CelleXty Saga - Temporada I
2 Um mutante em minha casa!
Notas iniciais

ARQUIVO CONFIDENCIAL — CÉREBRO
PROTOCOLO DE MONITORAMENTO MUTANTE
Status: Ativo
Origem da assinatura energética: América do Sul
País: Brasil
Estado: São Paulo
Nível de prioridade: Médio
Recomendação do Professor Charles Xavier:
"Todo despertar deve ser observado antes de ser conduzido. O medo costuma manifestar-se antes do poder; a forma como um jovem atravessa esse momento definirá quem ele será no futuro."
O quarto permanecia mergulhado em um silêncio quase absoluto, interrompido apenas pelo ritmo constante do monitor cardíaco instalado ao lado da cama. Basco abriu os olhos lentamente, mas durante alguns segundos foi incapaz de compreender onde estava. O teto branco parecia distante, desfocado, como se estivesse sendo observado através de uma camada espessa de vidro fosco. O cheiro característico de álcool, medicamentos e lençóis recém-trocados denunciava o ambiente antes mesmo que sua memória conseguisse organizar os acontecimentos. Tentou erguer a cabeça, porém uma exaustão profunda percorreu todo o corpo, obrigando-o a permanecer imóvel. Não era uma dor provocada por ferimentos. Era uma sensação muito mais estranha, como se cada músculo tivesse sido utilizado muito além de seus próprios limites.
Respirou lentamente.
O ar parecia diferente.
Mais denso.
Mais frio.
Por um breve instante teve a impressão de que uma fina camada de vapor atravessava o quarto, dissolvendo discretamente os contornos da janela, da poltrona e dos aparelhos hospitalares. Piscou duas vezes. A imagem voltou ao normal. Ainda assim, uma inquietação silenciosa permaneceu instalada em seu peito. Havia algo errado. Não com o hospital. Com ele.
Uma enfermeira entrou no quarto carregando uma bandeja de medicamentos e aproximou-se da cama sem perceber que o rapaz já estava acordado. Enquanto ajustava cuidadosamente o frasco de soro preso ao suporte metálico, Basco tentou mover a mão direita para cumprimentá-la. No mesmo instante, uma pequena ondulação atravessou o ar ao redor de seus dedos, semelhante ao vapor que se forma sobre o asfalto em dias de calor intenso. O fenômeno durou menos de um segundo.
Ela não viu.
Mas ele viu.
Seu coração acelerou imediatamente.
As lembranças começaram a retornar em fragmentos desconexos.
O estacionamento.
As sacolas espalhadas pelo chão.
Os disparos.
A mãe caindo.
Depois...
A névoa.
Não uma névoa comum.
Uma névoa que parecia nascer dentro dele.
Fechou os olhos com força, tentando afastar aquelas imagens, mas elas voltavam sempre ao mesmo ponto. Recordava-se perfeitamente da sensação de perder o controle do próprio corpo. Lembrava-se do frio percorrendo a pele, das vozes distantes, da impressão de flutuar em um espaço completamente branco. Quanto mais tentava convencer-se de que tudo fora consequência do choque emocional, mais uma certeza silenciosa surgia dentro de si.
Aquilo não havia sido um sonho.
Nem um delírio.
Acontecera de verdade.
Pouco tempo depois, um médico entrou acompanhado por outro profissional e consultou rapidamente o prontuário preso aos pés da cama. Conversavam em voz baixa, acreditando que o paciente ainda estivesse sonolento.
— Os exames continuam normais.
— Todos?
— Todos.
O médico folheou mais algumas páginas.
— Nunca vi alguém apresentar tamanho desgaste físico sem qualquer lesão compatível.
O colega balançou discretamente a cabeça.
— Talvez tenha sido apenas uma reação extrema ao trauma.
Basco permaneceu imóvel.
Sabia que estavam procurando respostas.
Sabia também que não as encontrariam.
Nenhum exame seria capaz de explicar o que realmente acontecera.
Pouco antes do meio-dia, conseguiu convencer uma das enfermeiras a falar sobre sua mãe.
Thamine permanecia internada na Unidade de Terapia Intensiva.
O projétil atravessara o ombro sem atingir órgãos vitais, mas a perda de sangue fora significativa. O estado ainda inspirava cuidados, embora os médicos demonstrassem um otimismo cauteloso quanto à recuperação.
Ao ouvir a notícia, Basco sentiu um alívio imediato.
Logo depois veio a culpa.
Seus pensamentos voltaram novamente ao estacionamento.
Durante alguns segundos permaneceu encarando as próprias mãos.
Estavam exatamente como sempre estiveram.
Nenhuma marca.
Nenhuma alteração visível.
Mesmo assim, já não pareciam pertencer ao mesmo rapaz que acordara naquela manhã.
Na madrugada seguinte, o sono recusou-se a chegar. O hospital mergulhara no silêncio típico das primeiras horas do dia quando Basco percebeu uma estranha sensação percorrer novamente seus braços. Inicialmente pensou tratar-se de febre. Em seguida, notou que o ambiente ao redor começava lentamente a esfriar. Pequenas espirais de névoa surgiram sobre o lençol branco, deslizando entre seus dedos como se obedecessem a uma corrente invisível.
Ele prendeu a respiração.
A névoa aumentou.
Respirou novamente.
Ela tornou a diminuir.
O fenômeno repetiu-se diversas vezes, sempre acompanhando involuntariamente o ritmo de sua respiração.
Não havia mais como negar.
Aquilo fazia parte dele.
E, naquele instante, uma palavra atravessou sua mente com um peso completamente diferente de qualquer outro momento da vida.
Mutante.
Até então, esse termo sempre lhe parecera distante, quase lendário. Crescera ouvindo rumores sobre pessoas extraordinárias que apareciam ocasionalmente nos noticiários internacionais, histórias contadas em voz baixa por antigos conhecidos de sua mãe e referências fragmentadas ao misterioso passado de Edher. Nunca dera importância real a esses relatos. Agora compreendia que todos eles apontavam para a mesma direção.
Seu pai nunca desaparecera apenas porque era um homem perseguido.
Desaparecera porque era diferente.
E, ao que tudo indicava, essa diferença acabara de despertar também dentro dele.
Na manhã seguinte, Basco recebeu alta. Os médicos insistiram para que permanecesse em repouso absoluto durante alguns dias e recomendaram acompanhamento psicológico, atribuindo o estado de exaustão ao trauma vivido no estacionamento do Shopping Eldorado. Nenhum deles conseguiu explicar satisfatoriamente a súbita formação de neblina que paralisara parte da Marginal Pinheiros, tampouco a estranha queda de temperatura registrada por diversas testemunhas. Os laudos oficiais mencionavam apenas uma "anomalia atmosférica localizada", expressão suficientemente vaga para encerrar o assunto sem produzir novos questionamentos. Os jornais seguiram a mesma linha. Alguns especialistas falaram em um raro fenômeno climático; outros sugeriram vazamento de produtos químicos nas galerias subterrâneas da região. Em poucos dias, a imprensa já discutia outros acontecimentos. Para a maioria da população, aquele episódio tornou-se apenas mais uma curiosidade inexplicável entre tantas que surgiam ocasionalmente nas grandes cidades. Para Basco, porém, representava o instante exato em que sua vida deixara de pertencer ao mundo comum.
Ao retornar ao pequeno apartamento em Itaquera, teve a estranha impressão de que tudo permanecia exatamente igual, embora ele soubesse que absolutamente nada era o mesmo. O corredor estreito, os móveis simples da sala, os livros cuidadosamente organizados por Thamine e até o relógio pendurado na parede pareciam carregar uma familiaridade reconfortante, mas bastava permanecer alguns segundos em silêncio para perceber pequenas diferenças que jamais notara antes. O tique-taque do relógio parecia mais alto. A água percorrendo os canos do edifício podia ser ouvida com nitidez. Até o vento que atravessava discretamente as frestas da janela produzia sons que antes passavam despercebidos. Não sabia se seus sentidos haviam se tornado mais aguçados ou se apenas prestava atenção em detalhes ignorados durante toda a vida. Em qualquer dos casos, a sensação era desconfortável.
Ao atravessar o corredor em direção ao quarto, deteve-se diante do espelho preso à parede. Observou atentamente o próprio reflexo, procurando identificar alguma alteração física que justificasse tudo o que acontecera. Continuava sendo o mesmo adolescente de sempre: cabelos escuros levemente desalinhados, pele morena herdada da mãe, olhos marcados por noites mal dormidas e uma expressão que misturava medo e perplexidade. Ainda assim, quando deu um passo para o lado, teve a impressão de que sua imagem demorou uma fração de segundo para acompanhá-lo. O reflexo pareceu dissolver-se levemente antes de recuperar a forma, como vapor condensando-se sobre um vidro frio. Basco aproximou-se do espelho, passou lentamente a mão sobre a superfície e respirou fundo. Talvez estivesse apenas impressionado. Talvez o cansaço ainda produzisse pequenas ilusões. Mas, pela primeira vez desde o hospital, não conseguiu convencer a si mesmo dessa explicação.
Entrou no quarto e fechou cuidadosamente a porta. Sobre a escrivaninha permaneciam espalhados os cadernos da escola, algumas fitas K-7 e o velho Walkman que costumava acompanhá-lo nas viagens de ônibus. Nada ali parecia capaz de responder às perguntas que ocupavam sua mente. Sentou-se na cama e permaneceu longo tempo encarando as próprias mãos. Eram mãos comuns, sem qualquer marca ou alteração visível, mas bastava recordar o estacionamento para sentir novamente a estranha energia percorrendo seus braços. A palavra que surgira no hospital voltou a ecoar dentro de sua cabeça com uma intensidade impossível de ignorar.
Mutante.
Durante toda a infância, essa palavra existira apenas como um sussurro distante. Lembrava-se de ouvir conversas interrompidas sempre que entrava na sala, de encontrar recortes de jornais estrangeiros cuidadosamente guardados por Thamine e de perceber o desconforto da mãe sempre que alguém mencionava desaparecimentos ou pessoas com habilidades extraordinárias. Na época, nunca compreendera o motivo daquele silêncio. Agora começava a ligar fragmentos de uma história que lhe fora ocultada durante toda a vida. Se ele realmente era um mutante, então o desaparecimento de Edher talvez jamais tivesse sido um simples acaso. Pela primeira vez, a ausência do pai deixava de ser apenas uma tragédia familiar para transformar-se em parte de um mistério muito maior.
Impulsionado por uma curiosidade que já superava o medo, Basco decidiu fazer aquilo que vinha tentando evitar desde que despertara no hospital. Sentou-se no chão do quarto, apagou a luz e fechou os olhos. Procurou lembrar-se da sensação experimentada no estacionamento, não do pânico provocado pelos disparos, mas do instante imediatamente anterior, quando o ar pareceu tornar-se parte de seu próprio corpo. Respirou lenta e profundamente. Nos primeiros minutos nada aconteceu. Em seguida, percebeu uma discreta queda de temperatura ao seu redor. Quando abriu parcialmente os olhos, uma fina camada de névoa deslizava silenciosamente sobre o piso de madeira, espalhando-se em círculos cada vez mais amplos. Não havia vento. Não havia umidade suficiente para justificar aquele fenômeno. Ainda assim, a névoa continuava crescendo, obedecendo a um ritmo que parecia acompanhar sua respiração.
Em vez de interromper a experiência, decidiu permanecer imóvel. Quanto mais se concentrava, mais intensa se tornava a sensação de que existia algum tipo de ligação entre seus pensamentos e aquele vapor esbranquiçado. A névoa já envolvia completamente a cama, a escrivaninha e parte da janela quando um ruído distante começou a surgir dentro de sua mente. Não eram palavras claramente compreensíveis. Pareciam vozes carregadas pelo vento, murmúrios vindos de um lugar impossível de localizar. Basco tentou concentrar-se para distingui-los melhor, mas bastou esse esforço para que a dor retornasse com violência. O quarto girou diante de seus olhos, a respiração tornou-se irregular e toda a névoa dissipou-se instantaneamente, como se jamais tivesse existido. Ofegante, apoiou as mãos sobre o chão e permaneceu vários minutos tentando recuperar o controle. Não havia dúvida alguma: possuía um poder que começava a responder à sua vontade, mas que ainda estava muito longe de ser compreendido.
Naquele momento, Basco acreditava estar completamente sozinho. Ignorava que, do outro lado do planeta, equipamentos projetados especificamente para detectar manifestações do Gene X acabavam de registrar uma segunda oscilação proveniente exatamente da mesma assinatura energética observada no Shopping Eldorado. Para quem monitorava jovens mutantes ao redor do mundo, aquele novo pulso representava uma confirmação importante: o despertar não fora um acidente isolado. Ele havia começado.
Na manhã seguinte, a rotina da cidade parecia seguir completamente alheia ao conflito que consumia o interior de Basco. Os ônibus continuavam lotados, vendedores ambulantes ocupavam as calçadas próximas à estação Corinthians-Itaquera e o fluxo incessante de pessoas transformava cada esquina em um emaranhado de vozes, buzinas e passos apressados. Durante anos ele encontrara certo conforto naquele anonimato característico de São Paulo, onde milhares de vidas se cruzavam diariamente sem realmente se conhecerem. Agora, entretanto, a multidão produzia um efeito oposto. Pela primeira vez, sentia-se profundamente diferente de todas aquelas pessoas. Caminhava entre elas sabendo que carregava algo impossível de explicar, um segredo que poderia alterar completamente sua vida caso viesse à tona. Era uma sensação sufocante. Não bastava aprender a lidar com os próprios poderes; seria preciso esconder sua existência do restante do mundo.
A escola transformou-se rapidamente em um lugar insuportável. Enquanto os professores explicavam fórmulas matemáticas ou acontecimentos históricos, Basco mal conseguia manter a concentração durante alguns minutos consecutivos. Bastava lembrar-se da névoa surgindo ao redor de seu corpo para que todo o restante perdesse importância. Em determinados momentos, percebia pequenas alterações no ambiente sempre que suas emoções se intensificavam. Quando um colega o empurrou acidentalmente durante o intervalo, uma discreta corrente de ar atravessou o corredor apesar das janelas fechadas. Em outra ocasião, durante uma prova, o vidro da sala embaçou ao seu lado sem que a temperatura ambiente justificasse aquilo. Ninguém comentou o fato. Alguns sequer perceberam. Basco, porém, começou a entender que seu poder não surgia apenas quando desejava. Ele respondia às emoções antes mesmo que sua consciência pudesse controlá-las.
Naquela mesma semana decidiu abandonar as últimas aulas e seguir para um antigo complexo industrial desativado nos arredores da cidade. O lugar permanecia praticamente abandonado desde a década anterior. Galpões tomados pela ferrugem, paredes cobertas por pichações e janelas quebradas transformavam a antiga fábrica em um cenário perfeito para alguém que desejava permanecer invisível. Caminhou lentamente pelo interior do prédio até encontrar um amplo salão onde apenas pilares de concreto sustentavam parte da cobertura ainda intacta. O silêncio era interrompido apenas pelo som distante do trânsito e pelo gotejar constante da água infiltrada entre as vigas. Basco respirou profundamente. Se realmente precisava compreender o que estava acontecendo, aquele parecia ser o lugar mais seguro para começar.
Sentou-se sobre um bloco de concreto, fechou os olhos e tentou repetir o exercício realizado na noite anterior. Inicialmente nada aconteceu. A ansiedade provocava exatamente o efeito contrário, impedindo qualquer concentração mais profunda. Depois de vários minutos frustrados, lembrou-se de uma das poucas lições que ainda guardava do pai: "Antes de tentar controlar alguma coisa, aprenda primeiro a observá-la." Em vez de forçar o aparecimento da névoa, passou simplesmente a prestar atenção na própria respiração. Inspirava lentamente, sentindo o ar preencher os pulmões, e expirava com a mesma calma, permitindo que o corpo relaxasse gradativamente. Foi somente quando abandonou a intenção de produzir qualquer resultado que a mudança começou.
Uma fina camada de vapor surgiu discretamente sobre o piso frio do galpão, espalhando-se em silêncio entre os escombros. Desta vez, Basco não se assustou. Permaneceu imóvel, observando atentamente o comportamento da névoa. Ela não se movia ao acaso. Parecia acompanhar o ritmo de sua respiração, expandindo-se quando inspirava profundamente e recolhendo-se levemente quando expirava. A percepção daquela conexão provocou um misto de fascínio e temor. Não era simplesmente um fenômeno atmosférico. Era como se parte de seu próprio organismo existisse fora do corpo, assumindo temporariamente a forma daquele vapor esbranquiçado.
Impulsionado pela curiosidade, estendeu lentamente a mão à frente do peito. A névoa respondeu imediatamente. Pequenos filamentos desprenderam-se do restante da massa e aproximaram-se de seus dedos, envolvendo-os delicadamente antes de voltarem a se dispersar. Basco repetiu o movimento diversas vezes, experimentando diferentes gestos, até perceber que não controlava exatamente a névoa. Controlava a intenção. Quanto mais clara era sua concentração, mais naturalmente o fenômeno acontecia. Quando surgia medo ou dúvida, tudo se desfazia quase instantaneamente.
O entusiasmo, porém, durou pouco. Ao tentar ampliar a quantidade de vapor ao redor do corpo, uma dor intensa atravessou sua cabeça. O salão pareceu girar violentamente. A névoa, antes suave e silenciosa, expandiu-se de forma abrupta, preenchendo todo o ambiente em poucos segundos. Basco perdeu completamente a referência de espaço. Já não conseguia distinguir onde terminava o galpão nem onde começava a rua do lado de fora. Tudo era branco. Tudo era silêncio.
Então voltou a ouvir aquelas vozes.
Desta vez estavam mais próximas.
Ainda indistintas.
Mas inegavelmente reais.
Não pareciam conversar com ele.
Pareciam conversar através dele.
Uma sensação de vertigem tomou conta de seu corpo. O coração disparou e, instintivamente, abriu os olhos. Toda a névoa dissipou-se de maneira violenta, como se uma forte rajada de vento tivesse atravessado o edifício. Basco caiu de joelhos sobre o concreto, respirando com dificuldade. O esforço deixara suas mãos trêmulas e a camisa completamente encharcada de suor. Ainda assim, havia aprendido algo fundamental: aquele poder não era apenas físico. Existia uma dimensão mental que ele sequer começava a compreender.
Sem que percebesse, porém, sua breve experiência produzira um efeito inesperado. Um morador de rua que utilizava parte da antiga fábrica como abrigo observava tudo escondido atrás de uma parede parcialmente destruída. O homem permanecera imóvel durante toda a manifestação, incapaz de acreditar no que seus olhos testemunhavam. Quando Basco finalmente deixou o local, ainda atordoado, o desconhecido saiu lentamente do esconderijo e caminhou até o centro do galpão. Tocou o chão úmido onde a névoa permanecera mais densa e fez discretamente o sinal da cruz.
Naquela noite, pela segunda vez em menos de uma semana, alguém além de Basco carregava consigo a certeza de que havia visto um mutante.
E, nas histórias como aquela, segredos raramente permaneciam escondidos por muito tempo.
Os dias seguintes transformaram-se em um delicado exercício de equilíbrio entre duas vidas completamente diferentes. Durante as manhãs, Basco esforçava-se para manter a aparência de um adolescente comum. Assistia às aulas, respondia às perguntas dos professores quando conseguia concentrar-se e fingia interesse pelas conversas dos colegas sobre música, futebol e os acontecimentos políticos que dominavam o país. À tarde, porém, assim que encontrava uma oportunidade, seguia novamente para os galpões abandonados na periferia da cidade. Aquele lugar, tomado pelo silêncio e pelo cheiro de ferrugem, tornara-se seu laboratório improvisado. Não existiam livros capazes de explicar o que estava acontecendo, nem alguém que lhe ensinasse a controlar um poder cuja própria existência permanecia desconhecida pela maior parte da humanidade. Restava-lhe apenas experimentar, observar e aprender com os próprios erros.
A evolução acontecia lentamente. Nos primeiros dias, Basco limitava-se a reproduzir a fina camada de névoa que surgira em seu quarto. Descobriu que o fenômeno dependia muito menos de esforço físico do que de equilíbrio emocional. Sempre que tentava forçar o aparecimento do vapor, nada acontecia. Quando relaxava completamente e deixava a respiração encontrar um ritmo natural, pequenas espirais começavam a surgir espontaneamente ao redor de seus pés. Aos poucos, passou a perceber detalhes ainda mais curiosos. A névoa parecia reagir ao ambiente, deslizando por rachaduras do concreto, contornando obstáculos e espalhando-se pelos espaços vazios com uma elegância quase orgânica. Não era simplesmente água condensada. Parecia possuir uma espécie de vontade própria, embora permanecesse profundamente conectada à presença dele.
Foi durante um desses treinamentos que ocorreu a primeira descoberta realmente extraordinária. Enquanto observava o vapor espalhar-se pelo chão, Basco teve o impulso de caminhar lentamente em direção à parte mais densa da névoa. No instante em que deu o primeiro passo, sentiu um leve formigamento percorrer todo o corpo. A sensação durou menos de um segundo, mas foi suficiente para provocar um fenômeno impossível. Seu braço direito perdeu parcialmente a consistência, tornando-se translúcido como fumaça iluminada pela luz que atravessava as janelas quebradas do galpão. Assustado, interrompeu imediatamente o movimento e recuou. O braço voltou ao normal quase no mesmo instante, sem qualquer dor ou alteração física aparente. Ainda ofegante, observou atentamente a própria pele. Continuava exatamente igual. A experiência, entretanto, deixara uma certeza impossível de ignorar: ele não criava apenas a névoa. Em determinadas circunstâncias, tornava-se parte dela.
O medo quase o fez abandonar os treinamentos naquele mesmo dia. Caminhou até a saída do galpão decidido a nunca mais voltar. Contudo, antes de atravessar a porta principal, lembrou-se de Edher. Recordou as poucas histórias que a mãe lhe contara sobre a serenidade do pai diante dos problemas e, principalmente, de uma frase repetida inúmeras vezes durante a infância: "O conhecimento nunca é o inimigo. O perigo está em permanecer ignorante diante daquilo que somos." Basco sorriu discretamente ao perceber que passara boa parte da vida sem compreender aquelas palavras. Agora elas adquiriam um significado completamente diferente. Se abandonasse os treinamentos, seus poderes continuariam existindo. A única diferença seria a completa falta de controle quando voltassem a manifestar-se diante de outras pessoas.
Naquela noite, ao retornar para casa, encontrou Thamine sentada à mesa da cozinha cercada por livros, anotações e antigos recortes de jornais escritos em inglês, francês e árabe. A cena tornou-se relativamente comum desde o incidente no Shopping Eldorado. Sempre que chegava do trabalho, ela mergulhava em pesquisas que pareciam nunca produzir respostas suficientes. Basco aproximou-se silenciosamente e percebeu que um dos recortes trazia a fotografia de um homem em cadeira de rodas ao lado de vários adolescentes. A manchete mencionava discretamente uma instituição localizada no estado de Nova York destinada a jovens superdotados. Antes que pudesse ler o restante da reportagem, Thamine fechou rapidamente a pasta.
— Você não costuma dormir tão tarde — comentou ela, procurando parecer natural.
Basco puxou uma cadeira e sentou-se diante da mãe.
— Nem você.
Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio. A relação entre eles sempre fora marcada pela confiança, mas desde o despertar mutante ambos pareciam caminhar cuidadosamente ao redor de perguntas que temiam fazer. Foi Basco quem rompeu esse equilíbrio.
— Mãe... o papai era igual a mim?
Thamine baixou lentamente os olhos. Sabia que aquele momento chegaria, embora esperasse adiá-lo por mais algum tempo. Respirou profundamente antes de responder.
— Não exatamente igual.
Levantou-se, caminhou até uma antiga estante da sala e retirou uma pequena caixa de madeira cuidadosamente guardada atrás de alguns livros. Colocou-a sobre a mesa e permaneceu alguns instantes observando o objeto, como quem revisitava décadas inteiras de lembranças antes de encontrar coragem para abri-lo. Dentro havia fotografias antigas, um relógio de bolso bastante gasto pelo tempo, o velho canivete que Basco conhecia desde criança e um caderno de capa escura repleto de desenhos técnicos feitos por Edher.
Ela acariciou delicadamente a fotografia colocada sobre o topo da pilha.
Nela, Edher sorria enquanto segurava Basco ainda bebê nos braços.
— Seu pai também nasceu diferente. Durante muitos anos tentou esconder isso de todas as pessoas. Não porque tivesse vergonha do que era... mas porque sabia do que o mundo era capaz de fazer com pessoas como ele.
Basco permaneceu em silêncio.
Thamine continuou:
— Quando você era pequeno, prometi a ele que só lhe contaria a verdade quando não houvesse mais como escondê-la. Acho que esse momento finalmente chegou.
Ela ergueu lentamente os olhos.
Pela primeira vez desde o desaparecimento de Edher, não falava apenas sobre um marido perdido.
Falava sobre um mutante.
E sobre a herança que agora também pertencia ao filho.
Basco permaneceu imóvel, incapaz de desviar os olhos da fotografia. Durante anos construíra a imagem do pai a partir de lembranças fragmentadas, histórias contadas pela mãe e poucas fotografias espalhadas pela casa. Agora, pela primeira vez, começava a enxergar Edher não apenas como o homem que desaparecera misteriosamente durante uma viagem ao interior de São Paulo, mas como alguém que passara a vida inteira convivendo com o mesmo segredo que agora lhe transformava a existência. Era uma revelação que reorganizava toda a sua infância. Os silêncios de Thamine, as mudanças repentinas de cidade, o cuidado exagerado do pai ao ensinar-lhe determinadas lições e até mesmo o estranho desaparecimento de ambos deixavam de parecer acontecimentos isolados. Pela primeira vez, tudo começava a formar uma única história.
Thamine abriu cuidadosamente o velho caderno de capa escura que pertencera a Edher. Basco já o vira outras vezes, mas nunca lhe fora permitido folheá-lo livremente. As páginas estavam repletas de esquemas geométricos, fórmulas químicas e desenhos extremamente detalhados de minerais, ligas metálicas e estruturas cristalinas. Em meio às anotações técnicas havia pequenos trechos escritos à mão, quase como reflexões pessoais. Ela encontrou uma página marcada por um pedaço de tecido já amarelado pelo tempo e aproximou o caderno do filho.
— Seu pai escrevia muito pouco sobre sentimentos — disse com um sorriso discreto. — Preferia registrar aquilo que aprendia. Mas, de vez em quando, deixava escapar alguma coisa.
Basco leu lentamente a frase destacada no centro da folha.
"O verdadeiro perigo nunca esteve em possuir poder. Sempre esteve nas mãos de quem teme aquilo que não consegue compreender."
Permaneceu alguns segundos em silêncio antes de erguer novamente os olhos.
— Ele escreveu isso por minha causa?
Thamine balançou lentamente a cabeça.
— Não. Escreveu muitos anos antes de você nascer.
Fez uma breve pausa.
— Mas acho que ele esperava que um dia você lesse essas palavras.
Ela fechou o caderno com delicadeza e voltou a guardá-lo sobre a mesa. Havia chegado o momento que tentara adiar durante quatorze anos. Respirou profundamente, organizando mentalmente lembranças que permaneciam intocadas desde a época em que deixara o Líbano.
— Seu pai chamava sua mutação de um dom. Nunca gostou da palavra "poder". Dizia que ela fazia as pessoas esquecerem que toda habilidade extraordinária também exige responsabilidade. Ele conseguia alterar a estrutura da matéria. Não era mágica, nem milagre. Era como se enxergasse o mundo em um nível que ninguém mais conseguia perceber. Via o interior das pedras, dos metais, da madeira... compreendia como tudo era formado. Quando tocava alguma coisa, podia reorganizar essa estrutura. Transformava concreto em pó, reforçava vigas prestes a desabar ou reconstruía objetos praticamente destruídos. Mas cada vez que utilizava esse dom, uma parte de sua própria energia também era consumida.
Basco escutava sem interromper. As palavras da mãe preenchiam lacunas que durante anos permaneceram vazias em sua memória.
— Então... meu poder não é igual ao dele?
— Não.
Ela respondeu com convicção.
— Existe uma ligação entre vocês, mas ela não é uma cópia. As mutações raramente se repetem exatamente da mesma forma. Você herdou outra manifestação do Gene X.
Basco olhou para as próprias mãos.
— A névoa.
— Sim.
Thamine levantou-se e caminhou até a janela da cozinha. A chuva começava a cair lentamente sobre Itaquera, desenhando pequenos caminhos de água pelo vidro. Permanecendo de costas para o filho, continuou falando em voz baixa.
— Quando você nasceu, seu pai tinha medo de que isso acontecesse. Não porque tivesse vergonha do que era, mas porque conhecia o sofrimento que acompanha pessoas diferentes. Durante anos acreditamos que talvez sua mutação jamais despertasse. Quando ela apareceu no Shopping Eldorado... compreendi imediatamente que nossa vida nunca mais voltaria ao normal.
Basco demorou alguns segundos para formular a pergunta que o acompanhava desde o hospital.
— Foi por isso que vocês esconderam tudo de mim?
Ela voltou-se lentamente.
— Sim.
— Inclusive o motivo do desaparecimento dele?
A expressão de Thamine mudou imediatamente.
Pela primeira vez naquela conversa, seus olhos revelaram uma dor que permanecia cuidadosamente escondida havia mais de uma década.
— Não.
Sua resposta saiu firme.
— Sobre isso... eu realmente não sei.
Basco franziu a testa.
— Você sempre disse que ele desapareceu durante uma viagem.
— Porque foi exatamente isso que aconteceu.
Ela aproximou-se novamente da mesa.
— Seu pai e Igon saíram para fazer um trabalho no interior. Nunca chegaram ao destino. Nunca encontraram o caminhão. Nunca encontraram os corpos. Nunca apareceu uma única testemunha. Passei anos procurando respostas. Conversei com policiais, investigadores, antigos amigos dele... ninguém conseguiu explicar o que aconteceu.
O silêncio voltou a ocupar a cozinha.
Basco abaixou a cabeça.
Durante toda a infância alimentara a esperança secreta de que algum adulto conhecesse a verdade e apenas esperasse o momento certo para contá-la. Descobrir que nem mesmo a mãe possuía respostas produziu uma frustração ainda maior.
Thamine percebeu imediatamente.
Aproximou-se do filho e segurou suas mãos.
— Escute uma coisa com atenção.
Esperou até que ele voltasse a encará-la.
— Não deixe que o desejo de encontrar seu pai faça você perder quem é. Passei muitos anos vendo homens transformarem suas vidas em busca de vingança, respostas ou justiça. Alguns conseguiram o que procuravam. Nenhum deles recuperou aquilo que havia perdido.
Basco permaneceu calado.
As palavras da mãe eram sinceras.
Mas, naquele instante, uma decisão silenciosa começava a nascer dentro dele.
Se existia uma ligação entre sua mutação, o passado de Edher e aquele desaparecimento inexplicável, ele descobriria a verdade.
Não importava quanto tempo fosse necessário.
Nem quantos segredos ainda precisassem ser desenterrados.
Sem que qualquer um dos dois percebesse, a pequena conversa daquela noite acabava de plantar a semente da jornada que definiria toda a vida de Basco Khassan Markel. Muito antes de tornar-se conhecido como Nevoeiro, seu primeiro objetivo deixava de ser compreender seus poderes.
Passava a ser encontrar o pai.
Os dias que se seguiram àquela conversa mudaram completamente a maneira como Basco enxergava a própria vida. Até então, seus poderes representavam apenas um problema que precisava ser escondido. Agora, carregavam também um significado. Cada manifestação da névoa deixava de ser um acidente inexplicável para tornar-se um fragmento da herança deixada por Edher. Ainda não compreendia por que sua mutação era tão diferente da do pai, nem de que forma o Gene X determinava essas diferenças entre membros da mesma família, mas uma ideia começava lentamente a ganhar força dentro dele: se herdara parte daquela história, talvez também pudesse encontrar as respostas que ela escondia.
Enquanto Basco tentava reorganizar os próprios pensamentos, Thamine passou a viver dias de crescente inquietação. Desde o incidente no Shopping Eldorado, mantinha o hábito de recolher todos os jornais antes que o filho acordasse, receosa de que alguma reportagem revelasse detalhes do fenômeno presenciado por centenas de pessoas. Embora a imprensa insistisse na versão de uma anomalia climática, pequenos artigos espalhados pelas páginas policiais começavam a utilizar discretamente uma palavra que ela aprendera a temer desde a juventude.
Mutante.
Inicialmente aparecia apenas em colunas de opinião ou cartas enviadas por leitores. Depois começou a surgir em entrevistas concedidas por militares da reserva, que defendiam maior controle sobre indivíduos "geneticamente diferenciados". Alguns programas de televisão passaram a especular sobre a existência de pessoas dotadas de habilidades incomuns, quase sempre tratando o assunto como exagero sensacionalista. Entretanto, Thamine conhecia suficientemente bem a história para reconhecer aquele padrão. No Líbano, tudo começara exatamente da mesma forma: rumores, desconfiança, discursos políticos e, finalmente, perseguições legitimadas pelo medo coletivo.
Numa tarde chuvosa, ao retornar do consultório, encontrou sobre a porta do apartamento um envelope sem remetente. Não havia selo nem qualquer indicação de quem o deixara ali. Apenas seu nome escrito cuidadosamente à mão. O coração acelerou imediatamente. Levou o envelope para dentro, certificou-se de que Basco ainda estava na escola e só então rompeu o lacre.
No interior havia apenas uma folha datilografada.
"Algumas verdades permanecem enterradas por escolha. Outras, por necessidade. Proteja o menino. Eles já começaram a procurar."
Nenhuma assinatura.
Nenhuma explicação.
Apenas aquela frase.
Durante vários minutos permaneceu imóvel, relendo repetidas vezes cada palavra. Reconhecia o estilo objetivo da mensagem. Lembrava antigos comunicados utilizados pelos 99 de Allah, organização da qual Edher fizera parte durante os anos vividos no Oriente Médio. Não era possível saber se o bilhete partira de algum antigo aliado ou de alguém que simplesmente conhecia aquela linguagem. Ainda assim, bastava uma única conclusão para destruir qualquer sensação de segurança construída nos últimos anos.
Alguém sabia que Basco existia.
Naquela mesma noite, ela decidiu tomar uma providência que adiara durante tempo demais. Depois do jantar, pediu que o filho a acompanhasse até um pequeno depósito localizado nos fundos do apartamento, onde permaneciam guardadas diversas caixas trazidas de Cipó-Guaçu e nunca completamente organizadas desde a mudança para São Paulo. Basco ajudou a afastar móveis antigos, ferramentas enferrujadas e livros encaixotados até que Thamine alcançou um velho baú de madeira escura protegido por duas pequenas travas metálicas.
— Este baú pertenceu ao seu pai — explicou, enquanto retirava lentamente a poeira acumulada sobre a tampa. — Depois que ele desapareceu, nunca mais tive coragem de abri-lo.
Basco observava em silêncio.
Ela destravou cuidadosamente os fechos.
O odor característico de papel envelhecido e madeira antiga espalhou-se imediatamente pelo ambiente. No interior havia mapas dobrados, fotografias tiradas em diferentes países, alguns passaportes já vencidos, pequenos objetos trazidos do Líbano e diversos cadernos preenchidos pela caligrafia precisa de Edher. Entre todos aqueles pertences, porém, um objeto chamou imediatamente a atenção de Basco.
Tratava-se de um medalhão de prata preso a uma corrente bastante simples. Na superfície havia uma gravura desgastada representando um círculo dividido por noventa e nove pequenos traços cuidadosamente entalhados.
— O que é isso?
Thamine segurou o medalhão com extremo cuidado antes de entregá-lo ao filho.
— Seu pai recebeu este símbolo quando passou a trabalhar com um grupo chamado Os Noventa e Nove de Allah. Era uma organização formada por pessoas de diferentes países. Alguns eram médicos. Outros cientistas. Outros... mutantes.
Basco girou lentamente o medalhão entre os dedos.
— Eles ainda existem?
Thamine respirou fundo.
— Não sei.
Fez uma breve pausa.
— Depois que viemos para o Brasil, Edher rompeu praticamente todo contato com eles. Achava que, quanto menos pessoas soubessem onde estávamos, maior seria nossa segurança.
Basco continuava examinando o objeto.
Algo nele despertava uma estranha sensação de familiaridade.
Talvez fosse apenas a história contada pela mãe.
Talvez fosse muito mais do que isso.
Antes que pudesse fazer outra pergunta, um som interrompeu completamente o silêncio do apartamento.
A campainha.
Uma única vez.
Longa.
Sem pressa.
Thamine e Basco trocaram um rápido olhar.
Ninguém costumava visitá-los àquela hora da noite.
Ela caminhou lentamente até a porta, mantendo o máximo de cautela possível. Antes mesmo de aproximar o olho mágico, uma voz masculina falou do lado de fora, calma, grave e surpreendentemente educada.
— Senhora Khassan... peço desculpas pela visita sem aviso.
Basco permaneceu imóvel.
A mãe também.
— Meu nome é Erik Lehnsherr.
Ela fechou os olhos por um breve instante.
Conhecia aquele nome.
Conhecia-o muito antes de chegar ao Brasil.
Muito antes de conhecer Edher.
Muito antes, inclusive, de Basco nascer.
E, naquele instante, compreendeu que o passado finalmente batera à sua porta.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois se moveu. O apartamento permaneceu mergulhado em um silêncio tão intenso que Basco conseguia ouvir o próprio coração batendo contra o peito. Thamine permaneceu diante da porta, a mão suspensa a poucos centímetros da maçaneta, enquanto dezenas de lembranças atravessavam sua mente com a velocidade de um relâmpago. Fazia quase quinze anos que não ouvia aquele nome ser pronunciado em voz alta. Ainda no Líbano, muito antes do nascimento de Basco, Erik Lehnsherr era citado em relatórios de inteligência, conversas discretas entre médicos dos 99 de Allah e reuniões nas quais Edher evitava permanecer por muito tempo. Para alguns, tratava-se de um terrorista responsável por confrontos que atravessavam continentes. Para outros, era apenas um sobrevivente que se recusava a aceitar novas perseguições contra mutantes. Independentemente da versão, uma coisa permanecia inalterada: ninguém ignorava a importância daquele homem.
Basco percebeu imediatamente a mudança na expressão da mãe. Nunca a vira demonstrar tamanho desconforto diante de uma simples visita. Aproximou-se devagar, sem fazer qualquer ruído, e falou em voz baixa para que apenas ela pudesse ouvir.
— Você conhece esse homem?
Thamine demorou alguns segundos antes de responder. Mantinha os olhos fixos na porta, como se tentasse enxergar através da madeira.
— Conheço o nome.
— Ele é perigoso?
Ela respirou profundamente.
— Isso depende de quem conta a história.
As palavras ficaram suspensas no ar por um instante. Basco percebeu que havia medo em sua voz, mas não era o medo de alguém diante de um criminoso comum. Era a apreensão de quem sabia estar prestes a reencontrar uma parte do passado que fizera enormes esforços para deixar para trás. Antes que pudesse formular outra pergunta, a voz do lado de fora voltou a romper o silêncio.
— Senhora Khassan... compreendo sua desconfiança. Se estivesse em seu lugar, provavelmente faria o mesmo. Mas posso assegurar que não vim como inimigo. Estou aqui porque o tempo para escolhas silenciosas terminou.
Thamine fechou lentamente o baú de madeira e caminhou até a entrada do apartamento. Antes de girar a maçaneta, olhou rapidamente para Basco.
— Não diga absolutamente nada até que eu peça.
Ele apenas assentiu.
A porta abriu-se lentamente.
Do outro lado encontrava-se um homem de aproximadamente sessenta anos, alto, postura impecável e cabelos grisalhos cuidadosamente penteados para trás. Vestia um elegante terno escuro cujo corte denunciava uma sobriedade quase militar. Apesar da idade, transmitia uma impressionante sensação de vigor. Havia algo em sua presença que tornava difícil desviar o olhar. Não era apenas autoridade. Era uma espécie de gravidade natural, como se todo o ambiente ao redor reorganizasse discretamente sua atenção na direção dele. Ao seu lado permanecia um rapaz alguns anos mais velho que Basco, de pele negra, cabelos cacheados e expressão curiosa. Vestia roupas simples, carregava uma mochila sobre um dos ombros e observava o interior do apartamento com evidente interesse, embora demonstrasse respeito suficiente para permanecer em silêncio.
Erik retirou lentamente uma das luvas de couro que usava e estendeu a mão.
— Senhora Thamine Khassan... agradeço por abrir a porta.
Ela não correspondeu ao cumprimento.
— Faz muito tempo que ninguém me chama por esse sobrenome.
Um discreto sorriso surgiu no rosto do visitante.
— Alguns nomes nunca deixam de carregar significado.
O clima permaneceu tenso durante vários segundos. Basco observava tudo alguns passos atrás da mãe, procurando compreender por que aquele encontro parecia tão importante. O homem diante dele não lembrava em nada a figura monstruosa descrita por jornais antigos encontrados entre as pesquisas de Thamine. Ao contrário, sua voz era calma, seus movimentos eram contidos e seu olhar transmitia uma serenidade quase desconcertante. Ainda assim, havia algo nele que inspirava enorme respeito.
Foi o jovem ao seu lado quem rompeu parte daquela formalidade.
— Oi... eu sou Roberto.
Sorriu espontaneamente.
— Roberto da Costa.
Basco respondeu ao cumprimento com um gesto discreto de cabeça.
Havia algo estranhamente familiar naquele rapaz. Não por conhecê-lo, mas pela maneira como o observava. Não existia curiosidade de quem olha para alguém estranho. Existia reconhecimento.
Erik percebeu o breve silêncio entre os dois adolescentes.
— Imagino que vocês tenham muitas perguntas — comentou. — E acredito que seja melhor conversarmos em um lugar menos... exposto.
Thamine continuava segurando a porta.
— Antes de entrar na minha casa, responda apenas uma coisa.
Erik permaneceu imóvel.
— Como encontrou meu filho?
Pela primeira vez desde que chegara, seu semblante tornou-se completamente sério.
— Não encontrei seu filho.
Fez uma breve pausa antes de continuar.
— Foi o despertar dele que encontrou a nós.
Basco sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Erik voltou lentamente o olhar para ele.
Não havia julgamento.
Nem medo.
Muito menos surpresa.
Apenas a tranquilidade de quem já testemunhara aquele momento dezenas de vezes.
— O que aconteceu no Shopping Eldorado não foi um acidente isolado, Basco. Foi a manifestação do seu Gene X. E, quando isso acontece, existem lugares no mundo preparados para perceber.
Thamine fechou os olhos por um instante.
Era exatamente a resposta que temia ouvir.
Muito antes de qualquer governo, qualquer militar ou qualquer organização clandestina descobrir seu filho, outra instituição já havia registrado seu despertar.
Aquela visita não era fruto do acaso.
Era consequência inevitável do que acontecera no estacionamento do shopping dias antes.
Sem dizer mais nada, ela afastou-se da porta.
— Entrem.
A verdadeira conversa estava apenas começando.
A sala do pequeno apartamento parecia ainda menor depois que Erik Lehnsherr atravessou a porta. Não era por causa de sua estatura, tampouco da imponência do terno impecavelmente alinhado. Havia nele uma presença difícil de explicar, algo que alterava naturalmente a atmosfera ao redor sem que precisasse elevar a voz ou demonstrar qualquer gesto de autoridade. Roberto entrou logo atrás, fechando a porta com cuidado e observando discretamente os inúmeros porta-retratos espalhados sobre a estante. Fotografias antigas mostravam Basco ainda criança ao lado de Thamine, imagens de Cipó-Guaçu e alguns registros mais antigos nos quais apareciam Edher e Igon, congelados para sempre em uma época que parecia pertencer a outra vida.
Erik caminhou lentamente até a sala e esperou que Thamine indicasse um lugar para sentar. O respeito com que se comportava contrastava profundamente com a figura descrita durante décadas pelos jornais internacionais. Basco percebeu esse detalhe imediatamente. Esperava encontrar alguém agressivo, arrogante ou ameaçador. Em vez disso, via um homem extremamente educado, cuja segurança parecia nascer da experiência e não da intimidação. Ainda assim, havia em seu olhar uma firmeza incomum, como se cada palavra fosse cuidadosamente escolhida antes de ser pronunciada.
— Obrigado por nos receber — disse Erik, acomodando-se lentamente na cadeira mais próxima da mesa. — Imagino que esta visita desperte muito mais perguntas do que respostas.
Thamine permaneceu de pé durante alguns instantes, observando atentamente o visitante. Preparou chá quase por instinto, ocupando as mãos enquanto organizava os pensamentos. Somente depois colocou quatro xícaras sobre a mesa e finalmente se sentou diante dele.
— O senhor disse que foi o despertar do Basco que encontrou vocês. Gostaria que começasse explicando exatamente o que isso significa.
Erik assentiu com tranquilidade.
— Existe um equipamento desenvolvido há muitos anos pelo Professor Charles Xavier chamado Cérebro. Ele não funciona como um radar comum nem como um sistema de vigilância convencional. Trata-se de uma tecnologia capaz de amplificar a percepção telepática de Xavier, permitindo localizar assinaturas relacionadas ao Gene X em praticamente qualquer parte do planeta. Quando um jovem manifesta sua mutação pela primeira vez, principalmente durante um despertar tão intenso quanto o ocorrido no Shopping Eldorado, essa energia torna-se perceptível. Foi assim que soubemos da existência de Basco.
Basco permaneceu completamente imóvel.
Aquilo ultrapassava tudo o que imaginara. Desde o despertar acreditava que precisaria esconder seus poderes para sempre. Descobrir que alguém, do outro lado do mundo, fora capaz de identificá-lo no exato momento em que sua mutação surgira fazia o universo parecer muito maior — e muito mais complexo.
— Então vocês monitoram pessoas? — perguntou, incapaz de esconder a desconfiança.
Erik voltou imediatamente o olhar para o rapaz.
— Não monitoramos pessoas.
Fez uma breve pausa antes de completar:
— Monitoramos despertares. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Roberto resolveu participar da conversa pela primeira vez desde que haviam entrado no apartamento.
— Quando meu poder apareceu, aconteceu a mesma coisa comigo. Eu também achei que estavam me espionando.
Sorriu discretamente.
— Depois descobri que, se não tivessem me encontrado primeiro, outras pessoas teriam encontrado.
Basco voltou-se para ele.
— Você também é mutante?
Roberto riu.
— Bastante.
A resposta descontraída arrancou um sorriso involuntário de Basco, diminuindo pela primeira vez a tensão daquele encontro.
— Meu nome completo é Roberto da Costa. Sou brasileiro, nasci no Rio de Janeiro. Meu poder tem relação com energia solar. Quanto mais energia absorvo, mais forte fico. A primeira manifestação foi um desastre. Achei que estivesse morrendo.
— Igual a mim...
— Igual a praticamente todos nós — respondeu Roberto. — A diferença é que alguns têm alguém para ajudar. Outros enfrentam isso completamente sozinhos.
Thamine permaneceu observando aquela troca de palavras. Havia sinceridade no jovem carioca. Aquilo lhe transmitia certo alívio, mas não diminuía a desconfiança em relação ao homem sentado à sua frente.
Ela voltou-se novamente para Erik.
— Ainda não respondeu à pergunta mais importante.
Ele inclinou discretamente a cabeça.
— Qual?
— Por que o senhor?
O silêncio instalou-se novamente.
Thamine cruzou lentamente as mãos sobre a mesa.
— Conheço sua história, senhor Lehnsherr. Sei quem o senhor foi durante décadas. Sei quantas pessoas o chamaram de terrorista. Sei quantos governos o responsabilizaram por atentados e conflitos envolvendo mutantes. Então me explique por que justamente o senhor bate à minha porta dizendo representar Charles Xavier.
Basco olhou imediatamente para Erik.
Roberto também permaneceu em silêncio.
Era evidente que aquela pergunta seria inevitável.
O visitante respirou profundamente antes de responder.
— Porque Charles Xavier está morto.
As palavras caíram sobre a sala como uma pedra lançada sobre água parada.
Nem Thamine nem Basco conseguiram esconder a surpresa.
Erik continuou:
— Charles morreu há alguns anos. Antes disso, deixou uma série de instruções sobre a continuidade da escola e sobre aqueles que deveriam protegê-la. Entre essas instruções estava meu nome.
Thamine estreitou discretamente os olhos.
— O senhor quer que eu acredite que Xavier confiou sua escola justamente ao homem que passou metade da vida combatendo seus métodos?
Um leve sorriso apareceu no rosto de Erik.
— Talvez porque tenha compreendido, antes de morrer, que nossas diferenças nunca estiveram relacionadas ao futuro dos mutantes.
Fez uma pausa.
— Apenas ao caminho para alcançá-lo.
O ambiente voltou a mergulhar no silêncio.
Basco observava atentamente aquele homem que, até poucos minutos antes, existia apenas como um nome desconhecido. Havia algo profundamente contraditório em sua presença. Não falava como um líder fanático. Tampouco como um militar. Parecia um professor acostumado a convencer pessoas por meio da razão, não da força.
Foi então que Erik abriu lentamente a pasta de couro que trouxera consigo. Retirou alguns documentos, fotografias e, por fim, um pequeno computador portátil. Colocou-o sobre a mesa, ligou o equipamento e girou a tela na direção de Thamine.
— Antes de qualquer decisão, acredito que a senhora precise compreender por que fiz questão de vir pessoalmente ao Brasil.
Na tela começaram a surgir imagens classificadas.
Fotografias de operações militares.
Casas destruídas.
Laboratórios clandestinos.
Jovens presos.
Famílias inteiras escoltadas por soldados.
Basco sentiu um frio percorrer a espinha.
Thamine levou lentamente a mão à boca.
Ela conhecia aquele tipo de operação.
Já o vira acontecer antes.
E compreendeu imediatamente que o verdadeiro motivo daquela visita não era oferecer uma vaga em uma escola.
Era impedir que a história se repetisse.
As fotografias permaneceram expostas sobre a mesa durante alguns instantes, sem que ninguém tivesse coragem de dizer qualquer palavra. Não eram imagens produzidas para convencer alguém por meio de discursos. Eram registros frios da realidade. Em uma delas, soldados fortemente armados conduziam adolescentes algemados para caminhões militares. Em outra, um laboratório improvisado exibia macas metálicas cercadas por equipamentos médicos e contenções reforçadas. Havia ainda fotografias de casas destruídas, bairros isolados por forças de segurança e famílias sendo retiradas de suas residências durante a madrugada. Algumas imagens traziam carimbos oficiais de órgãos governamentais; outras claramente haviam sido obtidas clandestinamente. Basco observava tudo em absoluto silêncio, incapaz de acreditar que aquelas cenas pertencessem ao mesmo mundo em que vivera até poucos dias antes.
Erik fechou lentamente o computador e apoiou as mãos sobre a pasta de couro. Não havia satisfação em seu semblante. Muito pelo contrário. Seu olhar transmitia o cansaço de alguém que passara boa parte da vida testemunhando acontecimentos semelhantes.
— Essas operações não ocorreram apenas nos Estados Unidos — explicou com voz baixa. — Há registros na antiga União Soviética, em diversos países europeus, na América Latina e no Oriente Médio. Em alguns lugares, mutantes são utilizados como armas. Em outros, são estudados como se fossem doenças. Há governos que preferem fingir que eles não existem. Outros optam por capturá-los antes que aprendam a controlar seus próprios dons. A diferença entre um país e outro está apenas no método.
Thamine continuava examinando uma das fotografias. Nela, uma menina de aproximadamente dez anos era conduzida por dois soldados enquanto tentava alcançar uma mulher caída ao chão. A imagem despertou imediatamente lembranças que ela julgava sepultadas pelo tempo. Voltou a enxergar vilarejos libaneses evacuados às pressas, hospitais improvisados e crianças separadas dos pais durante operações militares. Respirou profundamente antes de levantar os olhos.
— O senhor veio dizer que o Brasil está fazendo o mesmo?
Erik demorou alguns segundos para responder.
— Ainda não da mesma forma.
Fez uma pausa, escolhendo cuidadosamente as palavras.
— Mas os primeiros sinais são muito semelhantes.
Retirou outro documento da pasta e o colocou diante dela. Tratava-se de um relatório produzido por serviços de inteligência, contendo recortes de jornais, discursos parlamentares e pareceres internos de órgãos militares brasileiros.
— Desde o incidente do Shopping Eldorado, alguns setores do governo passaram a trocar informações sobre indivíduos com características incomuns. Oficialmente, ninguém utiliza a palavra "mutante". Falam em anomalias biológicas, ameaças à segurança nacional ou indivíduos geneticamente diferenciados. A nomenclatura muda conforme a conveniência política. O objetivo permanece exatamente o mesmo.
Basco observava atentamente cada documento. Aos poucos começava a compreender que o problema nunca fora apenas aprender a controlar seus poderes. Existia um mundo inteiro reagindo ao surgimento de pessoas como ele, e essa reação nem sempre era motivada pela curiosidade científica. Em muitos casos, era simplesmente medo.
— Como vocês conseguem essas informações? — perguntou.
Erik voltou o olhar para o rapaz.
— Porque existem pessoas, em praticamente todos os continentes, que acreditam que mutantes merecem ter a oportunidade de escolher o próprio destino. Algumas trabalham dentro de governos. Outras em universidades, hospitais, centros de pesquisa ou organizações humanitárias. Recebemos informações de muitos lugares diferentes.
Thamine apoiou lentamente as mãos sobre a mesa.
— Inclusive dos Noventa e Nove de Allah?
Pela primeira vez desde que iniciara a conversa, Erik demonstrou verdadeira surpresa.
Foi discreta.
Quase imperceptível.
Mas suficiente para que ela percebesse.
— Faz muitos anos que não escuto esse nome — respondeu.
— Então sabe do que estou falando.
— Sei.
Ele permaneceu alguns instantes em silêncio.
— Edher trabalhou com eles.
Não era uma pergunta.
Era uma afirmação.
Basco virou imediatamente o rosto para a mãe. Até aquele momento imaginava que a existência dos 99 de Allah fosse conhecida apenas dentro da família. Ver aquele desconhecido mencionar o grupo com tanta naturalidade fez surgir uma nova onda de perguntas.
Thamine percebeu.
— Como sabe disso?
Erik cruzou lentamente as mãos.
— Porque Charles Xavier manteve contato com Ramzi Razem durante muitos anos.
O nome atingiu Thamine como um choque.
Ramzi.
O médico que acolhera Edher no Líbano.
O homem que apresentara os 99 de Allah ao seu marido.
A pessoa que lhes conseguira documentos quando decidiram fugir para o Brasil.
Durante alguns segundos, ela perdeu completamente a capacidade de formular qualquer pergunta.
Erik prosseguiu em tom sereno.
— Xavier respeitava profundamente o trabalho realizado por Ramzi. Ambos acreditavam na mesma coisa: que o maior desafio de um mutante nunca foi aprender a usar seus poderes. Sempre foi preservar sua humanidade enquanto o mundo insistia em enxergá-lo como uma ameaça.
Basco sentiu um aperto inesperado no peito.
Pela primeira vez desde o início daquela conversa, teve a impressão de que alguém realmente conhecia seu pai.
Não apenas seu nome.
Sua história.
Sua vida.
Inclinou-se lentamente sobre a mesa.
— O senhor conheceu Edher?
Erik permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder.
— Não.
A resposta veio acompanhada de um leve pesar.
— Nunca tivemos oportunidade de nos encontrar pessoalmente.
Fez uma breve pausa.
— Mas ouvi Charles Xavier falar dele mais de uma vez. E posso lhe garantir uma coisa, Basco.
Os olhos do rapaz encontraram os dele.
— Seu pai era um homem muito respeitado.
Basco permaneceu imóvel.
Durante toda a vida crescera cercado pela ausência de Edher. Agora descobria que, muito longe do Brasil, existiam pessoas que ainda pronunciavam seu nome com admiração.
Aquilo produziu um efeito inesperado.
Pela primeira vez desde o desaparecimento do pai, deixou de enxergá-lo apenas como uma lembrança.
Passou a enxergá-lo como parte de uma história muito maior do que jamais imaginara.
Foi então que Erik fechou definitivamente a pasta, olhou alternadamente para Thamine e para Basco e pronunciou, com absoluta tranquilidade, a frase que mudaria o rumo daquela noite.
— É exatamente por causa dessa história... que estou aqui para fazer um convite.
A frase permaneceu suspensa no ambiente durante alguns segundos. Ninguém precisou perguntar qual convite seria aquele. Desde o instante em que Erik Lehnsherr atravessara a porta do apartamento, a conversa parecia caminhar inevitavelmente naquela direção. Ainda assim, ouvir aquelas palavras fez com que Basco sentisse um aperto no estômago. Pela primeira vez desde o despertar de sua mutação, o futuro deixava de ser uma abstração distante para transformar-se em uma decisão concreta.
Erik apoiou os cotovelos sobre a mesa, uniu as mãos diante do rosto e observou atentamente o rapaz. Havia décadas aprendera que aquele era o momento mais delicado de qualquer aproximação. Jovens mutantes raramente precisavam apenas de treinamento. Precisavam reconstruir completamente a maneira como compreendiam a si mesmos. Não bastava oferecer abrigo. Era necessário devolver-lhes um lugar no mundo.
— Basco, antes de qualquer coisa, quero que compreenda um detalhe importante. Não vim ao Brasil para recrutar soldados. Também não estou formando uma organização política ou militar. A escola fundada por Charles Xavier existe porque, durante muitos anos, vimos adolescentes despertarem para habilidades extraordinárias completamente sozinhos. Alguns sobreviveram. Muitos outros não tiveram a mesma sorte. Quando um jovem manifesta o Gene X sem orientação, o medo costuma assumir o controle antes que ele compreenda aquilo que está acontecendo. Nosso trabalho começa exatamente nesse momento.
Basco permanecia atento, mas sua expressão revelava cautela. A sinceridade de Erik inspirava confiança, porém confiança não surgia em poucos minutos. Ainda havia perguntas demais sem resposta.
— O senhor quer que eu vá para os Estados Unidos?
Erik assentiu lentamente.
— Sim.
Fez uma breve pausa.
— Quero que estude na Escola Xavier para Jovens Superdotados. Lá você terá professores, treinamento, acompanhamento médico e, acima de tudo, conviverá com pessoas que passaram pela mesma experiência que está vivendo agora. Não precisará esconder quem é sempre que sair de casa. Não precisará aprender sozinho aquilo que outros já descobriram muito antes de você nascer.
Roberto sorriu discretamente ao perceber a curiosidade de Basco.
— Quando cheguei lá, achei que fosse encontrar um internato igual aos filmes americanos. Acabei encontrando uma família.
Basco voltou-se para ele.
— Existem muitos alunos?
— Mais do que eu imaginava.
Roberto apoiou os braços sobre a mesa.
— Alguns conseguem controlar fogo. Outros gelo. Tem gente que voa, gente que enxerga através de paredes, gente que parece completamente normal até usar os poderes. E, sabe qual foi a melhor coisa que aconteceu comigo?
Basco balançou discretamente a cabeça.
— Descobrir que eu não era o único.
As palavras produziram um efeito inesperado. Desde o Shopping Eldorado, Basco carregava uma sensação constante de isolamento. Passara dias acreditando que ninguém seria capaz de compreender o que acontecia dentro dele. A ideia de existir um lugar onde pessoas diferentes conviviam naturalmente despertava uma curiosidade difícil de esconder.
Thamine, entretanto, permanecia completamente séria.
— O senhor está falando como se a decisão já estivesse tomada.
Erik voltou imediatamente a atenção para ela.
— Não.
Sua resposta foi firme.
— A decisão pertence exclusivamente a Basco... e à senhora.
Fez uma pausa antes de continuar.
— Charles Xavier sempre acreditou que liberdade e escolha caminham juntas. Nunca obrigamos ninguém a estudar conosco.
Ela cruzou os braços.
— Mas também não costumam fazer viagens internacionais apenas para apresentar um folheto institucional.
Um leve sorriso surgiu no rosto de Erik.
— Não.
A sinceridade da resposta fez até Roberto conter uma risada.
Erik prosseguiu:
— Vim pessoalmente porque a situação de Basco é diferente. O despertar dele foi extremamente intenso. A assinatura energética registrada pelo Cérebro foi uma das mais incomuns observadas nos últimos anos. Além disso...
Ele interrompeu a frase por um instante.
Parecia medir cuidadosamente as próximas palavras.
— ...o sobrenome Markel chamou imediatamente nossa atenção.
O ambiente voltou a mergulhar no silêncio.
Basco franziu discretamente a testa.
— Por causa do meu pai?
— Sim.
Erik respondeu sem hesitar.
— Quando Xavier analisou os primeiros registros enviados do Brasil, encontrou referências antigas relacionadas a Edher Markel. Não havia muitas informações. Apenas o suficiente para despertar seu interesse. Antes que pudesse aprofundar a investigação, infelizmente faleceu. Os arquivos permaneceram incompletos durante algum tempo. Quando sua mutação despertou, resolvi continuar pessoalmente aquilo que ele havia iniciado.
Basco sentiu novamente o coração acelerar.
Cada nova resposta parecia gerar duas novas perguntas.
— Então... vocês também não sabem o que aconteceu com ele?
Erik sustentou seu olhar durante alguns segundos.
— Não.
A resposta veio acompanhada de uma serenidade quase triste.
— Se soubéssemos, eu lhe diria.
Basco abaixou lentamente os olhos.
Era a terceira pessoa, em menos de uma semana, a admitir que desconhecia o destino de Edher e Igon. Ainda assim, uma parte dele recusava-se a acreditar que ambos simplesmente tivessem desaparecido sem deixar qualquer vestígio.
Thamine percebeu imediatamente a decepção do filho. Aproximou discretamente a mão da dele sobre a mesa e apertou seus dedos com delicadeza.
Erik observou aquele gesto em silêncio antes de voltar a falar.
— Há outra razão para eu estar aqui.
Retirou um envelope da pasta e o colocou diante de Thamine.
— Não espero uma resposta hoje.
Ela olhou para o envelope, mas não o abriu.
— O que é isso?
— Documentação provisória para viagem, autorização de matrícula, vistos e todos os procedimentos necessários caso decidam aceitar nossa proposta.
Basco arregalou discretamente os olhos.
Tudo já estava preparado.
Aquilo demonstrava que Erik não fizera uma visita de cortesia.
Viera decidido a levar o jovem consigo.
A única pergunta que permanecia sem resposta era se Basco estava preparado para deixar para trás a única vida que conhecera até então.
E, pela expressão silenciosa de Thamine, ela também começava a compreender que aquela decisão talvez fosse muito mais difícil do que imaginara quando ouviu a campainha tocar.
Thamine permaneceu longos segundos observando o envelope repousado sobre a mesa. Não o tocou imediatamente. Sabia que, muitas vezes, uma simples folha de papel era suficiente para alterar completamente o destino de uma família. Ao longo da vida aprendera que as decisões realmente importantes jamais chegavam anunciando a própria importância. Apareciam discretamente, quase sempre disfarçadas de oportunidades ou coincidências. Naquela noite, porém, não havia qualquer ilusão. Se aceitasse aquele convite, Basco deixaria o Brasil, pisaria em um país desconhecido e passaria a viver entre pessoas cuja existência sequer imaginava até poucos dias antes. Se recusasse, permaneceria ao seu lado, mas enfrentaria sozinho um poder que crescia a cada manifestação. Nenhuma das alternativas era simples.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Basco também mantinha os olhos fixos no envelope. Desde o desaparecimento do pai, jamais pensara em sair do país. Sua vida estava em São Paulo. Ali estudava, ouvia suas bandas favoritas, caminhava pelas ruas onde crescera e guardava as poucas lembranças que ainda possuía de Edher e Igon. A ideia de abandonar tudo aquilo provocava um desconforto imediato. Ao mesmo tempo, era impossível ignorar o que vivera nos últimos dias. Em menos de uma semana descobrira que era mutante, perdera completamente o controle dos próprios poderes, ouvira histórias sobre uma escola dedicada a jovens como ele e conhecera pessoas capazes de explicar acontecimentos que ninguém mais compreendia. Permanecer exatamente como estava talvez já não fosse uma opção.
O silêncio prolongou-se até que Roberto resolveu quebrar a tensão da maneira mais espontânea possível.
— Posso te fazer uma pergunta?
Basco voltou-se para ele.
— Claro.
— Quantas vezes você conseguiu usar esse poder desde o shopping?
Basco pensou por alguns instantes.
— Não sei... quatro... talvez cinco.
— Sempre sozinho?
— Sim.
Roberto sorriu discretamente.
— Eu também fazia isso.
Thamine levantou os olhos.
— Fazia?
— No começo. Achava que, se treinasse escondido, resolveria tudo sozinho. Quase coloquei fogo na cobertura do prédio onde morava.
Basco não conseguiu conter um sorriso.
— Sério?
— Muito sério.
Roberto deu uma pequena risada antes de continuar.
— Passei semanas acreditando que bastava praticar bastante. Descobri que poder sem orientação costuma virar acidente. Não porque a gente queira machucar alguém... mas porque simplesmente não entende o que está acontecendo.
A simplicidade daquela confissão produziu mais efeito do que qualquer argumento elaborado por Erik. Pela primeira vez desde o início da conversa, Basco enxergava diante de si alguém próximo de sua idade, alguém que passara pelo mesmo medo, pela mesma confusão e que sobrevivera a tudo aquilo.
Erik observava discretamente a conversa entre os dois. Sabia que Roberto desempenhava um papel importante justamente por isso. Jovens raramente se identificavam com discursos de adultos. Encontravam muito mais conforto em histórias vividas por pessoas da mesma geração.
Depois de alguns instantes, o antigo líder dos X-Men retomou a palavra.
— Gostaria de esclarecer outra questão antes que tomem qualquer decisão. Muitos imaginam que nossa escola seja apenas um lugar para aprender a controlar poderes. Não é. Basco continuará estudando matemática, literatura, história, física, biologia e todas as demais disciplinas necessárias à sua formação. A diferença é que também aprenderá a compreender quem é. Não queremos formar apenas mutantes capazes de usar suas habilidades. Queremos formar pessoas capazes de viver com elas.
Thamine apoiou lentamente a xícara sobre a mesa.
— E se ele disser não?
Erik respondeu imediatamente.
— Respeitaremos sua decisão.
Ela continuou observando-o.
— Sem insistência?
— Sem insistência.
— Sem vigilância?
Um leve sorriso apareceu no rosto de Erik.
— Senhora Khassan... se eu acreditasse que jovens mutantes devem ser obrigados a seguir um único caminho, teria passado a vida inteira concordando com governos que os perseguem.
A resposta permaneceu ecoando na sala. Thamine percebeu, talvez pela primeira vez desde que ele chegara, que havia uma enorme distância entre a imagem construída ao longo das décadas pela imprensa internacional e o homem sentado diante dela. Não significava que confiasse plenamente nele. Mas começava a compreender por que Charles Xavier teria sido capaz de lhe entregar a direção da escola.
Basco permanecia dividido. Seus pensamentos pareciam caminhar em direções opostas. Parte dele desejava permanecer ao lado da mãe, continuar procurando respostas sobre Edher e descobrir sozinho a extensão de seus poderes. Outra parte reconhecia que, se continuasse naquele ritmo, mais cedo ou mais tarde perderia o controle novamente. Bastava recordar o estacionamento do Shopping Eldorado para compreender o tamanho do risco.
Foi então que lhe ocorreu uma pergunta que até aquele momento ninguém fizera.
Olhou diretamente para Erik.
— Se eu for com vocês...
Esperou alguns segundos antes de concluir.
— ...isso significa que vou deixar de procurar meu pai?
O ambiente voltou a silenciar.
Erik demorou a responder. Não porque desconhecesse a resposta, mas porque sabia o peso daquela pergunta.
Por fim, falou com a mesma serenidade que demonstrara desde o início da visita.
— Não.
Basco ergueu lentamente a cabeça.
— Muito pelo contrário.
Erik apoiou as mãos sobre a mesa.
— Se existe algum lugar no mundo onde você terá acesso a informações capazes de ajudá-lo a compreender a história de Edher Markel, esse lugar é a Escola Xavier.
Fez uma breve pausa.
— Lá estão reunidos arquivos, registros e pessoas que dedicaram a vida inteira ao estudo do Gene X. Talvez não encontremos imediatamente a resposta que você procura. Talvez jamais a encontremos. Mas posso lhe garantir uma coisa.
Seu olhar tornou-se ainda mais firme.
— Você não precisará procurar sozinho.
Pela primeira vez desde o desaparecimento do pai, Basco sentiu nascer uma esperança que não era construída apenas pela saudade, mas pela possibilidade concreta de descobrir a verdade. E foi exatamente naquele instante que a proposta de Erik deixou de parecer apenas um convite para estudar no exterior.
Transformou-se no primeiro passo de uma jornada capaz de levá-lo de volta às origens de sua própria família.
Aquelas palavras permaneceram ecoando na mente de Basco mesmo depois que o silêncio voltou a dominar a sala. Desde criança alimentava a esperança quase infantil de que um dia o pai simplesmente reapareceria diante da porta de casa, como se todos aqueles anos tivessem sido apenas uma longa viagem interrompida por circunstâncias inesperadas. Com o passar do tempo, essa esperança transformara-se em perguntas, depois em frustração e, por fim, em uma ausência constante que aprendera a carregar sem jamais compreender. Agora, pela primeira vez, alguém lhe dizia que talvez existisse um caminho capaz de conduzi-lo até respostas reais. Não eram promessas vazias. Erik fora cuidadoso ao evitar qualquer garantia. Ainda assim, bastava a possibilidade para que algo despertasse dentro dele.
Thamine observava o filho em silêncio. Conhecia aquele olhar. Era exatamente a mesma expressão que vira incontáveis vezes no rosto de Edher sempre que ele acreditava estar diante de uma decisão sem retorno. Não havia impulsividade. Havia reflexão. Talvez fosse essa a característica mais marcante dos dois. Ambos demoravam a tomar decisões, mas, quando finalmente escolhiam um caminho, dificilmente voltavam atrás.
Ela voltou-se para Erik.
— Supondo que aceitemos essa proposta... quando pretende levá-lo?
O visitante respondeu sem consultar qualquer documento.
— Dentro de três dias.
A resposta foi direta.
Basco arregalou discretamente os olhos.
— Três dias?
Erik assentiu.
— Quanto mais tempo permanecermos aqui, maiores serão as chances de outras pessoas identificarem seu despertar. Ainda estamos em vantagem justamente porque chegamos primeiro.
Thamine permaneceu alguns instantes em silêncio antes de perguntar:
— E os estudos? A documentação? A imigração? Não estamos falando de uma simples viagem.
Um leve sorriso surgiu no rosto de Erik.
— A senhora ficaria surpresa ao descobrir quantas vezes Charles Xavier precisou resolver exatamente esse tipo de problema.
Retirou uma pequena pasta azul do interior da maleta.
— Passaporte provisório, autorização internacional, matrícula, tradução dos documentos escolares e toda a regularização necessária já foram providenciados. Caso aceitem, cuidaremos do restante quando chegarmos aos Estados Unidos.
Basco observava tudo quase sem acreditar.
Aquilo parecia grande demais.
Rápido demais.
Até poucos dias antes sua maior preocupação era esconder os estranhos episódios envolvendo a névoa. Agora discutia uma mudança internacional com pessoas que conheciam mutantes espalhados pelo mundo inteiro.
Roberto percebeu sua expressão.
— Também achei que fosse loucura quando me convidaram.
Basco sorriu discretamente.
— E era?
Roberto deu de ombros.
— Um pouco.
Os dois riram pela primeira vez desde o início da conversa.
— Mas foi a melhor loucura da minha vida.
O clima da sala tornou-se ligeiramente mais leve. Até mesmo Thamine permitiu-se sorrir discretamente ao perceber que Basco começava a relaxar na presença do jovem carioca. Erik observava a cena sem interferir. Sabia que aquele vínculo espontâneo valia mais do que qualquer discurso preparado.
Depois de alguns minutos, levantou-se lentamente.
— Não espero uma resposta esta noite.
Fechou cuidadosamente a pasta.
— Na verdade, prefiro que não respondam agora.
Thamine ergueu os olhos.
— Por quê?
— Porque decisões tomadas sob medo costumam ser ruins.
A resposta veio imediatamente.
— Quero que conversem. Que discutam. Que façam perguntas. Se, daqui a três dias, Basco decidir permanecer no Brasil, respeitarei completamente essa escolha.
Basco acompanhou Erik até a porta do apartamento enquanto Roberto despedia-se cordialmente de Thamine. Antes de sair, o jovem carioca retirou do bolso um pequeno pedaço de papel dobrado.
— Quase esqueci.
Entregou-o discretamente a Basco.
— Meu telefone.
Basco olhou curioso.
— Caso queira conversar... ou simplesmente perguntar como é a comida da escola.
Sorriu.
— Já adianto que não é grande coisa.
Os dois riram.
— Obrigado.
Roberto deu dois passos em direção ao corredor, mas voltou rapidamente.
— Ah... mais uma coisa.
A expressão divertida desapareceu por um instante.
— Se sentir que seus poderes estão saindo do controle... não tente enfrentá-los sozinho.
Basco percebeu que aquelas palavras não eram um conselho decorado.
Eram uma lembrança.
Talvez até um arrependimento.
Assentiu em silêncio.
Poucos segundos depois, Erik e Roberto desapareceram pelo corredor do edifício. O som do elevador fechando as portas foi a última coisa que a família ouviu antes que o apartamento mergulhasse novamente em absoluto silêncio.
Thamine permaneceu alguns instantes observando a porta fechada. Em seguida caminhou lentamente até a janela da sala. Do lado de fora, a chuva continuava caindo sobre as ruas de Itaquera, refletindo as luzes dos postes e transformando o asfalto em um grande espelho escuro.
Sem desviar o olhar da cidade, falou em voz baixa:
— Seu pai odiaria esta decisão.
Basco aproximou-se.
— Por quê?
Ela sorriu com tristeza.
— Porque faria qualquer coisa para manter você perto dele.
Fez uma breve pausa.
— Mas também faria qualquer coisa para mantê-lo vivo.
Os dois permaneceram lado a lado diante da janela.
Nenhum deles precisava dizer mais nada.
Ambos já sabiam que aquela noite marcava o fim de uma etapa da vida.
E, embora a resposta definitiva ainda não tivesse sido pronunciada, o destino de Basco começava silenciosamente a apontar para o norte.
Muito além de São Paulo.
Muito além do Brasil.
Em uma antiga mansão no Condado de Westchester, onde respostas aguardavam há muitos anos... juntamente com perigos que nenhum dos dois ainda era capaz de imaginar.
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