CelleXty Saga - Temporada III
15 Reencontros de sangue

Elana Agnes, Alex Aleff, Folkhen, Cassiopéia, Venâncio, Verônica, Carmem
Ambiente:Ala de contenção biológica do Complexo da Restinga de Marambaia — setor de armazenamento vivo e integração tecnorgânica
Contexto:Após o primeiro confronto direto com os Borgs, a equipe avança para o setor de contenção, onde descobre a real função do complexo: não apenas aprisionar, mas integrar seres vivos à rede coletiva. Em meio ao caos, reencontros inesperados acontecem — e com eles, verdades que não podem mais ser ignoradas.
...
O avanço pelo setor de contenção já não era mais uma escolha tática, mas uma necessidade urgente que se impunha a cada segundo. O corredor se abriu em uma vasta ala repleta de cápsulas verticais, alinhadas em fileiras que pareciam não ter fim, como se aquele lugar tivesse sido projetado não apenas para armazenar corpos, mas para catalogar existências. A iluminação fria e impessoal revelava rostos imóveis, alguns preservados como se o tempo tivesse sido interrompido, outros marcados por desgaste, sofrimento e anos de contenção forçada. Cabos e estruturas translúcidas conectavam cada indivíduo ao sistema central, formando uma rede silenciosa e constante. O silêncio ali não era ausência de som — era suspensão de vida.
Elana avançava com a mão apoiada nas superfícies metálicas, seus sentidos mergulhados no fluxo elétrico que percorria todo o complexo. Cada pulso, cada variação, cada microoscilação era interpretada por ela como linguagem. Sua expressão mudou sutilmente, não por medo, mas por compreensão. — Eles estão sendo usados como extensão do sistema… não são apenas prisioneiros. Sua voz carregava tensão crescente. — São nós da rede. Aquilo não era apenas contenção. Era integração forçada em um organismo maior.
— Desliga isso, — disse Alex, mantendo-se à frente, interceptando dois Borgs que avançaram pelas laterais com precisão crescente. Ele absorveu o impacto simultâneo, canalizando a energia em um pulso concentrado que os lançou contra as estruturas ao fundo. O impacto reverberou pelas cápsulas, mas o efeito foi menor do que antes. As criaturas se levantaram mais rápido. Mais estáveis. Mais adaptadas. O sistema estava evoluindo em tempo real.
...
Folkhen expandiu seu campo gravitacional com precisão cirúrgica, criando zonas de pressão entre as cápsulas e forçando os Borgs a desacelerarem em pontos estratégicos. O espaço ao redor parecia distorcido, como se o ar tivesse adquirido densidade física, comprimindo movimentos e alterando trajetórias. — Não temos tempo para todos. Precisamos focar nos alvos. Sua voz era firme, mas carregava uma consciência dolorosa. Cada cápsula ignorada era uma escolha.
Mas Venâncio já não estava mais ouvindo.
Ele caminhava entre as fileiras com uma rapidez controlada, os olhos percorrendo cada rosto, cada corpo suspenso, cada possibilidade. O ambiente ao redor parecia se alterar sob sua presença, não fisicamente, mas emocionalmente. Os Borgs conseguiam acompanhar sua velocidade, mas não sua leitura de movimento. A carnificina foi inevitável. Em menos de dois minutos, fragmentos de corpos tecnorgânicos estavam espalhados pelo ambiente, misturados a fios, metal e resíduos biológicos. Não era apenas combate. Era ruptura.
E, ainda assim, ele continuava procurando.
— Verônica… — murmurou, mais para si do que para os outros, como se repetir o nome fosse suficiente para encontrá-la.
E então ele parou.
...
A cápsula estava parcialmente obscurecida por uma camada translúcida de contenção, mas não havia dúvida. A silhueta. Os traços. O cabelo escuro caindo sobre os ombros. O corpo pálido, imóvel, suspenso por conexões invasivas que pareciam consumir mais do que sustentar. Venâncio se aproximou lentamente, como se qualquer movimento brusco pudesse desfazer aquela realidade.
Sua mão tocou a superfície.
— Filha…
Por um instante, nada aconteceu. O tempo pareceu se alongar, como se o próprio sistema observasse aquele momento. Então, de forma quase imperceptível, os olhos dela se abriram. Não completamente. Mas o suficiente. Havia consciência ali. E havia dor.
Elana virou-se imediatamente, seus sentidos já analisando a conexão. — Ela está conectada ao sistema. Se cortarmos essa ligação de forma abrupta… podemos matá-la.
— Eu não vou deixá-la aqui, — respondeu Venâncio. A voz saiu baixa, controlada, mas carregada de uma ameaça silenciosa que não precisava ser explicitada.
— Então me dá três segundos, — disse Elana, já conectando a mão à interface da cápsula. Correntes elétricas sutis percorreram o vidro, não como ataque, mas como leitura profunda e invasiva. — Eu consigo isolar ela da rede…, mas só por um curto período.
Enquanto isso, Alex interceptava novos avanços, agora visivelmente mais coordenados. Os Borgs não atacavam mais de forma direta. Eles testavam. Flanqueavam. Forçavam erros. Aprendiam.
— Eles estão tentando nos dividir, — disse ele, absorvendo a energia de um golpe e devolvendo com força amplificada, abrindo espaço momentâneo.
Cassiopéia permanecia na linha de frente, mas algo em seu olhar havia mudado. Entre as fileiras, em uma cápsula mais antiga, deslocada do padrão tecnológico dominante, havia um corpo que não parecia apenas mantido — parecia preservado. Havia intenção ali. Memória.
Ela caminhou até a cápsula. Parou. Por um instante, não disse nada.
Alex percebeu antes de qualquer outro. — Não…pode ser...
Folkhen sentiu a alteração no campo ao redor dela. — Cassiopéia…é ela?
— Hora de acordar, dorminhoca! — Disse Cassiopéia, com um tom que tentava esconder algo que já não podia ser contido.
A cápsula se abriu com um som seco após a intervenção remota de Elana. O sistema havia sido forçado a ceder em múltiplos pontos simultaneamente, criando uma falha suficiente para libertar mais de um prisioneiro ao mesmo tempo. O impacto daquela ação reverberou pelo sistema.
Carmem caiu para frente. Cassiopéia a segurou.
O corpo não respondeu imediatamente ao próprio peso. Décadas de contenção cobravam seu preço. O colar metálico ao redor de seu pescoço pulsava com uma energia opressiva, projetado para suprimir qualquer manifestação de poder. Carmen era uma mulher forte, porém, sua pele estava pálida. Estava magra, debilitada. Seus cabelos negros cacheados e longos desciam até o quadril.
...
Cassiopéia não se moveu.
Apenas observou.
— …Carmem. O que esses malditos fizeram com você?
A voz saiu diferente. Mais baixa. Mais humana. Carmem ergueu a cabeça lentamente, os olhos se abrindo com dificuldade, como alguém retornando de um lugar distante demais para ser explicado. Sua visão levou alguns segundos para se ajustar, e quando finalmente encontrou Cassiopéia, não houve surpresa imediata.
Houve reconhecimento.
— Você… demorou, — disse, a voz fraca, mas firme o suficiente para atravessar anos de ausência.
Cassiopéia deu um passo à frente.
— Eu procurei por você.
— Não o suficiente, — respondeu Carmem, sem agressividade, mas com uma verdade que não precisava ser elevada para ferir.
O impacto daquela frase foi mais profundo do que qualquer golpe trocado no campo de batalha. Folkhen desviou o olhar, visivelmente afetado e tentando conter o avanço dos Borgs que se aproximavam. Alex permaneceu imóvel, absorvendo não apenas o cenário, mas o peso daquele reencontro.
Ao fundo, Venâncio segurava Verônica em seus braços enquanto Elana finalizava a desconexão da cápsula, isolando-a do sistema com precisão extrema. A jovem respirou de forma irregular, mas estava viva.
— Consegui… mas não temos muito tempo, — alertou Elana.
E ela estava certa. Porque o sistema reagiu. Não com alarme. Mas com decisão. As luzes se apagaram por um breve segundo. Quando retornaram, os Borgs já não avançavam como antes. Não havia mais impulsividade. Havia organização. Eles estavam mais próximos. Mais rápidos. Mais adaptados.
Folkhen expandiu o campo gravitacional ao máximo, o chão vibrando sob a pressão acumulada. — Eles mudaram o padrão!
Alex avançou, absorvendo energia de múltiplos pontos ao redor e convertendo em um impacto massivo que abriu espaço entre as fileiras. — Então a gente muda primeiro!
Cassiopéia pede que Folkhen leve Carmen consigo enquanto ela ergueu as mãos.
Pela primeira vez desde que havia retornado…ela hesitou. Porque aquilo já não era apenas uma batalha. Era o passado.
Voltando. E cobrando.
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