CelleXty Saga - Temporada I
3 Escola Infernal!
Notas iniciais

ARQUIVO CONFIDENCIAL — INSTITUTO XAVIER
Sujeito: Basco Khassan Markel
Codinome: Neblina
Classificação: Mutante Alfa (em avaliação)
Status psicológico: Instável. Forte sentimento de perda paterna. Elevada empatia. Tendência ao isolamento. Grande capacidade de liderança ainda não desenvolvida. Potencial de evolução acima da média.
Observação do Diretor Erik Lehnsherr:
"Há jovens que desejam poder. Outros desejam apenas respostas. Basco pertence ao segundo grupo. Isso o torna muito mais perigoso."
Quando o Boeing 747 rompeu as últimas nuvens antes do pouso, Basco afastou lentamente a pequena cortina da janela e apoiou a testa contra o vidro frio. Durante alguns segundos esqueceu completamente Magneto, Roberto da Costa, a Escola Xavier e até mesmo os acontecimentos que haviam transformado sua vida poucas semanas antes. Seus olhos permaneceram fixos sobre a imensidão iluminada que surgia sob a aeronave. Nova York parecia infinita. Rios de luz cortavam a escuridão como artérias luminosas, pontes uniam bairros inteiros e arranha-céus refletiam o brilho alaranjado do pôr do sol que desaparecia lentamente atrás do horizonte.
Então ele a viu.
A Estátua da Liberdade.
Pequena à distância.
Majestosa em significado.
Basco sorriu discretamente.
A palavra "liberdade" sempre lhe parecera abstrata. Crescera escondendo uma parte de si que nem mesmo compreendia. Durante anos, vivera entre perguntas sem resposta, observando a mãe carregar silenciosamente uma dor que jamais conseguira explicar completamente. Agora cruzava o continente rumo a um país desconhecido porque descobrira que existiam pessoas iguais a ele. Ainda assim, enquanto observava aquela gigantesca figura de cobre sustentando uma tocha diante da cidade, não conseguia evitar a ironia da situação.
Estava chegando ao país da liberdade justamente porque perdera a própria.
Ao seu lado, Roberto da Costa mastigava distraidamente um pacote de amendoins distribuído durante o voo. Desde a decolagem em Guarulhos assumira espontaneamente o papel de intérprete, guia turístico e irmão mais velho improvisado. Percebia claramente o esforço de Basco para esconder a ansiedade e fazia o possível para aliviar aquele peso com piadas e histórias sobre a escola.
— Aposto que você esperava encontrar um castelo mal-assombrado cheio de mutantes esquisitos.
Basco riu discretamente.
— Confesso que imaginei algo parecido.
— Vai encontrar mutantes esquisitos.
Roberto deu uma piscadela.
— Mas o castelo é bem bonito.
Magneto permaneceu sentado algumas poltronas adiante durante praticamente toda a viagem. Lia documentos, fazia pequenas anotações e conversava ocasionalmente com a tripulação em inglês impecável. Não demonstrava cansaço nem ansiedade. Parecia alguém que simplesmente atravessava mais uma fronteira depois de uma vida inteira cruzando continentes. Em determinado momento levantou-se, caminhou lentamente até a fileira onde os dois adolescentes estavam sentados e permaneceu alguns instantes observando Nova York através da janela.
— A primeira impressão costuma enganar.
Basco voltou-se para ele.
— Como assim?
Erik manteve os olhos voltados para a cidade.
— Muitos acreditam que esta seja uma terra de oportunidades.
Fez uma breve pausa.
— Outros acreditam que seja uma terra de liberdade.
Seu semblante permaneceu sereno.
— Descobrirá que ela consegue ser as duas coisas... e também nenhuma delas.
Não explicou.
Voltou ao seu lugar.
Basco observou-o afastar-se sem compreender completamente aquelas palavras. Aprenderia, anos depois, que Magneto quase nunca respondia diretamente às perguntas. Preferia oferecer frases que só faziam sentido quando a vida se encarregava de completá-las.
...
O trajeto entre o aeroporto e o Condado de Westchester revelou uma América completamente diferente daquela mostrada nos filmes. Basco esperava encontrar apenas avenidas gigantescas e arranha-céus intermináveis, mas a paisagem transformava-se gradualmente conforme o automóvel deixava Manhattan para trás. O concreto cedia espaço a grandes áreas arborizadas, pequenas cidades surgiam entre colinas cobertas por vegetação e antigas propriedades rurais apareciam ao longo da estrada. Quando finalmente cruzaram a placa indicando Salem Center, Roberto sorriu como quem apresentava a própria casa.
— Bem-vindo ao lugar mais estranho dos Estados Unidos.
Poucos minutos depois, enormes portões de ferro abriram-se silenciosamente.
Basco prendeu involuntariamente a respiração.
A Mansão Xavier erguia-se diante dele com uma imponência quase aristocrática. O edifício principal, construído em pedra clara, parecia mais uma universidade inglesa do século XIX do que uma escola. Colunas sustentavam a entrada principal, grandes janelas refletiam a luz dourada do entardecer e extensos jardins cercavam toda a propriedade. Ao fundo, enormes carvalhos escondiam parte dos terrenos utilizados para treinamento.
Nada lembrava uma base militar.
Nada lembrava um esconderijo.
Parecia simplesmente uma casa.
Mas uma casa carregada de história.
Enquanto descarregavam as malas, Roberto caminhava ao lado de Basco apontando diferentes partes da propriedade.
— A família Xavier mora aqui há gerações. O Professor transformou tudo isso em escola quando percebeu que mutantes precisavam de um lugar para aprender sem medo. Muita gente acha que somos apenas um colégio interno.
Sorriu.
— Se fosse só isso, minha vida seria bem mais tranquila.
Basco observava tudo com atenção quase infantil.
Havia estudantes caminhando pelos jardins.
Alguns liam livros debaixo das árvores.
Outros jogavam basquete.
Uma garota de cabelos loiros discutia animadamente com um rapaz ruivo próximo à escadaria principal.
Em qualquer outro lugar, aquela cena pareceria completamente comum.
A diferença estava nos pequenos detalhes.
Um dos rapazes atravessou parte do gramado deslizando sobre uma fina camada de gelo que surgia sob seus pés.
Outro carregava simultaneamente seis caixas sem tocá-las com as mãos.
Mais adiante, uma menina de pele morena conversava em linguagem de sinais com um garoto metálico cuja pele refletia o pôr do sol como aço polido.
Basco parou de caminhar.
Pela primeira vez desde o Shopping Eldorado, não se sentia um estranho.
Não era o único.
Nunca mais seria.
Magneto aguardou pacientemente que Basco absorvesse a dimensão daquele lugar antes de voltar a caminhar. Não havia qualquer pressa em apresentar a escola. Parecia compreender que cada jovem mutante, ao atravessar aqueles portões pela primeira vez, precisava de alguns minutos para aceitar que um lugar como aquele realmente existia. Durante anos, a Mansão Xavier fora muito mais do que uma residência. Era um refúgio. Um espaço onde adolescentes perseguidos, rejeitados ou simplesmente incompreendidos podiam descobrir que suas diferenças não precisavam ser escondidas. Basco ainda não conhecia essa história, mas conseguia senti-la em cada detalhe da propriedade. Havia marcas invisíveis naquele lugar, cicatrizes deixadas por batalhas que ele sequer imaginava terem acontecido.
Ao atravessarem a porta principal, um amplo saguão revelou o interior da mansão. Escadarias de madeira escura conduziam ao piso superior, onde corredores pareciam prolongar-se indefinidamente entre quartos, bibliotecas e salas de estudo. Retratos antigos da família Xavier decoravam as paredes ao lado de fotografias de diferentes turmas de estudantes. Algumas mostravam jovens sorridentes durante formaturas, outras registravam equipes inteiras utilizando uniformes de treinamento diante de um enorme símbolo em forma de "X". Basco caminhava lentamente, tentando memorizar cada ambiente, quando foi interrompido por uma voz feminina carregada de entusiasmo.
— Então esse é o brasileiro?
A dona da pergunta aproximou-se rapidamente pelo corredor. Era uma jovem indígena de longos cabelos negros presos em uma trança, vestindo jeans, botas e uma camisa de mangas compridas apesar do clima agradável. Seus olhos transmitiam uma serenidade rara, mas havia também firmeza em seus gestos, como alguém acostumado a liderar naturalmente qualquer grupo.
Roberto abriu um sorriso.
— Basco, esta é Danielle Moonstar.
Ela estendeu imediatamente a mão.
— Mas pode me chamar de Dani.
Basco apertou sua mão ainda um pouco constrangido.
— Prazer...
— Relaxa.
Ela sorriu.
— Todo mundo chega aqui com essa cara de quem entrou na escola errada.
A observação arrancou uma discreta gargalhada de Roberto.
— Eu também fiquei assim — comentou ele. — Passei dois dias procurando câmeras escondidas.
Antes que Basco pudesse responder, outros jovens começaram a aproximar-se espontaneamente, curiosos com a chegada do novo aluno. Um rapaz alto, loiro e extremamente simpático foi o primeiro.
— Sam Guthrie.
Estendeu a mão com um forte sotaque sulista.
— Kentucky.
Logo atrás apareceu Xi'an Coy Manh, conhecida entre todos como Karma, seguida por Rahne Sinclair, cuja timidez contrastava completamente com os olhos atentos que observavam discretamente cada movimento do recém-chegado. Amara Aquilla aproximou-se em silêncio, cumprimentando-o com um leve sorriso, enquanto Warlock literalmente surgiu do teto, descendo de maneira completamente desengonçada em sua forma biomecânica.
— Este amigo saúda novo amigo Basco!
O susto foi tão grande que Basco deu um passo para trás, arrancando gargalhadas gerais.
— Não liga.
Roberto tentava conter o riso.
— A gente também levou um susto na primeira vez.
Warlock inclinou a cabeça de maneira curiosa.
— Novo amigo assustou-se.
Fez uma breve pausa.
— Isto significa amizade iniciada corretamente.
Até Magneto permitiu que um discreto sorriso surgisse por alguns segundos.
Basco começou lentamente a relaxar. Pela primeira vez desde que desembarcara nos Estados Unidos, sentia que realmente poderia pertencer àquele lugar.
Foi então que outra presença alterou completamente o ambiente.
Uma garota desceu lentamente a escadaria principal segurando alguns livros contra o peito. Os cabelos loiros muito claros contrastavam com a roupa completamente negra, composta por uma jaqueta de couro, botas de cano alto e uma calça igualmente escura. Havia algo profundamente contraditório nela. O rosto transmitia delicadeza juvenil, mas seus olhos carregavam um cansaço incompatível com alguém daquela idade. Caminhava em silêncio, como se estivesse sempre escutando pensamentos que ninguém mais conseguia ouvir.
Roberto voltou-se imediatamente.
— Ah... falta alguém.
Sorriu discretamente.
— Basco, esta é Illyana Rasputin.
A jovem ergueu os olhos.
Observou o recém-chegado durante alguns segundos.
Nenhuma palavra.
Nenhum sorriso.
Apenas um olhar curioso, quase analítico.
Depois aproximou-se lentamente.
— Você é o menino da névoa.
Não era uma pergunta.
Basco demorou alguns segundos para responder.
— Acho que sim.
Ela inclinou discretamente a cabeça.
— Interessante.
Foi tudo o que disse antes de continuar caminhando pelo corredor.
Basco acompanhou-a com os olhos até que desaparecesse atrás de uma porta.
— Ela sempre é assim?
Perguntou em voz baixa.
Roberto deu de ombros.
— Nos dias bons.
Dani riu discretamente.
— Você acostuma.
Magneto observava toda aquela interação sem interferir. Havia um motivo para não apresentar formalmente os alunos. Charles Xavier sempre acreditara que amizades verdadeiras surgiam naturalmente, não por cerimônias organizadas. A escola ensinava controle de poderes, estratégia, história e ciência, mas também ensinava convivência. E isso não podia ser imposto.
Pouco depois, Erik conduziu Basco por um longo corredor até uma porta dupla localizada na ala oeste da mansão.
Ao abri-la, revelou um enorme ginásio completamente diferente de qualquer academia que o jovem brasileiro já conhecera.
Paredes metálicas.
Plataformas móveis.
Alvos automatizados.
Sistemas hidráulicos.
Estruturas capazes de modificar completamente o ambiente em poucos segundos.
No centro do salão destacava-se um gigantesco símbolo vermelho em forma de "X".
Basco permaneceu imóvel.
— O que é isso?
Magneto respondeu com absoluta naturalidade.
— Sala de Perigo.
Basco sorriu.
— Nome estranho.
— Nome honesto.
Erik caminhou lentamente até o centro do ambiente.
— Aqui vocês erram.
Fez uma pausa.
— Aqui vocês aprendem.
Outra.
— E, às vezes...
Voltou-se para Basco.
— Aqui vocês sobrevivem.
Naquele instante, o jovem brasileiro compreendeu que a Escola Xavier não era apenas um internato para adolescentes especiais.
Era uma preparação para uma guerra que ele ainda nem sabia existir.
Na manhã seguinte, Basco despertou antes mesmo do nascer do sol. O fuso horário ainda confundia seu organismo, e o silêncio da mansão contrastava profundamente com os ruídos constantes de São Paulo aos quais se acostumara durante toda a vida. Caminhou lentamente até a janela do quarto que lhe fora destinado e afastou a cortina. Uma fina camada de neblina cobria os extensos jardins da propriedade, deslizando entre árvores centenárias e escondendo parcialmente o lago localizado ao fundo do terreno. A imagem provocou nele uma estranha sensação de familiaridade. Desde o despertar de sua mutação, a névoa deixara de ser apenas um fenômeno climático. Parecia reconhecê-lo. Durante alguns segundos permaneceu observando aquele cenário completamente imóvel, até perceber que pequenas faixas de vapor aproximavam-se lentamente da janela, como se respondessem inconscientemente à sua presença. Respirou fundo, fechou novamente a cortina e decidiu afastar-se antes que alguém notasse qualquer manifestação inesperada.
Pouco depois desceu para o café da manhã. A cozinha da Mansão Xavier parecia mais um grande refeitório universitário do que a sala de refeições de uma residência comum. Jovens conversavam em diferentes idiomas, alguns discutiam estratégias de treinamento enquanto outros reclamavam da quantidade exagerada de exercícios físicos impostos por Magneto. Basco permaneceu alguns instantes parado à entrada, observando discretamente aquela movimentação. Era curioso perceber como mutantes, capazes de feitos extraordinários, discutiam assuntos absolutamente comuns. Havia quem reclamasse das provas de matemática, quem disputasse o último pedaço de pão e quem tentasse convencer Warlock de que torradas não deveriam ser mergulhadas em refrigerante. Pela primeira vez desde que atravessara os portões da escola, sentiu que aqueles adolescentes eram muito mais parecidos consigo do que diferentes.
Roberto acenou imediatamente quando o viu entrar.
— Ei, brasileiro! Aqui!
Basco aproximou-se carregando a bandeja.
Ao redor da mesa já estavam Danielle Moonstar, Sam Guthrie, Karma, Rahne, Amara e Warlock. A conversa interrompeu-se apenas por alguns segundos para que todos lhe dessem bom-dia. Em seguida, voltou naturalmente ao assunto anterior.
— Hoje é treinamento completo — comentou Sam enquanto passava manteiga sobre uma torrada. — Aposto cinco dólares que Magneto vai destruir metade da Sala de Perigo de novo.
— Ele nunca destrói a sala — respondeu Dani. — Só destrói nosso orgulho.
Roberto riu.
— Dá praticamente na mesma.
Basco escutava tudo com atenção. Aos poucos começava a compreender a dinâmica daquele grupo. Dani possuía uma liderança natural, mas sem autoritarismo. Sam era impulsivo e otimista. Roberto utilizava o humor como forma de aliviar qualquer tensão. Rahne falava pouco, observando muito mais do que comentava. Amara mantinha uma elegância tranquila que contrastava com o temperamento explosivo descrito pelos colegas. Warlock... bem, Warlock simplesmente parecia incapaz de agir de maneira previsível.
Enquanto terminavam o café, Illyana entrou silenciosamente no refeitório. Diferentemente dos demais, não se dirigiu imediatamente ao buffet. Pegou apenas uma caneca de café e sentou-se sozinha próxima à janela. Lia um livro antigo escrito em russo enquanto o vapor da bebida subia lentamente diante de seu rosto. Basco percebeu sua presença quase instantaneamente. Não sabia explicar o motivo, mas havia algo naquela garota que despertava uma curiosidade difícil de ignorar. Talvez fosse o contraste entre a aparência jovem e a profundidade melancólica de seu olhar. Talvez fosse apenas o fato de ela parecer completamente deslocada mesmo dentro de uma escola para mutantes.
Roberto acompanhou discretamente a direção do olhar do amigo.
— Ela passou boa parte da infância em outra dimensão.
Basco voltou-se imediatamente.
— Outra dimensão?
— Limbo.
Respondeu com absoluta naturalidade, como se falasse de um país vizinho.
— É complicado.
Sam resolveu completar a explicação.
— Muito complicado.
Rahne murmurou quase para si mesma:
— E muito triste.
Ninguém desenvolveu o assunto.
Basco percebeu imediatamente que existiam histórias naquela escola que ainda levariam tempo para ser contadas.
Pouco depois das oito horas, todos os Novos Mutantes reuniram-se diante da entrada da Sala de Perigo. Magneto já os aguardava. Vestia o tradicional uniforme escuro de treinamento, sem o capacete característico que costumava utilizar em missões. A ausência daquele símbolo tornava sua figura curiosamente mais humana, embora a autoridade permanecesse exatamente a mesma. Bastava sua presença para que as conversas cessassem naturalmente.
— Bom dia.
Sua voz ecoou pelo enorme salão.
— Hoje não treinaremos poderes.
Os alunos trocaram olhares discretos.
Aquilo era incomum.
Magneto caminhou lentamente diante da equipe.
— Existe um erro que acompanha praticamente todos os jovens mutantes quando chegam a esta escola.
Fez uma pausa.
— Acreditam que o maior desafio será aprender a controlar suas habilidades.
Parou exatamente diante de Basco.
— Estão enganados.
Continuou caminhando.
— Poderes são apenas ferramentas. A mente que decide como utilizá-los é infinitamente mais importante.
Tocou discretamente um pequeno painel na parede.
O ambiente transformou-se imediatamente.
As paredes desapareceram.
O piso metálico converteu-se em uma extensa floresta.
O céu artificial tornou-se cinzento.
O vento começou a soprar entre árvores que não existiam poucos segundos antes.
Basco permaneceu completamente imóvel.
Jamais imaginara uma tecnologia daquela magnitude.
Magneto observou discretamente sua reação.
— Bem-vindo à Sala de Perigo.
Continuou falando enquanto caminhava pela floresta simulada.
— Nenhum de vocês vencerá uma batalha apenas porque possui um dom extraordinário. Sobreviverão quando aprenderem a confiar uns nos outros.
Olhou alternadamente para cada integrante da equipe.
— A partir de hoje, Neblina passa oficialmente a integrar os Novos Mutantes.
Basco sentiu dezenas de olhares voltarem-se para ele.
Magneto prosseguiu.
— Seu codinome foi escolhido com base na manifestação registrada durante seu despertar. Entretanto, um codinome não representa apenas um poder.
Fez uma breve pausa.
— Representa quem vocês escolhem ser.
O silêncio voltou a dominar o ambiente.
Basco repetiu mentalmente aquela palavra.
Neblina.
Até poucos dias antes ela representava apenas o estranho fenômeno que transformara sua vida no estacionamento de um shopping.
Agora passava a definir sua identidade.
Não era mais apenas Basco Khassan Markel.
Era Neblina.
E, sem que percebesse, naquele exato momento começava a nascer o mutante que um dia seria conhecido muito além dos corredores da Escola Xavier.
O primeiro exercício não envolveu explosões, robôs gigantes ou inimigos simulados. Para surpresa de Basco, Magneto dividiu os alunos em duplas e distribuiu pequenos dispositivos metálicos pelo cenário criado pela Sala de Perigo. O objetivo parecia absurdamente simples: atravessar a floresta, localizar os equipamentos e retornar ao ponto de partida sem serem detectados pelos sensores espalhados pelo ambiente. A tarefa provocou olhares de evidente decepção entre alguns dos veteranos, acostumados a treinamentos muito mais intensos.
— Achei que hoje seria divertido — resmungou Sam, ajustando as luvas.
Magneto ouviu o comentário.
— É exatamente porque vocês pensam assim que continuam cometendo os mesmos erros.
O velho mutante caminhou lentamente entre os estudantes enquanto todos recebiam seus comunicadores.
— A maioria dos confrontos não é vencida por quem golpeia primeiro. É vencida por quem permanece invisível até o momento certo. Se um grupo de mutantes é localizado antes mesmo de alcançar seu objetivo, pouco importa a força que cada integrante possui.
Seu olhar encontrou o de Basco.
— Neblina... esta lição será especialmente importante para você.
Basco apenas assentiu.
Ainda não compreendia completamente a extensão de seus próprios poderes, mas começava a perceber que Magneto já enxergava possibilidades que ele sequer imaginava.
As equipes espalharam-se rapidamente pela floresta artificial. Basco foi colocado ao lado de Danielle Moonstar. Ela caminhava com absoluta tranquilidade, quase sem produzir qualquer ruído, observando constantemente o terreno ao redor antes de dar cada passo. Depois de alguns minutos em silêncio, percebeu que o brasileiro permanecia excessivamente atento aos próprios movimentos.
— Você está andando como quem espera uma armadilha a cada metro.
Basco sorriu discretamente.
— E não estou?
Ela balançou a cabeça.
— Está.
Fez uma breve pausa.
— Mas a armadilha nunca é o maior problema.
Ele voltou-se para ela.
— Não?
— O medo de encontrá-la costuma ser.
Continuaram caminhando entre árvores e rochas artificiais até que Dani levantou discretamente a mão, indicando que ele permanecesse imóvel. Alguns metros adiante, pequenos feixes de luz cruzavam silenciosamente o caminho entre duas árvores. Sensores.
— Viu?
Ela apontou.
— Se estivesse olhando apenas para os pés, já teria acionado o alarme.
Basco respirou fundo.
Começava a compreender que aquele treinamento tinha muito menos relação com habilidades mutantes do que com percepção.
Prosseguiram lentamente até localizar o primeiro dispositivo metálico escondido sob um tronco caído. Quando Basco estendeu a mão para recolhê-lo, ouviu um leve estalo vindo das copas das árvores.
— Não se mexa.
A voz de Dani saiu quase como um sussurro.
Acima deles, pequenos drones de treinamento aproximavam-se silenciosamente. Basco sentiu imediatamente o coração acelerar. A ansiedade provocou uma alteração involuntária em sua respiração e, antes que pudesse impedir, uma fina camada de névoa começou a espalhar-se ao redor de seus pés.
Danielle percebeu no mesmo instante.
— Calma.
Ela manteve a voz firme.
— Não lute contra isso.
Basco fechou os olhos por um breve instante, tentando recuperar o controle. A névoa continuava aumentando lentamente, envolvendo raízes, pedras e arbustos próximos. Os drones reduziram imediatamente a velocidade. Seus sensores ópticos passaram a procurar alvos através do vapor cada vez mais espesso.
Dani sorriu.
— Interessante...
Basco abriu os olhos.
— O quê?
— Eles perderam você.
Foi apenas então que ele percebeu.
Os drones patrulhavam a poucos metros de distância, mas seus feixes de varredura já não conseguiam atravessar completamente a neblina produzida por sua mutação. Pela primeira vez desde o despertar no Shopping Eldorado, seu poder revelava espontaneamente uma aplicação prática. Não era apenas uma manifestação atmosférica.
Era uma camuflagem.
Uma ferramenta de infiltração.
Talvez muito mais do que isso.
Enquanto observava o comportamento dos drones, uma voz ecoou pelos comunicadores de toda a equipe.
— Exercício encerrado.
A floresta desapareceu instantaneamente. Árvores, pedras e céu artificial dissolveram-se como projeções holográficas, devolvendo lugar ao enorme salão metálico da Sala de Perigo. Magneto permanecia exatamente onde estivera no início do treinamento, acompanhado por alguns instrutores responsáveis pelos sistemas da instalação.
Os alunos aproximaram-se formando um semicírculo.
Erik começou a caminhar lentamente diante deles.
— Sam.
O rapaz levantou discretamente a cabeça.
— Você completou a missão em menos tempo do que qualquer outro grupo.
Sam sorriu.
— Obrigado.
— Também acionou nove sensores.
O sorriso desapareceu.
Magneto continuou caminhando.
— Roberto.
— Sim?
— Excelente controle de energia. Péssima disciplina de deslocamento.
Roberto suspirou.
— Eu sabia...
Quando finalmente parou diante de Basco e Danielle, permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Moonstar.
Ela aguardou.
— Boa liderança.
Depois voltou-se para o brasileiro.
— Neblina.
Basco endireitou a postura.
— Você ainda não controla sua mutação.
Fez uma pausa.
— Mas ela já começou a protegê-lo antes mesmo que percebesse.
O jovem permaneceu atento.
Magneto prosseguiu.
— Há mutantes que impõem respeito pela força. Outros pela velocidade. Alguns pela inteligência.
Seu olhar tornou-se ainda mais firme.
— Você poderá dominar completamente um campo de batalha sem que o inimigo sequer compreenda onde começou o ataque.
O silêncio tomou conta da sala.
Nem mesmo Basco imaginara aquela possibilidade.
Magneto encerrou a avaliação sem alterar o tom de voz.
— Nunca trate seu dom como fumaça.
Aproximou-se apenas o suficiente para que somente o rapaz escutasse a frase seguinte.
— A névoa não serve apenas para esconder.
Fez uma breve pausa.
— Ela serve para separar pessoas daquilo em que acreditam enxergar.
Basco permaneceu imóvel.
Não compreendeu totalmente aquelas palavras.
Mas, anos depois, durante inúmeras missões ao redor do mundo, lembraria exatamente daquela frase.
E descobriria que Magneto já havia enxergado, no primeiro dia de treinamento, o verdadeiro potencial do mutante que acabava de receber o nome de Neblina.
Os dias transformaram-se rapidamente em semanas, e as semanas começaram a dissolver-se umas nas outras como a própria névoa que respondia aos pensamentos de Basco. A adaptação à Escola Xavier aconteceu de forma muito mais natural do que imaginara durante a viagem. O idioma, inicialmente uma barreira quase intransponível, passou a fazer parte da rotina graças à convivência constante com Roberto da Costa, que alternava frases em português e inglês com uma espontaneidade impressionante. Danielle assumiu discretamente a responsabilidade de ajudá-lo durante os treinamentos táticos, enquanto Sam fazia questão de envolvê-lo em praticamente todas as atividades esportivas da escola. Pouco a pouco, o jovem brasileiro deixava de ser "o aluno novo" para tornar-se apenas mais um integrante dos Novos Mutantes. Pela primeira vez desde o desaparecimento de Edher, experimentava uma sensação de pertencimento que jamais encontrara em qualquer outro lugar.
A rotina da Mansão Xavier era muito mais exigente do que Basco imaginara. As manhãs eram dedicadas às disciplinas tradicionais — matemática, literatura, física, biologia, história mundial e idiomas — ministradas por professores que, em muitos casos, sequer eram mutantes. Magneto fazia questão de preservar uma parte importante da filosofia construída por Charles Xavier: antes de aprender a utilizar um dom extraordinário, cada aluno precisava tornar-se um ser humano intelectualmente preparado para compreender o mundo em que vivia. À tarde começavam os treinamentos específicos. Controle de poderes, estratégia, trabalho em equipe, primeiros socorros, sobrevivência e combate ocupavam horas inteiras da programação diária. Não existia espaço para improvisação. Erik repetia constantemente que um mutante despreparado representava perigo tanto para os inimigos quanto para os próprios companheiros.
Basco descobriu rapidamente que seu treinamento seria diferente do restante da equipe. Enquanto Sam aperfeiçoava trajetórias de voo e Roberto aprendia a modular melhor a energia solar absorvida pelo corpo, Neblina enfrentava um desafio muito menos objetivo: compreender a natureza da própria mutação. Diversos exercícios eram realizados em ambientes completamente fechados, onde sensores registravam temperatura, umidade, densidade do vapor e consumo energético de seu organismo. Inicialmente a névoa surgia apenas quando emoções intensas escapavam ao seu controle. Medo, ansiedade ou lembranças relacionadas ao pai eram suficientes para preencher completamente a sala de testes. Com o passar dos meses, porém, começou lentamente a produzir o fenômeno de maneira consciente. Descobriu que não criava simplesmente vapor d'água. Seu corpo parecia converter parte da própria energia biológica em uma matéria extremamente instável, situada entre o estado físico e o gasoso. A névoa obedecia aos seus pensamentos com uma precisão crescente, infiltrando-se por pequenas frestas, contornando obstáculos e modificando completamente a visibilidade do ambiente.
Foi durante uma dessas avaliações que Hank McCoy, o Fera, convidado ocasionalmente para analisar jovens mutantes, chegou a uma conclusão que chamou imediatamente a atenção de Magneto. Depois de examinar longamente os resultados obtidos pelos equipamentos, retirou os óculos, observou novamente a massa de vapor espalhada pela sala e comentou em tom quase científico:
— Isto não é uma simples manipulação atmosférica.
Erik permaneceu em silêncio.
Hank continuou.
— A mutação dele cria uma interface entre matéria, energia e espaço. A névoa é apenas a manifestação visível de algo muito mais complexo.
Basco observava os dois sem compreender completamente os termos utilizados.
— Em português... isso significa o quê?
Fera sorriu.
— Significa que ainda não fazemos ideia de tudo o que você será capaz de fazer.
Magneto cruzou lentamente os braços.
— Eu suspeitava disso.
A partir daquele dia, o treinamento tornou-se ainda mais cuidadoso. Erik proibiu expressamente qualquer tentativa de forçar os limites da mutação sem acompanhamento. Não queria produzir outro incidente semelhante ao ocorrido no Shopping Eldorado. Preferia que o desenvolvimento acontecesse lentamente, respeitando o amadurecimento físico e emocional do rapaz. Alguns alunos estranharam aquele cuidado especial, mas Danielle compreendeu imediatamente a razão.
— Você ainda está crescendo — explicou certa tarde enquanto caminhavam pelos jardins da mansão. — O problema não é o poder. É tentar descobrir tudo de uma vez.
Basco olhava distraidamente o lago refletindo o céu do início do outono.
— Às vezes sinto que existe alguma coisa presa dentro da névoa.
Dani voltou-se para ele.
— Como assim?
Ele demorou alguns segundos para encontrar as palavras.
— Não são vozes o tempo inteiro... mas existem momentos em que tenho a impressão de que ela quer me mostrar alguma coisa.
Danielle permaneceu em silêncio.
Sua mutação permitia perceber aspectos emocionais profundos das pessoas, e havia aprendido a confiar naquilo que os outros descreviam mesmo quando parecia impossível explicar racionalmente.
— Já contou isso ao Magneto?
Basco balançou a cabeça.
— Ainda não.
Ela sorriu discretamente.
— Então conte.
— Você acha importante?
— Acho que nada relacionado ao seu poder deve permanecer escondido.
Basco concordou com um leve movimento de cabeça, embora não tivesse certeza de que conseguiria explicar aquela sensação ao diretor da escola.
Naquela mesma noite, porém, descobriu que talvez não fosse necessário. Ao atravessar um dos corredores da mansão em direção à biblioteca, encontrou Magneto observando silenciosamente a chuva cair sobre os jardins. O velho mutante parecia perdido em pensamentos. Sem desviar o olhar da janela, falou antes mesmo que Basco anunciasse sua presença.
— Você quer me perguntar alguma coisa.
O rapaz sorriu, surpreso.
— Como sabe?
— Porque caminha mais devagar quando está pensando.
Basco aproximou-se da janela.
Durante alguns segundos ambos permaneceram observando a água escorrer lentamente pelos vidros.
Por fim, decidiu falar.
— Às vezes sinto que minha névoa... tenta me conduzir para algum lugar.
Magneto não demonstrou qualquer surpresa.
Continuou olhando para a chuva.
— E você tem medo disso.
Não era uma pergunta.
Basco confirmou em silêncio.
Erik respirou profundamente antes de responder.
— Alguns poderes se comportam como músculos.
Fez uma breve pausa.
— Outros se comportam como idiomas.
Voltou-se finalmente para o jovem.
— E existem mutações que se comportam como memória.
Basco franziu a testa.
— Memória?
— Sim.
A voz de Magneto tornou-se ainda mais baixa.
— Há habilidades que carregam ecos de tudo aquilo que seus portadores viveram... ou viverão.
O rapaz permaneceu imóvel.
Erik concluiu sem alterar a serenidade:
— Antes de tentar descobrir para onde sua névoa quer levá-lo, descubra primeiro quem você será quando chegar lá.
Basco saiu daquela conversa sem respostas objetivas.
Mas, pela primeira vez, deixou de acreditar que os estranhos sussurros escondidos em sua mutação fossem simples ilusões.
Talvez a névoa realmente guardasse algo.
E talvez aquele segredo estivesse ligado ao desaparecimento de Edher muito antes do que ele seria capaz de imaginar.
Com o passar dos meses, a Escola Xavier deixou de representar apenas um local de treinamento. Tornou-se um pequeno universo isolado do restante do mundo, onde os dias eram marcados por aulas, exercícios, missões simuladas e uma convivência intensa que aproximava jovens vindos de realidades completamente diferentes. Basco percebeu que cada corredor da mansão escondia uma história. Havia alunos que perderam a família ao manifestarem seus poderes, outros haviam sido rejeitados por comunidades inteiras e alguns sequer sabiam seus verdadeiros sobrenomes. Pela primeira vez compreendeu que sua dor, embora profundamente pessoal, não era exclusiva. Todos ali carregavam algum tipo de ausência.
As noites tornaram-se seu período favorito. Depois que os treinamentos terminavam e o movimento da escola diminuía, costumava caminhar sozinho pelos jardins iluminados apenas pela lua. O lago refletia as estrelas com uma tranquilidade quase hipnótica, enquanto a névoa natural do início da primavera espalhava-se lentamente entre as árvores. Curiosamente, nesses momentos sua mutação permanecia completamente estável. Não havia esforço consciente para produzir vapor. Era como se a própria natureza acolhesse sua presença. Basco começou a perceber que existia uma diferença importante entre criar névoa e tornar-se parte dela. Quando permanecia calmo, os limites entre seu corpo e o ambiente pareciam diminuir. Não era uma transformação completa, mas uma estranha sensação de pertencimento, como se pudesse sentir o movimento do vento antes mesmo que ele tocasse sua pele.
Numa dessas caminhadas encontrou Illyana sentada sobre um antigo banco de pedra próximo ao lago. Ela mantinha um grosso livro aberto sobre os joelhos, mas claramente não estava lendo. Seus olhos permaneciam perdidos na superfície da água, enquanto pequenas faíscas azuladas surgiam ocasionalmente entre seus dedos antes de desaparecerem novamente. Basco hesitou por alguns instantes. Desde o primeiro dia de aula, os dois quase não haviam conversado além de cumprimentos ocasionais nos corredores ou durante os treinamentos. Ainda assim, havia uma curiosidade silenciosa entre eles que nenhum dos dois parecia disposto a admitir.
— Posso sentar?
Illyana levantou lentamente os olhos.
Observou-o durante alguns segundos.
Depois fechou o livro.
— Se não se importar com o silêncio.
Basco sorriu discretamente.
— Acho que o silêncio é uma das poucas línguas que falo fluentemente.
Ela não respondeu imediatamente.
Mas um pequeno sorriso apareceu no canto de seus lábios.
Os dois permaneceram alguns minutos apenas observando o lago. Estranhamente, o silêncio não era desconfortável. Pelo contrário. Parecia haver uma compreensão mútua de que algumas pessoas não precisavam preencher todos os espaços com palavras.
Foi Illyana quem rompeu aquele equilíbrio.
— Você sente falta do Brasil todos os dias.
Basco voltou-se para ela.
— Como sabe?
Ela deu de ombros.
— Porque eu sinto falta da Rússia todos os dias.
Ele abaixou os olhos.
— Achei que você tivesse crescido aqui.
Illyana permaneceu alguns instantes olhando para o céu.
— Cresci em muitos lugares.
Sua voz tornou-se mais baixa.
— Alguns deles nem existem neste mundo.
Basco percebeu imediatamente que ela falava do Limbo. Roberto e Danielle haviam mencionado aquela dimensão apenas superficialmente, sempre mudando de assunto logo em seguida. Pela maneira como Illyana pronunciava aquelas palavras, compreendeu que aquele passado ainda permanecia profundamente aberto.
— Deve ter sido difícil.
Ela soltou uma pequena risada sem alegria.
— Difícil?
Fez uma pausa.
— Eu era apenas uma criança quando fui levada para lá. Enquanto meus amigos aprendiam matemática e brincavam em parques, eu aprendia a sobreviver entre demônios.
Basco permaneceu em silêncio.
Qualquer tentativa de consolar alguém diante de uma história como aquela pareceria ridícula.
Illyana voltou lentamente o olhar para ele.
— E você?
— O quê?
— Do que está fugindo?
A pergunta o atingiu de maneira inesperada.
Durante alguns segundos tentou responder automaticamente que não fugia de nada. Percebeu, entretanto, que estaria mentindo.
Respirou fundo.
— Acho que estou tentando alcançar meu pai.
Ela inclinou discretamente a cabeça.
— Não é a mesma coisa.
Basco sorriu pela primeira vez naquela noite.
— Talvez não.
Os dias passaram, e aqueles encontros casuais tornaram-se cada vez mais frequentes. Às vezes conversavam durante poucos minutos depois do jantar. Em outras ocasiões caminhavam pelos jardins sem trocar uma única palavra. Basco descobriu que Illyana possuía um senso de humor extremamente sutil, quase invisível para quem a conhecia superficialmente. Ela, por sua vez, começou a perceber que o brasileiro escondia a insegurança atrás de uma serenidade muito parecida com a de Edher, embora obviamente nunca tivesse conhecido seu pai.
Danielle observava discretamente essa aproximação.
Certa tarde, enquanto treinavam na Sala de Perigo, aproximou-se de Roberto durante um intervalo.
— Você percebeu?
Roberto sorriu imediatamente.
— Todo mundo percebeu.
Sam, que passava carregando uma garrafa d'água, ouviu apenas o suficiente para comentar:
— Eles ainda não.
Os três riram discretamente.
Até Magneto começou a notar pequenas mudanças no comportamento de Basco. O rapaz, antes excessivamente introspectivo, passou a participar mais ativamente dos exercícios coletivos. Demonstrava maior confiança nas próprias decisões e, curiosamente, seu controle sobre a névoa evoluía sempre que trabalhava em equipe. Erik observava tudo sem fazer comentários. Aprendera havia muito tempo que certos vínculos fortaleciam jovens mutantes muito mais do que qualquer treinamento físico.
Foi também nesse período que Neblina participou de sua primeira missão real.
Não se tratava de uma grande batalha contra supervilões.
Nem de um confronto capaz de mudar o destino do mundo.
Era uma simples operação de resgate envolvendo uma adolescente mutante localizada no interior do estado de Ohio, cuja manifestação de poderes provocara um incêndio em uma pequena fazenda. A missão parecia relativamente simples. Magneto levou apenas Danielle, Roberto, Sam, Basco e Illyana. Antes de embarcarem no jato da escola, reuniu a equipe diante da aeronave.
— Prestem atenção.
Esperou até que todos estivessem completamente concentrados.
— Nosso objetivo não é combater.
Nem capturar.
Nem demonstrar força.
Seu olhar percorreu lentamente cada integrante.
— Vamos buscar uma menina que provavelmente está tão assustada quanto vocês estiveram no dia em que seus poderes despertaram.
Fez uma breve pausa.
— Nunca esqueçam disso.
Enquanto caminhava em direção ao Blackbird, Basco compreendeu que aquela seria a primeira vez em que pisaria fora dos muros da Mansão Xavier não como um estudante.
Mas como um X-Man em formação.
Sem perceber, acabava de atravessar outra fronteira importante de sua vida.
Era o início de uma jornada que, muito em breve, deixaria de envolver apenas treinamentos.
O mundo começava lentamente a chamá-lo para a guerra.
A viagem até Ohio durou pouco mais de uma hora, mas, para Basco, pareceu representar uma travessia muito maior do que a distância percorrida pelo Blackbird. Era a primeira vez que deixava os limites da Escola Xavier desde sua chegada aos Estados Unidos e, principalmente, a primeira vez que participaria de uma missão real. Enquanto a aeronave cortava as nuvens em velocidade impressionante, ele permaneceu observando a paisagem pela pequena janela oval ao seu lado. Lá embaixo, cidades, rios e extensas áreas agrícolas passavam rapidamente sob o avião, compondo um cenário completamente diferente da verticalidade de Nova York. O silêncio dentro da cabine contrastava com a ansiedade que crescia em seu peito. Roberto folheava distraidamente uma revista sobre automobilismo; Sam conferia repetidamente os equipamentos de comunicação; Danielle estudava mapas da região; Illyana permanecia sentada ao fundo, lendo um antigo volume encadernado em couro cuja escrita Basco já reconhecia como russo. Apenas Magneto parecia completamente indiferente ao voo. Mantinha os olhos fechados, as mãos apoiadas sobre a bengala metálica que raramente utilizava por necessidade física, mas quase sempre como símbolo de autoridade.
Depois de alguns minutos, Erik abriu os olhos e dirigiu-se ao grupo sem elevar a voz.
— Antes de chegarmos, existe uma diferença importante que vocês precisam compreender.
Todos voltaram imediatamente a atenção para ele.
— A maioria das pessoas acredita que nossa função seja combater mutantes perigosos.
Fez uma breve pausa.
— Estão erradas.
Levantou-se lentamente.
— Nossa verdadeira função é impedir que o medo transforme pessoas comuns em inimigos... e jovens mutantes em monstros.
Basco permaneceu atento.
Magneto aproximou-se do mapa projetado sobre uma pequena tela instalada na cabine.
— A garota que iremos encontrar chama-se Emily Carter. Tem treze anos. Seu poder manifestou-se ontem à noite durante uma discussão familiar. O incêndio destruiu parte da propriedade onde mora. Não houve vítimas fatais, mas dois bombeiros ficaram feridos tentando aproximar-se dela.
Roberto cruzou os braços.
— Ela ainda está lá?
— Sim.
Respondeu Erik.
— Segundo nossas informações, permanece escondida na floresta próxima à fazenda. As autoridades acreditam tratar-se de uma adolescente em choque.
Seus olhos tornaram-se mais sérios.
— Nós sabemos que ela está aterrorizada.
Ninguém fez perguntas.
A missão, de repente, deixava de parecer um simples exercício supervisionado.
Pouco antes do pouso, o Blackbird aterrissou silenciosamente em uma clareira afastada da propriedade. O cheiro de madeira queimada podia ser sentido antes mesmo que a rampa traseira fosse aberta. Assim que desceram da aeronave, Basco observou colunas de fumaça ainda subindo entre as árvores. Caminhões do corpo de bombeiros permaneciam estacionados próximos aos escombros da casa principal, enquanto viaturas policiais isolavam parte da estrada de acesso. O cenário transmitia uma estranha sensação de abandono. Não havia gritos nem correria. Apenas o silêncio característico dos lugares onde a tragédia já aconteceu.
Magneto reuniu rapidamente a equipe.
— Danielle.
Ela deu um passo à frente.
— Quero que utilize sua percepção para localizar Emily. Não a force a fazer contato. Apenas descubra onde está.
Dani fechou lentamente os olhos. O ambiente pareceu mergulhar em absoluto silêncio enquanto ela expandia sua percepção empática. Alguns segundos depois apontou discretamente para a mata ao norte da propriedade.
— Aproximadamente oitocentos metros.
Abriu novamente os olhos.
— Está sozinha.
Respirou fundo.
— E completamente desesperada.
Erik voltou-se para os demais.
— Sam e Roberto permanecem na retaguarda caso alguma autoridade tente aproximar-se da área. Illyana abrirá um portal apenas se precisarmos de evacuação imediata.
Por fim olhou diretamente para Basco.
— Você vem comigo.
O coração do jovem acelerou imediatamente.
Caminharam em silêncio pela floresta durante vários minutos. O solo ainda estava úmido por causa da chuva da noite anterior, e pequenos galhos quebravam sob seus pés enquanto avançavam entre árvores densas. Basco procurava controlar a respiração, lembrando-se das lições aprendidas nos treinamentos. Não era hora de permitir que a ansiedade despertasse involuntariamente sua névoa.
Depois de aproximadamente dez minutos, Danielle levantou discretamente a mão.
Todos pararam.
À frente, escondida entre arbustos e troncos caídos, uma garota encolhida abraçava os próprios joelhos. As roupas estavam chamuscadas, o rosto coberto por fuligem e pequenas chamas surgiam involuntariamente entre seus dedos sempre que começava a chorar. Bastava uma lágrima escorrer para que folhas secas ao redor pegassem fogo imediatamente.
Basco sentiu um aperto no peito.
Não enxergava uma ameaça.
Via apenas uma criança.
Emily percebeu a aproximação e levantou-se bruscamente.
— Não cheguem perto!
Sua voz tremia.
As chamas aumentaram instantaneamente ao redor do corpo.
— Eu... eu não quero machucar ninguém!
Magneto permaneceu imóvel.
Não deu mais um único passo.
— Nós sabemos.
Sua voz saiu calma.
Serena.
Quase paternal.
— Também sabemos que você não provocou isso de propósito.
A menina balançava a cabeça compulsivamente.
— Meu pai tentou me segurar...
As lágrimas aumentaram.
— Depois veio fogo por toda parte...
Ela olhou desesperadamente para as próprias mãos.
— Eu sou um monstro!
Antes que qualquer outra pessoa pudesse responder, Basco deu um passo à frente.
Magneto não o impediu.
O brasileiro aproximou-se lentamente, mantendo as mãos visíveis.
— Posso te contar uma coisa?
Emily permaneceu imóvel.
Ele continuou.
— Há poucas semanas eu também pensei que fosse um monstro.
A garota ergueu lentamente os olhos.
Basco respirou fundo.
— Meu poder apareceu de repente.
Sorriu discretamente.
— Achei que minha vida tivesse acabado.
Fez uma breve pausa.
— Descobri que ela estava apenas começando.
As chamas diminuíram ligeiramente.
Emily observava aquele rapaz de sotaque estranho que falava com tanta tranquilidade.
— Você... também é igual a mim?
Basco confirmou com um leve movimento de cabeça.
Sem dizer mais nada, deixou que uma pequena faixa de névoa surgisse lentamente ao redor de seus pés. Não havia espetáculo. Nem demonstração de força. Apenas um delicado véu branco deslizando sobre a vegetação úmida da floresta.
Os olhos da menina arregalaram-se.
Pela primeira vez desde o incêndio, ela via outra pessoa capaz de fazer algo impossível.
E, mais importante que isso...
Via alguém que não tinha medo daquilo que era.
Magneto observava a cena em absoluto silêncio.
Não interferiu.
Naquele momento compreendeu que Basco acabara de aprender a lição mais importante que a Escola Xavier poderia ensinar.
O verdadeiro poder de um mutante não estava na capacidade de vencer batalhas.
Estava na capacidade de impedir que outro jovem atravessasse sozinho o mesmo medo que um dia quase o destruiu.
Sem que percebesse, naquele instante Neblina dava seu primeiro passo não apenas como aluno da Escola Xavier.
Mas como um verdadeiro X-Man.
A volta para Westchester aconteceu sob um clima completamente diferente da viagem de ida. Emily Carter permanecia acomodada na parte traseira do Blackbird, envolvida por um cobertor térmico e observando a paisagem através da pequena janela da aeronave. Ainda havia medo em seus olhos, mas já não era o pânico absoluto encontrado na floresta. Danielle permanecia sentada ao seu lado, conversando em voz baixa sobre assuntos que nada tinham relação com mutações, incêndios ou tragédias. Falavam sobre livros, animais de estimação e música. Basco percebeu que aquilo também fazia parte do trabalho da Escola Xavier: devolver aos poucos a normalidade para jovens que acreditavam tê-la perdido para sempre.
Magneto caminhou silenciosamente até a cabine principal e permaneceu alguns minutos observando os instrumentos de navegação. Quando retornou, encontrou Basco sentado sozinho próximo à janela. O rapaz parecia distante, revivendo mentalmente tudo o que acontecera naquela missão. Erik sentou-se ao seu lado sem dizer palavra alguma. Durante alguns minutos, ambos permaneceram observando apenas as nuvens que passavam lentamente sob a aeronave.
— Você fez a escolha correta.
Basco voltou discretamente o rosto.
— Eu só conversei com ela.
— Exatamente.
Magneto manteve o olhar voltado para o horizonte.
— Muitos mutantes acreditam que salvar alguém significa derrotar um inimigo.
Fez uma pequena pausa.
— Hoje você descobriu que, às vezes, salvar alguém significa apenas fazê-lo sentir que não está sozinho.
Basco permaneceu em silêncio. Recordava-se perfeitamente do momento em que Emily o chamou de monstro. Durante alguns segundos, tivera a impressão de ouvir sua própria voz semanas antes, ainda no estacionamento do Shopping Eldorado. Pela primeira vez compreendia que aquele episódio não representava apenas o nascimento de seus poderes. Representava também a origem de uma responsabilidade que jamais imaginara assumir.
Ao pousarem na Mansão Xavier, a rotina da escola parecia seguir exatamente como havia sido deixada poucas horas antes. Alguns alunos treinavam nos jardins, outros caminhavam entre os corredores carregando livros e equipamentos esportivos, enquanto Warlock tentava convencer dois professores de que torradeiras possuíam sentimentos. A aparente normalidade contrastava profundamente com a experiência vivida por Basco em Ohio. Em menos de um dia descobrira que existiam muitos jovens espalhados pelo mundo despertando para o Gene X sem qualquer preparação, exatamente como acontecera com ele. Aquela percepção alterou completamente sua maneira de enxergar a própria escola. A Mansão Xavier já não era apenas um internato para mutantes. Era um porto seguro em um oceano onde inúmeros adolescentes navegavam completamente à deriva.
Os meses seguintes consolidaram essa nova visão. As missões tornaram-se mais frequentes e também mais complexas. Algumas envolviam apenas operações discretas de resgate semelhantes à de Emily. Outras exigiam infiltrações, negociações diplomáticas ou o apoio dos próprios X-Men veteranos quando a situação ultrapassava a capacidade dos Novos Mutantes. Basco descobriu rapidamente que o uniforme utilizado durante essas operações carregava um peso muito maior do que imaginara. Vesti-lo significava representar tudo aquilo que Charles Xavier construíra durante décadas. Não bastava dominar os próprios poderes. Era preciso agir com disciplina, compaixão e equilíbrio, mesmo diante de pessoas que os enxergavam como ameaças.
Sua mutação também continuava evoluindo. Em determinado treinamento, Magneto propôs um exercício aparentemente simples: atravessar uma instalação militar simulada sem ser detectado por qualquer sensor eletrônico. Enquanto Roberto neutralizava câmeras utilizando rajadas de energia solar e Sam desviava rapidamente das áreas monitoradas, Basco experimentou algo completamente novo. Em vez de espalhar a névoa ao redor do próprio corpo, concentrou-a lentamente sobre todo o corredor por onde a equipe precisava avançar. O vapor tornou-se tão denso que os sistemas ópticos da Sala de Perigo passaram a registrar apenas uma massa uniforme de interferência. Quando os sensores tentaram recalibrar automaticamente seus parâmetros, já era tarde. Toda a equipe havia atravessado a área sem deixar qualquer registro visual.
Ao término do exercício, Hank McCoy analisou longamente os relatórios produzidos pelos computadores antes de chamar Magneto para uma conversa reservada. Basco não ouviu tudo o que disseram, mas conseguiu perceber trechos suficientes para compreender a importância daquela descoberta.
— Ele não está escondendo apenas pessoas...
comentou Hank enquanto ampliava alguns gráficos na tela.
— Está confundindo completamente a capacidade do ambiente de produzir informação confiável.
Magneto cruzou lentamente os braços.
— Explique.
— A névoa não bloqueia apenas a visão.
Fera apontou para diferentes leituras dos sensores.
— Ela interfere em temperatura, umidade, reflexão luminosa, propagação sonora... é como se alterasse a percepção física do espaço.
Permaneceu alguns segundos observando os resultados.
— Se continuar evoluindo nesse ritmo...
interrompeu a própria frase.
Erik concluiu por ele.
— Poderá transformar qualquer campo de batalha em território dele.
A conversa terminou ali, mas aquelas palavras permaneceram gravadas na memória de Basco. Pela primeira vez começou a compreender por que Magneto insistia tanto para que jamais tratasse sua mutação como simples fumaça. A névoa não escondia apenas corpos. Ela confundia certezas. Obrigava adversários a questionarem os próprios sentidos. Era um poder silencioso, psicológico, quase invisível. Talvez justamente por isso fosse tão perigoso.
Entretanto, enquanto Neblina evoluía como mutante, outra transformação acontecia de maneira muito mais discreta. Seus encontros ocasionais com Illyana deixaram de ser coincidências. Sem que qualquer um dos dois combinasse previamente, acabavam escolhendo os mesmos horários para caminhar pelos jardins, estudar na biblioteca ou permanecer em silêncio observando o lago ao anoitecer. Às vezes conversavam durante horas sobre livros, música ou diferenças culturais entre Brasil, Rússia e Estados Unidos. Em outras ocasiões, simplesmente compartilhavam o silêncio. Curiosamente, Basco nunca se sentia desconfortável diante dela. Illyana também parecia baixar a guarda apenas quando estavam sozinhos.
Foi Danielle quem percebeu primeiro.
Numa tarde de sábado, enquanto observava os dois caminhando lentamente pelos jardins cobertos pelas folhas douradas do outono, aproximou-se de Roberto com um sorriso divertido.
— Quanto tempo você acha que eles vão demorar para perceber?
Roberto acompanhou discretamente a cena.
Basco falava alguma coisa enquanto Illyana, raridade absoluta, ria de verdade.
Ele cruzou os braços.
— Conhecendo o Basco...
pensou por alguns segundos.
— Uns seis meses.
Danielle soltou uma pequena gargalhada.
— Você é otimista.
Os dois voltaram a observar o casal à distância. Nenhum deles imaginava que aquele sentimento nascente seria colocado à prova muito antes do que qualquer um desejaria. O mundo dos mutantes aproximava-se rapidamente de uma sequência de conflitos que marcaria definitivamente toda uma geração. A Academia Massachusetts de Emma Frost começava a mover suas peças. O Clube do Inferno reorganizava antigas alianças. E, em um futuro ainda invisível para aqueles jovens, o Inferno preparava-se silenciosamente para abrir seus portões sobre Manhattan.
Mas, naquela tarde de outono, tudo isso ainda parecia muito distante.
Existiam apenas dois adolescentes caminhando entre árvores antigas, descobrindo um no outro um raro abrigo em meio ao caos que ambos carregavam por dentro.
E, por alguns instantes, isso foi suficiente para fazer o mundo parecer um lugar extraordinariamente simples.
O inverno chegou ao estado de Nova York trazendo consigo uma sucessão de dias cinzentos, ventos cortantes e manhãs cobertas por uma névoa natural que transformava completamente a paisagem ao redor da Mansão Xavier. Para quase todos os alunos, tratava-se apenas de mais uma mudança de estação. Para Basco, porém, o inverno parecia despertar algo profundamente ligado à sua mutação. A cada amanhecer, quando atravessava os jardins rumo ao prédio principal, tinha a impressão de que a névoa espalhada entre as árvores o reconhecia. Não era apenas uma sensação poética. Diversas vezes Danielle e Roberto observaram discretas alterações no comportamento do vapor sempre que ele se aproximava, como se pequenas correntes invisíveis reorganizassem lentamente a paisagem ao seu redor.
Hank McCoy passou a dedicar parte de suas pesquisas ao fenômeno. Durante semanas realizou dezenas de testes utilizando equipamentos meteorológicos, sensores térmicos e analisadores moleculares desenvolvidos pelo próprio Instituto Xavier. Quanto mais informações reunia, mais intrigado ficava. Nenhum dos resultados seguia padrões conhecidos da física atmosférica. A névoa produzida por Basco apresentava características impossíveis de coexistirem naturalmente: condensava-se sem perda significativa de temperatura, mantinha estabilidade mesmo em ambientes extremamente secos e, principalmente, parecia responder a estímulos neurológicos antes mesmo que qualquer alteração fisiológica fosse registrada em seu organismo. Certa tarde, depois de encerrar mais uma bateria de exames, Hank procurou Magneto na biblioteca da mansão.
— Tenho uma hipótese.
Erik fechou lentamente o livro que lia.
— Imagino que tenha várias.
O cientista sorriu.
— Esta merece atenção.
Colocou alguns relatórios sobre a mesa.
— Acho que estamos estudando o fenômeno da maneira errada.
Magneto permaneceu em silêncio.
— Todos nós partimos do princípio de que Basco produz a névoa.
Fez uma pequena pausa.
— Mas talvez seja exatamente o contrário.
Erik ergueu discretamente uma sobrancelha.
— Explique.
— Talvez exista uma forma de energia associada ao Gene X que utilize a névoa apenas como manifestação visível.
Apontou para diversos gráficos.
— Não controlamos fumaça quando pensamos. Também não controlamos eletricidade quando lembramos de alguma coisa. Utilizamos processos biológicos invisíveis para produzir efeitos visíveis. A mutação dele pode seguir exatamente esse princípio.
Magneto observou atentamente os documentos.
— Em outras palavras...
— A névoa talvez não seja o poder.
Hank concluiu.
— Talvez seja apenas a consequência dele.
A conversa permaneceu ecoando na mente de Erik durante vários dias. Pela primeira vez desde a chegada do brasileiro à escola, passou a observá-lo não apenas como um jovem mutante promissor, mas como alguém cuja mutação poderia esconder mecanismos completamente desconhecidos até mesmo para os padrões do Instituto Xavier.
Enquanto isso, Basco vivia um conflito muito mais simples — e, ao mesmo tempo, muito mais complicado. Sua amizade com Illyana deixava de passar despercebida entre os Novos Mutantes. Bastava entrarem juntos no refeitório para que Roberto trocasse olhares discretos com Sam, ou para que Danielle escondesse um sorriso atrás da caneca de café. Nenhum deles fazia comentários diretamente diante dos dois, mas a situação tornava-se cada vez mais evidente.
Numa tarde de sábado, a neve cobria quase completamente os jardins da mansão quando Roberto encontrou Basco sozinho na biblioteca. O brasileiro consultava um atlas geográfico antigo, tentando localizar pequenas cidades do interior da Rússia mencionadas por Illyana em uma conversa dias antes.
Roberto aproximou-se em silêncio.
Olhou rapidamente o mapa.
Depois olhou para Basco.
— Então...
Basco ergueu os olhos.
— Então o quê?
Roberto apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Desde quando você se interessa por geografia russa?
Basco percebeu imediatamente o tom da pergunta.
— Eu só estava...
Interrompeu a frase.
Roberto começou a rir.
— Relaxa.
Sentou-se ao lado dele.
— Você faz exatamente a mesma cara que eu fazia quando conheci a Júlia.
Basco fechou lentamente o atlas.
— Está tão na cara assim?
— Basco...
Roberto sorriu.
— Você decorou o horário em que Illyana costuma estudar na biblioteca.
Fez uma pausa.
— Até Warlock já percebeu.
O brasileiro levou a mão ao rosto, visivelmente constrangido.
— Isso é tão óbvio?
— Muito.
Os dois riram.
Depois de alguns segundos, Roberto tornou-se um pouco mais sério.
— Só toma cuidado.
Basco voltou-se para ele.
— Por quê?
O sorriso desapareceu lentamente do rosto do amigo.
— Porque Illyana não é apenas uma garota.
Fez uma breve pausa, procurando as palavras certas.
— Ela passou por coisas que nenhum de nós consegue imaginar.
Olhou discretamente para o corredor da biblioteca.
— Às vezes ela parece completamente bem.
Outras vezes...
balançou a cabeça.
— Parece estar lutando contra alguém que só ela consegue enxergar.
Basco permaneceu em silêncio.
No fundo, já havia percebido isso.
Existiam dias em que Illyana conversava normalmente, ria das piadas de Roberto e participava dos treinamentos como qualquer outro aluno. Em outros, desaparecia durante horas inteiras, surgindo novamente com olheiras profundas, expressão cansada e um olhar distante que parecia carregar séculos de sofrimento.
— Eu sei.
Respondeu baixinho.
— Acho que é justamente isso que me faz querer ficar perto dela.
Roberto observou o amigo durante alguns segundos.
Depois sorriu.
— Você realmente é brasileiro.
— Como assim?
— Vocês têm mania de tentar salvar o mundo inteiro.
Basco riu.
— Nem consigo salvar a mim mesmo.
Os dois permaneceram alguns instantes em silêncio.
Então Roberto deu um leve tapa em seu ombro.
— Ainda assim...
Levantou-se.
— Acho que ela sorri mais desde que você chegou.
Quando Roberto deixou a biblioteca, Basco permaneceu sozinho diante do atlas aberto. Observou novamente o mapa da Rússia sem realmente enxergá-lo. As palavras do amigo haviam despertado uma preocupação que até então permanecia escondida sob o entusiasmo daquela amizade crescente. Gostar de Illyana parecia algo natural. Aproximar-se dela também.
Mas ajudá-la...
Talvez fosse muito mais difícil do que imaginava.
Naquele mesmo instante, do outro lado da mansão, Illyana encontrava-se completamente sozinha em seu quarto. Sentada no chão, desenhava lentamente símbolos místicos com um pedaço de giz branco sobre o assoalho de madeira. Pequenas faíscas azuladas percorriam discretamente o círculo formado à sua frente, enquanto uma fina rachadura luminosa surgia por alguns segundos no centro do desenho antes de desaparecer novamente.
Ela observou o fenômeno com expressão preocupada.
O portal para o Limbo tornava-se cada vez mais instável.
E, pela primeira vez desde que retornara daquela dimensão infernal, teve medo de não conseguir mantê-lo fechado por muito mais tempo.
Sem que qualquer outro morador da Mansão Xavier percebesse, forças muito mais antigas do que os próprios X-Men começavam lentamente a mover-se nas fronteiras entre os mundos.
E Illyana sabia exatamente o que isso significava.
O Inferno começava a despertar.
Os primeiros sinais surgiram de maneira tão discreta que quase ninguém lhes deu importância. Durante um treinamento comum na Sala de Perigo, Illyana interrompeu abruptamente um exercício de teletransporte e permaneceu imóvel por vários segundos, como se escutasse uma voz distante. Quando voltou a si, limitou-se a dizer que havia calculado incorretamente a abertura do portal. Alguns dias depois, Warlock relatou estranhas oscilações energéticas nos níveis subterrâneos da mansão, atribuindo inicialmente o fenômeno a falhas elétricas. Hank McCoy realizou uma rápida inspeção nos equipamentos e não encontrou absolutamente nada fora do padrão. Ainda assim, pequenos acontecimentos passaram a repetir-se com frequência cada vez maior. Objetos mudavam discretamente de lugar durante a madrugada, sombras pareciam mover-se onde não existia fonte de luz suficiente para produzi-las e alguns alunos relatavam sonhos recorrentes envolvendo uma cidade envolta por chamas vermelhas e um céu rasgado por relâmpagos negros.
Basco também começou a perceber mudanças em sua própria mutação. As vozes que ocasionalmente surgiam no interior da névoa tornaram-se um pouco mais nítidas, embora continuassem impossíveis de compreender. Já não pareciam simples murmúrios carregados pelo vento. Havia entonação. Ritmo. Como se diferentes pessoas conversassem simultaneamente atrás de uma parede muito espessa. Em certa madrugada, despertou abruptamente ao sentir uma onda de frio atravessar o quarto. Ao abrir os olhos, encontrou toda a janela coberta por uma camada de vapor que desenhava lentamente espirais sobre o vidro. Aproximou-se pensando tratar-se apenas da condensação provocada pela temperatura externa, mas percebeu que os desenhos mudavam de forma conforme seus pensamentos. Quando levou a mão até a superfície, a névoa condensada organizou-se espontaneamente em um único símbolo circular que desapareceu poucos segundos depois. Basco permaneceu imóvel diante da janela durante vários minutos. Não reconhecia aquele desenho, mas tinha a estranha impressão de já tê-lo visto em algum lugar.
Não quer ver anúncios?
Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.
Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Na manhã seguinte, decidiu procurar Magneto. Encontrou-o na biblioteca consultando antigos volumes de filosofia enquanto uma xícara de café esfriava lentamente sobre a mesa. Erik ergueu discretamente os olhos antes mesmo que o rapaz falasse.
— Aconteceu de novo.
Não era uma pergunta.
Basco confirmou com um movimento de cabeça.
Sentou-se diante dele e descreveu cuidadosamente tudo o que presenciara durante a madrugada. Falou sobre o símbolo formado na janela, sobre as vozes, sobre a sensação cada vez mais intensa de que sua névoa tentava conduzi-lo a alguma lembrança escondida. Magneto ouviu atentamente sem interrompê-lo nenhuma vez. Quando o relato terminou, permaneceu alguns segundos em silêncio, apoiando os dedos sobre a lombada de um dos livros.
— Existe uma tendência muito comum entre jovens mutantes.
Começou a dizer.
— Eles acreditam que todo fenômeno relacionado aos próprios poderes precisa necessariamente ser compreendido de imediato.
Fez uma pequena pausa.
— Nem sempre isso é possível.
Basco demonstrou evidente frustração.
— Então eu simplesmente espero?
— Não.
Erik fechou cuidadosamente o livro.
— Você observa.
Levantou-se lentamente e caminhou até uma das grandes janelas da biblioteca.
— O medo costuma preencher os espaços vazios com explicações precipitadas. A paciência faz exatamente o contrário. Ela permite que os fatos encontrem seu próprio significado.
Basco aproximou-se.
— O senhor acha que isso tem alguma relação com meu pai?
Magneto demorou um pouco mais para responder.
— Acho que toda herança deixa marcas.
Olhou para o jardim coberto por neve.
— Algumas genéticas.
Outras emocionais.
Depois voltou-se para o rapaz.
— E algumas... talvez ultrapassem ambas.
A resposta não solucionava nenhuma de suas dúvidas, mas curiosamente diminuía a ansiedade. Basco começava a compreender que, naquela escola, nem mesmo os mutantes mais experientes possuíam todas as respostas. Havia mistérios que exigiam tempo.
Quem observava essa transformação silenciosa com enorme interesse era Illyana. Embora evitasse comentar qualquer assunto relacionado ao Limbo diante dos demais estudantes, sua ligação com forças místicas permitia perceber alterações que escapavam completamente aos equipamentos científicos da escola. Desde a chegada de Basco, notava uma característica incomum na energia produzida por sua mutação. A névoa não possuía apenas uma assinatura biológica. Carregava uma ressonância extremamente rara, semelhante às fronteiras dimensionais que ela atravessava utilizando sua Espada Anímica. Não significava que Basco fosse um mago ou que seus poderes fossem de natureza sobrenatural. Pelo contrário. Illyana tinha plena consciência de que a mutação dele era genuinamente genética. Ainda assim, existia algo naquela manifestação capaz de interagir com regiões do universo que normalmente permaneciam inacessíveis aos mutantes.
Naquela mesma noite, resolveu procurá-lo.
Encontrou-o novamente próximo ao lago, sentado sobre o velho banco de pedra onde costumavam conversar depois do jantar. A neve havia diminuído e uma fina camada de névoa natural espalhava-se lentamente sobre a água escura. Basco ouviu seus passos aproximarem-se e sorriu antes mesmo de virar o rosto.
— Eu estava imaginando quanto tempo você demoraria para aparecer.
Illyana arqueou discretamente uma sobrancelha.
— Você me esperava?
— Um pouco.
Ela sentou-se ao seu lado.
Durante alguns minutos permaneceram em silêncio, observando apenas o reflexo da lua sobre o lago.
Foi Illyana quem falou primeiro.
— Você acredita em destino?
Basco pensou alguns segundos antes de responder.
— Acho que acredito nas escolhas.
Ela manteve os olhos voltados para a água.
— Eu já vi lugares onde escolhas não existem.
Sua voz tornou-se quase um sussurro.
— No Limbo... o tempo não funciona como aqui. Existem caminhos que parecem inevitáveis. Quanto mais tentamos fugir deles, mais rapidamente acabamos chegando ao mesmo lugar.
Basco voltou-se lentamente para ela.
— Você está com medo.
Não era uma pergunta.
Illyana permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois confirmou com um discreto movimento de cabeça.
— Sim.
Respirou profundamente antes de continuar.
— Não de morrer.
Olhou finalmente para ele.
— Tenho medo de perder quem eu sou.
A sinceridade daquela confissão atingiu Basco de maneira inesperada. Pela primeira vez desde que a conhecera, Illyana permitia que alguém enxergasse a fragilidade escondida sob a postura firme que mantinha diante de toda a escola. Sem pensar muito, aproximou lentamente a mão da dela.
Não houve palavras.
Ela também não a afastou.
Os dois permaneceram assim durante longos minutos, enquanto a névoa deslizava silenciosamente sobre a superfície do lago.
Nenhum deles percebeu que, poucos metros atrás, Magneto observava discretamente a cena através de uma das janelas da mansão. Não havia desaprovação em seu semblante. Apenas uma expressão melancólica que poucos alunos alguma vez tiveram oportunidade de testemunhar. Erik conhecia suficientemente bem a vida para saber que alguns vínculos eram capazes de fortalecer um mutante muito além de qualquer treinamento.
Também sabia que, justamente por isso, eram os primeiros a serem colocados à prova quando a guerra finalmente chegava.
E, infelizmente, a guerra aproximava-se com rapidez.
Muito longe dali, nas profundezas de Manhattan, forças ancestrais começavam a mover-se entre as sombras. O nome de Madelyne Pryor ainda era desconhecido para Basco, mas os acontecimentos que conduziriam ao Inferno já haviam começado muito antes de qualquer portal rasgar os céus de Nova York.
Sem que os Novos Mutantes imaginassem, seus últimos dias de verdadeira paz estavam chegando ao fim.
Os acontecimentos precipitaram-se de forma quase imperceptível. O que antes pareciam incidentes isolados passou a compor um mosaico inquietante que nem mesmo Magneto conseguia ignorar. Chamados de emergência começaram a chegar com maior frequência à Mansão Xavier. Algumas missões envolviam mutantes perseguidos; outras, manifestações inexplicáveis de energia que desafiaram até mesmo os equipamentos de Hank McCoy. Em todas elas havia um elemento em comum: uma crescente sensação de que algo muito maior estava sendo preparado nos bastidores. Erik não comentava suas suspeitas diante dos alunos, mas os mais antigos percebiam a mudança. O diretor permanecia mais tempo na sala de estratégia, mantinha contato constante com antigos aliados e frequentemente desaparecia por dias inteiros, retornando sempre com uma expressão mais fechada do que ao partir.
A rotina dos Novos Mutantes também mudou. Os treinamentos deixaram de acontecer apenas na Sala de Perigo e passaram a incluir exercícios de prontidão durante a madrugada, evacuação de civis e simulações envolvendo ambientes urbanos. Magneto explicava que um mutante jamais escolhia o lugar onde surgiria uma crise e, por isso, precisava aprender a agir em qualquer cenário. Basco começou a perceber que o diretor já não corrigia apenas a técnica dos alunos. Corrigia decisões. Interrompia exercícios para discutir escolhas morais, obrigando cada integrante da equipe a justificar por que salvara uma pessoa antes de outra ou por que decidira enfrentar um adversário em vez de proteger inocentes. Eram debates longos, muitas vezes desconfortáveis, mas que revelavam uma filosofia muito diferente daquela que a imprensa insistia em atribuir a Erik Lehnsherr. O homem conhecido mundialmente como Magneto não preparava soldados sedentos por combate. Preparava jovens capazes de tomar decisões impossíveis sob enorme pressão.
Foi justamente durante um desses exercícios que Basco recebeu um dos maiores elogios desde sua chegada à escola. A simulação reproduzia um atentado em uma estação de metrô. Explosões virtuais, fumaça, estruturas parcialmente destruídas e dezenas de hologramas representando passageiros feridos ocupavam completamente o cenário. Enquanto alguns colegas concentravam esforços para neutralizar o suposto grupo terrorista, Neblina tomou uma decisão diferente. Utilizando sua mutação, espalhou uma espessa camada de névoa pelos túneis, impedindo que novos disparos atingissem os civis simulados. Em seguida, conduziu os sobreviventes para áreas seguras utilizando a própria névoa como cobertura. Quando o exercício terminou, Magneto permaneceu alguns instantes observando os relatórios projetados na enorme tela da Sala de Perigo.
— A missão foi concluída em oito minutos.
Ninguém respondeu.
Erik continuou analisando os dados.
— O objetivo principal era eliminar os agressores.
Fez uma pequena pausa.
— Neblina ignorou completamente essa orientação.
Sam olhou discretamente para Basco.
Roberto cruzou os braços.
O silêncio tornou-se quase desconfortável.
Então Magneto fechou os relatórios.
— Excelente.
Os alunos trocaram olhares surpresos.
Erik caminhou lentamente até Basco.
— Um inimigo derrotado pode ser substituído.
Olhou diretamente para o jovem.
— Uma vida perdida não.
A frase permaneceu ecoando na Sala de Perigo durante vários segundos. Basco não sabia, mas aquele raciocínio refletia muito mais Charles Xavier do que o Magneto descrito pelos jornais. Talvez fosse justamente essa convivência entre os dois homens que tivesse moldado a visão de mundo do antigo Mestre do Magnetismo. Ele jamais admitiria isso em público, mas os anos compartilhados com Xavier haviam deixado marcas profundas.
Naquela noite, após o jantar, Illyana convidou Basco para caminhar até a antiga estufa localizada nos fundos da propriedade. O lugar permanecia praticamente abandonado durante o inverno, mas continuava aquecido por um sistema de calefação instalado décadas antes. Entre plantas exóticas, árvores frutíferas e flores vindas de diferentes continentes, o ambiente parecia completamente isolado do restante da mansão. A umidade impregnava o ar, formando pequenas gotas sobre os vidros da cobertura. Basco observava fascinado aquele espaço escondido enquanto Illyana caminhava lentamente entre os canteiros.
— Descobri este lugar quando era criança.
Ela passou delicadamente os dedos sobre uma orquídea branca.
— Quando tudo ficava difícil... eu vinha para cá.
Basco sorriu.
— Também faço isso.
Ela voltou-se curiosa.
— Vir para cá?
— Encontrar um lugar onde o mundo faz um pouco menos de barulho.
Illyana riu baixinho.
— Acho que é por isso que gosto da sua companhia.
Ele permaneceu alguns segundos em silêncio antes de perguntar:
— Por quê?
Ela demorou a responder.
— Porque você não tenta consertar as pessoas.
A frase o surpreendeu.
Illyana continuou caminhando.
— Todo mundo que descobre minha história tenta fazer alguma coisa. Dizer que vai ficar tudo bem. Que o passado ficou para trás. Que preciso esquecer.
Parou diante de uma pequena árvore de cerejeira cultivada dentro da estufa.
— Você nunca fez isso.
Basco aproximou-se lentamente.
— Porque acho que algumas coisas nunca ficam para trás.
Ela levantou os olhos.
— E isso não incomoda você?
Ele balançou a cabeça.
— Meu pai desapareceu quando eu era criança.
Respirou fundo.
— Se alguém dissesse que eu deveria simplesmente esquecer... provavelmente nunca mais conversaria com essa pessoa.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou. Havia uma compreensão silenciosa entre eles, construída não por experiências idênticas, mas pela convivência diária com perdas que jamais deixariam de existir.
Foi Illyana quem diminuiu a distância entre ambos.
Muito devagar.
Sem qualquer dramatização.
Apenas segurou delicadamente a mão de Basco.
— Obrigada.
Ele sorriu.
— Pelo quê?
Ela olhou diretamente em seus olhos.
— Por não ter medo de mim.
Antes que ele pudesse responder, um alarme estridente rompeu completamente o silêncio da estufa.
Luzes vermelhas começaram a piscar por toda a mansão.
Sirenes ecoaram pelos corredores.
Os comunicadores presos aos uniformes dos alunos foram ativados quase simultaneamente.
A voz de Magneto surgiu firme, sem demonstrar qualquer sinal de pânico.
— Atenção. Todos os Novos Mutantes devem dirigir-se imediatamente à Sala de Estratégia.
Fez uma breve pausa.
— Temos uma ocorrência de nível Ômega em Manhattan.
Basco e Illyana trocaram um rápido olhar.
Algo na expressão dela mudou instantaneamente.
Não era surpresa.
Era reconhecimento.
Ela fechou os olhos por um breve instante, como quem finalmente confirmava um temor cultivado havia semanas.
Quando voltou a abri-los, sua voz saiu quase como um sussurro.
— Começou...
Basco franziu a testa.
— O quê?
Illyana demorou apenas um segundo para responder.
Mas aquele único segundo pareceu longo demais.
— O Inferno.
A corrida pelos corredores da Mansão Xavier aconteceu em absoluto silêncio. Ninguém fazia perguntas. Os alunos mais antigos conheciam suficientemente bem o sistema de alertas da escola para compreender que um protocolo de nível Ômega jamais era acionado por precaução. Basco acompanhava Danielle, Roberto, Sam e Illyana enquanto atravessavam escadarias e galerias em direção ao centro de operações. Pela primeira vez desde sua chegada aos Estados Unidos, sentiu que o treinamento deixava definitivamente o campo da preparação para entrar no da realidade. O som contínuo das sirenes misturava-se ao ruído metálico das portas de segurança fechando automaticamente diferentes setores da mansão. Técnicos, médicos e instrutores deslocavam-se rapidamente pelos corredores, cada um conhecendo exatamente sua função. Não havia correria desorganizada. Havia disciplina.
Quando as portas da Sala de Estratégia se abriram, Basco encontrou um ambiente completamente diferente daquele onde costumavam receber instruções antes das missões. Diversos hologramas projetavam mapas de Manhattan sobre uma enorme mesa circular, enquanto telas espalhadas pelas paredes exibiam transmissões simultâneas de emissoras de televisão, satélites e câmeras de trânsito. O que aparecia diante deles parecia impossível de acreditar. Partes inteiras da cidade estavam mergulhadas em um estranho brilho avermelhado. Relâmpagos negros rasgavam o céu em plena madrugada, edifícios apresentavam deformações impossíveis e criaturas grotescas surgiam em diferentes pontos da ilha antes de desaparecer novamente entre nuvens de fumaça escura. Jornalistas falavam todos ao mesmo tempo, incapazes de explicar o fenômeno. Uns mencionavam ataques terroristas. Outros especulavam sobre armas experimentais. Nenhum deles sequer se aproximava da verdade.
Magneto permanecia diante do mapa principal acompanhado por Hank McCoy e Forge. Assim que os Novos Mutantes entraram na sala, Erik desligou o áudio das transmissões e voltou-se para a equipe. Seu semblante mantinha a serenidade habitual, mas Basco percebeu algo diferente em seu olhar. Não era preocupação. Era reconhecimento. Como se estivesse diante de um inimigo cuja existência jamais deixara de considerar possível.
— Todos prestem atenção.
Sua voz ecoou pelo ambiente imediatamente silencioso.
— Há aproximadamente quarenta minutos começaram a surgir anomalias dimensionais em diferentes setores de Manhattan. Inicialmente acreditávamos tratar-se de um fenômeno localizado. Não é.
Forge ampliou o mapa holográfico.
Dezenas de pontos vermelhos espalhavam-se pela ilha.
— Os portais continuam aumentando.
Explicou o inventor.
— E não seguem nenhum padrão geográfico conhecido.
Hank assumiu a palavra.
— Nossa instrumentação científica deixou de fornecer respostas confiáveis há quinze minutos. Campos magnéticos, gravidade local, temperatura e até a composição atmosférica variam constantemente dentro das áreas afetadas.
Fez uma breve pausa.
— Em linguagem simples...
Olhou para Basco e os demais adolescentes.
— As leis da física estão deixando de funcionar.
O silêncio tornou-se absoluto.
Foi Illyana quem finalmente falou.
Sua voz saiu muito mais baixa do que o habitual.
— Não são portais comuns.
Todos voltaram imediatamente o olhar para ela.
A jovem respirou profundamente antes de continuar.
— Eu conheço essa energia.
Fechou lentamente os olhos.
— É o Limbo.
A palavra pareceu alterar completamente o ambiente.
Mesmo alunos que pouco sabiam sobre a história de Illyana compreenderam imediatamente a gravidade da situação. Magneto caminhou até ela sem desviar os olhos.
— Tem certeza?
Ela confirmou com um leve movimento de cabeça.
— Absoluta.
Respirou fundo.
— Alguém abriu os portões.
Basco observava a amiga atentamente. Desde que se conheceram, jamais a vira tão abalada. Não era apenas medo. Havia culpa em sua expressão, como se uma parte daquela tragédia lhe pertencesse.
Magneto percebeu exatamente o mesmo.
— Illyana.
Esperou até que ela erguesse novamente os olhos.
— Isto não é responsabilidade sua.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Talvez não.
Sua voz quase falhou.
— Mas sei quem pode estar fazendo isso.
Nenhum dos presentes interrompeu.
Illyana voltou lentamente o olhar para o mapa de Manhattan.
— Madelyne Pryor.
O nome caiu sobre a sala como um peso invisível.
Basco nunca o ouvira antes, mas bastou observar a reação dos demais para compreender sua importância. Hank fechou lentamente os olhos. Forge cruzou os braços. Danielle olhou discretamente para Roberto, que perdera completamente o sorriso habitual.
Magneto permaneceu imóvel.
— Explique aos demais.
Illyana respirou profundamente.
— Madelyne foi... corrompida.
Escolheu cuidadosamente cada palavra.
— Tornou-se a Rainha dos Duendes.
Olhou novamente para as imagens da cidade.
— Se ela realmente assumiu esse papel... não está tentando apenas conquistar Manhattan.
Fez uma breve pausa.
— Está tentando transformar a Terra em uma extensão permanente do Limbo.
Basco sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Até aquele momento, guerras mutantes significavam confrontos entre pessoas dotadas de habilidades extraordinárias. Agora escutava falar sobre dimensões infernais invadindo o planeta como se aquilo fosse apenas mais um relatório operacional.
Magneto retomou imediatamente o controle da reunião.
— Os X-Men já foram acionados.
Apontou para diferentes setores do mapa.
— Nossa prioridade será evacuar civis e impedir que o avanço dimensional alcance regiões mais populosas.
Olhou diretamente para os Novos Mutantes.
— Quero deixar uma coisa perfeitamente clara.
Sua voz tornou-se ainda mais firme.
— Vocês não enfrentarão Madelyne Pryor.
Ninguém contestou.
— Esta missão não é uma prova de coragem.
Nem uma oportunidade para demonstrarem poder.
Fez uma pausa.
— É uma operação de salvamento.
Os olhos de Erik encontraram os de Basco.
— Neblina.
— Sim.
— Sua mutação será extremamente útil em ambientes com baixa visibilidade e grande concentração de civis. Trabalhará diretamente com Danielle.
Depois voltou-se para Illyana.
Durante alguns segundos, os dois apenas se encararam.
— Magia...
Ela já sabia.
Não precisou ouvir o restante da frase.
Seu papel seria outro.
Muito mais perigoso.
Muito mais pessoal.
Ela assentiu lentamente.
Basco percebeu aquele breve diálogo silencioso e compreendeu, pela primeira vez, que Illyana não estava sendo enviada apenas como integrante da equipe.
Ela fazia parte do problema.
Ou da solução.
Talvez das duas coisas ao mesmo tempo.
Enquanto todos deixavam rapidamente a Sala de Estratégia para vestir os uniformes de missão, Basco aproximou-se discretamente dela.
— Você está bem?
Illyana sorriu de maneira quase imperceptível.
Um sorriso triste.
Cansado.
— Não.
Respondeu com absoluta sinceridade.
Depois segurou delicadamente sua mão durante apenas um segundo.
— Mas preciso ir.
Basco tentou dizer alguma coisa.
Não conseguiu.
Observou-a afastar-se pelo corredor acompanhando Magneto, enquanto uma sensação inexplicável apertava seu peito. Não era medo da missão. Era algo muito pior.
Era a estranha impressão de que aquela poderia ser a última vez que os dois caminhavam lado a lado pelos corredores da Escola Xavier.
E, pela primeira vez desde que despertara seus poderes, a névoa ao redor de Basco não surgiu em resposta ao medo.
Surgiu em resposta à tristeza.
Como se ela própria já soubesse aquilo que ele ainda se recusava a aceitar.
O Blackbird decolou poucos minutos depois. Diferentemente das missões anteriores, não havia espaço para conversas descontraídas nem para o humor característico de Roberto. A cabine permanecia mergulhada em um silêncio pesado, interrompido apenas pelo ruído constante das turbinas e pelas comunicações que chegavam da Sala de Comando da Mansão Xavier. À medida que a aeronave se aproximava de Manhattan, as imagens transmitidas pelos satélites tornavam-se cada vez mais perturbadoras. O brilho avermelhado que antes ocupava apenas alguns bairros agora espalhava-se pela ilha como uma infensa ferida luminosa. Relâmpagos negros cruzavam o céu em direções impossíveis, edifícios pareciam retorcer-se sobre si mesmos e enormes fendas rasgavam o espaço, revelando por instantes uma paisagem dominada por rochas escuras, rios de lava e fortalezas ciclópicas que não pertenciam ao mundo dos homens.
Basco permanecia junto à pequena janela lateral da aeronave, incapaz de desviar os olhos daquele espetáculo aterrador. Durante toda a sua permanência na Escola Xavier aprendera que mutantes podiam alterar a matéria, manipular energia, controlar o clima ou atravessar dimensões. Nada, porém, o preparara para a sensação de observar duas realidades tentando ocupar o mesmo espaço. O horizonte de Manhattan parecia doente. Em determinados pontos, arranha-céus desapareciam momentaneamente atrás de enormes muralhas de pedra negra para reaparecerem segundos depois, como se a própria cidade estivesse oscilando entre dois universos distintos.
Illyana permanecia sentada alguns metros à frente. Desde a decolagem não pronunciara uma única palavra. Mantinha a Espada Anímica apoiada sobre os joelhos, algo que Basco jamais a vira fazer durante uma missão. A lâmina emitia um brilho prateado extremamente discreto, pulsando lentamente em sintonia com as oscilações dimensionais registradas pelos instrumentos da aeronave. Magneto observava-a em silêncio. Não havia necessidade de perguntas. Ambos sabiam que aquele combate possuía um significado muito diferente para ela.
Foi Hank McCoy quem rompeu o silêncio através do sistema de comunicação.
— Atenção, equipe. As últimas leituras indicam que a área de Central Park continua relativamente estável. O restante da ilha apresenta crescimento exponencial das anomalias. A prioridade permanece a evacuação de civis.
Forge surgiu logo em seguida na frequência.
— Estamos perdendo contato com diversas unidades de emergência. As comunicações entram em colapso sempre que um novo portal se abre.
Magneto aproximou-se do compartimento principal.
— Então trabalharemos sem elas.
Olhou atentamente para cada integrante da equipe.
— Lembrem-se do que treinamos durante todos estes anos. Se perderem comunicação, mantenham seus parceiros. Se perderem referência visual, procurem pontos de encontro previamente estabelecidos. Não permitam que o caos dite suas decisões.
Basco respirou profundamente.
Pela primeira vez desde que chegara aos Estados Unidos, sentia que todas as horas passadas na Sala de Perigo finalmente faziam sentido.
O Blackbird rompeu as nuvens poucos minutos depois.
A visão que surgiu diante deles permaneceria gravada para sempre na memória de Basco.
Nova York ardia.
Não apenas em fogo.
Mas em loucura.
Criaturas demoníacas corriam pelas avenidas perseguindo civis em completo desespero. Automóveis haviam sido transformados em massas disformes de metal vivo. Estátuas moviam-se sozinhas, edifícios apresentavam enormes rachaduras de onde escapavam vapores avermelhados e o próprio céu parecia sangrar sobre a cidade. Em alguns pontos, gigantescos tentáculos negros surgiam entre os arranha-céus antes de desaparecer novamente dentro de portais flamejantes. Helicópteros da polícia voavam desordenadamente tentando compreender um cenário que nenhuma academia militar do mundo seria capaz de explicar.
Basco sentiu um nó formar-se em sua garganta.
Aquilo não parecia uma guerra.
Parecia o fim do mundo.
A aeronave pousou bruscamente em uma avenida parcialmente destruída próxima ao Central Park. Assim que a rampa traseira se abriu, uma onda de calor misturada ao cheiro de fumaça, enxofre e concreto pulverizado invadiu completamente o interior da cabine. Gritos ecoavam de todas as direções. Sirenes misturavam-se ao rugido de criaturas que Basco jamais imaginara existir. O céu adquirira um tom vermelho escuro que fazia até mesmo a luz parecer doente.
Magneto desembarcou primeiro.
Com um simples movimento das mãos, dezenas de veículos abandonados deslizaram sobre o asfalto formando instantaneamente uma enorme barreira metálica para proteger um grupo de civis encurralados por pequenos demônios alados. Roberto lançou-se ao céu envolvido por energia solar enquanto Sam atravessava uma fachada parcialmente destruída para retirar sobreviventes presos entre os escombros. Danielle conduzia famílias inteiras em direção às áreas seguras utilizando sua percepção para evitar novas emboscadas.
Basco permaneceu apenas um segundo imóvel.
Depois correu.
Uma explosão fez desabar parte de um edifício residencial exatamente à sua frente. A rua desapareceu sob uma gigantesca nuvem de poeira e destroços. Instintivamente, sua mutação respondeu antes mesmo que pudesse formular qualquer pensamento consciente. A névoa espalhou-se rapidamente pela avenida, envolvendo os escombros e reduzindo drasticamente a temperatura do ambiente. O vapor tornou-se tão espesso que abafou parcialmente as labaredas, criando um estreito corredor de baixa visibilidade entre os destroços.
— Por aqui!
gritou para um grupo de civis escondidos atrás de um ônibus tombado.
As pessoas hesitaram apenas um instante.
Depois correram em sua direção.
Basco manteve a névoa densa o suficiente para ocultá-los dos demônios que sobrevoavam a região, conduzindo-os lentamente até uma estação de metrô utilizada pelos X-Men como ponto de evacuação. À medida que avançavam, percebia algo estranho acontecer. A névoa parecia mover-se sozinha, escolhendo caminhos onde a presença de criaturas infernais era menor. Não precisava pensar em cada curva. Era como se seu próprio poder antecipasse os riscos muito antes de seus olhos conseguirem percebê-los.
Ao deixar o último grupo de sobreviventes em segurança, ouviu um rugido ensurdecedor vindo da Quinta Avenida.
Voltou-se imediatamente.
Uma criatura gigantesca, com mais de quatro metros de altura, rompia violentamente a fachada de um edifício comercial enquanto dezenas de pessoas fugiam desesperadas pela rua. Antes que pudesse reagir, uma rajada metálica atravessou o ar em velocidade impressionante. Cabos de aço, placas de trânsito e estruturas arrancadas dos prédios envolveram instantaneamente o corpo do demônio, arremessando-o contra um caminhão de bombeiros.
Magneto pousou alguns metros adiante.
O velho mutante respirava pesadamente.
Mesmo para ele, controlar tamanha quantidade de metal em um ambiente tão caótico exigia enorme concentração.
Olhou rapidamente para Basco.
— Quantos civis?
— Vinte e três.
Erik assentiu.
— Excelente.
Foi a única coisa que disse antes de voltar a erguer as mãos, preparando-se para enfrentar uma nova onda de criaturas que avançava sobre a avenida.
Basco deu dois passos para ajudá-lo.
Então percebeu.
Illyana não estava mais ali.
Olhou rapidamente ao redor.
Danielle.
Roberto.
Sam.
Magneto.
Todos continuavam combatendo.
Menos ela.
Seu coração acelerou instantaneamente.
Foi então que viu, muito acima dos arranha-céus, um gigantesco disco luminoso abrir-se entre as nuvens vermelhas.
No centro daquele portal, envolta por relâmpagos azulados, Illyana atravessava sozinha a fronteira entre a Terra e o Limbo.
Ela não estava indo lutar ao lado dos X-Men.
Estava indo enfrentar o próprio inferno.
E Basco compreendeu, com um frio devastador percorrendo todo o corpo, que talvez aquele combate jamais permitisse seu retorno.
A corrida pelos corredores da Mansão Xavier aconteceu em absoluto silêncio. Ninguém fazia perguntas. Os alunos mais antigos conheciam suficientemente bem o sistema de alertas da escola para compreender que um protocolo de nível Ômega jamais era acionado por precaução. Basco acompanhava Danielle, Roberto, Sam e Illyana enquanto atravessavam escadarias e galerias em direção ao centro de operações. Pela primeira vez desde sua chegada aos Estados Unidos, sentiu que o treinamento deixava definitivamente o campo da preparação para entrar no da realidade. O som contínuo das sirenes misturava-se ao ruído metálico das portas de segurança fechando automaticamente diferentes setores da mansão. Técnicos, médicos e instrutores deslocavam-se rapidamente pelos corredores, cada um conhecendo exatamente sua função. Não havia correria desorganizada. Havia disciplina.
Quando as portas da Sala de Estratégia se abriram, Basco encontrou um ambiente completamente diferente daquele onde costumavam receber instruções antes das missões. Diversos hologramas projetavam mapas de Manhattan sobre uma enorme mesa circular, enquanto telas espalhadas pelas paredes exibiam transmissões simultâneas de emissoras de televisão, satélites e câmeras de trânsito. O que aparecia diante deles parecia impossível de acreditar. Partes inteiras da cidade estavam mergulhadas em um estranho brilho avermelhado. Relâmpagos negros rasgavam o céu em plena madrugada, edifícios apresentavam deformações impossíveis e criaturas grotescas surgiam em diferentes pontos da ilha antes de desaparecer novamente entre nuvens de fumaça escura. Jornalistas falavam todos ao mesmo tempo, incapazes de explicar o fenômeno. Uns mencionavam ataques terroristas. Outros especulavam sobre armas experimentais. Nenhum deles sequer se aproximava da verdade.
Magneto permanecia diante do mapa principal acompanhado por Hank McCoy e Forge. Assim que os Novos Mutantes entraram na sala, Erik desligou o áudio das transmissões e voltou-se para a equipe. Seu semblante mantinha a serenidade habitual, mas Basco percebeu algo diferente em seu olhar. Não era preocupação. Era reconhecimento. Como se estivesse diante de um inimigo cuja existência jamais deixara de considerar possível.
— Todos prestem atenção.
Sua voz ecoou pelo ambiente imediatamente silencioso.
— Há aproximadamente quarenta minutos começaram a surgir anomalias dimensionais em diferentes setores de Manhattan. Inicialmente acreditávamos tratar-se de um fenômeno localizado. Não é.
Forge ampliou o mapa holográfico.
Dezenas de pontos vermelhos espalhavam-se pela ilha.
— Os portais continuam aumentando.
Explicou o inventor.
— E não seguem nenhum padrão geográfico conhecido.
Hank assumiu a palavra.
— Nossa instrumentação científica deixou de fornecer respostas confiáveis há quinze minutos. Campos magnéticos, gravidade local, temperatura e até a composição atmosférica variam constantemente dentro das áreas afetadas.
Fez uma breve pausa.
— Em linguagem simples...
Olhou para Basco e os demais adolescentes.
— As leis da física estão deixando de funcionar.
O silêncio tornou-se absoluto.
Foi Illyana quem finalmente falou.
Sua voz saiu muito mais baixa do que o habitual.
— Não são portais comuns.
Todos voltaram imediatamente o olhar para ela.
A jovem respirou profundamente antes de continuar.
— Eu conheço essa energia.
Fechou lentamente os olhos.
— É o Limbo.
A palavra pareceu alterar completamente o ambiente.
Mesmo alunos que pouco sabiam sobre a história de Illyana compreenderam imediatamente a gravidade da situação. Magneto caminhou até ela sem desviar os olhos.
— Tem certeza?
Ela confirmou com um leve movimento de cabeça.
— Absoluta.
Respirou fundo.
— Alguém abriu os portões.
Basco observava a amiga atentamente. Desde que se conheceram, jamais a vira tão abalada. Não era apenas medo. Havia culpa em sua expressão, como se uma parte daquela tragédia lhe pertencesse.
Magneto percebeu exatamente o mesmo.
— Illyana.
Esperou até que ela erguesse novamente os olhos.
— Isto não é responsabilidade sua.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Talvez não.
Sua voz quase falhou.
— Mas sei quem pode estar fazendo isso.
Nenhum dos presentes interrompeu.
Illyana voltou lentamente o olhar para o mapa de Manhattan.
— Madelyne Pryor.
O nome caiu sobre a sala como um peso invisível.
Basco nunca o ouvira antes, mas bastou observar a reação dos demais para compreender sua importância. Hank fechou lentamente os olhos. Forge cruzou os braços. Danielle olhou discretamente para Roberto, que perdera completamente o sorriso habitual.
Magneto permaneceu imóvel.
— Explique aos demais.
Illyana respirou profundamente.
— Madelyne foi... corrompida.
Escolheu cuidadosamente cada palavra.
— Tornou-se a Rainha dos Duendes.
Olhou novamente para as imagens da cidade.
— Se ela realmente assumiu esse papel... não está tentando apenas conquistar Manhattan.
Fez uma breve pausa.
— Está tentando transformar a Terra em uma extensão permanente do Limbo.
Basco sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Até aquele momento, guerras mutantes significavam confrontos entre pessoas dotadas de habilidades extraordinárias. Agora escutava falar sobre dimensões infernais invadindo o planeta como se aquilo fosse apenas mais um relatório operacional.
Magneto retomou imediatamente o controle da reunião.
— Os X-Men já foram acionados.
Apontou para diferentes setores do mapa.
— Nossa prioridade será evacuar civis e impedir que o avanço dimensional alcance regiões mais populosas.
Olhou diretamente para os Novos Mutantes.
— Quero deixar uma coisa perfeitamente clara.
Sua voz tornou-se ainda mais firme.
— Vocês não enfrentarão Madelyne Pryor.
Ninguém contestou.
— Esta missão não é uma prova de coragem.
Nem uma oportunidade para demonstrarem poder.
Fez uma pausa.
— É uma operação de salvamento.
Os olhos de Erik encontraram os de Basco.
— Neblina.
— Sim.
— Sua mutação será extremamente útil em ambientes com baixa visibilidade e grande concentração de civis. Trabalhará diretamente com Danielle.
Depois voltou-se para Illyana.
Durante alguns segundos, os dois apenas se encararam.
— Magia...
Ela já sabia.
Não precisou ouvir o restante da frase.
Seu papel seria outro.
Muito mais perigoso.
Muito mais pessoal.
Ela assentiu lentamente.
Basco percebeu aquele breve diálogo silencioso e compreendeu, pela primeira vez, que Illyana não estava sendo enviada apenas como integrante da equipe.
Ela fazia parte do problema.
Ou da solução.
Talvez das duas coisas ao mesmo tempo.
Enquanto todos deixavam rapidamente a Sala de Estratégia para vestir os uniformes de missão, Basco aproximou-se discretamente dela.
— Você está bem?
Illyana sorriu de maneira quase imperceptível.
Um sorriso triste.
Cansado.
— Não.
Respondeu com absoluta sinceridade.
Depois segurou delicadamente sua mão durante apenas um segundo.
— Mas preciso ir.
Basco tentou dizer alguma coisa.
Não conseguiu.
Observou-a afastar-se pelo corredor acompanhando Magneto, enquanto uma sensação inexplicável apertava seu peito. Não era medo da missão. Era algo muito pior.
Era a estranha impressão de que aquela poderia ser a última vez que os dois caminhavam lado a lado pelos corredores da Escola Xavier.
E, pela primeira vez desde que despertara seus poderes, a névoa ao redor de Basco não surgiu em resposta ao medo.
Surgiu em resposta à tristeza.
Como se ela própria já soubesse aquilo que ele ainda se recusava a aceitar.
Basco permaneceu imóvel por apenas uma fração de segundo. Todo o treinamento recebido na Escola Xavier gritava para que permanecesse ao lado da equipe, protegendo civis e obedecendo às ordens de Magneto. Seu coração, entretanto, seguia Illyana através do enorme portal que se fechava lentamente sobre os arranha-céus de Manhattan. Nunca a vira com aquela expressão. Não era determinação. Era resignação. Como alguém que já conhecia o preço da batalha antes mesmo de desembainhar a espada. O simples pensamento de que ela pudesse enfrentar sozinha uma dimensão inteira fez seu corpo mover-se por instinto.
Deu um passo em direção ao local onde o portal desaparecera.
— Neblina!
A voz de Magneto cortou o caos como um trovão.
Basco parou imediatamente.
Erik permanecia alguns metros adiante, controlando toneladas de metal que impediam o avanço de duas criaturas demoníacas sobre uma escola parcialmente destruída. Mesmo concentrado na batalha, conseguira perceber a intenção do jovem.
— Ela está sozinha!
gritou Basco, quase sem conseguir esconder o desespero.
Magneto sustentou seu olhar por apenas um segundo.
Foi suficiente.
— Porque escolheu estar.
A resposta atingiu Basco com violência.
— Eu posso ajudá-la!
— Não.
A negativa veio firme.
— Você morrerá antes mesmo de atravessar aquele portal.
Basco respirava com dificuldade. A razão dizia que Magneto estava certo. O sentimento recusava-se a aceitar. Nunca experimentara aquela impotência. Durante toda a vida acreditara que coragem significava correr em direção ao perigo. Agora descobria que, às vezes, coragem significava permanecer exatamente onde se estava, mesmo quando todas as emoções exigiam o contrário.
Antes que pudesse responder, uma explosão arremessou parte da fachada de um edifício sobre a avenida. Fragmentos de concreto começaram a despencar sobre dezenas de pessoas que tentavam fugir da região. Magneto desviou imediatamente a atenção para o novo perigo, suspendendo enormes vigas metálicas antes que atingissem os civis.
— Basco!
A voz de Danielle surgiu através do comunicador.
— Precisamos de você no cruzamento da Lexington!
O brasileiro fechou os olhos por um breve instante.
Sentia o peito dividido em duas direções completamente opostas.
Então respirou fundo.
E correu.
Mais tarde compreenderia que aquela decisão representava seu verdadeiro batismo como integrante dos X-Men. Não fora a utilização da névoa, nem o uniforme, nem as missões anteriores. Tornara-se um herói no exato momento em que colocou a vida de desconhecidos acima do próprio sofrimento.
Ao chegar à Lexington Avenue encontrou um cenário ainda mais devastador. Um ônibus urbano permanecia atravessado no meio da rua, parcialmente destruído, enquanto dezenas de passageiros tentavam escapar pelas janelas quebradas. Acima deles, criaturas aladas mergulhavam repetidamente tentando impedir a evacuação. Danielle e Roberto mantinham os demônios afastados, mas o número de inimigos aumentava a cada minuto.
— Neblina!
gritou Roberto ao vê-lo chegar.
— Precisamos tirar esse ônibus daqui!
Basco avaliou rapidamente a situação. O veículo encontrava-se preso entre dois automóveis destruídos, impossibilitando qualquer remoção rápida. Respirou profundamente e permitiu que sua mutação assumisse o controle. A névoa espalhou-se pela avenida com velocidade muito maior do que em qualquer treinamento realizado na Sala de Perigo. Em poucos segundos, todo o cruzamento desapareceu sob um espesso manto branco. As criaturas infernais perderam completamente a referência visual, passando a atacar sombras inexistentes enquanto Danielle conduzia os passageiros para fora do ônibus.
Foi então que algo inesperado aconteceu.
Em meio à névoa, Basco começou a enxergar.
Não com os olhos.
Sentia a posição de cada pessoa envolvida pelo vapor. Percebia seus movimentos, sua respiração e até mesmo a direção para onde corriam. Era como se a névoa transformasse todo aquele espaço em uma extensão de seu próprio corpo. Não importava que a visibilidade fosse praticamente nula. Dentro dela, ninguém conseguia esconder-se dele.
A descoberta foi interrompida pelo rugido de uma criatura que atravessou violentamente o manto branco. O demônio surgiu a poucos metros de uma criança que havia se separado da mãe durante a fuga. Basco não teve tempo para pensar. Instintivamente concentrou a névoa ao redor do monstro. O vapor tornou-se tão espesso que a criatura perdeu completamente o equilíbrio, golpeando o vazio enquanto tentava orientar-se. Sam surgiu como um projétil segundos depois, atingindo o demônio em cheio e arremessando-o contra os escombros de uma loja.
— Belo trabalho!
gritou o rapaz sem diminuir a velocidade.
Basco mal conseguiu responder.
Ainda tentava compreender o que acabara de sentir.
Quando a última família foi retirada em segurança, Roberto aproximou-se ofegante.
— Você percebeu também?
Basco olhou para ele.
— Percebi o quê?
— Você não estava procurando a gente.
Apontou para a névoa que começava lentamente a dissipar-se.
— Você sabia exatamente onde cada um estava.
O brasileiro permaneceu em silêncio.
Roberto sorriu.
— Acho que seu poder acabou de evoluir.
Basco voltou os olhos para Manhattan.
Mas sua atenção já não estava totalmente na missão.
Muito acima da cidade, os céus continuavam rasgados por enormes fendas luminosas. De tempos em tempos, relâmpagos azulados cruzavam os portais dimensionais, seguidos por explosões que faziam o próprio ar estremecer. Em algum lugar além daquela fronteira, Illyana enfrentava sozinha uma batalha que nenhum deles era capaz de enxergar.
Sem perceber, Basco apertou involuntariamente o punho.
A névoa respondeu imediatamente.
Pela primeira vez, ela não surgiu apenas para esconder.
Parecia querer subir.
Como se tentasse alcançar o céu.
Como se também procurasse alguém.
E, por um breve instante, antes de dissipar-se entre os ventos de Manhattan, Basco teve a nítida impressão de ouvir uma voz feminina atravessar silenciosamente o interior de sua mutação.
"Não venha..."
Ele abriu os olhos imediatamente.
O som desaparecera.
Talvez tivesse sido apenas imaginação.
Talvez não.
Mas uma certeza instalou-se definitivamente em seu coração.
Aquela batalha ainda estava longe de terminar.
E o destino de Illyana Rasputin seria, dali em diante, inseparável do seu próprio destino.
As horas seguintes dissolveram completamente qualquer noção de tempo. Manhattan transformara-se em um pesadelo vivo, onde relógios deixavam de fazer sentido e o céu parecia permanecer eternamente preso entre o crepúsculo e a noite. Basco já não conseguia dizer há quanto tempo estavam combatendo. O uniforme encontrava-se coberto por fuligem, poeira e pequenas manchas de sangue que nem sequer sabia identificar se eram suas ou das pessoas que ajudara a resgatar. As mãos tremiam de exaustão sempre que a névoa se dissipava, mas bastava ouvir um novo pedido de socorro para que seu corpo encontrasse forças onde julgava não existir mais nenhuma.
Em determinado momento, a equipe alcançou uma praça próxima à Biblioteca Pública de Nova York, onde centenas de civis permaneciam encurralados entre edifícios parcialmente destruídos. Um gigantesco portal havia se aberto exatamente sobre a avenida principal, lançando continuamente pequenas criaturas demoníacas que avançavam de maneira desordenada contra qualquer forma de vida. Bombeiros e policiais tentavam organizar uma evacuação, mas o pânico tornava impossível qualquer estratégia. Crianças choravam procurando os pais, idosos permaneciam imóveis diante da destruição e dezenas de pessoas simplesmente corriam sem direção, aumentando ainda mais o caos.
Magneto pousou sobre os destroços de um caminhão tombado e avaliou rapidamente a situação. Bastou um único olhar para compreender que não haveria tempo para retirar todos antes que novas criaturas atravessassem o portal. Voltou-se imediatamente para Danielle e Roberto.
— Abram um corredor até a Sexta Avenida.
Depois olhou para Sam.
— Mantenha os acessos livres.
Por fim, seus olhos encontraram Basco.
— Neblina...
O rapaz aproximou-se.
— Quero uma barreira.
Basco respirou fundo.
— Quanto tempo?
Magneto olhou rapidamente para o relógio preso ao pulso.
— Cinco minutos.
Fez uma pequena pausa.
— Apenas cinco.
Era muito mais do que qualquer exercício realizado na Sala de Perigo. Basco fechou lentamente os olhos, tentando ignorar os gritos, as explosões e o rugido constante vindo do portal acima da praça. Lembrou-se das primeiras lições aprendidas ainda nos galpões abandonados de São Paulo. Recordou a orientação de Danielle para respirar antes de agir. Ouviu mentalmente a voz de Hank explicando que talvez a névoa fosse apenas a consequência de um fenômeno muito maior. E, por fim, lembrou-se da frase que Magneto repetira inúmeras vezes desde sua chegada à escola.
"Não lute contra seu poder."
"Compreenda-o."
Inspirou profundamente.
Quando abriu novamente os olhos, a temperatura ao redor começou a cair.
Não de forma brusca.
Mas constante.
Silenciosa.
A névoa surgiu primeiro aos seus pés, deslizando lentamente entre as rachaduras do asfalto. Em seguida espalhou-se pelas calçadas, envolveu veículos abandonados, subiu pelas fachadas dos prédios e começou a preencher toda a praça com uma velocidade muito superior àquela que qualquer um já havia testemunhado. Roberto interrompeu por um instante a emissão de suas rajadas solares apenas para observar o fenômeno.
— Meu Deus...
murmurou.
Danielle também percebeu.
Aquilo era diferente.
A névoa deixara de acompanhar apenas Basco.
Agora parecia ocupar o ambiente inteiro como uma entidade viva.
Em menos de um minuto, todo o quarteirão desapareceu sob um espesso manto branco. As criaturas infernais que atravessavam o portal mergulhavam diretamente naquela massa de vapor e imediatamente perdiam completamente a orientação. Rugiam, golpeavam o vazio e acabavam afastando-se umas das outras sem conseguir localizar qualquer ser humano.
— Agora!
gritou Magneto.
A evacuação começou.
Policiais conduziam grupos inteiros através da névoa enquanto Danielle orientava cada deslocamento utilizando sua percepção. Sam atravessava repetidamente o corredor formado por Basco, retirando pessoas presas sob vigas metálicas. Roberto mantinha as criaturas afastadas sempre que alguma delas conseguia escapar da desorientação provocada pelo vapor.
Basco permanecia imóvel no centro da praça.
Os olhos fechados.
As mãos levemente abertas.
Pela primeira vez desde o despertar de sua mutação, não estava simplesmente criando névoa.
Estava habitando-a.
Sentia cada passo dado pelos civis.
Cada movimento das criaturas.
Cada rajada de vento.
Era como se toda a praça tivesse se tornado uma extensão de sua consciência.
Então aconteceu.
Entre centenas de presenças humanas espalhadas pelo nevoeiro, uma energia completamente diferente surgiu por um breve instante.
Familiar.
Antiga.
Dolorosa.
Basco abriu os olhos imediatamente.
A sensação desapareceu.
Mas fora suficiente.
Seu coração disparou.
Conhecia aquela presença.
Não racionalmente.
Instintivamente.
Como um filho reconhece a voz do pai antes mesmo de compreender as palavras.
Edher.
Apenas um lampejo.
Menos de um segundo.
Mas absolutamente inconfundível.
O choque foi tão intenso que a concentração vacilou. Parte da névoa começou a dissipar-se rapidamente. Algumas criaturas voltaram imediatamente a enxergar o corredor de evacuação e lançaram-se contra os últimos civis que ainda tentavam escapar.
— Basco!
A voz de Danielle ecoou como um chamado distante.
Ele respirou profundamente outra vez.
Forçou a mente a abandonar aquela lembrança.
A névoa voltou a crescer.
Mais densa.
Mais estável.
Quando o último grupo alcançou a área segura, Magneto ergueu violentamente dezenas de automóveis abandonados e fechou completamente o acesso à praça. Os demônios permaneceram presos do outro lado da barreira metálica enquanto os portais começavam lentamente a perder intensidade.
Basco caiu de joelhos.
Exausto.
A névoa dissipou-se quase instantaneamente.
Roberto foi o primeiro a alcançá-lo.
— Ei!
Ajoelhou-se ao seu lado.
— Você está bem?
Basco respirava com enorme dificuldade.
Olhou lentamente para o amigo.
— Eu senti...
Parou por um instante.
Nem ele próprio sabia se deveria dizer aquilo.
Roberto aguardou.
— Eu senti meu pai.
O sorriso desapareceu completamente do rosto do carioca.
Antes que pudesse responder, Magneto aproximou-se dos dois.
Observou atentamente o estado do jovem.
Depois falou em voz baixa.
— Não foi imaginação.
Basco ergueu imediatamente os olhos.
Erik sustentou seu olhar durante alguns segundos.
— Mas este não é o momento para conversarmos sobre isso.
Naquele instante, um estrondo colossal fez toda Manhattan estremecer.
O céu pareceu rasgar-se ao meio.
Uma coluna gigantesca de energia púrpura elevou-se acima dos arranha-céus, iluminando a cidade inteira.
Illyana havia encontrado Madelyne Pryor.
E a batalha que decidiria o destino de duas dimensões finalmente começara.
A coluna de energia atravessou as nuvens como uma lança luminosa, rompendo o céu avermelhado de Manhattan e fazendo toda a cidade estremecer. Durante alguns segundos, até mesmo as criaturas infernais interromperam seus ataques, voltando instintivamente a atenção para o gigantesco clarão que iluminava o horizonte. O ar pareceu vibrar. Vidraças estilhaçaram-se em dezenas de edifícios próximos, alarmes dispararam simultaneamente e uma onda de choque percorreu as ruas como um terremoto invisível. Basco precisou apoiar uma das mãos sobre o asfalto para manter o equilíbrio. Nunca havia sentido tamanha concentração de energia. Não era apenas poder. Era como se duas vontades igualmente colossais estivessem disputando o direito de moldar a própria realidade.
Magneto levantou imediatamente os olhos para o céu. Seu semblante permaneceu impassível, mas havia tensão em seus movimentos. Durante décadas enfrentara entidades cósmicas, governos, mutantes poderosos e até mesmo antigos companheiros de batalha. Ainda assim, reconhecia quando um conflito ultrapassava os limites da força física. Aquilo que acontecia naquele instante não podia ser resolvido apenas com magnetismo, tecnologia ou estratégia militar. Era uma guerra travada em um plano onde escolhas pessoais, culpa e poder místico misturavam-se de maneira inseparável.
Danielle aproximou-se rapidamente.
— Erik...
Ela também observava a coluna de energia.
— É ela, não é?
Magneto demorou alguns segundos para responder.
— Sim.
Sua voz saiu grave.
— Illyana chegou até Madelyne.
Roberto olhou alternadamente para os dois.
— E agora?
Magneto respirou profundamente.
— Agora... só podemos impedir que esta cidade morra enquanto elas decidem o destino de duas dimensões.
As palavras produziram um silêncio pesado entre os Novos Mutantes. Pela primeira vez, Basco compreendeu que existiam batalhas nas quais nem mesmo os X-Men podiam interferir. A responsabilidade de Illyana ultrapassava qualquer missão de equipe. Aquela luta lhe pertencia desde muito antes de Basco cruzar os portões da Escola Xavier.
Mesmo assim, seu coração recusava-se a aceitar aquela impotência.
A sensação de ter percebido a presença do pai poucos minutos antes continuava pulsando em sua mente. Não conseguia explicar racionalmente o que sentira. Fora apenas um instante, breve demais para construir qualquer certeza. Contudo, havia reconhecido aquela energia com a mesma naturalidade com que reconheceria a voz da própria mãe em meio a uma multidão. Aquilo parecia impossível. Edher desaparecera anos antes, em outro continente, muito antes daqueles acontecimentos. Ainda assim, alguma coisa dentro da névoa respondera àquela presença.
Basco fechou lentamente os olhos.
Tentou novamente.
Inspirou profundamente.
Permitiu que uma fina camada de vapor surgisse discretamente ao seu redor.
Nada.
Apenas o cheiro de fumaça, concreto queimado e enxofre.
A presença desaparecera completamente.
— Não force.
A voz de Magneto surgiu atrás dele.
Basco voltou-se.
Erik aproximou-se lentamente.
— Você está esgotado.
— Eu preciso entender o que aconteceu.
— E entenderá.
A resposta veio serena.
— Mas não enquanto tentar encontrar respostas em meio ao caos.
Basco baixou a cabeça por alguns instantes.
— O senhor acreditou em mim.
Magneto sustentou seu olhar.
— Nunca vi sua mutação reagir daquela maneira.
Fez uma breve pausa.
— Também senti uma perturbação incomum no campo energético ao seu redor.
Olhou rapidamente para o céu.
— Seja o que for... não nasceu hoje.
Antes que pudesse continuar, o comunicador preso ao uniforme emitiu um chiado intenso.
A voz de Forge surgiu entre interferências.
— Equipe Alfa... respondam.
Magneto ativou imediatamente o aparelho.
— Estou ouvindo.
— Acabamos de perder contato com três setores de evacuação.
A transmissão falhava continuamente.
— Há... criaturas... surgindo... subterrâneo...
O restante da frase perdeu-se em meio a ruídos.
Magneto voltou-se para a equipe.
— Mudança de prioridade.
Apontou para uma estação de metrô parcialmente destruída algumas quadras adiante.
— Os portais estão alcançando os túneis.
Danielle franziu a testa.
— Ainda há centenas de pessoas lá embaixo.
— Exatamente.
Erik olhou diretamente para Basco.
— Neblina.
— Sim.
— Você vem comigo.
Os dois correram imediatamente em direção à estação. À medida que se aproximavam, o cenário tornava-se ainda mais perturbador. Escadarias estavam parcialmente destruídas, placas metálicas haviam sido arrancadas das paredes e uma fumaça escura escapava continuamente das entradas do metrô. O som que vinha das galerias subterrâneas não lembrava nada humano. Eram rugidos, estalos metálicos e gritos que ecoavam através dos túneis formando uma cacofonia angustiante.
Assim que desceram os primeiros lances de escada, Basco percebeu algo diferente.
A névoa voltou a reagir.
Mas, desta vez, não era sua.
Pequenos fios de vapor branco deslizavam naturalmente pelos trilhos, movendo-se contra a corrente de ar produzida pelas explosões distantes.
Ele parou abruptamente.
— Magneto...
Erik também observou o fenômeno.
— Está vendo?
Basco confirmou.
Os delicados filetes de névoa avançavam por um dos túneis laterais como se seguissem um caminho previamente conhecido.
O velho mutante permaneceu alguns segundos analisando a direção daquele movimento.
Depois voltou-se para o rapaz.
— Ela está mostrando alguma coisa.
Basco permaneceu imóvel.
Era exatamente a sensação que carregava havia meses.
A névoa não obedecia apenas aos seus pensamentos.
Às vezes...
Parecia possuir memória própria.
Ou intenção.
Magneto tomou uma decisão imediata.
— Danielle e Roberto continuam a evacuação da estação principal.
Olhou novamente para Basco.
— Nós seguiremos esse túnel.
O jovem respirou fundo.
— O senhor acha que...
Erik interrompeu a pergunta antes mesmo que fosse concluída.
— Não sei o que encontraremos.
Sua voz tornou-se extremamente séria.
— Mas, depois do que aconteceu hoje, não estou mais disposto a ignorar os sinais da sua mutação.
Os dois avançaram lentamente pela galeria escura. A cada metro percorrido, a névoa tornava-se ligeiramente mais densa, serpenteando silenciosamente entre os trilhos como se conduzisse ambos a um destino cuidadosamente escolhido.
Muito acima deles, Manhattan continuava ardendo.
Muito além daquela cidade, Illyana enfrentava a batalha mais importante de sua vida.
E, nas profundezas esquecidas do metrô nova-iorquino, um segredo ligado ao desaparecimento de Edher Markel começava, finalmente, a revelar sua primeira sombra.
Os túneis do metrô de Manhattan pareciam pertencer a outro mundo. À medida que Magneto e Basco avançavam pela escuridão, os ruídos da batalha travada na superfície tornavam-se cada vez mais distantes, substituídos pelo eco metálico das próprias passadas e pelo gotejar constante de água infiltrada nas paredes centenárias. A iluminação de emergência piscava irregularmente, mergulhando os corredores em sucessivas alternâncias entre luz e sombra. Trilhos retorcidos serpenteavam à frente como cicatrizes abertas, enquanto vagões abandonados permaneciam parcialmente descarrilados, cobertos por poeira e fragmentos de concreto desprendidos durante os tremores que sacudiam a cidade.
Basco caminhava poucos passos atrás de Magneto, mas sua atenção estava completamente voltada para a fina corrente de névoa que continuava deslizando silenciosamente sobre os trilhos. Não era produzida por ele. Tinha certeza disso. Sua própria mutação permanecia adormecida, manifestando-se apenas como uma discreta camada de vapor ao redor de suas botas. Aquela névoa, entretanto, possuía outro comportamento. Avançava com propósito. Em alguns momentos parecia esperar que ambos a acompanhassem; em outros acelerava levemente, contornando obstáculos e desaparecendo por alguns instantes antes de reaparecer mais adiante. Era como seguir um rio invisível cuja nascente permanecia escondida na escuridão.
Magneto também observava atentamente o fenômeno. Embora sua experiência o ensinasse a desconfiar de qualquer manifestação inexplicável durante uma crise dimensional, havia algo naquela ocorrência que não despertava hostilidade. Muito pelo contrário. A sensação era estranhamente familiar, quase como se a própria estrutura do túnel os conduzisse para algum lugar esquecido havia muito tempo.
— Continue atento.
Sua voz rompeu o silêncio sem alterar o tom calmo.
— Em situações como esta, o perigo raramente vem da direção que esperamos.
Basco apenas confirmou com um leve movimento de cabeça. Aprendera a reconhecer quando Magneto estava realmente preocupado. O diretor jamais elevava a voz. Tornava-se apenas mais econômico nas palavras.
Continuaram caminhando por vários minutos até alcançarem uma antiga plataforma desativada, abandonada provavelmente havia décadas. As placas indicativas haviam perdido quase toda a pintura, bancos de madeira apodreciam encostados às paredes e antigos cartazes publicitários permaneciam presos aos azulejos, consumidos pela umidade. O lugar transmitia uma melancolia difícil de explicar, como se milhares de histórias tivessem sido abruptamente interrompidas ali sem jamais encontrarem um desfecho.
Foi então que a névoa parou.
Não desapareceu.
Simplesmente concentrou-se diante de uma pesada porta metálica instalada na parede lateral da plataforma.
Basco franziu a testa.
— Existe alguma estação atrás disso?
Magneto aproximou-se lentamente.
Passou os dedos sobre a superfície enferrujada.
Havia inscrições antigas gravadas no metal, parcialmente ocultas pela corrosão do tempo.
— Não.
Respondeu em voz baixa.
— Isto não faz parte do metrô.
Ergueu lentamente uma das mãos.
A porta vibrou.
Parafusos começaram a desprender-se sozinhos enquanto dobradiças rangiam sob a ação invisível do magnetismo. Com um estalo seco, a estrutura metálica deslocou-se alguns centímetros para trás, revelando um estreito corredor completamente mergulhado na escuridão.
Um ar frio escapou imediatamente do interior.
Muito mais frio do que qualquer temperatura registrada nos túneis.
Basco sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Não era medo.
Era reconhecimento.
A mesma sensação que experimentara ao perceber, por um breve instante, a presença do pai durante a evacuação na praça.
Sem perceber, deu um passo à frente.
A névoa respondeu imediatamente.
Penetrou lentamente naquele corredor oculto, espalhando-se pelo chão como se finalmente tivesse encontrado o caminho que procurava desde o início.
Magneto voltou-se para o rapaz.
— Está sentindo?
Basco respondeu quase num sussurro.
— Sim...
Respirou fundo.
— Está muito perto.
Os dois avançaram cuidadosamente pelo estreito corredor. As paredes deixavam de ser revestidas por concreto típico das galerias do metrô e passavam a apresentar antigos blocos de pedra, unidos por argamassa escurecida pelo tempo. A arquitetura lembrava construções muito anteriores à própria cidade de Nova York. Pequenos símbolos gravados nas paredes surgiam à medida que avançavam, alguns semelhantes aos desenhos que Basco vira aparecer sobre a janela de seu quarto semanas antes.
Ele parou abruptamente.
Aproximou-se de uma das inscrições.
Passou delicadamente os dedos sobre a pedra.
— É igual...
Magneto aproximou-se.
— Igual ao quê?
— Ao símbolo que apareceu na minha janela.
Erik observou atentamente a gravação.
Sua expressão tornou-se imediatamente mais séria.
— Estes não são símbolos demoníacos.
Basco voltou-se para ele.
— Como sabe?
Magneto permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Porque já os vi antes.
A resposta surpreendeu o rapaz.
Erik continuou caminhando lentamente.
— Muitos anos atrás.
Sua voz tornou-se distante, como se buscasse lembranças antigas.
— Durante uma missão realizada com Charles Xavier na Europa Oriental.
Fez uma pausa.
— Pertenciam a um grupo extremamente antigo de estudiosos das mutações humanas.
Basco acompanhava cada palavra.
— Eles acreditavam que alguns mutantes carregavam... heranças muito mais antigas do que o próprio Gene X.
O rapaz franziu a testa.
— Meu pai fazia parte desse grupo?
Magneto balançou lentamente a cabeça.
— Não sei.
Respirou profundamente.
— Mas começo a acreditar que alguém ligado a ele esteve aqui.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, um brilho azulado surgiu no final do corredor.
Muito fraco.
Quase imperceptível.
À medida que se aproximavam, perceberam tratar-se de uma pequena câmara subterrânea completamente escondida sob a cidade. No centro do ambiente havia um pedestal de pedra coberto por poeira secular. Sobre ele repousava um único objeto.
Um medalhão.
Prateado.
Circular.
Gravado exatamente com o mesmo símbolo que Basco vira desenhar-se espontaneamente sobre o vidro de sua janela.
O jovem sentiu o coração acelerar violentamente.
Sem conseguir explicar por quê, aproximou-se lentamente.
Estendeu a mão.
No exato instante em que seus dedos tocaram o metal frio, toda a câmara foi tomada por uma espessa névoa branca.
O tempo pareceu parar.
Uma voz masculina ecoou suavemente no interior daquele vapor.
Não vinha das paredes.
Nem do corredor.
Nem de sua memória.
Vinha da própria névoa.
— Basco...
Ele congelou.
Conhecia aquela voz.
Mesmo sem ouvi-la havia tantos anos.
Era impossível confundi-la.
Edher Markel.
Seu pai.
Basco permaneceu completamente imóvel. Seu corpo recusava-se a obedecer qualquer comando racional enquanto aquela única palavra continuava ecoando pela pequena câmara subterrânea.
"Basco..."
A voz não possuía o tom fantasmagórico que ele imaginara ouvir em pesadelos durante tantos anos. Era serena. Grave. Quase afetuosa. Exatamente como a recordava da infância, quando Edher ainda o colocava sobre os ombros para caminhar pelos parques de São Paulo. Durante anos temera esquecer aquele timbre. Agora descobria que a memória jamais o abandonara. Permanecera escondida em algum lugar profundo de sua consciência, esperando apenas o instante certo para despertar.
Magneto também interrompeu completamente qualquer movimento. Seus olhos percorriam lentamente a câmara, procurando a origem daquela manifestação. Não detectava presença física alguma. Tampouco percebia qualquer tecnologia capaz de produzir uma gravação. O medalhão permanecia imóvel sobre o pedestal, emitindo um brilho azul extremamente discreto que pulsava exatamente no mesmo ritmo da respiração de Basco.
— Não toque em mais nada.
A orientação saiu baixa, porém firme.
Basco mal conseguiu ouvi-la.
Sentia o peito apertado de uma forma que jamais experimentara. Durante anos sonhara incontáveis vezes com aquele reencontro. Em todas elas imaginava perguntas, abraços, explicações. Agora, diante da possibilidade de realmente ouvir a voz do pai, nenhuma palavra conseguia ultrapassar seus lábios.
A névoa espalhou-se lentamente por toda a câmara.
Não era produzida conscientemente.
Nem parecia responder à vontade de Basco.
Ela simplesmente surgia.
Suave.
Silenciosa.
Como se reconhecesse aquele lugar muito antes de seu portador chegar até ali.
Então a voz tornou a falar.
Desta vez um pouco mais nítida.
— Se está ouvindo esta mensagem...
fez uma breve pausa.
— ...significa que o caminho encontrou você antes que eu pudesse voltar.
Basco levou involuntariamente uma das mãos à boca. Seus olhos começaram a marejar, mas permaneceu completamente imóvel, temendo que qualquer movimento interrompesse aquela manifestação.
Magneto aproximou-se apenas alguns passos.
Continuava extremamente atento.
Aquela não era uma comunicação comum.
Havia componentes tecnológicos.
Mas também havia algo muito diferente.
Algo que escapava completamente às leis conhecidas da física.
Edher prosseguiu.
— Filho...
Sua voz tornou-se ainda mais suave.
— Espero que sua mãe tenha conseguido protegê-lo por tempo suficiente.
Basco fechou lentamente os olhos.
Uma lágrima escorreu silenciosamente por seu rosto.
Durante toda a vida esperara ouvir exatamente aquela palavra.
Filho.
Não Neblina.
Não mutante.
Não soldado.
Apenas filho.
O silêncio prolongou-se por alguns segundos antes que a gravação continuasse.
— Se Magneto estiver ao seu lado...
Erik arregalou discretamente os olhos.
— ...quero que saiba que confio nele.
O velho mutante permaneceu imóvel.
Havia muitos anos não escutava alguém pronunciar seu nome daquela maneira.
Sem medo.
Sem ódio.
Apenas com respeito.
Edher respirou profundamente antes de continuar.
— Erik...
Sua voz parecia dirigir-se diretamente ao homem que agora permanecia diante do pedestal.
— Se chegou até aqui, então Charles provavelmente já descobriu parte da verdade.
Magneto não respondeu.
Apenas permaneceu ouvindo.
— Infelizmente...
A gravação apresentou uma breve interferência.
— ...não houve tempo suficiente para explicar tudo.
O brilho do medalhão intensificou-se por alguns segundos.
Pequenas partículas luminosas começaram a desprender-se da superfície metálica, misturando-se lentamente à névoa espalhada pela câmara. Basco observava fascinado enquanto aquelas luzes organizavam-se no centro do ambiente.
Pouco a pouco, uma figura humana começou a surgir.
Primeiro o contorno.
Depois os ombros.
Os braços.
Por fim, o rosto.
Não era um fantasma.
Nem um corpo físico.
Tratava-se de uma projeção tridimensional formada por milhares de partículas luminosas suspensas no interior da névoa.
Basco perdeu completamente a capacidade de respirar por alguns segundos.
Era Edher.
Exatamente como aparecia nas poucas fotografias guardadas por Thamine.
Os cabelos negros levemente ondulados.
A barba curta.
Os olhos serenos.
Vestia uma simples camisa bege de mangas dobradas e carregava no pescoço o mesmo medalhão que agora repousava diante do filho.
A imagem sorriu.
Um sorriso discreto.
Quase melancólico.
— Você cresceu...
murmurou.
Basco deu um passo involuntário em direção à projeção.
A mão estendeu-se quase por instinto.
Os dedos atravessaram apenas névoa.
Nenhum contato.
Nenhum abraço.
Apenas vapor.
Mesmo assim, permaneceu ali.
Como uma criança que se recusava a aceitar a distância.
Edher continuou.
— Gostaria que esta conversa fosse diferente.
Fez uma pausa.
— Gostaria de estar realmente diante de você.
Seu semblante tornou-se mais sério.
— Mas existem pessoas procurando exatamente aquilo que nossa família protege há muitas gerações.
Magneto voltou imediatamente toda a atenção para aquela frase.
"Nossa família."
Não "eu".
Não "os mutantes".
"Nossa família."
Aquilo confirmava que o desaparecimento de Edher jamais estivera relacionado apenas ao Gene X.
Havia algo muito mais antigo.
Muito maior.
Edher voltou-se lentamente para Magneto.
— Erik...
Sua voz recuperou firmeza.
— Se chegou até este arquivo, significa que fracassei.
O velho mutante permaneceu em silêncio.
— Não permita que Basco descubra toda a verdade antes da hora.
Fez uma pequena pausa.
— Porque, se isso acontecer...
A imagem apresentou nova interferência.
O brilho da projeção oscilou intensamente.
Parte das palavras perdeu-se entre estática e ruídos metálicos.
— ...eles... encontrarão... o Véu...
Basco franziu imediatamente a testa.
Aquela palavra.
Véu.
Ela lhe parecia estranhamente familiar.
Como se já a tivesse ouvido muito antes.
Talvez na infância.
Talvez em algum sonho.
Ou talvez...
Em algum lugar que sua memória ainda insistia em manter escondido.
A projeção vacilou novamente.
O rosto de Edher tornou-se menos nítido.
A voz enfraquecia rapidamente.
— Basco...
Sorriu pela última vez.
— Confie na névoa.
Ela sempre...
Nova interferência.
O restante da frase desapareceu completamente.
O brilho extinguiu-se.
As partículas luminosas dissiparam-se lentamente pelo ambiente.
A névoa começou a desaparecer.
E a pequena câmara subterrânea voltou a mergulhar em absoluto silêncio.
Basco permaneceu imóvel.
Os olhos fixos no espaço vazio onde, poucos segundos antes, estivera a imagem do pai.
Nenhum dos dois falou durante muito tempo.
Foi Magneto quem finalmente rompeu o silêncio.
Sua voz estava muito mais baixa do que o habitual.
— Agora eu compreendo...
Basco voltou lentamente o rosto.
— O quê?
Erik observava o medalhão ainda repousado sobre o pedestal.
Sua expressão revelava algo raríssimo.
Surpresa.
E preocupação.
— Isto nunca foi apenas sobre um mutante desaparecido.
Respirou profundamente.
— Edher Markel estava protegendo um segredo que antecede até mesmo a fundação dos X-Men.
Lá em cima, muito acima daquelas galerias esquecidas pelo tempo, Manhattan continuava ardendo sob o avanço do Inferno.
Mas, nas profundezas da cidade, outra história muito mais antiga acabava de despertar.
Uma história que mudaria para sempre não apenas a vida de Basco...
Mas todo o destino da CelleXty Saga.
Basco não sabia dizer quanto tempo permaneceu parado diante do pedestal vazio. A noção de segundos parecia ter desaparecido juntamente com a projeção de Edher. Ainda encarava o espaço onde, poucos instantes antes, vira o pai sorrir pela primeira vez desde sua infância. Queria acreditar que tudo aquilo tivesse sido real. Queria tocar novamente aquela imagem, fazer perguntas, ouvir o restante da frase interrompida. Entretanto, a câmara subterrânea voltara a ser apenas um antigo compartimento esquecido sob os túneis de Manhattan. O brilho desaparecera. A névoa dissipara-se. Restava apenas o medalhão repousando silenciosamente sobre a pedra, como se aguardasse pacientemente o próximo capítulo de uma história iniciada muito antes de seu nascimento.
Magneto também permanecia imóvel, mas por razões completamente diferentes. Sua mente reconstruía rapidamente lembranças que permaneciam adormecidas havia quase vinte anos. Fragmentos de conversas com Charles Xavier. Relatórios incompletos recebidos da Europa durante a Guerra Fria. O nome de Edher Markel aparecendo ocasionalmente em documentos classificados como irrelevantes. Tudo aquilo, que durante décadas parecera composto por acontecimentos desconexos, começava finalmente a adquirir sentido. A projeção não deixara apenas uma mensagem para Basco. Confirmara algo que Erik jamais imaginara ouvir: Charles Xavier sabia da existência daquele segredo e, por algum motivo, escolhera mantê-lo oculto até mesmo dos X-Men.
Foi Basco quem rompeu o silêncio.
Sua voz saiu rouca.
— Ele estava vivo...
Não era exatamente uma pergunta.
Nem uma afirmação.
Era a tentativa desesperada de organizar sentimentos que se atropelavam dentro dele.
Magneto aproximou-se lentamente do pedestal.
Observou novamente o medalhão.
Depois voltou-se para o rapaz.
— Não.
A resposta veio com enorme cuidado.
— Aquilo não era Edher.
Basco fechou os olhos por um instante.
Sentia-se dividido entre a esperança e a frustração.
Erik continuou.
— Era uma mensagem.
Passou delicadamente os dedos sobre a superfície metálica do objeto.
— Extremamente sofisticada.
Fez uma pequena pausa.
— Mas gravada muitos anos atrás.
Basco respirou profundamente.
Sabia que Magneto tinha razão.
Mesmo assim, seu coração recusava-se a aceitar.
Porque, durante alguns segundos, não ouvira uma gravação.
Ouvira o pai.
Antes que qualquer outra palavra fosse dita, um violento tremor percorreu toda a galeria subterrânea. Fragmentos de concreto desprenderam-se do teto, enquanto poeira caía sobre os trilhos abandonados. O medalhão emitiu um breve lampejo azulado e, imediatamente depois, apagou-se completamente.
O comunicador preso ao uniforme de Magneto voltou a chiar.
Desta vez a voz de Forge era quase irreconhecível por causa das interferências.
— Erik... responda...
Ruídos metálicos encobriram parte da transmissão.
— ...a situação piorou...
Nova explosão de estática.
— ...Madelyne abriu... um segundo...
A comunicação desapareceu novamente.
Magneto ativou diversas frequências diferentes.
Nenhuma respondeu.
Seu semblante tornou-se imediatamente mais sério.
— Precisamos sair daqui.
Basco permaneceu olhando para o medalhão.
— E isso?
Erik refletiu apenas alguns segundos.
Depois retirou cuidadosamente o objeto do pedestal.
No instante em que o metal tocou suas mãos, símbolos gravados em sua superfície perderam completamente o brilho, tornando-se simples inscrições antigas.
Magneto entregou-o ao rapaz.
— Seu pai deixou isto para você.
Basco segurou o medalhão com extremo cuidado. Era surpreendentemente pesado para o tamanho que possuía. O metal parecia mais quente do que deveria, como se ainda conservasse parte da energia utilizada na projeção. Observou atentamente o símbolo gravado na superfície. Agora podia distingui-lo com maior clareza. Não representava uma letra conhecida, nem um brasão familiar. Parecia a união de dois círculos incompletos atravessados por uma linha vertical, formando algo semelhante a um portal parcialmente aberto.
Sem compreender exatamente por quê, colocou o medalhão sobre a palma da mão.
A névoa respondeu imediatamente.
Pequenos fios de vapor envolveram delicadamente o objeto antes de desaparecerem outra vez.
Magneto percebeu.
Mas decidiu não comentar.
Ainda havia perguntas demais.
Respostas de menos.
Os dois iniciaram rapidamente o caminho de volta pelos corredores ocultos. Entretanto, poucos metros depois de deixarem a pequena câmara, Basco voltou-se instintivamente para trás. Não sabia explicar o motivo. Apenas sentiu necessidade de olhar uma última vez para aquele lugar.
Foi então que percebeu um detalhe que passara despercebido.
A parede localizada atrás do pedestal não era completamente lisa.
Existiam marcas.
Muito discretas.
Como se algum objeto pesado tivesse permanecido encostado ali durante muitos anos.
Ou talvez...
Como se uma segunda porta tivesse sido fechada cuidadosamente e depois camuflada pela própria pedra.
Basco diminuiu o passo.
— Magneto...
Erik voltou-se.
— O que foi?
O rapaz apontou para a parede.
— Aquilo estava ali antes?
Magneto aproximou-se novamente.
Passou lentamente a mão sobre as antigas pedras.
Permaneceu em silêncio durante vários segundos.
Depois respirou fundo.
— Não.
Basco franziu a testa.
— Não?
— Não estava.
A resposta veio carregada de uma preocupação que o jovem jamais ouvira em sua voz.
Erik examinou cuidadosamente toda a superfície.
As marcas eram recentes.
Muito recentes.
Como se algum mecanismo tivesse acabado de mover-se do outro lado.
Um novo tremor percorreu o túnel.
Desta vez muito mais forte.
Um ruído profundo ecoou além da parede, semelhante ao deslocamento de enormes estruturas de pedra.
Magneto segurou imediatamente o braço de Basco.
— Agora.
Sua voz tornou-se firme.
— Corra.
Os dois iniciaram uma corrida pelos corredores subterrâneos enquanto atrás deles o som continuava aumentando. Não era uma explosão. Nem um desabamento.
Parecia...
Uma porta gigantesca abrindo-se lentamente.
Muito acima, a guerra entre os X-Men e as forças do Limbo aproximava-se do momento decisivo.
Mas, nas profundezas esquecidas de Manhattan, outra porta — muito mais antiga que os próprios portões do Inferno — acabava de despertar.
E Magneto compreendeu, com um frio percorrendo toda a espinha, que talvez Edher Markel não tivesse escondido apenas uma mensagem.
Talvez tivesse escondido alguém.
A corrida pelos túneis tornou-se uma luta contra o próprio tempo. Basco e Magneto avançavam entre trilhos retorcidos, desviando de vigas caídas e poças de água que refletiam os clarões avermelhados vindos da superfície. O ruído que surgira atrás deles continuava crescendo. Não era o som de pedras desmoronando nem de estruturas metálicas cedendo. Havia ritmo naquelas vibrações. Intervalos quase regulares, semelhantes ao movimento de engrenagens gigantescas que permaneciam imóveis havia séculos e, de repente, voltavam lentamente a funcionar.
Basco olhou rapidamente para trás enquanto corria.
A escuridão engolia completamente o corredor de onde haviam saído. Ainda assim, por um breve instante, jurou enxergar pequenas linhas azuladas percorrendo as paredes de pedra, como veias luminosas despertando sob a superfície. A sensação era perturbadora. Não parecia haver qualquer relação entre aquele mecanismo oculto e o caos provocado pelo Limbo. Tratava-se de algo diferente. Muito mais antigo. Muito mais silencioso.
— Magneto!
gritou para vencer o eco dos túneis.
— O que está acontecendo?
Erik não diminuiu o ritmo.
— Ainda não sei!
Sua voz retornou distorcida pelas galerias.
— Mas seja o que for...
Respirou fundo enquanto saltava sobre um trecho destruído dos trilhos.
— Edher esperava que jamais fosse encontrado.
A frase permaneceu ecoando na mente de Basco durante toda a corrida.
Seu pai não escondera apenas uma mensagem.
Escondera um lugar.
Talvez um caminho.
Talvez algo que jamais deveria ser descoberto.
Quando finalmente alcançaram a antiga plataforma abandonada, um novo tremor sacudiu toda a estrutura subterrânea. Desta vez foi tão intenso que parte do teto desabou poucos metros atrás deles, espalhando blocos de concreto sobre os trilhos. A nuvem de poeira misturou-se imediatamente à névoa natural do ambiente, reduzindo drasticamente a visibilidade.
Basco levou instintivamente a mão até o medalhão preso entre seus dedos.
O metal estava quente.
Muito mais quente do que alguns minutos antes.
Quase pulsando.
No mesmo instante, uma delicada camada de névoa surgiu espontaneamente ao redor do objeto.
Magneto percebeu pelo canto dos olhos.
— Guarde-o.
Basco hesitou.
— Mas...
— Agora!
Sem discutir, colocou rapidamente o medalhão sob o uniforme, prendendo-o junto ao peito.
Curiosamente, assim que o objeto desapareceu de vista, o calor diminuiu.
Os tremores também.
Por apenas alguns segundos.
Ao alcançarem novamente o túnel principal do metrô, encontraram Danielle, Roberto e Sam auxiliando bombeiros na retirada dos últimos sobreviventes. A expressão de alívio de Roberto durou pouco mais de um instante.
— Pensei que vocês tivessem ficado presos!
Magneto caminhou diretamente até ele.
— Quantos civis ainda permanecem aqui?
— Nenhum.
Respondeu Danielle antes mesmo que o brasileiro pudesse falar.
— Estamos terminando a evacuação.
Ela observou atentamente os dois.
— Aconteceu alguma coisa?
Por um breve momento, Magneto pensou em responder imediatamente.
Não respondeu.
Olhou discretamente para Basco.
Depois para o medalhão escondido sob seu uniforme.
— Encontramos algo.
Foi tudo o que disse.
Danielle conhecia Erik suficientemente bem para perceber que aquela resposta escondia muito mais do que revelava. Mesmo assim, não insistiu. Aquele definitivamente não era o momento.
Um clarão púrpura atravessou a entrada da estação.
Todos voltaram imediatamente o olhar para a superfície.
A intensidade da luz aumentava rapidamente.
Poucos segundos depois, uma onda de choque percorreu novamente toda Manhattan. Diferentemente das anteriores, porém, esta carregava consigo uma sensação quase física de tristeza. Basco não soube explicar de onde vinha aquela impressão. Era como se milhares de pessoas tivessem perdido algo importante ao mesmo tempo.
Illyana.
Seu pensamento surgiu antes mesmo que qualquer notícia chegasse.
Instintivamente levou novamente a mão ao peito.
O medalhão permanecia imóvel.
Mas a névoa começou a formar-se ao seu redor.
Desta vez extremamente fina.
Quase imperceptível.
Ela girou lentamente diante dele, desenhando pequenos círculos no ar antes de seguir em direção à saída da estação.
Como se apontasse um caminho.
Danielle observou o fenômeno.
— Basco...
Ele acompanhava apenas o movimento do vapor.
— Ela está me chamando.
Roberto franziu a testa.
— Quem?
Basco não respondeu imediatamente.
Nem ele tinha certeza.
Magneto, porém, compreendeu.
Seu semblante endureceu.
Porque aquela névoa não seguia em direção à câmara subterrânea recém-descoberta.
Nem ao medalhão.
Ela subia.
Rumo ao céu.
Rumo ao local onde Illyana enfrentava a Rainha dos Duendes.
Nesse exato instante, Forge conseguiu restabelecer parcialmente a comunicação.
A voz surgiu carregada de interferências.
— Erik...
Chiados.
— Os X-Men... chegaram...
Nova interferência.
— Madelyne... está perdendo...
Silêncio por dois segundos.
Então a frase que fez todos congelarem.
— Mas Magia permanece no Limbo.
O comunicador voltou a chiar.
— Ela está tentando fechar os portais... do lado de dentro.
Basco sentiu o mundo parar.
Magneto fechou lentamente os olhos.
Conhecia Illyana o suficiente para compreender exatamente o que aquilo significava.
Ela não estava tentando vencer.
Estava tentando impedir que outra pessoa precisasse fazê-lo.
O velho mutante respirou profundamente antes de abrir novamente os olhos.
Sua voz saiu quase num sussurro.
— Ela fez sua escolha.
Basco deu um passo à frente.
— Não...
Outro.
— Deve existir outro jeito.
Magneto permaneceu imóvel.
Porque, no fundo...
Também gostaria desesperadamente que existisse.
Basco recusava-se a aceitar aquela resposta. O simples fato de ouvir que Illyana permanecera no Limbo fez desaparecer completamente o cansaço acumulado durante horas de combate. O sangue parecia pulsar com violência nas têmporas enquanto uma única ideia ocupava sua mente: encontrá-la. Não lhe importava que enfrentasse demônios, magia ou uma dimensão inteira. Depois de tudo o que haviam compartilhado nos últimos anos, a possibilidade de simplesmente abandoná-la do outro lado de um portal parecia insuportável.
— Eu vou buscá-la.
A frase saiu firme.
Sem hesitação.
Danielle voltou imediatamente o rosto.
— Basco...
Mas ele já caminhava em direção à saída da estação.
Magneto segurou-lhe o braço antes que desse o terceiro passo.
Não utilizou força.
Bastou o toque.
Basco virou-se rapidamente.
Havia revolta em seus olhos.
— Solte-me.
Erik permaneceu absolutamente sereno.
— Não.
— Ela está sozinha!
— Não.
A resposta veio tão firme quanto a anterior.
— Ela está exatamente onde escolheu estar.
Basco puxou o braço.
— O senhor não entende!
Foi a primeira vez que elevou a voz diante de Magneto.
O velho mutante sustentou seu olhar durante longos segundos.
Quando finalmente falou, sua expressão havia mudado.
Não existia dureza.
Existia dor.
Uma dor antiga.
Profunda.
— Você acredita que nunca perdi ninguém?
A pergunta desarmou completamente o jovem.
Ao redor deles, até mesmo Roberto e Danielle permaneceram em silêncio.
Erik continuou.
— Passei a vida inteira enterrando amigos.
Sua voz tornou-se mais baixa.
— Vi famílias desaparecerem diante dos meus olhos. Vi crianças morrerem apenas porque nasceram diferentes. Perdi pessoas que amava... e outras que jamais tive oportunidade de dizer que amava.
Respirou profundamente.
— Se existisse uma maneira de salvar todos...
Fez uma pequena pausa.
— Charles Xavier ainda estaria vivo.
Basco permaneceu imóvel.
Jamais imaginara ouvir Magneto falar daquela forma.
Não como líder.
Não como professor.
Mas simplesmente como um homem cansado de sobreviver às próprias perdas.
O silêncio prolongou-se durante vários segundos.
Foi interrompido por um ruído metálico vindo da superfície.
Diversos veículos militares cruzavam as avenidas próximas enquanto helicópteros sobrevoavam Manhattan tentando compreender a dimensão do desastre. O governo americano finalmente começava a reagir, embora tarde demais para impedir a invasão do Limbo.
Forge voltou ao comunicador.
Sua voz parecia um pouco mais estável.
— Erik...
— Estou ouvindo.
— Os portais estão diminuindo.
Houve alguns segundos de silêncio.
— A energia dimensional começou a cair drasticamente.
Magneto fechou lentamente os olhos.
Sabia exatamente o motivo.
Illyana estava conseguindo.
Mas também sabia o preço.
Enquanto todos permaneciam atentos à transmissão, Basco sentiu novamente o medalhão aquecer sob o uniforme.
Muito discretamente.
Levou a mão ao peito.
A névoa respondeu.
Desta vez, porém, não se espalhou pelo ambiente.
Concentrou-se apenas ao redor dele.
Tão fina que apenas ele parecia percebê-la.
Então...
Uma imagem surgiu por um breve instante.
Não diante de seus olhos.
Dentro da própria névoa.
Illyana.
Ela permanecia de pé sobre uma gigantesca plataforma de pedra negra cercada por rios de magma. Empunhava a Espada Anímica com as duas mãos enquanto incontáveis correntes de energia azul atravessavam seu corpo em direção a um enorme portal aberto acima de sua cabeça.
A visão durou menos de um segundo.
Desapareceu imediatamente.
Basco cambaleou para trás.
Danielle aproximou-se rapidamente.
— O que aconteceu?
Ele respirava com dificuldade.
— Eu vi...
Olhou para Magneto.
— Eu vi onde ela está.
O velho mutante franziu discretamente a testa.
— Como?
Basco balançou a cabeça.
— Não sei.
Levantou lentamente o medalhão por baixo do uniforme.
— Acho que isto...
Interrompeu a frase.
Porque o objeto voltou a emitir um fraco brilho azulado.
Magneto permaneceu completamente imóvel.
Hank McCoy ainda não havia analisado aquele artefato.
Nem Charles Xavier estivera presente para estudá-lo.
Não existia qualquer referência nos arquivos da escola.
Mesmo assim, uma hipótese começava lentamente a formar-se em sua mente.
Talvez Edher não tivesse deixado apenas uma mensagem.
Talvez tivesse criado um elo.
Um vínculo capaz de atravessar dimensões.
Basco fechou novamente os olhos.
Tentou repetir a experiência.
A névoa respondeu quase imediatamente.
Desta vez não mostrou Illyana.
Mostrou apenas uma direção.
Como uma bússola.
Sempre apontando para o mesmo lugar.
O Limbo.
Quando abriu novamente os olhos, encontrou Magneto observando-o com uma expressão que jamais vira antes.
Não era preocupação.
Nem surpresa.
Era reconhecimento.
Como se, naquele exato instante, finalmente tivesse compreendido a verdadeira natureza da mutação de Neblina.
Erik respirou profundamente antes de falar.
— Hank estava errado.
Basco voltou-se para ele.
— Como assim?
Magneto olhou para a tênue névoa que ainda girava ao redor do jovem.
Depois para o medalhão.
Por fim, ergueu lentamente os olhos.
— Seu poder nunca foi controlar névoa.
O silêncio tomou conta da estação.
Até Roberto pareceu prender a respiração.
Magneto concluiu em voz baixa:
— A névoa é apenas o caminho.
Fez uma pausa.
Os olhos fixos no medalhão.
— O verdadeiro poder... é atravessar o Véu.
Basco permaneceu imóvel.
Aquela palavra novamente.
Véu.
A mesma mencionada por Edher na gravação interrompida.
A mesma que parecia despertar lembranças escondidas em algum lugar muito profundo de sua memória.
Muito acima deles, o céu de Manhattan começou lentamente a recuperar sua cor natural.
Os portais infernais fechavam-se um a um.
A batalha chegava ao fim.
Mas, para Basco Khassan Markel, tudo indicava que uma guerra muito maior acabava de começar.
Fale com o autor