CelleXty Saga - Temporada III
10 Feliz Ano Novo!

Personagens:
Alex Aleff, Raial, La’Vern, Lucius, Gregory, Noah, Beatrice, Elana Agnes, Folkhen, Basco, Málaca, Kostya, Mika, Kaila, Emerson, Sennefer, Zahur, Caetano, Nico, Simeão, Venâncio, Maurice Durand.
Ambiente:
São Paulo (capital), litoral de Santos, interior do Rio Grande do Sul (Cambará do Sul), áreas isoladas próximas à Rodovia dos Bandeirantes e Rio de Janeiro durante as celebrações de Ano Novo.
Contexto:
Após os confrontos contra os vampiros portugueses, a revelação dos Borgs e o surgimento crescente de mutantes em diferentes regiões do país, o Brasil encerra o ano 2000 em um aparente estado de estabilidade. Contudo, sob essa superfície, tensões sociais, políticas e biológicas se intensificam. Enquanto os CelleXtys se reorganizam entre São Paulo e o sul do país, novas alianças se formam, antigas forças observam em silêncio e a ameaça Borg começa a se expandir de maneira invisível.
...
O verão havia chegado com sua intensidade característica, trazendo consigo o calor persistente das tardes longas, o cheiro de asfalto aquecido nas grandes cidades e o som distante das chuvas rápidas que caíam no fim do dia. O Brasil encerrava o ano de 2000 sob uma aparência de estabilidade cuidadosamente construída, sustentada por discursos políticos otimistas e por uma economia que, ao menos na superfície, parecia sob controle.
Sob o governo de Fernando Henrique Cardoso, o país consolidava os efeitos do Plano Real, mantendo a inflação sob relativo controle, embora ainda enfrentasse desafios estruturais profundos como o desemprego urbano crescente e a desigualdade social que se espalhava de forma silenciosa pelas periferias e centros urbanos.
Ainda assim, havia algo diferente no ar. Não era apenas o calor ou o peso do fim de mais um ano. Era uma sensação difusa, difícil de explicar, que se manifestava nos noticiários, nas conversas de bar, nos corredores das empresas e, principalmente, nos olhares cautelosos que começavam a surgir quando o tema inevitável vinha à tona: mutantes. A presença deles deixara de ser rumor ou boato. Agora era fato. E, como todo fato que rompe a normalidade, dividia opiniões de forma cada vez mais intensa.
Nos centros urbanos, a opinião pública fragmentava-se. Para alguns, os mutantes eram responsáveis diretos pelo caos recente que atingira cidades como São Paulo e Santos, figuras perigosas que deveriam ser controladas antes que algo ainda pior acontecesse. Para outros, eram heróis improváveis, indivíduos que haviam se colocado entre a população e ameaças que nenhuma força convencional seria capaz de enfrentar.
O governo, por sua vez, tentava equilibrar controle e diálogo, observando atentamente o cenário internacional, especialmente a ascensão de Genosha como nação mutante sob o comando de Magneto — um evento que alterava silenciosamente as estruturas políticas globais.
Ao mesmo tempo, o país começava a dar seus primeiros passos mais concretos na digitalização da vida cotidiana. A internet, ainda limitada e lenta, conectada por linhas discadas que ecoavam aquele som metálico característico, passava a mediar novas formas de interação.
Portais como UOL e Terra, salas de bate-papo e e-mails transformavam, ainda que timidamente, a forma como as pessoas se comunicavam. Contudo, após os incidentes envolvendo os Borgs, o governo brasileiro mantinha um olhar vigilante sobre o tráfego de dados, temendo que algo invisível pudesse se espalhar não apenas pelas ruas, mas também pelas redes.
...
Em São Paulo, no alto do edifício COPAN, cuja estrutura sinuosa dominava parte da paisagem urbana, Alex Aleff observava a cidade em silêncio enquanto o céu começava a ser tomado pelas primeiras explosões de luz que anunciavam a chegada do novo ano. A cidade pulsava abaixo dele — carros, pessoas, música, vida — completamente alheia ao que realmente havia acontecido nos bastidores das últimas semanas.
Ao seu lado, Raial apoiava os braços no parapeito, o olhar distante carregando ainda o peso das batalhas recentes, especialmente o confronto nos túneis e o contato com forças que desafiavam não apenas o físico, mas o próprio entendimento da realidade. Alguns passos atrás, La’Vern e Lucius permaneciam imóveis. O francês carregava consigo um frio quase imperceptível, mas constante, como se o ar ao seu redor respondesse à sua própria existência. Lucius, por outro lado, estava imerso em pensamentos mais profundos, refletindo sobre sua fé, suas escolhas e o conflito interno de ter lutado lado a lado com criaturas que sua crença sempre condenara.
Gregory, encostado em uma parede próxima, soltou um leve suspiro antes de quebrar o silêncio com sua habitual leveza.
— Alguém viu o Basco?
Alex respondeu sem desviar o olhar da cidade.
— Ele continua no Rio Grande do Sul com Folkhen e Málaca. Se aceitou o convite de nossos amigos, provavelmente não o veremos por um tempo, Greg.
Gregory ergueu uma sobrancelha.
— Convite?
— Muitos mutantes têm manifestado os seus poderes nos últimos tempos naquela região. Folkhen e Málaca precisam de apoio para acolher esse pessoal.
Raial se aproximou lentamente, o vento noturno movimentando levemente seus cabelos.
— A cidade parece… normal demais, murmurou, sem desviar os olhos do horizonte iluminado.
Alex cruzou os braços, respirando fundo.
— É porque ninguém lá embaixo sabe o que realmente aconteceu. E talvez seja melhor assim… por enquanto.
La’Vern apoiou-se na beirada da sacada, observando o movimento distante.
— Ou talvez seja só a vida seguindo em frente. As pessoas fazem isso… mesmo quando o mundo quase acaba.
Alex fechou os olhos por um breve instante antes de responder, sua voz agora carregando um peso diferente.
— É por isso que preciso tomar uma decisão difícil novamente, La’Vern. Elana Agnes… descobriu algo no Rio que pode nos afetar diretamente no futuro. Ela vai precisar de ajuda por um tempo…
Lucius interrompeu, sem esconder a tensão.
— Então vai nos deixar novamente?
— Sim, meu amigo… mas espero ser breve desta vez.
— Da outra vez você também disse isso e ficou fora por dois anos, Alex! Se não fossem Folkhen e… Carcará…
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Lamento ter ficado ausente por tanto tempo, respondeu Alex. Mas houve um propósito muito maior naquela ausência. E agora… vocês receberão reforços em breve.
Gregory deu um passo à frente.
— Mas enquanto isso, quem vai nos liderar?
Lucius completou, visivelmente incomodado:
— E onde será o nosso QG? A EBX não existe mais.
Alex finalmente se virou para encará-los.
— Compreendo a preocupação de vocês. E ela é justa. Sobre o local… já está resolvido. Tivemos ajuda para estruturar algo adequado.
Ele fez uma pausa antes de continuar.
— E quanto à liderança… pensei em você, Raial.
— Eu?, disse ela, surpresa.
— Você salvou La’Vern, enfrentou os Borgs, construiu uma aliança com os Lycans… e fez tudo isso sem expor a existência dos CelleXtys. Eu não vejo em você apenas uma guerreira… vejo uma líder.
La’Vern e Gregory sorriram em aprovação. Lucius permaneceu em silêncio, mas não contestou.
...
Enquanto isso, em Santos, a brisa do mar atravessava lentamente a varanda da residência de Maurice Durand, carregando consigo o cheiro salgado do oceano e o som ritmado das ondas quebrando contra a costa. O contraste entre a calmaria daquela noite e o caos vivido dias antes era quase desconcertante. A cidade, ainda em processo de reconstrução, parecia querer esquecer — ou ao menos silenciar — tudo o que havia acontecido.
Noah e Beatrice observavam os fogos refletidos na água escura, suas cores se fragmentando sobre a superfície do mar como pequenos universos efêmeros. Havia um silêncio confortável entre os dois, mas também uma consciência compartilhada de que aquele momento era transitório. Ambos sabiam que aquele não era o fim de nada. Era apenas uma pausa.
Após semanas auxiliando autoridades locais e ajudando a população a lidar com os danos causados pelos confrontos, os dois estavam prontos para retornar à capital. Ainda que fossem os mais novos entre os CelleXtys, algo havia mudado dentro deles. A experiência, a responsabilidade e, principalmente, o senso de pertencimento agora eram diferentes.
Maurice Durand permanecia alguns passos atrás, apoiado no encosto de uma cadeira, observando não apenas o espetáculo no céu, mas algo mais profundo — algo que escapava à percepção humana comum.
— Humanos… sempre encontrando motivos para celebrar, comentou com um leve sorriso contido. Mesmo quando não compreendem o que está por vir.
Noah virou-se levemente, apoiando o corpo na grade da varanda.
— E vocês? Nunca celebram?
Maurice inclinou a cabeça, refletindo por um breve instante antes de responder.
— Celebramos… mas não como vocês. Para nós, o tempo tem outro peso. Cada ano não é um ciclo… é apenas continuidade.
Beatrice permaneceu em silêncio, observando o horizonte. Havia algo naquelas palavras que a fazia pensar não apenas no presente, mas no que ainda estava por vir.
...
Em São Paulo, em um ponto mais discreto da cidade, afastado do tumulto das grandes avenidas, Simeão e Venâncio observavam o céu a partir da cobertura de um condomínio de luxo onde Venâncio residia. O ambiente ao redor era silencioso, quase isolado da celebração coletiva que tomava conta da cidade. Ainda assim, os reflexos dos fogos atingiam seus rostos com uma intensidade quase simbólica.
— Isso não é como antes, disse Venâncio em voz baixa, sem desviar os olhos do horizonte. Há algo… diferente.
Simeão assentiu lentamente, sua expressão mais séria do que o habitual.
— Não é vida… nem morte. É outra coisa. E está se espalhando.
Venâncio cruzou os braços, voltando o olhar para o outro vampiro.
— E você, Caitiff? Ainda transitando pelos becos escuros daquele cemitério?
Simeão não se incomodou com o tom.
— O Consolação é o meu lar, Venâncio. Meu… e de outros como eu.
— Você nos ajudou a manter o Mascarade seguro. Muitos membros dos clãs viram isso como um ato de honra. Não há necessidade de continuar naquele lugar.
Simeão permaneceu em silêncio por um momento, absorvendo a proposta.
— Vou pensar sobre isso.
Mas havia algo naquele silêncio que indicava que a decisão não seria tão simples.
...
No interior do Rio Grande do Sul, o cenário era outro. Nos arredores de Cambará do Sul, a noite era fria, aberta e profundamente silenciosa. A antiga pousada, agora parcialmente ocupada, era iluminada por uma fogueira improvisada que crepitava ao ritmo do vento que atravessava os campos.
Aquele grupo, que até poucas semanas atrás não existia como unidade, agora começava a tomar forma. Não como uma equipe ainda, mas como algo mais primitivo… mais humano.
Kaila observava as chamas, perdida em pensamentos que misturavam medo, curiosidade e uma esperança ainda tímida. Ao seu lado, Emerson mantinha-se atento, mas já não apresentava a mesma tensão constante. A presença de outros como ele começava a quebrar, pouco a pouco, as barreiras que anos de isolamento haviam construído.
Mais afastados, Mika e Kostya conversavam, trocando impressões, tentando entender o que tudo aquilo significava. Málaca, por sua vez, permanecia em silêncio, seus sentidos conectados não apenas às pessoas, mas ao ambiente — como se a própria terra ao redor lhe oferecesse respostas que ainda não podiam ser verbalizadas.
Basco, encostado em uma das colunas da pousada, observava tudo com um olhar profundo. Havia ali uma mistura de nostalgia e responsabilidade. Ele reconhecia aquele momento. Já havia vivido algo semelhante antes.
Folkhen aproximou-se lentamente da fogueira, cruzando os braços.
— Não parece muito… mas é um começo.
Kaila ergueu o olhar.
— Você acha que… mais pessoas como a gente vão aparecer?
— Já estão aparecendo, respondeu ele sem hesitar. Aliás… uma sereia também em água doce. Quem diria!
Kaila sorriu, pela primeira vez sem medo.
Málaca deu um passo à frente.
— E quando aparecerem… alguém precisa estar pronto para recebê-los.
Emerson hesitou antes de falar.
— Então… isso aqui é tipo… uma casa?
Folkhen observou o entorno por alguns segundos antes de responder.
— Ainda não. Mas pode se tornar uma… e é por isso que precisamos de toda a ajuda possível.
Ele então fez um gesto chamando Basco.
— Gurizada, este é Basco Khassan… o Nevoeiro.
O olhar dos jovens se voltou imediatamente para ele.
— O Basco é um baita professor. Já foi membro dos Novos Mutantes, ajudou a treinar gente da idade de vocês e nos ajudou contra os Borgs.
Folkhen então se afastou com Basco e Málaca.
— Amigo… tu fazes parte da segunda geração dos CelleXtys. Perdemos muitos… mas olha pra eles.
Basco acompanhou o gesto.
— Eles precisam de mais do que treino. Precisam de alguém que mostre o caminho.
O silêncio pesou por um instante.
— O Sul pode ser o começo de uma nova geração.
Basco respirou fundo. Pensou em Igon. Pensou no passado.
— Eu entendo… e aceito. Vai ser uma honra.
Málaca apenas assentiu.
...
Na clareira próxima à Rodovia dos Bandeirantes, a lua dominava o céu com imponência. O vento atravessava as árvores criando um som contínuo, quase hipnótico. Sennefer permanecia de pé, imóvel, enquanto Zahur observava com serenidade.
Caetano e Nico estavam próximos, o vínculo entre os dois ainda mais forte após tudo o que haviam enfrentado. A perda de Julia e Maicon ainda ecoava, silenciosa, mas constante.
— A lua continua a mesma, disse Caetano.
— A lua não muda, respondeu Zahur. O mundo é que muda sob ela.
Sennefer ergueu o olhar.
— E alguém está tentando mudar rápido demais.
Nico respirou fundo antes de perguntar:
— E pra onde vamos agora?
Sennefer voltou-se para eles.
— Essa nova era é de vocês. Conhecem alguém digno de caminhar conosco?
Caetano trocou um olhar com Nico. Ambos sorriram.
— A gente precisa voltar pras aulas, né?
— E já sabemos o lugar perfeito.
...
No Rio de Janeiro, no Hotel Novo Mundo, Elana Agnes permanecia sozinha em seu quarto. A luz da tela iluminava parcialmente seu rosto enquanto os dados obtidos na Restinga de Marambaia piscavam diante dela. Seu olhar era analítico, mas havia algo mais ali… preocupação.
— Isso não foi um incidente…
Ela respirou fundo.
— Foi um teste.
O tempo avançava.
Segundos.
Minutos.
Até que o país inteiro começou a contar.
Dez… nove… oito…
O céu se iluminava.
Sete… seis… cinco…
Quatro… três… dois… um…
Os fogos explodiram.
O Brasil comemorava.
Mas nem todos.
...
— Feliz ano novo, mutante!
A voz ecoou no corredor. Elana sorriu levemente. Já esperava.
Ao descer até o saguão, encontrou Venâncio. Ao lado dele… Alex e Folkhen.
— Não esperava ver vocês tão rápido!
Ela abraçou Alex.
— Cortesia do Basco, disse Folkhen enquanto também recebia um abraço caloroso.
Venâncio não pareceu satisfeito.
— Sua mensagem dizia ter pistas sobre minha filha. Esse é o único motivo de eu estar aqui.
Elana assentiu.
— E tenho. Não só dela.
Ela explicou tudo. Descreve com detalhe tudo o que presenciou como as experiências com humanos, mutantes e outras criaturas, a origem dos borgs ser neste complexo, bem como ter encontrado Verônica entre os prisioneiros. Elana também revela que a antiga amiga de Alex e Folkhen chamada Carmem também era mantida presa desde 1984.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Como vamos entrar? perguntou Alex.
Elana não teve tempo de responder.
— Porque eu tenho a chave, amore!
A voz interrompeu tudo.
A mulher surgiu.
Elegante. Imponente.
Folkhen arregalou os olhos.
— Não é possível…
— Sim, querido… Cassiopéia está de volta.
...
E, em algum lugar anônimo, no meio de uma rua comum, entre pessoas comuns, um homem parou no meio da multidão. Ninguém percebeu. Ninguém notou.
Por um segundo. Dois.
Então ele ergueu lentamente a cabeça.
Seu olho direito brilhou em vermelho.
[— Conexão estabelecida.]
Ao redor, risos. Abraços. Vida.
Mas algo já havia mudado.
E o novo ano… não seria como os outros.
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