CelleXty Saga - Temporada III
9 Assimilação: Parte III

Personagens: Elana Agnes, Alex Aleff, Lucius, Gregory, Simeão, Basco Khassan, Folkhen, Málaca, Kaila, Emerson, Kostya, Mika, Raial, La’Vern, Sennefer, Zahur, Caetano, Venâncio
CAMBARÁ-RS
Em Cambará do Sul, Folkhen sentiu a alteração imediata no campo gravitacional, enquanto Málaca percebeu que a natureza havia deixado de responder à presença dos Borgs como uma ameaça coordenada. O confronto era direto e brutal. O cenário era mais brutal, direto, mas não menos perigoso.
A estrada de terra que levava ao refúgio dos CelleXtys estava tomada por figuras que avançavam em velocidade constante — cavaleiros, veículos e pessoas comuns, todos com o mesmo olhar vazio e vermelho. O som dos cascos misturava-se ao de motores e passos sincronizados, criando uma marcha que parecia inevitável.
Folkhen mantinha a linha de frente, manipulando a gravidade para conter o avanço, enquanto Málaca fazia o solo reagir com raízes e elevações.
— Eles estão forçando o campo — disse Folkhen, com os dentes cerrados.
— E não vão parar — respondeu Málaca.
Atrás deles, no interior do casarão, os adolescentes tentavam acompanhar. Kaila, ainda insegura, manipulava a umidade do ar, criando pequenas ondas que mais atrapalhavam do que ajudavam. Emerson movia-se com instinto, rápido, mas sem controle total. Kostya e Mika lutavam juntos, mas suas ações ainda carregavam hesitação. O medo não era do inimigo — era de si mesmos.
— Fiquem juntos e saiam pelos fundos, AGORA! — Gritou Málaca, percebendo o risco.
As crianças deixam a casa de madeira em direção ao rio que passava alguns metros adiante. O rio seguia com mansidão o seu fluxo, mas um bando de peões com partes dos seus corpos agora mecânicos cercava os adolescentes.
[- Assimilação imediata. ] – Disse um dos homens enquanto estendia o seu braço por metros até segurar o braço de Kaila. Emerson tentou impedir e acidentalmente esbarra na jovem que acaba caindo no rio. Mika estende as suas mãos para os “peões borgs” e dispara centenas de dardos de vidro em sua direção.
Kostya pega um punhado de pó de cimento do bolso do seu moletom e cria uma armadura duas vezes o seu tamanho. O garoto parte para cima das criaturas enquanto estavam distraídas com os dardos disparados pela irmã e que cortaram suas peles.
Emerson aproveita e pula no rio para tentar salvar Kaila, porém, ambos acabam tendo uma surpresa quando a nadadeira de Kaila surge no lugar de suas pernas. Kaila podia se tornar uma sereia também em água doce, fato que nem mesmo ela sabia. A menina olha bem para os borgs que se aproximavam de Kostya e Mika
- Saiam da frente! – Gritou Kaila
Imediatamente a saída dos irmãos, Kaila emite um grito sônico que destrói os circuitos de todos os borgs presentes na frente deles.
Um portal em meio a um denso nevoeiro se abre e a chegada de Basco mudou completamente o cenário. A névoa se espalhou, interferindo na percepção coletiva e criando falhas na coordenação inimiga. Folkhen ampliou o campo gravitacional, comprimindo grupos inteiros de Borgs contra o solo, enquanto Málaca utilizava a natureza para conter avanços laterais.
Á frente da nevoa, Basco questionava de forma amigável,
— Cheguei tarde? — perguntou ele.
— No limite — respondeu Folkhen.
Atrás deles, os adolescentes enfrentavam seu próprio combate. Kaila, após cair no rio, descobriu sua forma de sereia e, em um impulso desesperado, liberou um grito sônico que desestabilizou completamente os inimigos ao redor. Emerson mergulhou para protegê-la, enquanto Kostya e Mika atuavam juntos, combinando concreto e vidro em ataques e defesas improvisadas. Pela primeira vez, não estavam apenas reagindo — estavam escolhendo lutar.
IBIRAPUERA-SP
O Parque do Ibirapuera já não lembrava o espaço urbano de lazer que milhares de paulistanos conheciam. A escuridão havia tomado conta de boa parte das alamedas, interrompida apenas por postes danificados e pela luz intermitente de viaturas posicionadas nas extremidades. Equipes da Polícia Militar tentavam isolar o perímetro, enquanto bombeiros retiravam civis que haviam sido encurralados próximos ao lago. No centro daquele cenário, os lycans enfrentavam algo que não se comportava como presa, nem como predador.
Sennefer observava o campo com atenção calculada, os olhos percorrendo cada movimento dos Borgs como se estivesse lendo padrões invisíveis. Zahur mantinha as mãos próximas ao solo, sentindo as vibrações que vinham de baixo, enquanto Caetano respirava com dificuldade, ainda encarando Nico, seu antigo colega, agora parte da coletividade.
— Eles não lutam por instinto… — disse Zahur, em tom baixo. — Lutam por função.
— Então quebramos a função — respondeu Sennefer, firme. — Não enfrentem todos. Quebrem a linha.
Os Borgs avançaram novamente, mas agora com uma variação sutil no padrão. Não estavam mais apenas atacando — estavam cercando, fechando rotas, isolando os lycans uns dos outros. Nico foi o primeiro a avançar sobre Caetano, seus movimentos mais rápidos, mais precisos do que antes. O choque entre os dois foi violento, garras contra estrutura tecnorgânica, força contra resistência adaptativa.
— Nico! — Gritou Caetano, bloqueando um ataque por centímetros. — Você não é isso!
Nenhuma resposta. Mas houve uma pausa. Um atraso mínimo na sequência de movimentos. Zahur percebeu imediatamente.
— Sennefer! — Chamou. — Ainda há resíduo!
Sennefer não hesitou. Em vez de avançar para eliminar, ele mudou o foco do combate. Deslocou-se rapidamente, não para atacar diretamente os Borgs, mas para quebrar a formação que os mantinha sincronizados. Seus movimentos eram rápidos, mas não descontrolados. Ele forçava deslocamentos, criava ângulos, obrigava os assimilados a recalcular.
— Caetano! Segura ele! — Ordenou.
Caetano recuou um passo, respirando pesado, mas manteve Nico ocupado, desviando e contra-atacando sem buscar um golpe final. Zahur, por sua vez, aprofundou sua conexão com o solo, fazendo com que a terra cedesse em pontos estratégicos. Não como uma armadilha definitiva, mas como instabilidade. Os Borgs começaram a afundar parcialmente, tendo que ajustar sua base a cada movimento.
— Eles precisam de estabilidade! — Disse Zahur. — Tirem isso deles!
A estratégia começou a funcionar. Os movimentos dos Borgs deixaram de ser fluidos. Pequenos atrasos surgiam. Descompassos. Nico avançou novamente, mas dessa vez seu golpe não foi perfeito. Caetano conseguiu desviar com mais espaço, girando o corpo e derrubando-o contra o solo instável.
— Eu sei que você está aí! — Insistiu, com a voz carregada de tensão.
Por um instante, os olhos vermelhos de Nico oscilaram. Não foi libertação. Mas foi interferência.
Sennefer percebeu o momento e avançou, posicionando-se entre Caetano e os demais Borgs, interrompendo a aproximação de novos inimigos.
— Não mate — disse ele, sem olhar para trás. — Ainda não.
— Ele vai me matar se eu hesitar! — Respondeu Caetano.
— Então aprende a segurar — retrucou Sennefer.
A pressão aumentou novamente, mas algo havia mudado. A sincronia não era mais perfeita. Os Borgs ainda avançavam, mas já não eram um único corpo. Eram muitos… tentando voltar a ser um.
E então veio a ruptura. A falha no núcleo, causada em outro ponto da cidade, reverberou até o parque. Os Borgs hesitaram ao mesmo tempo. Alguns pararam completamente. Outros caíram de joelhos, como se tivessem perdido a sustentação invisível que os mantinha ativos.
Zahur recuou, sentindo a mudança no solo.
— Isso… não fomos nós.
Sennefer também percebeu. Seu olhar se voltou para a cidade, além das árvores, além da escuridão.
— Não… — disse, em tom baixo. — Mas alguém entendeu.
Caetano permaneceu imóvel diante de Nico, que agora estava caído, o corpo instável, os movimentos interrompidos. O brilho vermelho em seus olhos piscava de forma irregular.
— Nico… — murmurou ele.
Dessa vez, não houve resposta. Mas também não houve ataque. Caetano não levantou a mão. Não ainda.
Ao redor, os poucos Borgs ainda ativos recuavam ou permaneciam imóveis, incapazes de retomar a formação. As viaturas começaram a avançar com mais segurança, enquanto bombeiros se aproximavam para retirar civis escondidos entre as árvores.
O parque silenciou. Não como um lugar seguro.
Mas como um campo que havia sobrevivido.
Sennefer deu alguns passos à frente, observando o cenário, o olhar distante.
— Isso foi só o começo — disse.
Zahur assentiu lentamente.
— E da próxima vez… eles não vão errar.
Caetano permaneceu ao lado de Nico, ainda sem saber se estava diante de um inimigo… ou de algo que ainda podia ser salvo.
E, pela primeira vez naquela noite…
A dúvida parecia mais perigosa que a própria batalha.
MASP-SP
O confronto no vão livre do MASP deixou de ser apenas físico no instante em que ambos reconheceram a natureza um do outro. O Homem de Olho Vermelho apareceu, mas não avançava como um indivíduo, e sim, como a expressão condensada de milhares de decisões simultâneas, cada microajuste vindo da rede que o sustentava, cada movimento calculado a partir de dados coletivos em tempo real.
Alex, por sua vez, permanecia firme como um ponto de ruptura nesse fluxo, absorvendo não apenas impacto, mas intenção. Quando o Borg lançou uma sequência de ataques combinados — lâminas tecnorgânicas emergindo dos braços, descargas de energia comprimida e tentativas de distorção espacial — Alex não reagiu de imediato, permitindo que cada golpe atingisse seu corpo e fosse internalizado, analisado, convertido em energia acumulada que fazia o ar ao seu redor vibrar como um campo prestes a colapsar.
— Você depende deles… — disse Alex, a voz baixa, mas firme, enquanto desviava apenas o necessário e absorvia o restante. — Eu não.
O Homem de Olho Vermelho inclinou a cabeça de forma mínima, como se processasse aquela afirmação não como provocação, mas como dado. Em resposta, intensificou a ofensiva, aumentando a densidade dos ataques e comprimindo o espaço ao redor de Alex em múltiplos vetores, tentando esmagá-lo a partir de direções impossíveis.
O asfalto cedeu sob seus pés, fissuras se espalharam pelo vão livre, e até a estrutura do MASP pareceu vibrar sob a pressão. Qualquer outro corpo teria sido reduzido a matéria inerte.
Alex suportou.
Seus músculos tensionaram, veias saltaram sob a pele, e por um instante o próprio tempo pareceu desacelerar ao redor dele. Não por manipulação externa, mas pela intensidade da energia que acumulava. Ele deu um passo à frente, depois outro, avançando contra a pressão como se atravessasse uma correnteza invisível. Cada centímetro conquistado era um ato de vontade.
— Então aprende… — continuou agora erguendo o olhar diretamente para o Borg. — Aprende o que é decidir.
O ataque final do Homem de Olho Vermelho veio como uma descarga massiva, energia pura comprimida em um único vetor, destinada a atravessar Alex e tudo atrás dele. Não houve desvio. Não houve defesa tradicional. Alex recebeu o impacto de frente, o corpo recuando milímetros, centímetros, até parar completamente. O silêncio que se formou naquele instante foi absoluto, como se o mundo aguardasse a resposta.
E ela veio.
Alex não devolveu a energia como um golpe direcionado. Ele a liberou em expansão, uma onda que se propagou em todas as direções, atravessando a Avenida Paulista, reverberando nas estruturas ao redor e atingindo diretamente o núcleo do Homem de Olho Vermelho. O corpo tecnorgânico não explodiu, não se fragmentou como os demais. Ele falhou de dentro para fora.
O brilho vermelho em seus olhos oscilou, piscou, e por um breve segundo perdeu coerência. Foi nesse segundo que tudo mudou. A rede sentiu.
[ ...Falha na assimilação…falha no sistema. ]
No Hospital Souza Aguiar, o Rio, Gregory percebeu que os corpos à sua frente haviam parado no meio do movimento, enquanto Simeão observava a falha se propagar como um erro sistêmico. Os sobreviventes foram resgatados sob supervisão militar e médica.
Gregory percebeu que o corpo que enfrentava simplesmente cessou o movimento, enquanto Simeão recuava um passo, analisando a falha com atenção.
— Ele quebrou o padrão… — murmurou o vampiro.
Em São Paulo, a Avenida Paulista permanecia cercada, marcada por destruição e silêncio. Em diferentes pontos da cidade, os assimilados interromperam seus movimentos. Na Galeria do Rock, por exemplo, corpos que avançavam em perfeita sincronia hesitaram, como se tivessem perdido a referência. Próximo ao Mascarade, vampiros que lutavam contra antigos aliados viram seus adversários pararem no meio do ataque.
Em Cambará do Sul, o refúgio resistia, mas agora sob vigilância constante. A assimilação havia sido contida, por enquanto. Folkhen sentiu a alteração antes mesmo de ver. A gravidade ao redor dos Borgs deixou de responder como um sistema coordenado, tornando-se irregular, instável. Málaca percebeu a mesma mudança na terra, que já não reagia à presença deles como uma ameaça organizada.
No vão livre do MASP, Alex permanecia em silêncio, observando o corpo inerte do Homem de Olho Vermelho.
O Homem de Olho Vermelho caiu de joelhos.
Não derrotado no sentido tradicional, mas desconectado o suficiente para que sua função como núcleo fosse interrompida.
Alex permaneceu de pé, respirando com dificuldade, o corpo ainda vibrando com o excesso de energia liberada. Lucius aproximou-se lentamente, sentindo os ecos mentais da ruptura se dissiparem no ambiente.
— Você não destruiu… — disse ele.
— Não precisava — respondeu Alex, sem tirar os olhos do inimigo. — Só precisava fazer eles falharem.
O silêncio que se instalou nas três regiões não era de vitória, mas de suspensão. No Rio de Janeiro, médicos, bombeiros e policiais trabalhavam sem parar, tentando compreender como pessoas que minutos antes agiam como parte de uma única consciência agora apresentavam sinais de colapso neurológico ou simplesmente permaneciam imóveis, olhando ao redor como se despertassem de um sonho que não lembravam de ter tido.
Gregory observava em silêncio, enquanto Simeão mantinha distância, analisando cada reação com cautela.
— Isso não acabou — disse Elana, apoiando-se em uma parede, visivelmente exausta. — Eles vão se reorganizar.
— Então a gente se prepara antes — respondeu Gregory, pela primeira vez sem hesitação na voz.
Em São Paulo, o Mascarade permanecia cercado. Helicópteros ainda sobrevoavam a região, enquanto equipes de emergência isolavam áreas críticas. Venâncio observava de longe, os olhos atentos, já compreendendo que aquela noite havia alterado a hierarquia do mundo.
— Não somos mais o topo — disse ele, em tom baixo.
Simeão permaneceu em silêncio, sabendo que aquela constatação era apenas o começo.
No Sul, o refúgio permanecia de pé, mas o ar carregava uma tensão diferente. Os adolescentes estavam reunidos, ainda tentando processar o que haviam vivido. Kaila observava suas próprias mãos, ainda impactada pela transformação. Emerson permanecia próximo, como se temesse que aquilo pudesse acontecer novamente a qualquer momento. Kostya e Mika trocavam olhares silenciosos, compreendendo que haviam cruzado um limite.
— A gente… conseguiu? — Perguntou Mika, hesitante.
Folkhen olhou para o horizonte antes de responder.
— Sobrevivemos.
Basco permaneceu em silêncio, a névoa ainda se dissipando lentamente ao seu redor, enquanto observava algo que parecia além daquele momento. Ele sabia que aquilo havia sido apenas o primeiro teste real.
Em São Paulo Alex ainda observava o corpo do Homem de Olho Vermelho quando Raial se aproximou, o peso da informação evidente em sua expressão. Lucius percebeu antes mesmo das palavras serem ditas.
— Alex… — começou Raial, respirando fundo. — A EBX foi localizada.
O silêncio que se seguiu não foi surpresa, mas confirmação.
— Não foi um ataque direto — continuou ele. — Eles… sabiam exatamente onde atingir. Foi preciso. Rápido. Não sobrou nada.
Lucius fechou os olhos por um instante. Aquilo não era apenas uma perda estrutural. Era simbólica.
— Eles nos estudaram — disse ele, em voz baixa.
Alex permaneceu imóvel por alguns segundos. Quando finalmente falou, sua voz não carregava dúvida, apenas decisão.
— Então a gente muda.
Raial franziu o cenho.
— Muda como?
Alex finalmente desviou o olhar do corpo do Borg e encarou os dois.
— A gente para de reagir… e começa a antecipar.
Ao longe, sirenes ainda ecoavam pela cidade, misturadas ao som de helicópteros e vozes confusas de quem tentava entender o que havia acontecido. O mundo ainda funcionava. As luzes ainda estavam acesas. As pessoas ainda estavam ali.
Mas algo fundamental havia sido quebrado.
E algo maior havia começado.
— Reúnam todos — disse Alex, já se afastando. — Isso aqui… foi só o aviso.
Dessa vez, ninguém questionou.
Porque todos sabiam.
A próxima etapa não seria contenção.
Seria guerra.
Fale com o autor