais antiga, menos mecânica. O ambiente ao redor não lembrava um setor militar. Era diferente. Mais organizado. Mais… curado. Parecia uma ala de exposição ou um museu. Artefatos estavam dispostos em estruturas organizadas: amuletos, urnas, documentos antigos, medalhões e objetos cuja origem misturava misticismo e ciência de forma inquietante.
Foi quando em um expositor de vidro algo chamou a sua atenção e fez o seu sangue gelar. Talvez se tivesse um coração vivo, o sentiria bater novamente. Havia uma folha solta, uma página de um livro antigo, talvez. Palavras que lembravam a língua Romani, dos ciganos, e alguns nomes descritos em Português. A palavra Montreal descrita mais de uma vez, parecendo representar uma possível ameaça. Mas o que fez o seu sangue gelar foi um nome, dentre vários, que não via há séculos: Basarab!
Venâncio quebrou o vidro com um simples golpe e retirou o manuscrito. Precisava digerir com calma, em outro momento o que descobriu.
— Está tudo bem? — perguntou Elana, surgindo na entrada do buraco aberto pela colisão.
Venâncio apenas assentiu com a cabeça, ainda observando o ambiente ao redor com atenção incomum e guardando furtivamente o manuscrito.
— Eles ainda reagem, — disse ele, os olhos fixos nos restos da criatura. — Ainda existe algo ali dentro. Pulsando.
— Por pouco tempo, — respondeu Elana, analisando o espaço.
...
— E esse lugar…
— Essa é a sala dos “troféus” ou como encontrei nos arquivos, a Sala dos Bruxos. Eu já tinha lido sobre esse lugar. Tudo o que os militares conseguiram extrair das criaturas capturadas está aqui. Mas nem pense em retirar algo. Nosso objetivo é outro. - Disse Elana.
Venâncio não respondeu. Apenas deixou o local com um leve sorriso contido, como se algo ali tivesse despertado um interesse que ele ainda não estava disposto a compartilhar.
O corredor à frente se expandiu, revelando uma área muito maior, estruturada como um centro de distribuição interno. E ali, finalmente, eles viram.
Células.
Fileiras.
Corpos.
Mutantes, vampiros e outros indivíduos estavam conectados a estruturas que os mantinham vivos — ou utilizáveis. Alguns permaneciam imóveis, completamente drenados. Outros… conscientes. Seus olhos se moviam. Observavam. Sentiam. Eram dezenas. Talvez mais.
Elana aproximou-se de um painel, conectando-se diretamente ao sistema. Sua expressão mudou ao receber o fluxo de informações.
— Tem gente viva aqui… muitos. Sua voz falhou por um breve instante, não por fraqueza, mas pela escala daquilo que estava sendo revelado.
Venâncio já havia avançado.
— Verônica… — o nome saiu como um sussurro carregado de urgência e algo que ele raramente demonstrava: medo.
Alex posicionou-se à frente do grupo, absorvendo o impacto simultâneo de dois Borgs que avançaram com precisão coordenada. Ele redirecionou a energia em um arco fluido, lançando-os em direções opostas.
— Foco! — disse, firme. — Se perdermos a formação, eles nos separam.
E então aconteceu.
Uma garra metálica emergiu das sombras e se prendeu ao pescoço de Alex, o braço se estendendo por metros como uma extensão impossível. Ao fundo, um Borg maior, mais adaptado, iniciava o processo de assimilação. Alex sentiu sua energia sendo drenada, sua mente sendo invadida por vozes sincronizadas que ecoavam diretamente em sua consciência.
Até que o vínculo foi interrompido.
A criatura caiu de joelhos, envolta em chamas.
Cassiopéia.
Folkhen expandiu ainda mais o campo gravitacional, agora não apenas para conter os inimigos, mas para reorganizar o espaço ao redor das cápsulas, criando zonas seguras e corredores de movimentação.
— Eu seguro eles. Vocês encontram os prisioneiros.
Cassiopéia não respondeu.
Ela apenas avançou.
E, naquele instante, ficou claro que aquela missão não era apenas sobre resgate.
Era sobre confronto.
E o sistema…
já estava pronto para o próximo passo.
Fale com o autor